Das revistas e das escolhas

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Ando ouvindo tanta coisa estranha ultimamente que resolvi voltar atrás numa decisão tomada há quase um ano, quando cancelei a assinatura de um jornal diário e de uma revista semanal. Descobri que o pessoal da revista precisa mais de mim do que eu deles, uma vez que tenho sofrido assédio despudorado de seu departamento de marketing. Mas minha decisão não parou por aí. Deixei também de assistir aos noticiários da televisão e limitei-me a ouvir o rádio no carro, de onde o fato chega avaliado, decodificado, discutido e observado de ângulos diferentes.
Digo que voltei atrás porque resolvi ler a mesma revista que antes assinava só que, desta vez, emprestada. Com o friozinho que faz esta semana em São Paulo, comi uma fruta, me embrulhei num pijama deliciosamente confortável, cobri o sofá com uma manta quentinha, instalei um travesseiro nas costas e me acomodei toda pimpante, para me informar. Ler, para mim, é sempre um evento, e me preparo para isso com pompa e circunstância. Ler é como comer, você se abre e deixa-se alimentar. A comida nutre ou destrói você. A leitura também. Há que ter critério.
Tive certa dificuldade no (re)começo, mas uma vez embarcada na aventura, e não sou de me acovardar com facilidade, entrei de cabeça.
A certo ponto, quando começava a sentir mal-estar, parei. Ainda bem que antes de sentar para ler só tinha comido uma fruta, porque comecei a me sentir pesada, cansada e tinha uma sensação de solidão, de abandono e de impotência, de dar dó.
Logo na capa da revista havia a foto um senhor de aparência corriqueira, cara boa eu diria, usando óculos de grau de quem cansou as vistas ao longo da vida estudando, e sorriso discreto sem mostrar os dentes, meio desenxavido. A legenda, porém, dizia que é chantagista e a reportagem declara-o milionário ilícito, mentiroso, e usa outros adjetivos que nem vale a pena enumerar. Acontece que esse senhor não é um senhor qualquer, mas um dos homens que supostamente deveriam cuidar dos interesses de nossa empresa, o Brasil. É um cidadão que cuida do seu dinheiro e do meu, das suas ações e das minhas, e é pago por nós
Eu deveria ter desistido ali na capa, mas capricorniana teimosa que sou, insisti, e o pesadelo foi se intensificando. Vi pessoas bem vestidas dormindo no chão de elegantes aeroportos, em cidades ricas e prósperas de um lugar que outrora chamamos de pátria amada. Vi uma bolsa, horrorosa por sinal, sendo vendida pelo obsceno valor de quarenta e dois mil dólares, o que equivale mais ou menos a uns noventa mil reais. Vi político dividindo o produto de roubo ou suborno, nem me lembro bem. Palavras como cinismo, crise, impasse, chantagem, baixaria, favores financeiros, pedofilia, escândalo, promiscuidade, dissimulação, enriquecimento ilícito e dossiê, tudo misturado com ética, recheavam as páginas da dita revista. Li até a palavra incongruência, veja só!
Fechei a revista, decidida. De todo o cardápio de leitura disponível, essa eu tinha certeza de que não entraria mais na minha dieta. Escolho criteriosamente minha alimentação, com poucos deslizes, escolho os filmes que assisto e tento escolher o nível dos meus pensamentos. Por que não escolher o que leio?
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

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