Força do hábito

Por Maria Lucia Solla

Olá,

– Não encosta em mim!
– Como??
– Você entendeu muito bem.
– Desculpe, mas não entendi.
– Você sempre se faz de desentendido, não é?
– Claro que não… Eu…
– E tem resposta pra tudo. Claro que não, claro que sim… Tudo é sempre muito claro pra você. Como se nunca tivesse dúvida; como se estivesse sempre certo. Mesmo quando sapateia em cima de mim, do meu coração do meu ego, do meu orgulho. E eu vou vivendo assim, ferida, sangrando, sempre chorando. Diminuída!
– Por favor, não chore. Você sabe que eu não posso ver mulher chorando.
– Ah, mas pelo jeito uma mulher lançando olhares furtivos na tua direção você pode, não é? Pensa que eu não vi? Bastou um sorrisinho na tua direção pra você se derreter todo. Por que, meu Deus, por que vocês homens são todos assim? Não podem ver um rabo de saia abanando que já ficam animadinhos. É a ruga nova que descobri ontem de manhã, no espelho? Só pode ser. Ou talvez a marca de expressão em volta da boca e os primeiros cabelos brancos. Você também não é imortal, sabia?
– Desculpe, mas não sei do que você está falando. E que voz é essa?
– Pois devia saber porque a minha voz tem este tom toda vez que você faz isso, e faz sempre! Insiste em me magoar, em me ignorar e ficar olhando pras outras. Por quê? Essa aí é mais bonita do que eu? Mais jovem? Mais interessante você não poderia saber se é, porque ainda nem trocaram telefones. Quantas estações são necessárias pra você conseguir o telefone dela, ou será que já se conhecem? E eu aqui, na santa inocência, fazendo tudo por você, dia após dia. E você sabe que toda vez que choro assim, acabo com os olhos inchados e não tem compressa no mundo que conserte. Então, o que acontece? Mais rugas, mais traição. Mais traição, mais rugas.
– Está todo mundo olhando, por favor, eu nem…
– Ah! Agora, se todo mundo olha a culpa é minha. Você se derrama, se espalha, fica flertando descaradamente com a primeira zinha que aparece e eu é que estou errada. Só estou tentando me defender, defender o nosso amor! Se é que ele ainda existe, se é que sobreviveu a tanta infidelidade. Não pense que sou boba. Vejo muito bem. E quando não vejo sinto, pressinto, vislumbro a possibilidade. Esses óculos escuros são pouco pra disfarçar seus olhares sorrateiros.
Senhoras e senhores, Estação Sé.
– Amor, amor, acorda. Chegamos. Você cochilou.
– – Não encosta em mim!
– – ?
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

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