Por Maria Lucia Solla
Olá,
Hoje, estamos de luto, recolhidos, tristes, emocionados, emotivos, conectados, de olhos abertos e luzes acesas. E o que provocou isso tudo, o despertar, a conexão, e a reflexão decorrente, foi a tragédia ocorrida na cidade de São Paulo, com a queda de mais uma aeronave e a morte de centenas de pessoas, na noite de terça. Como disse um amigo, agora não é hora de pensar em culpa e de discutir a localização do aeroporto, que estava ali muito antes da chegada dos moradores com a benção dos poderes públicos. Não é hora de discutir a perícia do piloto, a eficácia dos trabalhos de reforma da pista principal de pouso e decolagem, a sorte, o azar, o direito à informação, ao conforto e à paz, nem de discutir o sexo dos anjos. É hora de falar, de chorar, de botar para fora os nós da garganta e os do estômago. É hora de reagir, da maneira que se pode e que se sabe. Não tem receita e nem regra de etiqueta que regule.
Tragédia é acontecimento tão impactante que arranca a gente da zona de conforto, provocando catarse coletiva e purificando-nos a alma através da descarga emocional. Elimina tensões e angústias há muito acumuladas e ignoradas. A catarse vem nos socorrer e libertar para que possamos chorar e sofrer por algo concreto. Catarse vem do grego, κάθαρση, e significa purificação, expiação.
O número absurdo de acontecimentos negativos à nossa volta, erros, desmandos, agressividade, violência, abandono, mortes, acidentes, assaltos, abuso a crianças, surra em professores, desrespeito pelo próximo, corrupção (classificada em ativa e passiva!), descaso das autoridades, e por aí vai que a lista é comprida, acaba nos anestesiando e nos induzindo ao conformismo para evitarmos o tão temido sofrimento. Mas o ser humano precisa do amor e da dor, para ser completo!
Vivemos a era do perfeito. Rosto sem marcas (aparentes), corpo sem gordura, anorexia, bulimia, seios com silicone, bundas duras e empinadas, lordose, crianças que nadam, dançam, usam aparelhos nos dentes, aprendem chinês, judô, xadrez, e vivem virtualmente. Têm até animaizinhos de estimação virtuais. É proibido errar, é proibido chorar, é proibido reclamar (até por que, reclamar para quem?), e é proibido sofrer.
Quem me conhece sabe que faço o que posso para estar de bem com a vida, mas com ela inteira, com seus momentos de alegria e de tristeza, com as perdas e ganhos, com o amor vivido intensamente e com a solidão vivida da mesma forma.
É tempo de buscarmos não apenas o belo, mas o equilíbrio e a flexibilidade. É ali que moram a beleza duradoura, o bem-estar verdadeiro e a segurança que tanto buscamos.
Que esta tragédia que nos atinge de forma tão brutal, em meio ao frio e à chuva, nos possibilite, acima de tudo, o despertar. Que possamos sair do torpor e do estado anestésico em que temos vivido.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.
No mundo contemporâneo não há dúvida , que quanto mais evoluída a sociedade, mais atenção e respeito se dá aos moradores.
Conceitualmente há lógica, pois o dia a dia, aliado ao interêsse maior, levam a mais informação e atenção á região em que se vive.
Pois bem, há 15 anos a arquiteta Regina Monteiro, então como Presidente do Defenda São Paulo, vem alertando aos perigos que o crescimento do Aeroporto de Congonhas poderia apresentar aos moradores e aos passageiros.
Ao tomar conhecimento ,que no programa Fantástico deste domingo ,teremos a presença da Regina Monteiro, e sabendo de antemão que o assunto é muito mais extenso do que o tempo disponível num bloco de TV, sugeriria que se pudesse fazer um série de entrevistas com a arquiteta.
E, se o tema é cobrar de autoridades, teremos que começar a arguir os mandatários de 15 anos atrás. Começando pelo Prefeito, que embora não diretamente responsável pelo Aeroporto, era o mais interessado, pois deveria proteger os moradores da sua cidade.
Que texto maravilhoso de Maria Lucia! Que reconfortante poder ler uma reflexão como essa, quando o que mais se vê e se ouve pela mídia ultimamente são pessoas descontroladas, hipócritas, com valores morais invertidos, incoerentes, agressivas, imaturas! Peço licença para divulgar esse texto pela Internet, através do meu e-mail, torcendo para que ele seja lido por muita, muita gente, e torcendo também – se não for pedir muito – para que as pessoas tenham o “alcance” necessário para entender a mensagem que ele passa. Obrigada, Milton Jung, por tê-lo repartido comigo, conosco!