De olhos abertos e ouvidos atentos

Por Maria Lucia Sola

Olá,

Os acontecimentos têm me levado, ou forçado, a refletir sobre nossa dificuldade em lidar com as notícias e com muito do que acontece ao redor, que nem chega a ser noticiado. Se quiser, ache um canto confortável, pegue um petisco, um chá ou um café, e reflita comigo para vermos por onde, e aonde, a reflexão pode nos levar. É exercício; se não gostar desista, mas se tomar gosto, ela vira hábito. Não dá para dizer que refletir seja essencial à sobrevivência, porque tudo depende do que a sua alma gosta. Eu tenho uma queda por meditação e reflexão, mas nem penso em suar fazendo abdominais. Agora, se não refletir, ao menos uma pensada rápida a gente dá, para honrar a condição de ser pensante.

Então, quanto a notícias e acontecimentos, é sempre possível abrir um buraco no chão e enfiar a cabeça lá no fundo, para não ver, não ouvir, nem sentir o cheiro. Certamente dá para sobreviver assim, respirando com auxílio de máscara de oxigênio; que vontade, às vezes, não? No entanto, como diz o poeta Nelson Motta, pela voz de Lulu Santos, “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo.”

Lidar com o mundo em volta não é fácil. Ninguém sorri, queixo solto e testa relaxada, assistindo ao telejornal. Ninguém sorri quando as coisas não vão bem, ou quando percebe amargura num ser amado. A dor dói na gente também, porque amargura é doença grave; é a alma que não agüenta mais o sufoco, gritando desesperada por socorro.

Agora, se optamos por manter a cabeça bem posicionada e erguida em cima dos ombros, olhos abertos e ouvidos atentos, – caso a boca ainda não lhes tenha tomado as funções – então podemos ver, ouvir e até, quem sabe, sentir. Daí em diante, o importante não é que todos ajam e sintam do mesmo modo, e sim na mesma sintonia. Assim como uma orquestra, onde cada um toca o seu instrumento, e o resultado é harmônico; onde a intenção é uma só. Basicamente você quer o mesmo que eu. Paz? Só brota no terreno vitaminado com harmonia, e saúde só se instala no corpo onde a alma estiver bem acomodada e satisfeita. O resto é conseqüência.

Não dá mais para continuar assim, e nem preciso desfiar um rosário de motivos. Se desejamos que as notícias mudem o tom, é hora de começarmos a afiar nossos instrumentos. Antes de qualquer coisa, é preciso conhecer a si mesmo. Nascemos sem manual de instruções, e vamos tentando, errando e acertando, até entendermos como funcionamos e a quê viemos.

É impossível descobrir quem somos, olhando só para fora, e não teremos paz enquanto continuarmos a nos comparar com o outro. A tentar um encaixe forçado àquilo que esperam de nós, então, não há nada mais perigoso. Urgência urgentíssima! É preciso olhar para dentro, onde mora a alma, e ouvir-lhe a voz que chega através do coração. Assim, estabelecemos contato com ela e, impulsionando a paz interna, abrimos caminho para a paz total.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

Deixe um comentário