De dores e certezas

Por Maria Lucia Solla

Olá

As últimas notícias da administração deste país, recém saídas do forno a lenha de Brasília, juntaram-se a outras das mais diversas áreas à minha volta e, numa situação de superioridade momentânea e truculência, atingiram-me no plexo solar e levaram meu otimismo a nocaute.

Depois de ficar algum tempo estirado no chão, recobrou parcialmente os sentidos e, mal conseguindo abrir os olhos cobertos de hematomas, contorceu-se de dor. Afinou lentamente os ouvidos e percebeu outros gemidos que vinham preencher os espaços rítmicos da triste melodia de seus lamentos. Ergueu a cabeça com dificuldade, sentindo o mundo girar à sua volta, e deu de cara com a minha esperança, caída à sua frente e em péssimas condições. De pronto, sentiu-se humilhado. Logo ele, se lamentando, e pior, em público! O que poderia fazer, depois de flagrado assim caído, machucado e gemendo, para recobrar o respeito e a confiança da doce esperança? O que seria dela sem a segurança que ele trazia consigo? Já se tinham acostumado um ao outro, davam-se bem e gostavam das mesmas coisas.

Enquanto elucubrava, sentiu um cutucão nas costas e percebeu que eram as minhas expectativas em relação ao outro, agonizando. Outros também tinham caído! A situação era ainda mais séria do que ele podia imaginar, mas faltava um golpe. Ao virar a cabeça para o lado direito, viu meu sorriso. Perdido, coitado. Desbotado.

Profundamente preocupado, coisa que raramente sentia, ensaiou, mas não conseguiu se levantar. As dores no peito eram terríveis. Estava muito ferido. Jamais tivera intenção de abandonar o barco, mas dessa vez os golpes tinham feito um estrago e tanto.

E eu? Como fiquei? Depauperada. As baixas tinham sido significativas, dessa vez. Dolorida e com um pulso de ferro esmagando meu plexo solar, tentava não perder o rumo. Emergência! Meu ser entrou em estado de alerta e deu início a um tratamento com um terapeuta infalível, Dr. Momento. Reconheci que estava viva, e isso já era um bom começo. Dr. Momento levou-me a considerar um momento de cada vez e, toda vez que a frustração voltava com suas malas de lembranças tristes, pronta para conquistar mais um território em mim, eu corria para os seus braços. E foi num desses momentos balsâmicos que minha amiga Carina, antenada que só ela, me mandou, por e-mail, uma poesia de Fernando Sabino. O resultado foi tão bom que recomendo a leitura. Aí vai.

C E R T E Z A
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando
A certeza de que precisamos continuar
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.

Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda um passo de dança
Do medo uma escada
Do sonho uma ponte
Da procura um encontro.

Ah, antes que eu me esqueça, as minhas expectativas em relação ao outro não resistiram, e foi bom. Muito bom.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

Um comentário sobre “De dores e certezas

  1. Caro Milton, peço desculpas pelo off topic, mas preciso da sua ajuda e não sei que outro caminho utilizar. A Escola Estadual Fernão DIas Paes, em Pinheiros, faz 60 anos neste ano e a Associação dos Ex-Alunos, juntamente com a escola, fará uma festa comemorativa neste próximo sábado, 30/09, a partir das 16hs, com solenidades e depois das 18hs com a festa propriamente, com encontro dos ex-alunos, no prédio da escola (Av. Pedroso de Morais, 420). Se voce puder falar no ar sobre o evento, convidando os ex-alunos a se engajarem, para nós seria ótimo. O site da Associação conta tudo: http://www.fernaodiaspaes.org.br
    A Associação de Ex-Alunos tem como importante propósito, trabalhar junto com a escola para recuperar a excelência que um dia já foi a marca do Fernão. Sabemos que o ensino público enfrenta dificuldades e queremos contribuir com os bravos professores e com a direção da escola para fazê-la melhor. Agradeço desde já e fica o convite: venha à nossa festa!!
    abs,
    Clotilde

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