Por Maria Lucia Solla
Olá,
Outubro tem levado consigo, nas asas do outono acima do Equador, cantoras intensas, dramáticas, corajosas, mas romântica e tristemente suicidas. Carregou Edith Piaf em 1963, Janis Joplin, em 1970, e Maria Callas em 1977. Quer mais intensidade do que jorravam? Paro e tento entendê-las; ponho minha vida no compasso de espera, por instantes, navego nas ondas da percepção e concluo que essas mulheres morreram de tanto viver. Cantaram até não poder mais, amaram até não poder mais, vivendo em alta velocidade e plugadas em altíssima tensão. Atingiram todos os limites e entregaram-se de corpo e alma a tudo o que fizeram. Era overdose em cima de overdose. De tudo um muito. Definitivamente, não foram as formas físicas que as fizeram famosas e inesquecíveis. Não foram plásticas, não foram doses maciças de botox e nem implantes de silicone, que na época nem se pensava. Foi a intensidade, a entrega, o dom maior descoberto a tempo, e a paixão. Foi a falta de tudo que as impulsionou. Onde faltou corpo, sobrou alma, onde faltou dinheiro sobrou garra, onde faltou amor, sobrou paixão.
Os tempos são outros, e hoje se morre é de desencanto, de descrença na sociedade, e de desesperança. Os jovens têm pressa de viver, para acabar logo com isso. Em vez do prazer da descoberta do amor e dos projetos de vida, entregam-se a experiências de pequenas mortes, através de drogas como o álcool que embota os sentidos e deforma a realidade, fazendo-a ainda menos atraente do que é, quando vista de cara limpa. Dizem não acreditar no país, nem na honestidade. Não têm mais o sentimento de pátria e argumentam que é isso mesmo, o negócio é participar da bandalheira porque empresário que paga imposto direitinho quebra. Dizem também que a burocracia está aí só para emperrar a máquina e que os administradores do país não querem mudar o status quo porque o sistema, do jeito que está, permite roubalheira desenfreada sob camadas de desculpas esfarrapadas. É muito, muito triste. Posso parecer ingênua, até patética, mas não consigo entender, e entristeço.
Eu faço o que posso e do jeito que sei, mas dou o meu melhor. Reconheço aos poucos meus dons e os exerço com dignidade. Sou teimosa, amo a vida e durmo bem. Não encontrei sucesso estrondoso em nenhuma área por onde andei e nem fui levada à ribalta, mas continuo exercitando meu direito à vida. Meus atributos físicos não me levaram a passarelas e meu livro e meus escritos encontram abrigo, senão no coração, nas prateleiras e arquivos de amigos e parentes. Mesmo assim, rio mais do que choro, sou gentil mais vezes do que agrido, aprendo mais do que ensino, e mantenho os olhos do corpo e os da alma, escancarados. Quero ver tudo, sentir tudo, experimentar cada chance, cada possibilidade de viver e de amar. Louca talvez, mas quando choro, choro mais pelos que se escondem da vida, que tiram mais do que dão, enganam mais do que tudo, entendem que os fins justificam os meios e ainda posam de salvadores da pátria. Agora, reconheço as Leis do Universo e sei que a colheita daquilo que plantam será de frutos amargos como fel.
A solução? Continuar no bom caminho é um bom começo.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.
Olá Maria Lucia,
A falta de condições materiais certamente impede uma fruição adequada do mundo…
Mas, como servidor público vejo um fenômeno interessante: aqueles que chamamos de parasitas e marajás também são seres muito limitados.
Muitos colegas relativamente bem pagos (de nível superior) reclamam de tudo, se escondem, passam o tempo todo com medo de perder o que possuem… Não vivem!!!
São como matéria morta entre as estrelas que jamais chegará a brilhar, apesar do potencial que possuem. (E geralmente passam por duras provas até chegar onde chegaram, mas perderam o rumo da vida…)
Aí aparecem as divas e os atores que se expõem ao máximo, às vezes com risco à própria vida e queimam-se como estrelas cadentes…
Estes admiro, mas não vou imitá-los.
Uma boa parte ainda faz como eu, reage com outra pessoa e investe numa parceria estável, um pequeno sistema solar que espera gerar outro em seqüência para dar continuidade ao universo!
Boa Semana Pra Você Também!
🙂
Gostei do texto mas não concordo com algumas coisas. Bem verdade que Janis Joplin viveu intensamente tudo mas morreu por over dose de heroína com 27 anos, e talves o intensamente represente pra você algo que não tinha como se imaginar na época em que ela viveu e quem diz que ela não morreu por desprezo a vida também, o fato é que viveu e fez o que quis com a sua vida. Acho que colocar sempre os jovens como problema do descaso, do despreso da descrença é muito fácil, enquanto nós “velhos” somos sempre o espelho do que vivemos e veja bem quantas bobagens fazemos (e as vezes com os jovens assistindo).Não culpemos os jovens de uma forma única até porque tenho filhos e os vejo crescendo com o melhor que posso dar a eles e o ciclo da vida se repete as vezes acertamos as vezes fazemos grandes burradas o que muda é o ponto de vista, quando se é pequeno se olha para frente e diz não vou fazer assim quando se é grande olhamos pra trás e nos achamos grande coisa!
Abração e boa semana!