“Meu Velho Centro” pelo velho e bom amigo

O texto que se segue é o prefácio do livro “Meu Velho Centro”, escrito por Heródoto Barbeiro. Na falta de gente melhor, ele e a editora Boitempo me convidaram para apresentar o trabalho do mestre.

Foi o Mosteiro de São Bento, o cenário do primeiro beijo da moça que acabara de sair da sala de catequese. Sentou-se no banco da praça e encontrou os lábios do namorado que a esperavam. Era tanta paixão que não havia espaço para o remorso pelo pecadilho cometido. A outra, de mãos dadas com seu amor, correu ao Teatro Municipal e entrou, sem pagar, com a cumplicidade de um dos porteiros, por uma porta semi-aberta. Escondida e deitada de bruço no piso de madeira realizou o sonho de assistir ao show de Caetano Veloso. A praça da República foi o palco do espetáculo de uma paulistana recém-chegada a cidade. Atravessou o espaço público vestindo uma atrevida calça comprida e provocou escândalo nas meninas desacostumadas àquelas vestimentas, nos anos de 1950.

Há quase dois anos, levo ao ar, na rádio CBN, um quadro com histórias da nossa cidade contadas por ouvintes, e no centro de São Paulo é que boa parte delas é protagonizada. Em centenas de textos, os personagens usaram a expressão “ir a cidade” para identificar suas viagens do bairro para o centro, palavreado que surgiu dos tempos em que a distância a ser percorrida era, aparentemente, grande e lenta. Quando poucos carros circulavam pelas ruas e avenidas – estas, aliás, só foram surgir mesmo no planejamento de Prestes Maia no fim dos anos 1920 e nas obras de Fábio Prado já na década seguinte. Quando os bondes, veículos que transportavam passageiros movidos por energia limpa (termo cunhado destes tempos modernos em que se polui o ar queimando petróleo), andavam sobre trilhos, em velocidade moderada, oferecendo a eles a oportunidade de apreciarem a paisagem, e de serem aprecidados.

Foram nos bondes, por sinal, que muitos paulistanos vivenciaram suas histórias pelo centro da capital, como pude notar a partir dos textos enviados ao programa. Uma delas, recebida pelo correio eletrônico e assinada por um misterioso H.B. (assim mesmo, apenas com siglas), além de trazer fato de extrema curiosidade pelo acontecido, fazia comentários em favor do autor do livro que você tem em mãos. Dizia, após elogios de praxe a este que lhe escreve, da indignação que lhe provocava “quando, insidiosamente, e, às vezes, mancomunado com o vovô Juca Kfouri, vocês atacam o jornalista Heródoto Barbeiro”. O texto vinha seguido de um pedido de desculpas pela assinatura se resumir as iniciais pois, justificava, “não quero entrar em confronto nem com você nem com o vovô Juca Kfouri”. Palavras pouco sinceras pelo menos em relação a mim, pensei, ao constatar que a provocação se estendia a saudação final: “Abraços corinthianos ”.

A curiosidade me fez ler o texto que falava de um garoto de seis anos que ao atravessar a rua Frederico Alvarenga, ali perto da Rangel Pestana, no centro da cidade, talvez atento a arquitetura do local, não percebeu que o bonde se aproximava. O pai, que estava ao lado, não teve tempo de impedir o atropelamento do garoto. A aparente tragédia transformou um anônino cidadão paulistano em herói, identificado apenas por um número, como vocês poderão ler nas próximas páginas.

A qualidade jornalística e época em que se passava o fato me gerararm desconfiança. Conhecia poucas pessoas com aquele talento literário, capaz de viver situação tão chocante quanto antiga e, ainda por cima, assinar com a alcunha H.B.

No dia em que o texto foi reproduzido no programa CBN São Paulo, mesmo sob o risco de reforçar a acusação de estar mancomunado com o colega Juca Kfouri, recorri a ele para esclarecer o mistério. Afinal, quem estava escondido por trás daquela sigla? Como o diabo sabe mais por velho do que por diabo, o “vovô” concluiu que estávamos sendo alvos de uma brincadeira do sempre bem humorado companheiro de redação, o professor Heródoto Barbeiro. Juca fez apenas uma ressalva, o ano do atropelamento e a idade do atropelado teriam sido modificados propositalmente para nos confundir. Se o fato realmente ocorreu em 1952, a vítima, sendo quem era, não poderia ter apenas seis anos.

Juca acertou mais uma vez, pelo menos em relação ao escrivinhador. E Heródoto não resistiu a pressão, confessou a autoria do texto e nos emocionou ao relatar em viva voz como foi salvo pela agilidade do motorneiro. Ressucitou nos trilhos do bonde que cruzava o centro da cidade de São Paulo, território que até hoje se confunde com a casa dele. Região a qual, assim que os pais lhe soltaram a mão, foi explorada de alto a baixo (e isto não é figura de linguagem) seja nos passeios para andar de escada rolante nas poucas lojas que tinham estas modernidades, comer sorvete com gelatina ou ver os filmes do cinema mudo, seja em pleno exercício da profissão de office-boy que lhe obrigava a percorrer escritórios de advocacia, corredores das repartições públicas e os balcões escuros dos cartórios.

Heródoto nasceu na “cidade”, não precisava pegar bonde para chegar até lá. Renasceu na “cidade” ao ser pego pelo bonde. E, a partir do olhar de um nativo, tornou a “cidade” ainda mais interessante nos textos reunidos neste livro.

O centro deixa de ser apenas o espaço onde se misturam os fatos mundanos, os romances, as intrigas, as crenças e as fantasias dos paulistanos e demais passantes. O perímetro no qual as pessoas costuram sua vida muitas vezes sem compreender a importância daqueles prédios, sem perceber que caminham ao lado de fragmentos históricos da construção de São Paulo, que sem tempo, sempre sem tempo, olham para o relógio para conferir a hora exata sem saber exatamente onde estão. Enquanto a maioria de nós, ao fim do expediente, fugia do centro como o diabo da cruz, Heródoto, em sua longa vida, voltava caminhando a contemplar o que havia na extenção do pátio de sua casa.

Ao ler “Meu Velho Centro” imaginei que Heródoto bem poderia ser o rapaz sentado ao lado da moça que beijava pela primeira vez diante do Mosteiro, ou o moço que de mãos dadas correu até o Municipal para assistir à Caetano, ou o menino de olhar comprido para as calças da atrevida da República. Afinal, neste livro descobre-se que Heródoto não é apenas observador ou escritor, é personagem do centro da nossa cidade.

3 comentários sobre ““Meu Velho Centro” pelo velho e bom amigo

  1. Caro Jornalista Mílton Jung,

    São Paulo é a terra das misturas! Você, gaúcho, encontra o “nativo” Professor Heródoto Barbeiro e acaba fazendo amizade!
    Só mesmo nesta terra temos a oportunidade de mesclar inúmeras nações e etnias; mas há que se preservar a História de cada um desses componentes, pois São Paulo é feita desses pedacinhos! E das lembranças dos “nativos”, surgem as fundações desta cidade!

    Abraços ao Professor Heródoto e a Você!

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