Por Maria Lucia Solla
Olá,
As idéias costumam se apinhar na minha cabeça, como as palavras faziam com meu filho Paulo. Sua boca ficava tão cheia delas que ele precisava abrir para elas saírem. Isso ele me disse aos sete anos, quando a professora reclamou de tagarelice na aula. Em mim, as idéias já chegam se acotovelando por uma promoção, mas se não conseguem a glória de virar ação, aceitam virar palavra, e eu escrevo.
Entre as idéias, a disputa é dura, porque se não forem promovidas podem adoecer de frustração. É melhor não esquecer que idéia é palavra do gênero muito feminino. É ultra-sensível, e se você não dá atenção ela adoece, vira as costas e vai embora ou, dependendo do nível da neurose de posse, fica do teu lado e vira inimiga. O melhor é procurar saber quem é essa tal de idéia, e eu descobri que elas habitam freqüências, e que vão ao ar através da sintonia que eu escolho. Como no rádio, onde você pode escolher notícia, música na medida certa para os seus ouvidos, ou a estação que toca fundo e arrebenta a última corda da tua paciência.
Tudo isso para dizer que as idéias não chegam aqui, desde ontem. Nenhuma na fila de espera, nem tentando arrombar a porta. É o vazio que se manifesta em mim – e que foi relacionado, por um dos meus amigos-mestres que dão mais vida à minha vida – ao vazio proposto pela próxima Bienal de São Paulo. O projeto do curador do evento é deixar um andar inteiro vazio; nenhuma obra ali. Interessante. Notícias dão conta de que um punhado de gente importante no mundo das artes plásticas, e em área afins, já anda debatendo o tema. Numa de suas declarações, o curador da mostra diz que tanto a Bienal quanto o MASP são instituições problemáticas, e eu me pergunto se não seria por estarem sempre tão cheias de si. Vai ver está mesmo na hora de esvaziar, selecionar e pôr as coisas em ordem, como se faz com gavetas e guarda-roupas.
Quando a gente diz, me deu um vazio, geralmente diz com cara de quem comeu e não gostou, e dá para entender o motivo. O vazio põe cada uma de nossas células a descoberto, e nem sempre se agüenta o confronto. A gente foge da raia e fala, fala, para não deixar nem um canto vazio, para não dar chance para o nada. Acontece que sem chegar ao vazio, fica difícil reconhecer a satisfação na medida certa, em cada canto da vida. O melhor é descartar o descartável e zerar os contadores periodicamente; não tem jeito. Depois, é repensar crenças, pensamentos, calibrar emoções e verificar se tudo está dentro do prazo de validade, ressetando, como se faz com as geringonças eletrônicas.
A gente carrega tanta mala cheia de ranço, de empáfia, de razão e de certeza, de medo e insegurança! Tudo velharia mofada, mal cheirosa e inútil. Trambolhos que bloqueiam a vida.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.