Por Maria Lucia Solla
Olá,
Sei que de incerto todo certo tem um pouco, e que confiança apresenta sutis pinceladas de desconfiança. Sei também, por experiência própria e não de ouvir dizer, que verdade vem temperada de inverdade, que há pitadas de inimizade batizando a amizade, e um bocado de impaciência em cada ato de paciência.
Há insônia nas porções de sono, dizem os estudiosos da área, e sabe-se que há muita injustiça nos pratos da justiça; o que deveria pôr abaixo a obscena empáfia de muitos magistrados.
Há, invariavelmente, doses variáveis de interesse nos gestos desinteressados e, infeliz e inevitavelmente, desamor, no amor. Há atrevimento no pudor, e há arrogância na insegurança de quem se acredita permanente, neste mundo impermanente; e eu, entremeada de desesperança, vou morrendo de tanto viver, sorvendo, gulosamente, cada instante de esperança.
Meus olhos, por vezes turvos, vêem poesia e amor, onde amor e poesia não há, e acabo escorregando no vice-versa dos versos em forma de prosa que transbordam e escorrem de mim, me abandonando vazia; truque matreiro dos desejos de menina em corpo de mulher.
Inesperadamente viro as costas e vou-me embora, quando desejo ficar. Emudeço em crises de silêncio, quando todo meu ser quer gritar, uma vez que a eloqüência não encontra saída, mesmo conduzida pela mão da senhora vivência. Ou então desando a falar, insensata, feito matraca desenfreada, quando o sensato seria calar.
Os desejos e sonhos chegam, inoportunos, quando há muito deveriam ter partido e, inconvenientes, manifestam-se nos momentos em que o rígido protocolo da conveniência deveria ser seguido à risca. Sinto que há fogo ardente camuflado nos montes de cinzas e, mesmo se certas presenças trazem consigo um sabor de ausência, percebo claramente a forte presença de certas ausências. Sigo confundindo tudo e, às vezes, quietinha no canto, contorço-me de dor.
Percebo um quê de melancolia em momentos de alegria e saboreio um tanto de recebimento em atos de oferecimento. Há riso no choro e vice-versa, e fim de conversa.
E você, o que percebe?
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano
Um texto que temos que ler mais de uma vez para conseguirmos refletir, temos que ler no silencio cada trecho para compreendermos o que esta sendo dito e colocarmos em cada ação nossa confirmando cada paragráfo!
Parabéns por mais um texto muito bem escrito
Percebo que o que vale é “PERCEBER”. Ter o tempo suficiente entre pergunta e resposta dentro de si, e gerar uma análise para refletir e discutir. Descobrir outras menstes que possam te entender, refletir e analisar contigo, não tem preço ! – Obrigado por seus textos !! – Mario Baccarelli.