Quintanares, um registro histórico do poeta da minha família

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Com estes versos Manuel Bandeira homenageou o poeta gaúcho Mário Quintana, em 1966, no salão da Academia Brasileira de Letras, que jamais iria aceitá-lo entre os imortais. Seu corpo franzino não combinaria mesmo com o fardão verde-escuro e o chapéu de veludo preto que vestem os membros da Academia. Acostumei-me a vê-lo de calça de tecido, camisa social de colarinho aberto e um paletó desajeitado, enquanto caminhava com ajuda de uma bengala nas proximidades da Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre. Era bem menino, ainda, mas lembro de o poeta ter dirigido a mim e a meu irmão algumas palavras, sempre seguidas de uma risada, quando o encontrávamos na redação do jornal Correio do Povo, nos plantões de fim de semana.

Naquela época vê-lo tão de perto era como enxergar a cara de um anjo que vinha do céu. Ao crescer descobri que era um anjo sapeca, divertido na forma, malicioso no conteúdo e melancólico, muitas vezes. Um anjo Malaquias, talvez.

Sempre me achei privilegiado por ter a oportunidade de ficar tão próximo do poeta. Sorte mesmo teve meu irmão, Christian, descrito por ele como personagem que havia escapado das histórias em quadrinhos. Estes dias soube que uma das minhas primas, a escritora Cláudia Tajes, que também fazia suas incursões carregada pelo pai, Tito Tajes, ao Correio do Povo, chegou a ganhar um poema de Quintana. Meu padrinho, o Tito, um jornalista de mão cheia, trabalhava no jornal próximo dele.

De todos nós, coube a meu pai, Milton Ferretti Jung, algumas regalias. Além de compartilhar tragadas de cigarro ao lado do poeta, sentado no balcão do Bar da Rádio (era como chamávamos o bar que servia os funcionários da Companhia Jornalística Caldas Júnior), foi convidado para interpretar as poesias de Mário Quintana em um programa na Rádio Guaíba de Porto Alegre batizado “Quintanares”. Durante dez anos, entre as décadas de 1980 e 1990, os ouvintes acompanharam, diariamente, os versos de um dos mais geniais poetas brasileiros na voz dele. A maneira como reproduziu a expressividade desses versos lhe rendeu elogio do próprio autor: “Você é a minha Berta Singerman” – referência a declamadora argentina que fez sucesso no Brasil interpretando textos de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade, entre outros modernistas.

Quase me atrevo a dizer que o poeta fazia parte da nossa família. Pensando bem, fazia mesmo. Aliás, faz. Está na memória. Na estante de livros. E, a partir de agora, no nosso blog, também.

Por sensibilidade do Christian, aquele das histórias em quadrinhos, algumas edições de “Quintanares” ficaram gravadas. O CD foi parar nas minhas mãos e, a partir de hoje, todas terças e sábados, algumas dessas poesias serão reproduzidas aqui, na voz de Milton Ferretti Jung, com o consentimento dele, é lógico.

Para a estréia deste quadro, você ouve “A Primeira Aventura”:

2 comentários sobre “Quintanares, um registro histórico do poeta da minha família

  1. Valeu,Mílton! No céu dos poetas,de onde nos espia em companhia do anjo Malaquias,Mário Quintana deve estar satisfeito por ter sido adotado pela família Jung

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