De gregos e troianos

Por Maria Lucia Solla
Direto da Grécia

Olá,

A Grécia me recebeu de coração e braços abertos, e panelas no fogão. Gostaria de poder transmitir os detalhes de cada dia, como se meus olhos fossem lentes, através das quais você pudesse ver, ouvir e sentir tudo comigo, mas nem eu mesma consigo decodificar e digerir tanta informação. Muito menos tanta comida.

Tudo mudou muito, desde minha última visita. Esta terra era muito mais simples, e seu povo, gente de hábitos descomplicados e passos lentos. O que mudou nestes últimos anos? O país entrou para a União Européia, como um dos países mais pobres do grupo, com a cara e a coragem que só descendentes diretos dos deuses do Olimpo podem se dar ao luxo de ter. E então, a questão. O que fazer para desenvolver e construir a infra-estrutura básica esperada de um integrante de grupo tão seleto? Não precisaram, os gregos, sentar e queimar seus neurônios como o Pensador de Auguste Rodin. Continuaram a tomar café, frapê e freddo, relaxados e despreocupados, a qualquer hora do dia ou da noite, nem deixaram de freqüentar as buzúkias, onde se canta e dança, até o amanhecer, ao som de música ao vivo, fumando e bebendo vinho e uzo (a aguardente daqui). Tudo muito.

Então, quem teria cuidado dos assuntos sérios e desgastantes? Que varinha mágica foi acionada e me fez encontrar, aqui, um metrô de primeiro mundo? Que fada madrinha abriu caminho para que eu viajasse de carro para o Peloponeso, no fim de semana, deslizando feito dançarina russa, na auto estrada que cruza o país inteiro, de norte a sul e de leste a oeste? Nenhuma. Os parceiros ricos, do grupo, vivem queimando as pestanas em seus países e vêm relaxar aqui, no playground que lhes abre as portas para o oriente, onde encontram sol, praia, mistério, beleza e descontração, e o melhor azeite do mundo, diga-se de passagem. Assim, os alemães trouxeram euros da união européia, o material e o equipamento necessários, seus mais preparados especialistas, arregaçaram as mangas e construíram auto-estradas impecáveis, para seu deleite.

Disseram aos gregos, construiremos as melhores estradas, arcaremos com setenta por cento dos custos, e vocês, com trinta. Está bem? Imagina! Disseram os gregos; nem pensar! Não pagaremos nem um centavo. Final da história, os alemães construíram as estradas assim mesmo, com a condição de explorarem os pedágios durante dez anos.

Pelo que pude perceber, os gregos não só concordaram sem pestanejar, como teriam aceitado o acordo, se fosse prorrogado ad eternum. E, do mesmo modo, teriam continuado felizes se tivessem mantido suas estradas rudimentares até hoje, e para sempre. Os alemães construíram estradas para si e para os outros parceiros ricos, para poderem desfrutar do calor e das belezas da divina Grécia. Pagam, e pagam caro pelos seus favores.

Justíssimo, não acha? Muito mais justo do que o preço que pagamos, em forma de imposto temporário e permanente, para sustentarmos as peripécias consumistas, deslumbratistas e nova-riquistas da corja teúda e manteúda da atual nobreza federal. E haja cartão de crédito corporativo e despesa sigilosa!

Pense nisso, e até a semana que vem.

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