De buzúkia e feijoada

Por Maria Lucia Solla

Da Grégia
Olá,

Definitivamente não sei visitar um país, correndo de lá pra cá, subindo e descendo escadas e elevadores de pontos turísticos, sacolejando e olhando pela janela de um ônibus, ou decorando meus pés com bolhas assassinas. Muito menos tenho energia para zanzar por lojas e mais lojas, para voltar para casa, carregada de quinquilharias inúteis que posso encontrar na 25 de março. É por isso que viajo muito menos, hoje; para poder ficar mais tempo no lugar escolhido.

Quando se entra na loucura de querer ver e fazer tudo em curto espaço de tempo, raramente encontra-se tempo para se acomodar num canto gostoso, carregado de memórias de vida e morte, de chegada e partida, de dor e alegria. Torna-se difícil, se não impossível, ouvir os sons, há muito camuflados, de riso e choro, de brigas e sussurros de amor, e do histórico galope nervoso de cavalos arfantes sob o peso de guerreiros armados até os dentes. Prefiro dar-me ao luxo de ficar quieta e me deixar levar pelas sensações mais sutis. Não posso ignorar todos os desejos do meu verdadeiro ser, que precisa de quietude para absorver o que pretende levar consigo, no dia da partida.

E assim, estou quieta em casa já há dois dias. Tenho estudado grego, muitas horas por dia, oh, que língua difícil, e me protejo do véu de frio que cobriu Atenas. De cortar! Ainda não tive coragem de me aventurar pelos pontos perigosamente mágicos. Na quinta-feira à noite, na ida para uma buzúkia, com direito a jantar e show, passei de carro, em frente à Acrópole, iluminada. Tremi! Passei pela minha praça favorita, a Praça Sintagma, a mais central e importante de Atenas e vi, de esguelha, um pedacinho de Plaka, o bairro boêmio da cidade, que há anos me arrebatou. Senti como se parte de mim despertasse de um sono letárgico. Ando fugindo das paixões, nos últimos anos, buscando um equilíbrio que nunca conheci, curiosa que sou, e temo me deixar fazer refém, novamente, da terra, do ar, das montanhas, da exuberância do povo e do dramalhão melódico que compõe a música grega. Minhas raízes italianas, espanholas e portuguesas, clamam por intensidade, e eu as tenho ignorado, não por covardia, penso, mas para buscar o tal do equilíbrio.

Já me aventuro pelo bairro de periferia, onde estou morando. Fui à feira, na semana passada e, acreditem, os feirantes daqui conseguem gritar mais do que os nossos. Comprei lírios brancos e enfeitei a sala, por sugestão do meu filho. De férias, posso sentar e olhar as flores!

Hoje à tarde o sol deu o ar de sua graça, depois de longa ausência, mas mesmo assim decidi continuar quieta em casa. Amanhã, preparo feijoada para oito pessoas, com direito a farofa e tudo, e a movimentação será grande! Os gregos não têm idéia do que seja o feijão preto, e ficam pasmos com a idéia, mas mesmo assim estão ansiosos para experimentar.

E assim vou levando. Terça-feira vou para o norte, para Thessaloniki e Edessa, onde o frio é ainda mais severo. É preciso preparo para as novas emoções, a maior riqueza que se pode levar desta vida tão curta. Você não acha?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

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