Por Maria Lucia Solla
Da Grécia
Olá,
Minha Nossa Senhora das Mulheres que Gostam de Sofrer, rogai por nós, as pecadoras. Rogai pelas mulheres que já gostaram de sofrer, um dia, para não recaírem na tentação; por aquelas que ainda gostam, para largarem o vício, de uma vez por todas, e por aquelas que apenas deixaram de gostar, para perceberem a diferença, e continuarem firmes na nova jornada, rumo ao bem viver. Sofrimento é droga que vicia mais do que todas as outras e, de todas, é a mais prejudicial. Vai matando devagar e silenciosamente, na maioria das vezes sem deixar marcas aparentes, e se não mata, deixa seqüelas inomináveis.
Claro que há homens que gostam de sofrer também, mas como são feitos de ingredientes diferentes dos ingredientes das mulheres, e devem ter seu próprio santo protetor, prefiro não me meter nos seus assuntos. Sei, no entanto, que todos os que gostam de sofrer atraem, para si, magnética e inevitavelmente, aqueles que gostam de fazer sofrer; e aí trata-se de outro vício. É como açúcar e formiga. Onde há um, logo aparece o outro.
Aqui mesmo, no apartamento ao lado, tenho o exemplo de uma jovem de trinta e um anos, que tem sofrido muito. Dia mais, dia menos, mas as doses de sofrimento são contínuas. Ela e seu marido namoraram durante cinco anos. Ele é um rapaz do interior como ela, mas está em Atenas há muito mais tempo. Há menos de um ano se casaram, e o desastre não demorou a chegar. Moram num apartamento pequeno, muito bem arrumado, decorado com bom gosto e repleto de equipamentos eletro-eletrônicos dignos de país de primeiro mundo, que, diga-se de passagem, a Grécia está longe de ser. Os dois parecem ter descoberto, só depois do casamento, que têm sonhos diferentes. Ele é proprietário de metade de um táxi e decidiu trabalhar à noite, dizendo que assim ganha melhor. Dorme durante o dia e, nas horas vagas, sai com os amigos. Ela trabalha num super mercado, de segunda à sexta, durante o dia, e quando não chora, dorme à noite. Além disso, ele não quer filhos, enquanto o sonho maior dela, é tê-los; e depois de muito desentendimento, ele quis a separação. Ela não. Entre seus soluços e, usando meu parco grego, como ferramenta auxiliar, ouço-a com atenção. Entendo, muito mais do que o idioma, a expressão de dor e as lágrimas. Ele quis ir embora, e ela pediu que não fosse. Perguntei por quê, e ela simplesmente disse que não quer ficar sozinha. Sabe que vai sofrer ainda mais, em doses contínuas e previsíveis, mas quer assim.
Hoje, por exemplo, é um domingo absolutamente romântico e raro. Atenas está coberta de neve, e continua nevando. Dizem-me os gregos que, a última vez que isso aconteceu foi em 2004, e que antes disso, nem se lembram. Minha vizinha está em casa, sozinha. Maria é o seu nome, como tantas Marias, nos idiomas mais diversos. Da verdade de seus segredos, não tenho a chave. Nem dos meus, que também Maria sou. Mas não desisto de buscar minha porção de alegria, e vou aprendendo na busca. E você?
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano