Por Maria Lucia Solla
Olá,
Pois é, a questão do tempo não pára de me rondar. Fica me convidando à reflexão, e à viagem por plagas como diria Castro Alves – esvanecentes, quase esquecidas, e também a passeio por memórias que nunca deixaram meu coração e clamam por atenção. Aceito a carona, é claro, e embarco na viagem, antes de piscar.
Enquanto me entrego aos convites, tenho mais uma confirmação de que somos nós que decidimos sobre experiências, e muitos dos acontecimentos do nosso dia-a-dia. É questão de abrir ou fechar as portas. No caso, escolhi abrir, e vivo encontrando amigos de longa data, amigos mais recentes e outros recentíssimos, e entro, sem medo, numa ciranda de incríveis emoções. As memórias recuperam seu colorido, e vão sendo projetadas em minha tela mental, com qualidade de imagem de altíssima resolução. Tudo de última geração. É o digital do futuro me mostrando cenas do passado. Posso ouvir som de vozes, sentir perfumes, texturas e toques. De repente aparece alguém, de uma história lá de trás, e enriquece mais um fragmento da minha vida. Se bem que há pessoas que saem da história e, sabe-se lá quando, e se, vão aparecer outra vez; e outros ainda que deleto sem dó nem piedade, num toque de tecla, por puro instinto de sobrevivência.
Ainda no embalo da viagem, não contente com as estradas pelas quais já passei, vou me embrenhando por realidades que não vivi, e me dou conta de que o mundo melhora a cada dia, na direção contrária à dos pessimistas de plantão. Deixando de lado meus óculos de lentes cor-de-rosa, tento me ater a dados concretos, e chego à conclusão de que apesar de ainda termos muito para aprender e põe muito nisso -, já aprendemos um bom bocado. Somos mais asseados do que éramos na Idade Média, por exemplo, quando o lixo, em parceria com o excremento de humanos e animais, se acumulava em volta das casas e ao longo dos caminhos. Nossa consciência também jazia em sono muito mais profundo do que hoje, e poucos se preocupavam em procurar alternativas à progressão geométrica de baratas, ratos e epidemias.
Percebi isso, e muito mais, que deixo para você refletir, no carro com uma amiga de muitos e muitos anos, indo a uma festa, sexta-feira tarde da noite. Duas mulheres, uma casada e uma divorciada, em plena Marginal Pinheiros, papeando sobre coisas sérias e rindo das bobagens da vida, já no espírito da festa. Duas eleitoras, motoristas, independentes, empreendedoras, uma delas com a defesa de seu doutorado em Economia marcado para esta semana, as duas com um tanto considerável de experiência de mundo, e de consciência desperta, e cheias de planos para o futuro. Há não muito tempo, isso teria sido impensável.
Então, concluí, para sermos úteis, não é preciso grande sofisticação. É só usar as experiências do passado, viver intensamente o presente, e criar um futuro melhor. Como? Fazendo o que sabemos fazer, dando o melhor de nós, criando, falando, escrevendo, ensinando, ou simplesmente dando o exemplo de que é possível sermos dignas da liberdade que conquistamos, sem deixarmos de ser femininas, mães, amigas, amantes, vaidosas e competentes.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano
Luzinha , este me tocou ,profundamente , pela identidade que mantemos no trato com nossas relações , bjs . Maryur