Conte Sua História: O amor de Boldrin

Dos maiores nomes de São Paulo está o de Rolando Boldrin, personagem deste capítulo da história da nossa cidade, na série em homenagem ao aniversário da capital paulista que foi ao ar no ano passado:

Todo sábado no CBN São Paulo, todos os dias aqui no blog e na livraria mais interessante do seu bairro, você conhece “Conte Sua História de São Paulo”. Se quiser participar, escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

2 comentários sobre “Conte Sua História: O amor de Boldrin

  1. Então a minha história é relativamente simples:
    Meu filho a 19 anos atrás chega em casa com uma lição para casa.Eram várias frases para completar.
    Tipo assim.O hospital é o lugar onde….
    e onde estava escrito A escola é o lugar onde
    ele completou.” O FILHO CHORA E A MÃE NÃO VÊ”
    Pôxa, levei um susto, ele estava na terceira séria do ensino fundamental da Emef Theodomiro Dias.
    Perguntei se era aquilo mesmo que ele queria falar da escola, na esperança que ele tivesse se enganado.
    Ele então disse que na escola os alunos choravam muito e sofriam muito.A mãe em casa não tinha a menor ideia, muitos não contavam por medo, e muitos não contavam por que suas maes não acreditariam
    Passei então e frequentar a escola e usar todos os recursos que me permitiam estar la dentro para checar a infomação do meu filho.Cheguei a lavar banheiros
    Descobri que meu filho falava a verdade mas que muita coisa ele não percebia.Entao era pior do que ele avaliava
    A partir de então me dediquei a defesa de direito de aluno.

  2. MINHA ROSA

    -Eu não diria que durou muito tempo, doutor. Mas também não foi pouco tempo. Eu diria que foi o suficiente. Pra duas coisas: Pra eu perceber que era ela que eu queria pro resto da vida, e pra ela perceber que ainda tinha vida demais pela frente pra chamar de “resto” e desperdiçar comigo.

    -Mas você não acha que ela percebeu tarde demais?

    -Eu acho que ela percebeu isso há muito tempo doutor. Bem antes.

    -Então por que ela não terminou antes?

    -Eu gosto de pensar que é porque ela me amava.

    -Mas se te amava, então por que terminar, afinal?

    -Essa é a pergunta que eu tenho me feito doutor. No começo, ainda muito magoado, muito ferido, cheio de raiva, eu cheguei a pensar que ela me enganara todo aquele tempo. Que nunca tinha me amado de verdade. Que eu era só alguém que lhe despertou curiosidade, e ela quis experimentar e acabou ficando… Mas eu voltei aos nossos bons momentos. Às horas que passávamos conversando por telefone. Das vezes que ela me disse “não vai, por favor. Me cuida”. Foram tantas noites dormindo ao som da minha voz. Não. Ela não faria isso se não me amasse, doutor.
    Depois, já me sentindo um pouco mais acostumado com a dor, já acordando sem aquela raiva ressentida, eu comecei pensar que eu era o culpado. Por não dar valor às pequenas coisas. Ora, às pequenas? Nem mesmo às grandes, veja o senhor… Eu poderia ter sido mais carinhoso. Mais atencioso. Mais romântico. A mágoa foi dando lugar à culpa. Mas eu me lembrei dos sorrisos. Ah, que sorrisos… Se o doutor os tivesse visto, se tivesse visto como ela me sorria… Eu não precisaria explicar mais nada ao senhor. O senhor veria o quanto ela valorizava cada gesto meu. Meu esforço, que sempre foi genuíno pra fazê-la feliz, sabe doutor… Ela sempre valorizou. Sim, ela ficava chateada com o meu jeito. Ela detestava meu desleixo. Odiava minha desatenção. Mas aquele sorriso… Era de verdade! É a prova que eu preciso: Por mais que eu pudesse ter sido melhor – E eu sei que poderia – não foi minha culpa.
    Aí, Doutor, me veio um sentimento de impotência. Eu comecei a pensar que, se não havia nada que eu pudesse fazer pra evitar que ela se fosse, então por que ficar comigo tanto tempo? A culpa deu lugar à dúvida. A descrença. Ao desânimo. Eu tive pena de mim mesmo, e achei que pudesse ter sido isso. Ela teria ficado tanto tempo comigo por pena?
    Doutor, eu rebusquei em mim, o mais fundo que eu pude, todo sentir. Toda palavra dita, toda inocente pergunta… Ressenti tudo. De bom e de ruim. E então, como mágica, me veio a resposta.
    É que ela, doutor, tem a natureza inquieta. Ela não pode sentir que está passando pela vida sem vivê-la. Ela é daquelas que entra na piscina e fica lá até que a mandem sair, e ainda sai brava. É daquelas que não para de beber até passar mal, com medo de não ter bebido o suficiente. É do tipo que sai por último da festa, e só quando o último ônibus vai passar. É dessas que se desespera se tiver que passar um fim de semana em casa. Ela tem a alma viajante. O espírito livre. Azar de quem quiser ser seu dono. Azar o meu nesse caso, né doutor? kkkkkkk
    Ela é a insatisfação em pessoa. O que poderia satisfazê-la? Ela precisa passar pela vida dos outros só por experiência, e depois ir embora sem olhar pra trás. Ela precisa beijar as bocas só pra descobrir os gostos. Ela precisa sentir os toques só pra saber quais a arrepia. E tocar, pra saber quem se arrepia por ela. Mas não guarda lugar. Ela tem total repulsa à inércia, e fascínio pelo novo. Pelo desconhecido.
    O problema doutor, é que ela arrumou briga com o próprio coração. Talvez essa natureza curiosa dela tenha colaborado no início pra que ela me experimentasse, mas ela acabou me amando tanto que não conseguiu evitar me abrir seu coração. E ela me amou de verdade, até o último dia, mas finalmente a natureza inquieta dela venceu o amor que ela sentia por mim. E talvez minhas mancadas, o desgaste da relação, minha falta de habilidade em tratá-la como mulher, talvez tudo isso tenha colaborado um pouco para o fim, mas de todo modo era questão de tempo. Porque ela nunca foi só minha. Ela era do mundo. E o mundo algum dia ia gritar mais alto.
    Ela agora está mais feliz e realizada do que nunca esteve ao meu lado. Ela encontrou nessa nova vida o viver que ela tanto ansiava, e que eu limitava. Não eu, mas ela própria por causa de mim. Ela encontrou em sua nova liberdade a sua razão de ser, a sua essência. E isso me deixa muito feliz, doutor. Eu quero que ela se sinta completa. Que ela realize tudo. Ao ver isso doutor, só uma coisa no mundo inteiro será maior que minha alegria: A minha frustração por não ser o bastante pra estar ao lado dela.

    -Você acha que não há mais volta?

    -Não acho, doutor. Tenho certeza.

    -É uma pena. Pra você e… Pra ela… Como é mesmo o nome dela?

    -É Rosa doutor. O nome dela é Rosa. Minha Rosa.

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