De certeza e opinião

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Falar de quê? Dizer o quê? Só posso descrever a vida vista, sentida e vivida, do ponto onde estou. E tenho estado na paz há dias. Paz mesmo; aquela que a gente vive pedindo ao Papai Noel. Sem a mínima intenção de avaliar coisa nenhuma, de separar o joio do trigo, de emitir decretos. Que caminho me levou até esse estado? Difícil apontar um só. A gente vive fazendo uma ginástica danada, buscando viver melhor, e de repente a coisa melhora. Aí vem a pergunta, o que foi mesmo que eu fiz? Quando foi que comecei? Seria efeito da última receita de chá verde com arroz integral e botões de rosas vermelhas vindas diretamente da China, que revolucionou meus corpos, físico e sutil, diluindo tristeza e desconforto? Teriam sido as velas de todas as cores, acendidas na postura de esperança, súplica e abandono, a todos os anjos da guarda de diferentes raças e credos? Ou seria efeito da meditação. Também não dá para descartar a leitura, o papo com os amigos, o banho de chá de rosas brancas, as confidências com a melhor amiga, com troca de figurinhas, em busca da carimbada, e um bocado de observação atenta e, na medida do possível limpa de preconceito. Uma palestra, vez por outra, pode ajudar também. Faz bem baixar a crista e ouvir o que os outros têm a dizer. Um espetáculo no teatro, um bom filme. Café com bombons no final da tarde…

Depois de uma boa dose de terremoto aqui em São Paulo e outra de ciclone em Porto Alegre, no fim de semana passada, a receita da poção mágica começa a vir à tona, e um dos ingredientes se destaca, chamando minha atenção. É o fato de eu ter largado as certezas, incertezas e medo, de lado. De ter largado a pressa e a ansiedade. Soltei o fardo e relaxei. Coloquei os dispositivos de controle no “pause”. Nada planejado. Não me entenda mal, que não tenho a mínima pretensão de passar receita milagrosa de bem-viver; canso de dizer que não tenho respostas. Sou um poço sem fundo, de questionamento e curiosidade; e minha opinião tem coluna vertebral flexível. Vive se dobrando. No entanto, quando resolve dar uma de maria-vai-com-as-outras e, anestesiada, segue a tendência do momento, percebo que pago um preço alto. Fico mal. Nunca me senti bem, encarapitada no pico da certeza e muito menos seguindo a multidão. Se tenho princípios que norteiam a minha vida? Sim, alguns códigos de conduta eu tenho, só que às vezes não se encaixam nos moldes da sociedade onde vivo, e acabo andando no contrafluxo. Faz bem também.

Num mundo em que se cospe certeza com habilidade estarrecedora, e onde tem gente doutorada em opinião formada, é um alívio tirar férias delas; das gêmeas certeza e opinião. Senhor, que eu tenha sabedoria e força para me manter neste estado de graça por muito tempo e, se permitir, achando que mereço, que eu fique assim para sempre! Ou até que mude outra vez, porque para sempre também me assusta.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

4 comentários sobre “De certeza e opinião

  1. Oi Maria Lúcia,
    que bom que vc está bem.
    Seu texto me fêz lembrar uma ex-amiga que quando indagada sempre respondia:
    “Eu tenho certeza, …eu acho”…
    beijos, rosa

  2. Lu querida de sempre , percebo que tua busca evolui em um momento de maior conhecimento , aceitação e serenidade . Segue em paz, tua amiga de sempre . Maryur

  3. As vezes a gente esquece que é possível “estar bem” e até isso você nos lembra com carinho e ternura. Só tenho a agredecer e pedir… “repeat please ” ! – Abraço. Mario Baccarelli.

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