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Por Sérgio Vaz
Nestes dias em que a primavera é devorada pelo inverno tardio, e que as flores, de tão tímidas e solitárias, se escondem no abrigo úmido das folhas, e que a dor que tem cor é tão comum entre meninos e meninas que dormem sujos nas calçadas frias da cidade, ou nos barracos tristes de madeiras fincados no solo sagrado desgraçado pela semente do capital, e que todos os poucos que mandam nos muitos que somos, e que nos odeiam apenas pelo atrevimento de gostar de literatura, eu respondo com uma pergunta: “sou da periferia, e daí?”
E daí, se nesta noite fria de quarta-feira, mais de trezentas pessoas surgiram de todos os lugares, dos becos e das vielas, de ônibus, de trem, ou só pra fugir da novela, para ouvir e falar poesia, no Sarau da Cooperifa?
E daí, se eram mais de cinquenta poetas, pretos, brancos, homens, mulheres, crianças, adultos, empregados-desempregados, taxistas, donas-de-casa, feministas, dentista, artistas, professores, gente de todas as dores, e todos eles sem papas na língua, mais a língua em riste, apontado para o coração frio da academia paulistana?
É. E daí?
E daí, se apesar de tudo que estava escrito pra gente não dar certo, deu errado? Não é de hoje que a gente está escrevendo que quer escrever, se você não leu, então quem é o analfabeto?
Se não é problema seu, também não é nosso, ou larga um pedaço do bife, ou a gente te fere com o pedaço do osso. E daí se a gente já não sente remorso?
E daí, se a gente gosta do ronco da cuíca, do sono leve do cavaquinho, se a gente não sabe tocar violino, e se o Beto não ouve quem é Bethovem, que me importa a data certa da safra do vinho? Se a gente pisa nas uvas, vocês que pisam nos ovos.
E daí, se o meu chulo linguajar vai ultrajar seu belo português (o tal manjar dos eleitos da raça pura e o calcanhar dos defeitos do povo duro), servido em talheres de prata para as bocas de ouro dos que cospem arrogância, e que cagam bravatas?
Queria ver vocês falarem inglês com sotaque francês estudando na quebrada, nessa escola pública que vocês dão, que mais parece privada.
*S´est la vie mon ami.
Pois é, filosofar na luz é mais fácil que no quarto de despejo. A Carolina do Chico não viu, mas a de Jesus, sabe do que estou falando.
O Preconceito me cansa, mas não me vence.
É nóis!
Sérgio Vaz é poeta, é escritor, é inventor de coisas boas e sempre que tenho chance passo a mão nos textos dele para publicar aqui no blog.
Cooperifa que neste dia 09/10 fez 7 anos de existência.
Obrigado pelo texto!
Sérgio,
seu português também é belo.
ml
Há tanta dor, neste texto do poeta, que dá para ouvir seus gritos. espero que a humanidade também escute que o preconceito é inadmissível. Maria Lucena
Milton… sou fotógrafo ha anos!!!… mas não postar nenhuma foto sobre a Pobreza, mas hj só quero deixar uma frase que ouví em uma palestra
” O futuro caminha para ter dois tipos de pessoas, os que não comem e os que não dormem…. os que não dormem, não irão dormir por causa dos que não comem… “.. é de se pensar nisso