Leia e ouça o texto da ouvinte-internauta Sílvia Cobelo oferecido a Diva Araújo
Faço este poema por encomenda
de uma amiga que não se emenda
em gostar do meu poetar.
Escreva sobre nossa cidade!
Diz ela, com curiosidade.
E lá vou eu a passear por Sampa, pelo centro,
Aonde vemos a cidade por dentro
Sem-tetos secam seus andrajos
nas grades de ventilação do metrô.
A Praça da Sé coalhada de seus eternos habitantes,
Distantes.
Exilados do mundo que os circunda.
A perambular ao acordar sem querer despertar.
Mas então tiro os óculos escuros.
A cidade se ilumina e se colore.
Visito a igreja do Carmo. De mil seiscentos e trinta e dois…
Lá dentro me encanto.
A pequena nave reformando.
O altar cheio de flores, o teto pleno de anjos e santos.
Voltava para casa, quando os sinos da catedral soaram.
Sinos de verdade, ecoando alto.
Pois era meio-dia, e todos o souberam.
Horário de missa, mesmo na cidade de asfalto.
Não resisti e entrei com os fiéis. Tenho a verve.
Chego aos céus sob o som da calma,
É o velho e potente órgão que penetra pela epiderme,
Tecidos, músculos, até chegar à alma.
Um ser se destaca. Fixo meu olhar por um momento.
Negro, com aparência daqueles que moram ao relento,
Rezava em outra língua, fervoroso, em adoração,
Com seu terço de contas de plástico rosa na mão.
A celebração acaba. Ele não vai embora. Tento lhe falar.
Mas não quer dizer de onde vem fala um inglês creole
e me avisa que vai meditar.
Pensei melhor e fiz o mesmo.
Quando saí o sol brilhava, mas não coloquei os óculos escuros:
Esta cidade merece ser vista sem filtros. Ser percorrida a esmo.
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