Por Suely Aparecida Schraner
Tem o céu como teto. Hotel das estrelas, ele diz. Vagueia sozinho com suas fortunas recolhidas das ruas. Tem a cabeça quase sempre coberta por um boné reciclado. A barba por fazer. É arisco e desconfiado. Gato no pulo, cão raivoso no ataque. Come pouco ou quase nada. Marquise é casa. Não mendiga. Afoga o medo e a fome na cachaça. Guardião dos córregos poluídos de esgoto. Se tem dez conto, bebe tudinho. Sem dentes, os olhos lacrimejantes. A cara queimada pelo frio, sol e chuva. Não tira o boné nem a calça de sempre. Tem um carrinho de madeira abarrotado de tudo que encontra por aí. Tá cansado das pessoas, das esguichadas dágua fria e dos palpites que lhe dão. Melhor andar sozinho. Ganha comida, às vezes. Senta e abre. Um cachorro aparece. Se reconhecem. Ambos surrados, pele e osso e muita sujeira. Dividem a comida e seguem juntos. Dividindo as sortes e os azares de sempre. Risadinha é o nome do cachorro. Dentes arreganhados ao menor pressentimento de que possam se aproximar pra aporrinhar. Ele e o amigo unha e carne, carne e unha.
Numa noite ruim, um carro funerário atropela . É como é conhecido, esse morador de rua. Venda casada falou o delegado, na ocorrência. No hospital, o doutor pergunta: O senhor bebe? Bebo sim e não minto, ele respondeu. “Desse jeito o senhor vai morrer aos poucos”. – Então tá certo, ele disse. Não tenho pressa mesmo…
Tempos depois está de volta às ruas. Procura que procura pelo cachorro. Anda que anda e pergunta que pergunta. Atropelado, sugerem alguns. Continua chamando: Risadinha, Risadinha! .
Ninguém no mundo está tão sozinho como esse velho de setenta anos, rouco de tanto gritar pelas ruas de Veleiros.