De pobreza

Por Maria Lucia Solla

Olá

Estou, faz dois dias, mergulhada na palavra pobreza, porque sei que palavras são idéias, e que idéias são fonte inesgotável de energia. Comprovadamente, por experimento científico. Assim, é possível mergulhar no ambiente que elas criam, experimentar seu conceito e avaliar a idéia que fazemos dele, e o uso que fazemos delas. Então, além do cérebro, é possível usar o corpo todo para perceber os conceitos. Depois, dependendo de cada um, também é possível torcê-lo para o ajustarmos à nossa conveniência. E o incrível é que nunca perdemos o direito de usá-las.

Pobreza provocou-me a sensação que muitas palavras provocam logo na chegada. Oposição –não contradição- e completude. Ela é cheia e vazia na mesma medida. Cheia de nada e vazia de tudo.

As palavras se prestam ao nosso contorcionismo social e nos emprestam seus sentidos. Nós finamos; e elas, flexíveis, sobrevivem. Como a palavra fim, por exemplo.

Mas voltando a ela, pobre da palavra pobreza. Hoje, tudo o que é horrível, é pobreza. Se o lugar é feio, é uma pobreza, se a carne está dura, é uma pobreza. O lugar é sujo, mas a gente vai lá e diz que é uma pobreza. Virou gíria curinga, mas foi levada, a pobre. Caiu na boca do povo, de pobres e ricos, indiscriminadamente. Hoje freqüenta rodas dos que se consideram suas únicas vítimas, e daqueles que se consideram imunes a ela. E ela dobra daqui, estica dali, e se entrega a cada um e a todos.

Quando eu era pequena, pobre era o homem que carregava um saco nas costas, a quem a gente se referia como o homem do saco. E os pais, sabendo que a gente morria de medo, ameaçavam que ele viria pegar se a gente não obedecesse. Um crime. Ele tocava a campainha para pedir um prato de comida, e eu tremia. Minha mãe preparava um prato imenso, enquanto recitava o mantra, meu Deus, que pobreza! Minha bisavó portuguesa batia os tamancos no chão e dizia, menina, você não viu nada. Vocês não sabem o que é pobreza. E eu acreditava que pobreza era sujeira, mau cheiro, cara feia e sacos apavorantes. Disso eu queria me livrar.

Quanto a outras sensações do meu mergulho, vou guardar. Portanto, só me resta desejar que sejamos cada vez mais pobres de doença, de ignorância, de egoísmo, inimizade, prepotência e ganância, e que sejamos cada dia mais ricos de curiosidade, criatividade, perdão e compaixão.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é cronista dominical do blog, mas provocada pelo Blog Action Day comparece nesta quarta-feira, também.

5 comentários sobre “De pobreza

  1. Armando,

    Legal a idéia de todos pensarmos a pobreza, não é? A maioria das pessoas com quem falei disse a mesma coisa que você. ‘Pobreza de espírito, realmente é a mais dura.
    Beijo,
    ml

  2. Olá querida!
    QUe sensível este texto. Maravilhoso e nos “enriquece” o espírito ler o que você escreve.
    Abaixo a pobreza: moral e espiritual!
    Beijo
    Sandra Tenório

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