Encontro

Por Dalva Soares Bolognini

Foi na quinta-feira. Véspera de feriado, final da tarde, sensação gostosa de trabalho realizado. Apanho um ônibus pertinho de casa para ir ao centro me reunir com amigos, comemorar o fim da semana e desejar felicidade pela Páscoa. Dentro do coletivo, mãe e três filhos ocupam dois bancos e a mulher se desloca para junto de duas crianças para que eu me sente junto a uma delas, a maiorzinha, que se encontra no assento junto da janela. Observo como é bonitinha, de feições delicadas, com cabelos divididos ao meio e amarrados no estilo maria chiquinha. Veste calça combinando com blusa curta e tênis com cara de bicho, tudo modinha evidentemente de pequeno preço. Várias caixas se encontram ao seu lado e sobre suas pernas.

Animada, inicio uma conversa:

– Quantos pacotes! Presentes de Páscoa? Bonitos, não?
– Este de cima é da minha irmãzinha – diz, levantando a caixa para que eu veja o conjunto de pratos, talheres e panelinhas verdes. – O meu é este de baixo, cor de rosa. E o outro é da minha mãe, e o jogo é do meu irmão.
– Muito legal, bacanas esses pratos e talheres. Dá para brincar muito. Eu também tive quando era pequena, mas não de plástico, que não existia.
– Nós fomos ganhar debaixo do viaduto.
– E ganharam também bolo, chocolate, ovo de Páscoa?
– Não, só isto.

Meu pensamento caminhou rápido pela aparência daquela jovem mulher negra de tipo miúdo viajando não sei de onde para aonde em São Paulo com três filhos pequenos e bonitos. Tentei adivinhar e voar até os baixos de um dos muitos viadutos da cidade onde presentes de Páscoa haviam sido distribuídos. Meu pensamento parou na seleção dos presentes: como, no século 21, ainda se estimula, com brinquedos, a definição dos papéis sociais de homens e mulheres? Meninos ganham jogos de piões ou xadrez e meninas ganham panelas, pratos e talheres? E como se organiza uma festa sem comida, especialmente na época do tradicional ovo de chocolate?

Ao mesmo tempo notei que a mãe estava curiosa para saber da minha conversa com a menina e querendo ser simpática com ela expliquei:

– Estou dizendo a ela que estes conjuntos de pratos e panelinhas são muito bonitos e que vai dar para brincarem bastante no fim da semana. Dá para fazer muitas “comidinhas” de Páscoa!
– É, dá, quando tem comida para pôr dentro…

Fiquei arrasada. Minha primeira reação foi calcular quanto oferecer àquela mulher para fazer um almoço de Páscoa para os filhos, sentindo-me culpada por estar indo a um happy hour no Café Girondino. Mas a família já se preparava para descer, por gentileza do motorista pela porta da frente e fora do ponto, o mais perto possível do outro ônibus que teriam de apanhar na Praça da Sé. Só deu tempo de ajudar a menina com os vários pacotes, a sair do banco onde estávamos e dar um chauzinho de despedida.

Seu nome é Ana Lívia e ela tem sete anos. Quantas existirão em São Paulo?

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