Ossos para o Natal

Por Marco Antonio Bin

Terminou de recolher os ossos, ao tempo em que um novo dia se espraiava. Viu os dois colegas pularem do caminhão carregado e da plataforma de carga, teve mais uma vez a idéia do quanto haviam dado duro para que o veículo pudesse sair na hora certa, a fedentina coberta de moscas se afastando progressivamente, sem que seus olfatos se dessem conta. Deixou os dois colegas e no caminho do banheiro, pôde confirmar intuitivamente que não haveria mais abates. O espaço reservado às reses estava vazio e o pessoal da matança se divertia num canto. Era uma situação muito rara essa de terminar o trabalho antes do almoço. Ele, como todos ali, trabalhou pesado, desde as três da manhã, mais de sessenta reses abatidas e carneadas, os ossos avermelhados escorrendo pela calha, até estalarem na plataforma de carga, no lugar que todos conheciam como o cu do frigorífico e de onde os caminhões encostavam, numa sucessão frenética, para serem carregados pelos três. Abriu o chuveiro, as gotas frias caindo, esparsas, por poucos minutos. Pelo espelho, enquanto enxugava-se, viu seus dois companheiros entrando para o banho. De si, guardou a imagem de traços fatigados, misturada a um sorriso que já fora de perseverança, enquanto penteava os cabelos ainda úmidos. Mais um Natal que surgia pegando-o desprevenido. Desejos de consumo que afloravam, presentes que se furtavam, seus filhos, promessas desfeitas, o emprego que não tinha como deixar. Despediu-se dos colegas e ao sair, não conseguiu sentir-se livre. Pensou em beber um trago no boteco, diante do ponto de ônibus, afinal ainda era cedo. Os amigos o convidaram para o bilhar. Bateu a mão no bolso, parte do dinheiro do vale estava ali, bem, por que não um joguinho? Tentou desabafar antes das tacadas, reclamando dos seus fracassos, que por serem também dos demais, caíram no vazio. Ninguém estava a fins de lembrar da vida, mas aproveitar o jogo e beber. Vieram à baila os prognósticos do campeonato italiano, comentários da prisão do Bola Sete, as mulheres do mundo imaginário e da vida real… e o tempo passou. Grogue, resolveu ir para casa, mais pela falta de dinheiro do que por vontade própria. A noite não tardou a pronunciar-se em sua languidez habitual.
Brincando na rua, o filho menor viu o pai se aproximar. Os demais filhos e a mulher o receberam, num silêncio ainda mais grave que de costume. O mesmo homem, bêbado, cansado, desgostoso. Ele tirou da mochila um belo osso com alguma carne em seus interstícios, pôs na mesa junto com a roupa suja e foi para o quarto, desabando na cama até o dia seguinte.

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