De ser feliz

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Estava pensando, aqui com os meus botões, no que é ser feliz, e então comecei a enumerar os caminhos que o mundo moderno indica para chegarmos à tal da felicidade.

Diariamente somos bombardeados com a idéia da juventude eterna e do belo absoluto, e entendemos que só seremos felizes se tivermos a aparência do momento, da moda, do gosto atual, que muda mais rapidamente do que é humanamente possível acompanhar. Num dia, belo quer dizer cabelos crespos e curtos, e quadris delicados e levemente arredondados. No outro, belo quer dizer cabelos lisos e longos, e quadris largos e fartos. Do delicado bumbum feminino passou a ser exigido um tônus muscular excepcional. Dos lábios finos e delicados da mulher exige-se mudança radical. Devem crescer e engrossar; todos! As mulheres excluídas do rol das consideradas belas correm aos consultórios legais e/ou ilegais em busca de qualquer tipo de substância que as ajude a entrar no clube das beiçudas.

Peeling, para que não haja sombra de manchas, é preciso; silicone nos seios para deixá-los maiores e duros; Botox para que não haja vestígio de ruga, é preciso. Cremes de colágeno e vitamina C, entre tantos outros, são indispensáveis; e se não temos meios financeiros, tempo ou estômago para uma ou duas plásticas por ano, estamos irremediavelmente excluídas do time das belas.

É preciso malhar, é preciso ser magro, magérrimo de preferência. É preciso ter o carro do ano, o considerado de elite. Você gosta de certo modelo, de certa linha? Jamais! Está fora de moda e não dá status.

Os homens que antes viviam contentes consigo precisam malhar e aumentar os hoje famosos bíceps e tríceps. Isso era linguagem de médico, quando eu era adolescente, e hoje está na boca dos meninos e meninas, quando aprendem a falar. Precisam ter barriga de tanquinho, aquele que saiu de moda na área de serviço e entrou na moda na anatomia. Falhar na hora do sexo traz condenação irreversível. Viagra, é preciso; cremes, visitas à dermatologista e plásticas, são indispensáveis. E o homem já não sabe muito bem quem é.

As meninas não comem, e morrem. Nem chegam a crescer para experimentarem todas as possibilidades oferecidas para serem mais belas e felizes. Os meninos tomam bola tentando fazer sair dos seus próprios padrões, músculos que deveriam ser fortes para sustentar o esqueleto. E morrem mais cedo.

É preciso que nossos filhos sejam doutores, empresários ou famosos, magros e bonitos, para que sejam felizes e para que possamos ser felizes através deles. E somos? Não. Sofremos. Jamais conseguiremos ser o que não somos. Jamais conseguiremos seguir o ritmo da moda, que muda num padrão tão diferente do nosso. A pele abundante já não cabe mais em nossas formas, mas deve encolher, na contramão da vida. Nossas rugas surgem, mas devem desaparecer, na contramão do tempo. Vivemos na contramão, perigosa e tristemente.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça o texto na voz da autora:

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora, e escreveu o livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês .

11 comentários sobre “De ser feliz

  1. Oi Lùzinha , como é agradável ler e ouvir teu texto
    sempre sensivel , sempre inteligente , sempre focado . Obrigada por mais um bom começo de domingo . Bjs Maryur

  2. Olá M.L
    Mais um belo texto.
    Parabéns!
    As pessoas valorizam os outros e a sí proprios pelo que tem, pelo saldo em suas contas bancárias, pelos carros de luxo, pelos telefones celulares mais lindos e avançados, pelos seus lindos corpos sarados, bronzeados, pelas viagens que realizam, mas infelizmente tamanho é o materializmo, o consumismo desenfreado que esquecem-se do “SER” e assim o ter permanece.
    Até quando?
    Será medo da realidade nua e crua?
    Medo da vida?
    Medo do efêmero?
    Mais impressionante é que os próprios pais dos jovens pregam o ter o poder a ganância, o materializmo.
    o “TER” consciente se faz necessário, porém em harmonia com o “SER”
    A beleza não existe somente no externo, mas principalmente no interior de cada um.
    Abraços

  3. Olá querida!
    É a dura realidade destes dias atuais. Posso te dizer que esta cobrança por uma magreza acima do normal me fez quase pirar nos meus tempos de modelo em Milão. “Meno male” que consegui me manter centrada e optei por trabalhar menos mas ser feliz (com meus 57 quilos em 1,80m). Quase uma “obesa” para os padrões de algumas anoréxicas com que trabalhei. Uma loucura!
    Ser feliz é uma questão de estado de espírito mesmo e neste momento a minha felicidade é simplesmente estar aqui te escrevendo, cercada pelos meus filhotes e me preparando para mais um trabalho que começa amanhã.
    Grande beijo
    Sandra Tenório

  4. Vivemos num mundo competitivo.
    O momento é dos corpos esculturais, de acordo com a circunstância. É dela que o mundo vive.
    Prefiro viver a idade. A cada dia ela me traz coisas novas e a moda, apenas circunstâncias do momento.
    Abraço.

  5. Mari, my dear student,
    só “gente grande” enxerga, nas pessoas e nos acontecimentos, oportunidade para crescer.
    Rafael,
    agradeço a tua visita, como sempre. E é sempre bom “ouvir” as tuas palavras.
    Boa semana aos dois.
    Beijo,
    ml

  6. Oi Maria Lúcia,
    eu também acho, quando a gente está legal interiormente com certeza a aparência é agradável para nós mesmos e para os outros. Não podemos negar também que a sociedade induz e praticamente impõe valores às pessoas e aí é que a porca torce o rabo, não são todos que tem segurança, auto confiança, equilíbrio interno para lidar com tudo isso e sujeitar-se inclusive a ficar à margem da sociedade, não ser aceito por ela. Por isso acho admirável quem consegue este equilíbrio tão difícil, e não só, ajuda outras pessoas a conscientizarem também.
    beijos, rosa

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