Essa coisa que nos falta

Por Carol, Karina e Hanna Jatobá

“Há 9 anos Luiza Jatobá foi assistir à um filme num dos cinemas do Shopping Morumbi e não voltou. Um atirador entrou na sala do cinema e, sem maiores empecilhos, disparou com uma arma automática vários tiros contra a platéia, matando 3 pessoas, dentre elas, Luiza.

O tempo passa muito rápido, rápido demais. E aquela sensação de que Luiza está apenas viajando e já vai voltar continua nas entrelinhas das conversas de todos os que a conheceram. No entanto, se todo dia dezenas (ou centenas?) de pessoas são vítimas da violência no Brasil, por que esse caso em especial merece ser citado? E a resposta é: por que não? Por que aceitar a estatística como “cala boca”? Por que balizar um ato de violência em função de outros, para numa lógica surrealista aceitar e silenciar as perdas?

As perdas neste país precisam começar a se tornar inaceitáveis, para inaceitável começar a se tornar a ausência de justiça e, como conseqüência, tornar-se inaceitável a ausência de país. Só assim vamos sair do estado de sítio para o estado de direito. Uma das maiores virtudes do brasileiro é a capacidade de adaptação às dificuldades. Nas artes, nos esportes, na iniciativa privada, etc. Ironicamente, no entanto, essa criatividade é nosso maior defeito quando se trata de cidadania, uma vez que temos achado mil paliativos para nos adaptar à violência, mas não para combatê-la. Como no futebol, driblamos o problema, contornamos a questão, mas não paramos na frente deles e realmente os enfrentamos. Se estão atirando nas pessoas dentro dos carros, blinda-se os carros (os poucos que podem); se o ladrão quer levar a carteira, prepara-se uma carteira-estepe com algum dinheirinho e sem os documentos. Se naquela esquina tem havido muitos assaltos, mudamos de caminho. Somos realmente bons de drible. Mas chegou a hora de encararmos os fatos: ninguém dribla uma submetralhadora. Ela é mais rápida que mil Garrinchas. Ninguém mata uma bala no peito e sai jogando. É sim, o contrário.

Você, que está lendo isto, muito provavelmente não conheceu Luiza Jatobá, não conhece suas 3 filhas, Carol, Karina e Hanna, não sente sua falta e não sabe como sua vida profissional e familiar davam um significado especial à palavra mulher. Mesmo assim, você, que está lendo isto como tantas outras notícias que vai ler amanhã, precisa parar de aceitar. Precisa começar a procurar, também em você, essa peça que nos falta. Essa coisa cuja ausência nos faz a todos, como brasileiros, estar sendo menos do que podemos. Essa lacuna que uns chamam complacentemente de falta de memória e que outros sociologicamente dizem ser preenchida pela “síndrome do jeitinho brasileiro”. Isso que, seja qual for o nome que se dê, nos incomoda há gerações como um defeito congênito. Não aceite mais essa explicação, não acredite que isso faça parte do seu DNA. E, principalmente, não acredite que o inimigo é só a violência. Os inimigos são também nossa própria passividade e a de todos aqueles que deveriam defender o interesse da justiça acima de seus próprios interesses.

Justiça, esta palavra tão surrada e desacreditada que, no Brasil, significa hoje o contrário de sua própria definição. Você, que é mãe, pai ou filho de alguém como todos representados aqui, precisa sair do papel confortável de cidadão-light para efetivamente pressionar, cobrar e exigir do chamado “poder-público” que se coloque, ele sim, na linha de tiro. Visto lá de cima, onde Luiza está, o Brasil é um país grande. Mas, mesmo daqui debaixo, vê-se que este país grande ainda precisa de algo para ser um grande país. Está faltando essa coisa que faz a diferença entre um rebanho e um povo. Porque um povo, como podemos ser, não aceita passivamenre o próprio abate”.

Carol, Karina e Hanna são filhas de Luiza Jatobá, assassinada no dia 3 de novembro de 1999, durante o ataque à bala em um cinema do Shopping Morumbi. Mais duas pessoas foram mortas no caso que ficou conhecido como o do “Atirador do Shopping”..

Um comentário sobre “Essa coisa que nos falta

  1. Caro Milton,
    Antes de tudo comovente, lúcido, coerente,verdadeiro esse depoimento. Poderia usar mil adjetivos e não conseguiria dizer o que sinto. Bravas Carol,Karina e Hanna, não conheci sua mãe, mas por intermédio de quem voces são, sei que foi maravilhosa.
    É essa passividade dentro da nossa sociedade o que mais me dói.

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