Em duas mensagens assinadas pelo poeta Sérgio Vaz, criador e criatura da Cooperifa, se tem um panorama do que está acontecendo na Mostra Cultural que se iniciou na quinta e vai até domingo.
Leia:
QUINTA – 20.11
A Mostra Cultural da Cooperifa está a todo vapor e ninguém quer perder o trem da história. Ontem foi dia da literatura, e como a Cooperifa é literatura pura, e que brotou da periferia, não podíamos escolher um nome melhor para o debate: “existe uma escrita periférica?” E Para discutir sobre o tema, teríamos que chamar milhares de guerreiros e guerreiras para o embate, mas como isso não foi possível – pelo menos nesse dia pois as discussões não para por aí-, fizemos uma mesa simples, com Ferréz, Sacolinha e Marcelino Freire para refletirmos sobre o tema, que aliás, rendeu uma boa discussão.
Mas o melhor de toda esta discussão foi o público que lotou o espaço da “Casa de Cultura M´Boi Mirim” para prestigiar a batalha literária. Particularmente fiquei muito emocionado com a cena, pois, era mais ou menos 18h quando começou, e a gente estava realizando um debate sobre literatura, no Largo de Piraporinha, extremo sul de São Paulo. Ou seja, estávamos não só fazendo história, mas mudando a bússola da literatura que na maioria das vezes só aponta para o centro, e que desta vez teve a periferia na sua rota. Uma hora, estes dois lados tem que se encontrar, quem sabe neste dia o país vire uma nação. Ontem parecia ficção, mas era realidade.
*Obs. como não tinha nenhum cadáver sangrando na calçada, ninguém da imprensa apareceu para registra a história.
SEXTA – 21.11
Ontem foi o dia do cinema na Mostra Cultural da Cooperifa, e para isso, trouxemos do México (via centro Cultural da Espanha), direto para a periferia, antes de estrear na sala Cinemateca (centro de SP), a Mostra “AFRICALA” de cinema africano. E de lá vieram filmes de Moçambique (ILove You), Quênia (Charcoal Taffic), Quênia (Subira),
Ruanda (Confession), entre outros. Vieram também filmes de cineastas da quebrada, como “Hip hop África Brasil” de Daniel Fagundes, “Laróyè” de Rogério Pixote, “Carolina de Jesus” de Jeferson De e “Defina-se” dos diretores Tupac, Daniel
Hilário e Kelly Regina, que fizeram a ponte entre os dois continentes.
E como diria minha filha:”Foi mó bom”.
No Dia da Consciência Negra rolou uma tarde/noite inteira de filmes interessantes, que não têm nada a ver com o “cinemão” norte-americano, e que atravessaram fronteiras e continentes para chegar até a nossa mostra, que acontece no continente periférico do Brasil. Axé pra nóis! Antes rolou um debate fervoroso sobre o tema com os cineastas Sérgio Gagliardi, Rogério Pixote, Jeferson De e Daniel Fagundes, que
debateram e esclareceram um pouco sobre o que é fazer cinema sem grana, e com grana, e se há ou não uma estética periférica, se o povo gosta ou não de cinema, e por aí foi… quem não foi perdeu a cena, aliás, quem não foi, queimou o filme.
A Periferia debatendo sobre cinema… quem diria que um dia íamos ver esse filme? E quem diria que seríamos nós os protagonistas desta história? Dirigidos por nós mesmos, a vida tem chance de um grande final feliz.
Luz, Câmera, Ação! É nóis !
Nesta quinta pude conhecer um jovem poeta que está participando e divulgando a COOPERIFA, isso foi na BALADA LITERÁRIA, no T.Brincante. Não me lembro do nome do jovem, problema de memoria, o que eu guardei foi sua sensibilidade expressada no seu trabalho que apresentou para nós. Com o que o jovem poeta nos mostrou, dá para imaginar que tem muita cois boa sendo criada na periferia.
Miltom,
Tudo isso acontecendo na periferia de São Paulo, e como não tem nenhum corpo sangrando na calçada, ninguém da imprensa apareceu para registar o lado bom das pessoas, que apesar de tudo e de todos, ainda sonham com poesia.
Valeu pela força.
É nóis!
Sérgio Vaz
camelô das letras