
Foram mais de três de horas de celebração em um bar popular de Piraporinha, bairro da zona sul de São Paulo. Os cerca de 300 convivas não couberam nos dois andares em que a estrutura da festa foi montada e a praça na rua Bartolomeu dos Santos transformou-se no puxadinho para abrigar a todos. A concentração apenas se desfazia para deixar passar o ônibus que sai dali e roda 23 quilômetros para chegar a Praça da Sé.
Neste cenário, sob o comando de Sérgio Vaz, criador e criatura da Cooperifa, foi entregue o troféu Sancho Pança, o defensor dos sonhos, àqueles que estiveram ao lado do movimento que promove, religiosamente, às quartas-feiras, o Sarau Literário, e durante o ano todo ações culturais que destacam o trabalho desenvolvido pela periferia paulistana.
Sonho foi das palavras mais repetidas entre os homenageados que faziam questão de destacar a importância do espaço cultural que se transformou o Bar do Zé Batidão, apelido do dono, um mineiro que serve uma ótima feijoada, um prato batizado de escondidinho , cerveja, refrigerante e muita poesia. O Sarau, criado há sete anos pela Cooperifa, oferece microfone a todos que arriscam se expor diante do público, nunca menos de 150 pessoas.
Dentre os premiados, gente conhecida como Ferré que aproveitou o momento para convocar voluntários para o trabalho que realiza com jovens desassistidos na zona sul da cidade. Gente que eu não conhecia, como um garoto que não deve ter mais de 12 anos muito aplaudido e que ao receber Sancho Pança agradeceu: Obrigado, Sérgio, por me ensinar a ser poeta.
Eu estava lá, também, porque a CBN foi escolhida para receber um dos Sanchos devido ao trabalho realizado no CBN São Paulo que trata da cultura da cidade. E que tem como cidade tudo aquilo que acontece no centro, nos bairros, e na periferia, também.
Reproduzo em seguida o texto de Sérgio Vaz que apresenta a idéia do troféu Sancho Pança:
Povo lindo, povo inteligente,
o prêmio Cooperifa não parece, mas é um prêmio literário, criado em 2005 para estimular à leitura e à criação poética, principalmente aos frequentadores do sarau da Cooperifa, um incentivo aos poetas que não paravam de chegar ao nosso quilombo, e as pessoas da comunidade de Piraporinha e entorno (Zona sul de SP) que viam na poesia um meio de comungar a palavra, e um caminho mais curto para o livro, e para a cidadania.
Mas o sarau da Cooperifa não é feito só de poetas, apesar de toda poesia que envolve o lugar, e com o tempo, outras pessoas de outras áreas culturais que fortalecem o movimento, também foram chamadas para serem premiadas, assim como alguns líderes de bairro, pessoas que frequentam assiduamente o sarau, professores, entidades, gente que faz e acontece, jornais revistas, fotografias, eventos, o rap, o samba, espetáculos, etc.
Mas que principalmente tenham ou tiveram algum tipo de vínculo com a Cooperifa, que ajudam a promover, engrandecer e divulgar, através dos seus atos, tudo aquilo que o nosso movimento acredita: que uma outra periferia é possível!
Por isso, o prêmio, não é um presente aos melhores da periferia, até porque, são tantas as pessoas maravilhosas -e na sua maioria anônimas que ajudam a construir este país-, que não haveria prêmio para tantos guerreiros e guerreiras. Axé para todos eles!
E se a gente pensar bem, para o que é que servem os prêmios?
Para os que lutam uma vida inteira, o suor, a lágrima e muitas vezes o próprio sangue, é quem determina quem são os heróis e as heroínas deste Brasil afora. E se o país ainda resiste a todos os tipos de injustiças e desigualdades, é porque eles existem, não os prêmios.
Quem dera os nossos braços fossem maiores para alcançá-los.
O Prêmio Cooperifa é um pequeno reconhecimento a estes heróis e heroínas que estão à nossa volta, ao nosso alcance, e que apesar de tudo e de todos, ainda acham tempo para sonhar, por si, e pelos outros. E que nem mesmo a dureza de um dia de trabalho ou a falta de, é capaz de afastá-los da busca pela poesia, o néctar tão necessário para suportar o doce e o amargo do dia-a-dia.
E eles, nossos amigos e parceiros, por estarem tão perto , é mais fácil tocá-las(los) , acariciá-los (las) premiá-las(los), e é o que a gente queria que também acontecesse em todas as quebradas onde os nossos olhos não vêem, e que que infelizmente, muitas vezes, nossos ouvidos não escutam.
O Prêmio Cooperifa não dá retorno financeiro, muitas vezes, nem sequer prestígio, porque a eleição (sim, há uma eleição!), e feita por uma comissão de poetas e pessoas que coordenam o projeto, e de forma simples, os nomes são aprovados ou não, e mesmo depois de tantas discussões e contagem de votos, a gente sempre esquece de alguém. É a única hora que a gente sabe que o prêmio tem o seu valor.
Mas ainda assim vale o risco, um discurso não é nada sem a prática.
Há os que fazem. Há os que julgam. Gostamos de fazer. Já há juízes demais.
O Prêmio era para ser uma abraço, na verdade é, só que nós o materializamo em bronze, na figura do aprendiz de sonhador “Sancho Pança” fiel escudeiro de Dom Quixote, para que os nossos amigos possam pendurá-lo nas prateleiras de suas casas, para que seus amigos possam ver que foram abraçados pela Cooperifa, assim, como nós fomos por eles.
É isso. Nada mais.
Sérgio Vaz
Sérgio na entrega do prêmio Sancho Pança
Muito bom trabalho da Cooperifa e também da CBN.
Milton,
valeu pela presença. Pelo respeito. Pelo trabalho.
É tudo nosso!
Abs.
Sérgio Vaz
Se em cada uma das grandes capitais brasileiras tivessem uma Cooperifa, indubitavelmente o Brasil seria bem melhor!
A Cooperifa é um exemplo a ser seguido por todos os bairros das cidades do país, para que desta forma possa ser levado ao conhecimento das pessoas a necessidade e a importância de incentivar e promover-mos ações culturais e humanitárias e sobretudo buscar-mos a valorização de uma saudável amizade.
Parabenizo o Sérgio Vaz pela brilhante iniciativa e pela forma em que tem conduzido o projeto e parabenizo também o Milton jung e a CBN pelo respeito, pelo carinhoso e importantíssimo apoio que sempre tem demonstrado para com a nossa periferia.
Abraços a todos.
Zezé Dias
http://www.aguasevidas.blogspot.com
Muito interessante o prêmio, ainda mais porque é da Cooperifa, pela qual tenho grande admiração. Não sei se alguém se lembra, mas Sancho Pança é uma espécie de contraponto aos delírios de Dom Quixote. É por seus olhos, inclusive, que o leitor, muitas vezes, conhece a realidade. Como quando Dom Quixote se avança contra os gigantes, e Sancho Pança procura convencê-lo de que são apenas moinhos de vento. Muito a CBN também, que nos mostra quem são os gigantes ou apenas moinhos de vento.
Abraços
Vera