O gari, o motoqueiro, a bancária e a honestidade

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Gari Cheque

“Que o Brasil siga seu exemplo”, foi o que ouviu da bancária Ana Luísa, o gari José Gomes da Costa, Sucesso, que havia encontrado cheque de R$ 2.514,00 no lixo e o devolveu ao dono. Pela manhã, ele foi recebido com abraços, lágrimas e orgulho por seus colegas varredores. À tarde, foi aplaudido na Lapa pelas pessoas que se aglomeravam diante da agência do Banco do Brasil, na rua Clélia, para assistir à devolução ao motoboy Renato Pedro Silva que transportava o cheque quando o perdeu, em 18 de maio. Às 10 e meia da noite, Sucesso partiu de trem para Francisco Morato, região metropolitana de São Paulo, onde mora em um bar-garagem com pequenas divisórias.

A hora certa de parar

Por Abigail Costa

Vira e mexe esse assunto entra em pauta. Falo da minha aposentadoria. Não como um fim de linha profissional, daqueles de calçar os chinelos, de começar a pensar em curso de ponto cruz.

A aposentadoria que espero tem que ser uma mudança de estilo de vida. Compromissos sim, mas de forma mais relaxada.

Estava na academia na  hora marcada para começar e terminar os exercícios físicos e esbarrei com uma mulher, já não tão menina. O que me chamou a atenção foi a maneira pausada de se exercitar. A troca de aparelhos era feita sem pressa. Imaginei: ela certamente não tem hora marcada para chegar ao trabalho, depois entrevistas já agendadas uma seguida da outra – nunca levam em consideração a distância e o trânsito -, e a necessidade de entregar tudo pronto antes de o sol de pôr.

Tudo absolutamente cronometrado.

Fiquei curiosa e perguntei para a moça de roupa preta colada ao corpo que delicadamente ainda dispensava bons momentos se ajeitando no espelho:

– Oi! Por curiosidade, quantas horas você fica aqui?

– Eu? Umas três, quatro. Chego por volta das sete da manhã, quando saio vou direto para o almoço.

A minha resposta foi um  NOSSA!  meio desconsertante. Estava na cara – na minha cara – a mistura de sentimentos.

Primeiro, será que ela não tem o que fazer? Em seguida, hum, gostaria de estar no lugar dela!

Tudo sem pressa. É assim que penso no meu descanso pós-30 e alguns anos de trabalho.

Quero tempo para pensar e fazer sem hora, minuto ou segundo me perseguindo. Sem ter que ouvir o telefone tocar perguntando se já estou pronta. Quero ir e voltar quando terminar. Não porque tenho que voltar.

Quero um curso, sem ter a necessidade de ler o livro correndo porque dele depende uma boa nota. Quero conversar até tarde, sem a obrigação de acordar cedo.

E no dia seguinte um banho demorado, um café da manhã preguiçoso, depois pensar:  o que fazer?

Quando digo isso a alguém, tem sempre o estraga prazer:
– Imagina,  você não vai conseguir levar uma vida tranquila.

Como se longe do cronômetro diário eu deixasse de produzir.

Para esses afirmo: Quero, sim, minha aposentadoria daqui um tempo. Sabe por quê ?

Quero mais tempo pra mim! E nunca ouvi dizer que alguém ficou doente por NÃO se sentir estressado !

Abigail Costa é jornalista e espero que jamais abra mão de escrever todas as quintas no Blog do Milton Jung, mesmo quando se aposentar

Adote um Vereador na MTV

A campanha Adote um Vereador foi destaque no comentário político do jornalista Marcelo Soares, na MTV, que mantém o Blog E Você Com Isso, que considerou a iniciativa como uma das formas mais eficazes para se transformar o legislativo. Marcelo alerta que se você não se lixa para o político, ele também não se lixa para você. Assim, quanto mais distante do parlamento, mais gente como o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), meu conterrâneo infelizmente, conquista espaço no legislativo.

Hoje, aliás, Moraes agradeceu aos jornalistas pela divulgação que deram ao nome dele. O camarada está contando com a memória curta dos brasileiros. Ano que vem, na hora de escolher um deputado federal, talvez o nome dele se destaque entre tantos outros que estejam concorrendo, mas o eleitor não lembre mais os motivos que o levaram a aparecer na mídia.

Se você estiver atento ao trabalho no Legislativo não será vítima deste esquecimento. Adote um vereador. Adote um deputado. Adote um senador. Adote esta ideia.

Da Móoca ao Morumbi, nunca mais ?

Por Carlos Magno Gibrail

Cena do curtametragem Escola de Meninos (Andre Cherri/Flickr)

A escola da Móoca que o Governador José Serra estudou foi para o noticiário policial; as escolas de São Paulo estão em posições surpreendentemente desfavoráveis nos rankings nacionais; professores de universidades de ponta detectam queda no nível dos alunos.

Não se educa mais como antigamente? Ou não se estuda mais como antigamente? As crianças e os jovens não são mais bem informados e espertos do que no passado ?

Acredito que a resposta “sim” vale para todas as questões acima, acrescentando que a abertura do ensino e a falta de um método cientifico de avaliação explicam a “inexplicável” situação da educação no Brasil.

Professor da FEA USP, Nelson Barrizzelli atesta o primeiro “sim”:

“Como professor universitário de uma das escolas mais conceituadas deste país, vejo com tristeza que a cada ano o nível dos alunos que chegam à Faculdade é pior do que os que chegaram nos anos anteriores. Isto é uma demonstração cabal de que estamos falhando nos níveis elementares e intermediários”.

Indagado a respeito de uma solução, pondera:

“Acredito que a educação no Brasil só atingirá níveis compatíveis com nossa necessidade de futuro, quando o ensino fundamental e o ensino médio voltarem a ter a qualidade que tinham anos atrás. Há 30 ou 40 anos um aluno que deixava a escola após o científico ou clássico tinha nível de conhecimento adequado para o seu desenvolvimento, mesmo sem acesso à Universidade”.

E dá um recado:

“Não esqueça de que tudo isso pode ser mudado se o voto se tornar facultativo. Precisamos sensibilizar a imprensa a respeito. O Milton poderia começar esse movimento no programa dele.”

A psicóloga Ceres Alves de Araújo declarou à VEJA:

“São Paulo foi a primeira cidade do Brasil a entrar na onda das escolas liberais e construtivistas. O professor perdeu a autoridade e os caminhos individuais para a aquisição de conhecimento forjaram alunos autônomos , porém indisciplinados”.

O que é ruim para desafios de concursos e provas, ao contrário do perfil dos colégios campeões.

Do MEC, há três semanas, saíram  sugestões entre as quais a  expansão da carga horária e a interdisciplinaridade de leitura  e de arte e cultura. Certamente melhorarão o cenário atual. Entretanto para melhor entender o momento  é preciso levar em conta a expansão  quantitativa de alunos e o crescimento  da classe C neste contexto. Principalmente em  São Paulo  onde ela representa 55% da população. E, dos 493 colégios da cidade, 182 cobram menos de 500 reais de mensalidade. E “mensalidade é um indicador de qualidade” como lembra o Prof. Arthur Fonseca Filho do Conselho Estadual de Educação.

Daí a prova do ENEM fica distorcida e escancara uma falha gritante de avaliação. Exatamente na educação, ignora-se a técnica. Quando foi usada, em 2001 a Marplan elegeu o Colégio Porto Seguro no Morumbi o melhor da cidade, agora o 452º do ranking do ENEM.

Até mesmo um especialista, o economista Gustavo Ioschpe e colunista da VEJA fica confuso:

“É um mistério que os colégios da elite paulistana não se saíam bem no ENEM”.

O mistério é por que até agora não se aplicou a técnica usada nas eleições ou nas pesquisas de produtos, onde se respeita a amostra de mercado e a segmentação dos consumidores.

É hora de chamarmos os especialistas. Os pesquisadores de mercado, os pedagogos e os psicólogos.  Inclusive para os problemas de violência, principalmente se a intenção for reabrir a rota Móoca-Morumbi.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e toda as quartas escreve no Blog do Milton Jung

Veja mais imagens no álbum de Andre Cherri, no Flickr

Canto da Cátia: Gente sem canto

Sem-teto2

Povo da rua improvisa abrigo para dormir no centro de São Paulo, ao mesmo tempo em que a prefeitura faz mudanças na política de assistência social com fechamento de abrigos e cancelamento de contratos com ONGs que prestam atendimento aos sem-teto. A imagem foi feita pela Cátia Toffoletto que, no início da manhã, mirou seu celular para o tema.

Honestidade não se acha no lixo

Por Denir Amâncio
ONG EducaSP

O gari honestoJosé Gomes da Costa, 35 anos, o “Sucesso”, trabalha como Gari e encontrou um cheque no valor de R$ 2.514,00 em um lixo na Rua Maria Paula, em frente à Câmara Municipal de São Paulo. “Sucesso”, alagoano de Arapiraca, pai de quatro filhos, ganha R$ 636,00 como varredor de rua.

Nesta terça-feira 19.05, foi o primeiro a chegar à Biblioteca dos Garis, Praça da Bandeira, Centro. Quer devolvê-lo para o dono. “Sucesso”, mesmo endividado, vive sorrindo, e está desesperado para arrumar uma namorada.

O recado dele: “Ninguém perde por ser honesto”.

Foto-ouvinte: Paulista em pedaços

Mosaico na Avenida Paulista

Após a reforma da calçada da Avenida Paulista, se iniciaram as intervenções que já deixam cicratizes no piso. As imagens são do ouvinte-internauta Eurípides Romão* indignado pelo desrespeito com o passeio público. E com o dinheiro público, também, pois o investimento previsto era de R$ 8 milhões.

Na mensagem enviada ao CBN São Paulo, ele alerta que “se não brecarmos estas práticas já, em um ano a calçada da maravilhosa Avenida Paulista voltará a ser o que era antes da reforma”. O que me chama atenção é que supostamente o novo piso facilitaria o acesso das concessionárias aos equipamentos subterrâneos.

Serviço de porco, diz secretário das Subprefeituras

As prestadoras de serviço que estragaram o piso da avenida Paulista serão multadas, segundo o secretário das Subprefeituras Andrea Matarazzo por que realizaram um “serviço de porco”. Ele disse que as empresas estão informadas de que o piso usado na Paulista exige a retirada de um bloco inteiro de cimento para que na recolocação não fiquem remendos como os vistos nas imagens acima.

Ouça a entrevista do secretário das Subprefeituras, Andrea Matarazzo

* Por descuido deste jornalista havia grafado o sobrenome do ouvinte-internauta errado. Minhas desculpas.

Foto-ouvinte: Está na rua, Lula 2010 !

Terceiro mandato

O deputado federal Jackson Barreto (PMDB-SE) vai apresentar proposta de emenda constitucional para que o presidente Lula concorra ao terceiro mandato dentro de um mês, conforme disse a Terra Magazine, mas a campanha já está na rua. A constatação é do ouvinte-internauta Paulo Capelo após ver a faixa estendida no Paço Municipal de São Bernardo do Campo, ABC Paulista, durante a Virada Cultural promovida pelo Governo de São Paulo.

Procura-se um ícone do Ipiranga. Dom Pedro, não vale

Era um riacho e por lá passava Dom Pedro I quando decidiu gritar pela independência, no século 18. Talvez nem tenha dito nada tão imponente como aparece nos livros de história, mas foi suficiente para colocar o Ipiranga no mapa do Brasil. Verdade que a região só foi entrar no mapa de São Paulo lá pela segunda metade do século 19 com a estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí integrando o vilarejo ao restante da cidade.

Do bairro industrial dos anos 70, o Ipiranga se transformou em residencial. E horizontal. Construtoras tentam ocupar os vazios urbanos que ainda existem e se esforçam para valorizar a cara de interior que persiste na região. A Gafisa lançou campanha para  descobrir os novos ícones do bairro.

Da maior família que ainda mora por lá ao casamento mais antigo do Ipiranga. Da pessoa mais alta ao que tem maior número de amigos no Orkut. Do nome mais comprido a melhor nota no ENEM. Do dono do carro mais velho à pessoa mais viajada. Todos que comprovarem ser merecedor de um desses títulos podem ganhar Ipods, canetas, GPS, malas e viagens, dependendo a categoria. Quem indicar os nomes também leva.

Claro que tudo tem seu preço. As inscrições e apresentações serão em um dos estandes da construtora e, certamente, você terá de ouvir aquele papo de vendedor. Mas fique tranquilo, é sem compromisso.

Saiba mais no site do “Procuram-se Ícones do Ipiranga”.

Morador de rua faz teatro em São Paulo

“O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir ?”

“O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir ?”, pergunta o escritor Sebastião Nicomedes que extrapolou o estigma de sem-teto que sempre lhe foi reservado fazendo arte, literatura e teatro. Ele é o autor do monólogo “O Homem Sem País” que estreia semana que vem em duas apresentações para professores e alunos da Uninove (na sede da Barra Funda, dia 25; e na de Santo Amaro, dia 26).

Em junho, Sebastião almeja ocupar apenas com moradores de rua a plateia diante do palco que será construído no Parque da Juventude, em São Paulo. Cartazes serão distribuídos em abrigos, repúblicas, albergues, casas de convivência e nas praças para mobilizar o que ele batiza de “atores principais”.

Nesta semana, foi destaque, também, na revista Época em reportagem assinada pela jornalista Eliana Brum:

Tião Nicomedes é escritor. E, por ser um homem sem teto fixo, inventou-se para ele o título de escritor de rua. Porque toda identidade dele se dá no lado de fora das portas, numa vivência entre aqueles que não apenas são destituídos de casa, como perderam os laços com família, emprego, contas a pagar, refeições com horários, finais de semana de lazer, tudo aquilo que constitui a identidade do homem inserido na sociedade, o homem bem ajustado. Tião estreia na próxima segunda-feira, num circuito de universidades e espaços alternativos, um monólogo que nomeou de “O homem sem país”. Logo abaixo, no cartaz do espetáculo, feito por ele em computadores de lan houses do centro, ele diz: “O que é cidade de origem pra quem não tem mais para onde ir?”.

É profunda a indagação de Tião Nicomedes. Perguntei a ele de onde veio essa pergunta. Tião responde que fica incomodado com programas para moradores de rua, assim como discursos de autoridades, que defendem a necessidade de devolver os sem-teto ao lugar de onde vieram. Mas, diz Tião, como voltar se não há mais nada lá?

Leia a reportagem acessando aqui