Conte Sua História de SP: A geladeira do seu Cândido

 

Por Miriam  Srosenfeld
Ouvinte-internauta

Ouça “A geladeira do seu Cândido” com sonorização do Cláudio Antônio

Estava fragilizada naquela terceira semana de novembro de 2009. Teve o apagão, um tratamento de canal, falta de água no condomínio e sem geladeira. Meu marido comprara uma nova. Mandei a velha embora e a nova não chegou. A moça da loja disse que estava em falta no estoque. Iria demorar.

Dois dias já sem geladeira e muito calor. Assim que saí de casa recebi o panfleto de três religiosos: “Por que se pode confiar na Biblía”.  Li até o fim e me inspirei. Lembrei do trabalho de alunos sobre um rapaz que montara sua casa com objetos do lixo. Com fé, logo pensei: quero encontrar uma geladeira no lixo
Comprei umas lâmpadas e ao sair da loja de material de construção me preparei para atravessar a Praça 14 Bis a caminho de casa. 

 – “Vamo, vamo dona! Pode ir.  Ó, o farol tá aberto!”

Ouvi o conselho. Atravessei meia praça e olhei para trás pra agradecer a atenção.

O tal conselheiro, o dono da voz, era um carroceiro. Tinha um objeto muito grande em sua carroça. Um grandíssimo paralelepípedo branco, meio pintadinho de onça. Seria miragem?!  Meu pedido teria sido atendido?

– O que o Senhor tem aí ?

– Uma geladeira, respondeu.
– O que vai fazer com ela?
– Vender. Ela funciona. Fui buscar lá em cima, no número 2.000  da 9 de Julho.  A dona disse que tá boa.
– Quanto vale?
– Cinquenta, disse ele.
– Vende pra mim? Eu pago em dinheiro.

O homem acariciou a barba escura com alguns fios brancos que contrastavam em sua fisionomia. Então, perguntou:

– Onde fica?
– Moro na Rua Silvia. O senhor consegue levar?
– Lá em cima! Eu “num güento”.
– Eu ajudo o senhor. Fico atrás da carroça para poder empurrar. Vamos!?, insisti.

Parecia estar concordando. Deu uma paradinha e disse:

– Tem um moço que me pediu pra comprar. Vou levar pra ele. É logo ali.
– Tá bem. Cadê o moço? …. Vamos lá. Eu empurro.

Repliquei, tentando persuadi-lo a encarar as ladeiras com a carga. Pois não é que lá fomos nós ?

Atravessamos a 14 Bis, subimos a Rua Rocha e depois a Itapeva. Ladeira acima. Ele na frente, puxando; eu atrás, empurrando. Ele, exibindo alguns músculos e sua fragilidade ao mesmo tempo. Eu, com minha juba clara solta e o par de calças pantalonas, as mais coloridas que tenho. Ocupávamos uma pista dos carros, mesmo assim ninguém buzinou. Algumas paradinhas foram necessárias no trajeto. A carroça estava muito pesada.

Durante o percurso descobri que o nome dele é Cândido. Percebi que nunca tinha prestado atenção nessa pessoa que convive com a gente aqui no Bixiga; na importância do seu trabalho. Carroceiros são importantes. Levam aquilo que rejeitamos e, freqüentemente, eles encontram utilidade para tal. Aliviam o problema dos entulhos na cidade.

A geladeira funcionou muito bem. Resolveu meu problema. Quanto ao seu Cândido, continua por aqui. Encontrei-o na semana passada e percebi que já não se lembrava de mim. Tive que refrescar sua memória.
Quando lembrou, me contou de outras geladeiras que recolheu depois daquela. Disse que uma delas veio com um frango congelado, imerso numa imensa pedra de gelo. Parece que fez um banquete com o frango e vendeu a geladeira para o ferro velho.

Meio esquecido, otimista, simpático, bem humorado e trabalhador. Assim é Seu Cândido, um carroceiro do pedaço. Se precisar dele, fale com o jornaleiro da Praça 14 Bis. Ele dá o recado ao nosso personagem.

Acompanhe e participe da nova fase do Conte Sua História de São Paulo. Grave suas lembranças da cidade no Museu da Pessoa. Para agendar seu depoimento ligue para 2144-7150 ou entre no site http://www.museudapessoa.net. E anote na sua agenda, a partir desta segunda-feira até o dia 25 de janeiro, você ouve o Conte Sua História de São Paulo em homenagem aos 456 anos, da nossa cidade, que vai ao ar logo após às 10 e meia da manhã.

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