Barão de Itapetininga, 37, um endereço para a história

 

Foi na região central da cidade de São Paulo que se iniciou a produção em escala de ônibus no Brasil. A encarroçadora Grassi deu a São Paulo a possibilidade de prever o ônibus como o principal modalidade de transporte coletivo do País.

ônibus da Grassi que circula no BomRetiro

Por Adamo Bazani

Rua Barão de Itapetininga, 37. Este pode ser considerado o berço da produção profissional de carrocerias de ônibus no Brasil, onde se desenvolveriam soluções que dariam “a cara” do transporte de passageiro em todo o País.

Neste endereço, centro velho de São Paulo, nascia em 1904, a Irmãos Grassi, empresa que começou fabricando carruagens de tração animal para transportes na cidade. Fundada pelos irmãos Luiz e Fortunato seu crescimento foi como o de São Paulo, lento no início do século passado, tendo se acelerado a partir dos anos 1940. A medida que a capital registrava crescimento populacional e, conseqüentemente, de demanda de passageiros por transporte público (época em que bondes e ônibus dividiam espaço), a Grassi crescia na produção de carrocerias, cada vez mais modernas para época.

Ninguém tem dúvidas, a indústria de carrocerias de ônibus não seria a mesma se não fosse a Grassi.

A fabricante também teve forte ligação com os imigrantes, semelhante a São Paulo. Além de ter sido fundado pelos Grassi,a primeira carroceria de ônibus produzida numa indústria brasileira foi para servir a Hospedaria que recebia as famílias que chegavam da Europa.

Nos anos de 1910 e 1920, aumentava consideravelmente o número de viajantes que desciam dos trens da São Paulo Railway nas estações da capital e Grande São Paulo. Eram italianos, portugueses, alemães e espanhóis que seguiam em lugar de um teto na hospedaria construída na região Brás, na zona leste. Para atender melhor estas famílias, os administradores da casa encomendaram um auto-ônibus, da Grassi.

Até aquele momento, a empresa paulistana só fabricava carruagens e pequenos veículos com tração animal. Mesmo assim o desafio foi aceito, o que daria um novo rumo aos transportes coletivos. E foi aceito,mesmo sem essa pretensão, de início.

Em 1910 foi importado um chassi da França, modelo Dion Bouton. O modelo de carroceria era artesanal. O veículo tinha capacidade para transportar até 45 pessoas de uma maneira bem diferente de como conhecemos hoje. Toda a lateral do ônibus era aberta. Não havia nem lugar para cortininhas em dias de chuva. Os bancos eram transversais, feitos de sarrafo. O ônibus serviu por mais de 10 anos a Hospedaria.


A escolha pelo ônibus

Fachada da GrassiApesar da experiência no início do século na construção da primeira carroceria de ônibus oficial no Brasil, a Grassi continuou a produzir suas carruagens. Foi a partir de 1920 que os irmãos notaram um fenômeno marcante em São Paulo: os bairros cresciam e se expandiam em velocidade muito maior que a dos bondes.

Famílias mais pobres procuravam loteamentos afastados da região central. Empresas imobiliárias passaram a dividir fazendas que pertenciam a imigrantes e vender chácaras ou terrenos. Assim se iniciaram vários bairros onde os bondes da Lights não chegavam.

Empreendedores encontraram no auto-ônibus a opção ao bonde. O serviço ainda era amador. A lama e a falta de estrutura dos bairros eram desafios para os empresários de transporte. Ao mesmo tempo, os ônibus eram usados por donos de terrenos como propaganda para atrair os moradores para estes loteamentos. Um movimento de mão dupla: os bairros cresciam e os ônibus iam até eles ao mesmo tempo que bairros se formavam só porque os ônibus passavam perto.

Se o serviço de ônibus não era tão profissional – com itinerários variáveis, falta de horários fixos e tarifas não padronizadas -, os veículos também não apresentavam o menor nível de profissionalismo na produção. Muitas vezes, os próprios donos de ônibus fabricavam seus veículos. Compravam caminhões e construíam no fundo de casa as carrocerias. A segurança, a estabilidade e conforto não eram o forte destes veículos. Feitos de madeira, balançavam muito, a carroceria cedia do chassis e chovia dentro, por vãos e emendas.

Foi neste cenário, de crescimento dos transportes por ônibus que nos anos 20, os irmãos Grassi tem a visão de que, mesmo com o bonde, o ônibus se tornaria o principal meio de transporte não só do paulistano, mas de todo o brasileiro. Também perceberam que os empresários que exploravam as linhas iriam amadurecer e teriam de se dedicar exclusivamente ao transporte de passageiros. Não teriam tempo a perder com a construção de seus veículos no quintal de casa. Empresários que tinham um ônibus, de um mês para o outro passavam para dois, três, e aumentam o número linhas.

Os irmãos decidiram se dedicarem a criação de uma indústria específica para carrocerias de ônibus. a Indústria de Carros e Automóveis Luiz Grassi e Irmão – a primeira no Brasil.

Semana que vem você acompanha a segunda parte desta história.

Adamo Bazani é repórter da CBN, busólogo e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung. Já entrou em um Grassi das antigas e se apaixonou com o que viu.

Um comentário sobre “Barão de Itapetininga, 37, um endereço para a história

  1. Se a numeração não foi alterada, o número 37 hoje é a Galeria Nova Barão, que liga a Barão com a & de Abril; tive escritório neste endereço…
    Muito legal sua matéria, Adamo, parabéns!!!

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