Privatização de ônibus em Diadema não prevê estabilidade

 

Com todos os ônibus e micro-ônibus penhorados e dívida de R$ 110 mi, empresa pública será vendida e edital garante apenas permanência de atuais empregados na compra, mas não diz por quanto tempo.

Frota da ETCD sucateada

Por Adamo Bazani

A Câmara Municipal de Diadema, na Grande São Paulo, aprovou a privatização da ETCD – Empresa de Transportes Coletivos de Diadema, primeira e última empresa pública do setor no ABC Paulista, no dia 10 de junho, mas só depois de mais de 3 meses é que o edital da venda foi colocado na praça. A demora, segundo especialistas, além de questões técnicas, como organizar as exigências para as interessadas e estipular preços, se deve ao processo eleitoral.

Mesmo o debate já tendo saído da esfera do legislativo, os esforços políticos agora estão voltados para as eleições de outubro. Na Câmara, aliás, este debate foi marcado por muitas contradições, principalmente por parte dos vereadores do PT, que em promessas de campanha sempre se posicionaram contra a medida. O prefeito Mário Reali, também do PT, era outra figura da política regional que nos palanques se posicionou contra a privatização, mas não conseguiu recuperar a empresa.

O edital foi publicado há uma semana pela prefeitura e algumas empresas da região interessadas em explorar o sistema já retiraram o documento. Serão vendidas as cinco linhas municipais da empresa, hoje operadas por aproximadamente 60 ônibus e micro-ônibus. Estes veículos foram penhorados na Justiça como garantia de pagamento, a pedido dos credores. A dívida continuará sendo da Prefeitura.

A dívida, que continuará sendo da prefeitura, passa de R$ 110 milhões e é bem maior que o valor calculado das linhas que vão custar aos interessados entre R$ 12 milhões e R$ 15 milhões. O edital, no entanto, prevê um valor mínimo de R$ 8,5 milhões para que as empresas possam participar da concorrência.

Ainda de acordo com o documento, metade do valor oferecido pelo grupo privado tem de ser paga na assinatura do contrato. A outra metade pode ser paga em até 24 meses. O prazo para a exploração dos serviços é de 15 anos, renováveis por mais cinco, se a empresa atender as exigências operacionais e contratuais.

Há uma cláusula no contrato a ser assinado pela empresa compradora e no edital que prevê a contratação dos atuais funcionários da ETCD, inclusive os afastados por auxílio doença e auxílio acidente.

Diz o texto do edital:

No momento de instalação dos serviços para o início da operação, a concessionária contratará os motoristas, cobradores e demais empregados que, na ocasião, trabalhem no serviço de transporte coletivo do município de Diadema, em especial a ETCD

Há uma dúvida jurídica em relação a este parágrafo do edital. Ele deixa claro que os funcionários da ETCD terão os empregos mantidos no momento da compra da empresa, para o início da operação, mas não explicita de quanto tempo será essa garantia de emprego. Somente o futuro próximo dos funcionários está garantido. Apesar disso, os administradores exploram politicamente esta suposta estabilidade.

A frota da ETCD, hoje sucateada pelas dificuldades de manutenção, devido às dívidas e cortes de gastos, deve ser renovada e ampliada. Serão 63 ônibus, que terão de apresentar GPS e computador de bordo, como consta no documento.

Todos os ônibus que integram a frota deverão dispor de equipamentos tecnológicos para o controle de pagamento e arrecadação das passagens (sistema de catraca e validador eletrônicos), controle de posição do veículo (GPS), controle de informações operacionais (computador de bordo) e transmissão remota de dados

A ETCD perdeu na Justiça a liminar pela qual pretendia suspender o pagamento de R$ 450 mil a uma de suas maiores credoras, a Viação Alpina. Não há recurso.

Adamo Bazani, busólogo e repórter da CBN, escreve no Blog do Mílton Jung

4 comentários sobre “Privatização de ônibus em Diadema não prevê estabilidade

  1. Como colecionador, lamento…
    Como usuário, festejo…

    Lembro do iníco desta empresa com muitas velharias oriundas da Viação Diadema, que na época havia sido recém adquirida pelo Constantino. Eram muitos Gabrielas e Amélias oriundos da Cidade Canção (Maringá-PR). Logo depois a empresa recebeu um lote de Amélias OF 1115 Okm e com uma pintura muito bonita, mas como toda empresa pública, estes carros logo estavam sucateados, e em seguida a empresa recebeu um “empréstimo” da CMTC (que na época era gerida pelo PT) de alguns Amélias OF 1113 e 1314, que rodaram na ETCD na cor vermelha mesmo. Enfim… É um triste fim para uma empresa, que pelo seu tamanho tinha tuda pra dar certo.

  2. Olá Bento, obrigado pelo seu comentário. Lembro da chegada desses Caio amélia novos OF 1115 da ETCD. Foi uma festa.
    Esse Amélia convertido em carro de manutenção é um OF 1113 e acredito que era um ex Diadema.

    Agora vivendo e aprendendo…não sabia que o Constantino tinha sido dono da Diadema.

    Eu hurava até hoje que a empresa era do Baltazar.

  3. Brasil é uma m… mesmo… (desculpe)

    Uma empresa pública TERIA TUDO PRA DAR CERTO, pois não visa lucros, todo o lucro deveria ser revertido a favor da própria cidade… mas não.. corruptos desviam, acabam com a empresa pública, e privatizando fica pior, as empresas depois fazem o que querem, mandam e desmandam… (vide SP onde tem cada absurdo).

    Dá nojo do país como um todo… dá mais nojo ainda saber que isso não vai mudar tão cedo… acredito que não na minha geração… os problemas vêm lá de cima… Eee vida.

    Privatizar pode parecer uma maravilha, mas o transporte público não deveria ser visto como algo comercial, como algo que gere lucro, e sim como parte essencial do sistema da cidade. Infelizmente governantes INCOMPETENTES deixam as empresas públicas morrerem… elas é que deveriam dar orgulho pra população, onde o transporte público, por exemplo, não geraria lucros pra sustentar empresários (afinal é área em que não há concorrência, já que não podem existir linhas livres)…

    É revoltante.

  4. O problema é que a maior parte das pessoas que faz parte das administrações públicas visam até mais “lucro pessoal” (muitas vezes sem investir um único centavo) do que quem se profissionalizou em transporte público.
    A verdade é que deveria haver maior liberdade para empreender nesse setor, então o negócio não ficaria na mão de três ou quatro pessoas.
    A maioria das cidades brasileiras, pelo menos as de médio porte para cima tem uma altarquia de transporte que compra “km rodados” das empresas de transporte. Não vejo nenhum mal em licitarem esses serviços on-line, de acordo com a demanda e por pequenos prazos mesmo para empresas de pequeno porte. Garanto que não teria milionário chorando que precisa de “incentivo para renovar a frota” se tivesse uns 20 caras querendo trabalhar as linhas deles…

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