De buzina e salsa

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

e o buzinaço continua. Falta de respeito. Falta de educação. Uma festa de horror. Maricotas estressadas, carpideiras inconsoláveis; humanos que se mostram feios, detestáveis.

 

Droga! Não dá para ter bom humor o tempo todo. Ainda menos no trânsito de São Paulo. Eu tento e confesso que fico contente a cada avanço, mesmo que o percurso seja esburacado de tanto retrocesso. Mas buzina… pensa bem! Um motorista buzinando feito doido, por tudo e por nada também, não passa de um gurizinho mal-criado e mimado, até o âmago da alma, que se atira no chão do shopping center e esperneia e grita porque não ganhou o que queria. Sem vergonha, umbigo-centrado, e deixo você continuar, usando teu vocabulário. E tem de toda raça, de todo tamanho, de todo feitio. Tem rico e pobre, culto e inculto, gordo e magro, bonito e feio. Naquele momento não é a carcaça, não é o intelecto; são as entranhas que falam. E elas vão mal, obrigada!

 

Do lado de fora da cabina de comando do Planeta, quiçá do Universo, tem carro caindo aos pedaços, se esvaindo em fumaceira preta. Tem também carro importado de perder o fôlego, tem o que se arrasta e o que voa, mas na cabina do carro, do ônibus e do caminhão tem gente como você e como eu, cada um num estágio de crescimento, de refinamento do corpo e da alma. Cada um com sua porção de consciência. E por falar em consciência, um dos meus assuntos favoritos, consciência não se desenvolve só com pieguice, como parece ser a ideia da maioria. Consciência é GPS de ponta, para a evolução. É o guia para o caminho do estar-bem e que, consequentemente, leva a Deus. E como consciência é uma parte de nós que não pode ser vista nem tocada, acaba relegada a plano inferior na lista de prioridades.

 

A dança de salão, aquela na qual a gente ainda dança em par, eu considero uma das melhores maneiras para desenvolver a consciência. A gente apoia a mão direita na mão do parceiro e a esquerda no seu ombro – em caso de atração, essa posição vai atingindo graus mais estreitos e o par se transforma num só, num abraço cadenciado no ritmo que dita cada passo. Na dança, quando vai melhorando, a gente não pisa mais no pé do outro e, num pequeno gesto do parceiro, segue sem questionar para não quebrar a harmonia. Um rodopio para a esquerda segue um movimento sutil do outro, uma intenção de passo para trás, e lá vai a dupla. A dança de salão ensina respeito e reação na medida certa.

 

Assim, para curar a febre do buzinaço e fazer de nós pessoas melhores, pais e mães melhores, amigos melhores, formando uma cidade melhor, um planeta melhor, mais alegre e menos violento, levanto a bandeira da dança de salão. Dança, já! No currículo escolar, desde a pré-escola, e oferecida a todos os idosos, pelo estado, em troca de economia na saúde pública, é claro.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

16 comentários sobre “De buzina e salsa

  1. Malu você tem razão, dançar é a solução.
    As ruas são o salão em que se dança nas mesas, em cada uma delas somente uma pessoa deslizando sobre ela no salão. É assim nosso transito, cheio de mesas lotadas com um único comensal. Fossem pelo menos dois em cada uma. Imagine quatro.
    É ruim sentar sozinho na festa. Melhor conversando. Melhor se forem quatro pitacos. A dança fluiria com muito menos pé na buzina. Depende mesmo de nós.
    Um beijo e boa dança.

  2. Olá amiga, não é só em S. Paulo não. Porto Alegre também está um horror, a idéia se executada seria ótima, mais respeito, delicadeza e parceria, mas tá difícil de acreditar.. Bjs, Maryur

  3. Loucura esta balada do transito paulistana!
    É pacadão 24 horas por dia!
    Tô fora deste inferno ensurdecedor, caotico, desorganizado.
    Quando tenho que ir a São Paulo por qualquer motivo, infelizmente, opto por ir de onibus, nacidade me locomovo de taxi, a pé, metrô e trem, quando não quebram e param do nada e trato de voltar para o meio do mato depressinha.

  4. Mike Lima
    Passe uma boa parte da minha vida, ou a maior parte dirigindo pela cidade e fora dela, poe ai “alguns quilometros rodados por dia”, por mês, por ano e por ai vai.
    Ai como resultado, vem os problemas de coluna, dores pelo corpo, stress, sono agitado, agente querendo dormir vem algum idiota no seu carro la na rua, avenida com som pancadão, funk a toda, bizinaço no transito literalmente parado ao lado de onde moramos, brigas, poluição, super adensamento de automoveis, de pessoas, de predios e mais predios, vivemos e trabalhamos em São Paulo, uma das cidades mais caras do planeta, o que ganhamos é somente para pagar contas e mais contas e comer.
    Como consequencia males somatizados pelo corpo inteiro.
    Comer fora de casa um dos poucos lazer do paulistano, praticamente impraticavel, se não somos assaltados pelos famosos restaurantes paulistanos atrevés dos preços cobrados por um prato “chic”, somos pegos de surpresa e assaltados por arrastões, quadrilhas de bandidos.
    E não há necessidade de expor e enumerar mais mazelas paulistanas.
    Graças ao céus, tenho condições de viver fora do inferno que se tornou São Paulo sobre vários aspectos.
    Basta somente internet, telefone e exerço minhas atividades profissionais.
    Porque devo eu então morar em São Paulo, apesar do caos do inferno é a cidade que nasci e que ainda amo!
    Mas não me interessa a quantidade somente, supostamente o que a cidade de São Paulo pode oferecer ao paulistano, turista, migrante e sim a qualidade é o que vale.
    Noto na pele neste mais de um ano “morando fora de São Paulo as melhorias em minha saude, meu humor entre outros aspectos.
    Porque voltar a morar em São Paulo?
    Só vou a São Paulo em casos de extrema necessidade e honestamente não pretendo voltar a morar ai, apesar de estar apenas a 50 km de distancia.
    Estive recentemente em SP e senti o quanto a cidade faz mal para a saude.
    Cheguei ai na semana passada disposto e sai espirrando, tossindo, cansado, aborrecido, triste por ver a minha querida São Paulo totalmente abandonada, milhares de moradores de rua dormindo ao relento, sujeira, buracos, predios historicos caindo aos pedaços.
    Só o transito?
    Bjus
    Aqui Kavoc ceu estrelado!
    E ai?

  5. Amiga Maria Lucia,
    Bom dia.
    Esta é a vantagem de ser surdo como eu.rsssss.
    A buzina para mim é sinal de stress,devemos dirigir mantendo a distância e acima de tudo,sem bebida e sem nervos a flor da pele.
    Abçs
    Farininha.

  6. Farina, meu amigo querido,

    você é o único surdo que eu conheço – e entre os não surdos você ainda tem vantagem – que fala diversas línguas, tem uma cultura admirável e ainda por cima tira onda e lê os lábios.

    beijo,
    maria lucia

  7. Maria Lucia querida, adorei tudo principalmente Cronos Saturno Tempo – onde armazenamos os eventos vividos e os pretendidos.
    Vamos dançar e bricar de paz, minha amiga!!!Beijos e saudades,
    Eliana

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