Por Martha Catalunha
Por aqueles idos de 70, eu, uma criança que vivia em cidade pequena movimentada pela velocidade e ruído dos Gordinis e DKVs e passava as férias escolares na casa de tia Francisca e tio Germinal, na esplendorosa metrópole Paulistana. Ali, na Vila Prudente, lembro-me bem, meus olhinhos infantis dançavam e se iluminavam com os out-doors, as letras garrafais em lâmpadas piscando pela cidade, viadutos e semáforos lotados de carros, automóveis, caminhões, ônibus e Fuscas “envenenados”, ah! e a louca e tresloucada velocidade das pessoas caminhando pelas ruas, alamedas e avenidas.
Da casa de tia Francisca, subindo no telhado da cozinha, podia ver a estação de trem da Vila Prudente e a fábrica da Ford. Como era gostoso meu Deus, passava horas ali admirando a velocidade de São Paulo… e que velocidade…!
Sonhava morar nesta cidade, tomar o trem todos os dias quando entrasse no mercado de trabalho e passar por aquela roleta gradeada e muito grande (para o meu tamanho de menina), a qual eu observava tanto…
Muitas vezes, à meia-noite, antes que caíssemos nos braços de Morfeu, eu e meu primo pulávamos da cama para comer aqueles gostosos sanduíches enormes recheados com hambúrguer, salada, tomate, ovo e muita maionese que nosso primo Rude nos trazia de onde trabalhava. Guloseima que eu conhecia somente na cidade grande.
Foi também nos rodopios da “Paulicéia” de Mário de Andrade que dei meus primeiros passos numa lenta dança a dois, ao som de Elton John com sua “Goodbye Yellow Brick Road”, puxada pelo meu primo Gérson tão menino quanto eu.
Aos finais de semana sempre vinham nos visitar meus queridíssimos e modernos (para a época) primos Adhemar e Helena com sua filhinha Gisele. Ríamos muito, muito e muito, o Adhemar – com suas costeletas à Émerson Fittipaldi – só contava piada, e desopilávamos o fígado como num verdadeiro campeonato de gargalhadas.
Uma parte de meus sonhos infantis tornou-se realidade: foi aqui mesmo que principiei minha vida profissional, mas já a Vila Prudente não era a mesma, o viaduto, o que aconteceu mesmo com ele? Ih, o trem perdeu a graça e a estação foi desativada, a velocidade das pessoas misturou-se à minha e os sonhos coloridos da infância repousam inocentemente numa romagem de saudade…
Martha Catalunha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agente entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.
Gostei da ideia. Sou fluminense, carioca e paulistana ao mesmo tempo e com muito orgulho . Pretendo escrever uma história e enviar para vocês. Abraço. Mena.