Júlio Araujo
Ouvinte CBN

Era o ano de 1995, mês de outubro, em que aconteceu o trágico acidente com o avião Fokker 100 da TAM, nas proximidades do Aeroporto de Congonhas. Foi uma comoção nacional. Um dos maiores acidentes em todos os tempos no país. Muitas vidas perdidas, cerca de 100 mortos, na maioria empresários e executivos com carreiras promissoras.
Muito triste!
Eu era um usuário frequente da TAM nas viagens dentro do Brasil. O serviço era um primor. Em Congonhas, a TAM oferecia um café da manhã espetacular, sempre com um músico para entreter os passageiros, antes de embarcarem. Isso sem contar as boas vindas que o comandante dono da empresa propiciava aos seus clientes. Era maravilhoso. Esse padrão de atendimento e cortesia eram marcas da empresa
Na semana seguinte ao acidente, eu teria que ir ao Rio de Janeiro, a trabalho. Porém, tudo o que aconteceu com a queda do avião, confesso que havia me deixado bastante assustado. Pensava diuturnamente na tragédia . Eu não me sentia confortável em saber que teria que viajar de avião.
Poderia optar em ir de ônibus ou trem. Sim, de trem! Por que não? O Trem de Prata estava em atividade. Fazia as viagens São Paulo – Rio, partia da estação Barra Funda
Eu havia viajado de trem ao Rio uma vez somente, em 1985, quando ainda pertencia a Estrada de Ferro Central do Brasil (RFFSA), cujo nome do trem era Santa Cruz. Uma viagem inesquecível. Então, por que não reviver?
Era a oportunidade de conhecer o Trem de Prata, que não pertencia a RFFSA totalmente e, sim, era uma parceria com uma empresa privada. Eu sempre gostei de viajar de trem. Não tive mais dúvidas tampouco receio: vou de trem! Apesar que o preço praticamente era o mesmo da ponte-aérea mas proporcionava o repouso em cabines individuais.
Chegou o dia, uma quinta- feira.
Já de uma certa distância quase chegando à estação, eu conseguia avistar muitas pessoas aglomeradas no saguão bebericando e saboreando salgados e outras iguarias. Logo pensei.. a TAM era referência desse tratamento VIP, o acidente aéreo, infelizmente, poderá alavancar as viagens no Trem de Prata. O padrão dos passageiros era o mesmo, na maioria executivos, homens e mulheres. Provavelmente moravam no Rio e voltavam para suas casas ou iriam a trabalho como eu. Eu estava esportivo com uma maleta a tiracolo.
Na chegada, no pequeno balcão, na entrada da estação, duas moças uniformizadas, uma delas perguntou o meu nome mas, depois de alguns segundos, negativamente, balançou a cabeça e disse: “
“O Sr. não consta na relação”
“Como??” retruquei. “Inclusive acompanhei a compra da passagem lá no escritório!”
Enquanto isso, eu mostrava as passagens e, incontinente, a moça que estava em pé percebendo a minha surpresa, colocou, de imediato em meu peito uma etiqueta adesiva com meu nome completo, manuscrito por ela, com aprovação da colega, que seria o meu crachá de identificação. Entrei.
Logo vieram pro meu lado garçons com bandejas servindo cerveja, salgadinhos, vinho, patês… Havia o pianista que tocava sem parar, era um coquetel muito bom. Uma espécie de TAM dos trilhos
Mesmo tratamento VIP, mesma cortesia, tudo de bom. Comentei com uma pessoa ao meu lado dessa oportunidade da empresa se consolidar no ramo de transporte de passageiros
Depois de algum tempo, lembro que um rapaz, provavelmente da empresa, aparece por trás de mim, me cutuca e pergunta se eu não ia embarcar no trem. Respondi meio que protestando:
“Sim, mas a cerveja tá campeã, geladinha, tô sem pressa”
Mas estava quase na hora, não tinha jeito, o movimento caía . E lá estava eu dentro do trem me acomodando na cabine e com muita vontade de ir até o vagão-bar para tomar outra cerveja, ou como se diz: a saideira.
Foi quando conheci um publicitário no balcão do bar e ficamos conversando e bebendo algumas horas até um momento de recolhimento aos aposentos.
No outro dia, vagão restaurante, no café da manhã, o publicitário já estava em uma mesa, devidamente vestido como um executivo, eu idem. Novo dia de trabalho nos esperava.
Olhei para os lados, vagão com quase ninguém, duas ou três pessoas além de nós, estranhei e perguntei ao publicitário:
“Cadê aquele pessoal de ontem do saguão?
Ele respondeu:
“Pessoal?
Ahh!
“Não eram passageiros, eram convidados de lançamento de uma revista. O trem veio praticamente vazio”
Putz!! Atônito pensei: .fui um bicão na festa!!. Por isso que durante o coquetel muitos convidados me olhavam com desconfiança, e, na hora, … nem desconfiei…
Esse momento em São Paulo foi inesquecível para mim. Gostoso de lembrar!
Júlio Araújo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Fique atento porque já estamos nos programando para mais uma série especial do Conte Sua História: escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o nosso podcast.