
“Nesse modelo, a gente até brinca que ao invés de você ter um chefe, você tem todas as pessoas da startup como chefe, porque todo mundo vai estar olhando a decisão que você eventualmente vai tomar”
Matheus Bombig, Invenis
Em toda a empresa, o assunto na sala do cafezinho é o mesmo: reclamar do chefe. Uns dizem que ele é muito intrometido e outros que ele é omisso; há os que falam da dificuldade dele tomar decisões e os que o criticam por centralizar tudo na sua mesa. Na Invenis, uma startup de tecnologia que atua no campo do direito, o grau de desconformidade chegou a tal ponto que quem reclamava do chefe era o próprio chefe. Isso mesmo! Matheus Bombig, um dos criadores da empresa, identificou sua dificuldade em liderar a equipe que estava iniciando suas atividades e assistia ao crescimento dos negócios e no número de funcionários. Foi quando tomou a decisão de acabar com a figura do chefe e investir em uma gestão descentralizada:
“Eu sou empreendedor de primeira viagem … eu não sabia muito bem como lidar com isso, então fui ficando um pouco perdido em definir papéis, cargos, o que cobrar, metas do dia a dia … eu percebi que não estava sendo um bom chefe ou um bom Líder naquele momento. E entendi que talvez fosse melhor deixar as atividades na mão das próprias pessoas”.
O modelo que começou de forma improvisada, há dois anos, foi se estruturando a medida que Matheus buscou no mercado outras experiências semelhantes. Apesar de nesse processo haver uma série de rituais que podem ou não serem descentralizados, na Invenis a decisão foi por radicalizar o fim da hierarquia, tarefa que talvez tenha sido possível porque a startup ainda tem poucos profissionais atuando.
Para Matheus, um dos desafios nesse modelo é o da tomada de decisão, especialmente diante do fim da estrutura piramidal em que o subordinado pede autorização para um líder e o líder tem de analisar e autorizar para que a execução aconteça. No modelo descentralizado, o poder de decisão está nas mãos de cada um e dentro de sua própria área. Um exemplo: quem cuida do comercial toma decisões relativas a área comercial, não pode se meter a escolher o banco em que a empresa terá conta, pois esta é tarefa do financeiro.
Antes de decidir, a pessoa que identificou um problema que exige uma solução vai se aconselhar com os colegas que podem ser impactados pela medida a ser adotada e buscar a experiência daqueles que passaram por situação semelhante. Todos têm o direito de sugerir mudanças e identificar erros. Após a consulta e de internalizar as sugestões e comentários, a decisão é anunciada para a empresa, de forma transparente.
“A gente tem algumas coisas que ainda são um pouco centralizadas. AS metas a gente centraliza, mas centraliza em todas as pessoas. Então, não são sócios que definem a meta. A gente traz uma sugestão e discute isso com o time”.
Perguntado sob o risco de o crescimento da Invenis inviabilizar a descentralização, Matheus recorreu a história de uma empresa holandesa de homecare. A Buurtzorg iniciou-se por iniciativa de um enfermeiro que criou uma equipe de 12 profissionais para atendimento de saúde nas casas. Hoje, são cerca de 12 mil funcionários que se dividem em núcleos de até 12 enfermeiros que tomam decisões soberanas para fazer o atendimento. Para ele, a ideia de criar núcleos dentro da empresa talvez seja a melhor solução para as organizações que comecem a crescer muito.
Apesar das experiências que podem ser encontradas em diversas partes do mundo, Matheus não acredita que este será o futuro das empresas em curto prazo. Entende, porém, ser um modelo mais adequado para lidar com o mundo complexo que vivemos, que exige mudanças rápidas e sem depender de autorizações. Para introduzir o modelo descentralizado não existe uma “receita de bolo”, mas Matheus sugere que se comece a pensar em alguns processos e rituais que existem na organização, usando-os como um laboratório. Conforme houver a adaptação, migra-se o modelo para outros setores.
Assista ao programa Mundo Corporativo com Matheus Bombig, da Invenis:
Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscilla Gubiotti.