Por Teofilo Rodrigues
Ouvinte da CBN

Nasci em 1959, no Jardim Maringá, zona Leste de São Paulo; minha família foi uma das pioneiras no bairro onde o asfalto era uma raridade. Éramos oito irmãos. Eu, filho homem mais velho, cresci seguindo meu pai, Seu Nestor Teofilo Rodrigues, que me levava com frequência à cidade, como chamávamos o centro.
Pegávamos o ônibus e eu ficava alucinado com o passeio, a começar com o pitoresco cobrador que transitava dentro do coletivo com o dinheiro dobrado entre os dedos, sem a mínima preocupação em ser assaltado. O ponto final era na Praça Clóvis Bevilaqua, ao lado da Praça da Sé.
Ali começava a aventura:
A Praça da Sé era um monumento e eu observava os transeuntes, a maioria simples, mas tinha muitos de terno e chapéu. Eu me impressionava com as rodas que se formavam, desde o “homem da cobra” — este alegava que havia uma cobra num caixote, contava histórias mirabolantes, ameaçava soltar a cobra e propagava o seu produto, uma pomada que servia para tudo; e nada de a cobra aparecer. Tinha roda de capoeira, vendedores de bilhete da Loteria Federal, vendedores de bilhetes premiados, pedintes, pregadores evangélicos e um cadeirante que escrevia cartas para quem quisesse, com uma caligrafia impecável, chamava-se Dr. K-neta. Tinha na Praça o Restaurante “Um dois, feijão com arroz”, com um “pf” delicioso.
Depois pegávamos a Rua Direita repleta de lojas; havia o Almanara que, na porta, servia esfihas assadas num forno de pedra. Tinha um sem número de pregoeiros gritando “calça Lee americana”, a última moda na cidade. Ter uma calça índigo, velha, azul e desbotada era o sonho de todos os jovens. Na Praça Patriarca, a Igreja de Santo Antônio distribuía pãezinhos bentos, no dia do padroeiro.
Atravessar o Viaduto do Chá era emocionante; sempre parávamos no meio para admirar os carros trafegando no Vale do Anhangabaú.
Muitas vezes almoçamos na Liga das Senhoras Católicas, locadas debaixo do viaduto; serviam “bandejão” a preços populares, sempre acompanhados de um copo de leite frio. Ao fim do viaduto o Mappin era algo exuberante, um prelúdio dos shoppings de hoje; eles ofereciam inédito crédito para compras parceladas no carnê; tinha também o guarda Luizinho, fazendo troça com os motoristas e pedestres que desobedeciam o farol.
Passando o viaduto, encontrávamos o majestoso Teatro Municipal e atrás dele a Pitter, uma loja futurista com decoração exótica, roupas ousadas e moderníssimas; dentro da loja me imaginava nos Estados Unidos, sem nunca ter saído do Brasil.
Meu pai e meus tios, que vieram do interior de Minas, se fixaram como faxineiros, ascensoristas, zeladores nas Ruas Xavier de Toledo, Barão de Itapetininga e Rua Sete de Abril. Eu tinha a impressão que eles eram donos dos prédios; conhecidos por todos, eram muito populares; eram super trabalhadores, pau para toda obra. Também eram boêmios e fanfarrões.
Nunca me esquecerei da comida de rua da Barão de Itapetininga; eram pontos na porta de bares e lojas, onde serviam uma esfiha aberta cuja cobertura era um parco molho com alguma lembrança de carne moída. Ficavam empilhadas aos montes e eram servidas num guardanapo; tínhamos o “churrasco grego”, retalhos de carne de segunda, dispostas num espeto vertical e giratório, numa estufa; o compacto de carne era fatiado e servido no pão. Uma delícia… Pertinho dali, no largo do Café, tinha o Rei da Salsicha: servia sanduíches de frios, recheados exageradamente, para serem degustados na rua, pois o espaço era minúsculo.
Na rua Aurora íamos no Restaurante Tabu, onde se saboreava um delicioso Mocotó e a feijoada que era servida a partir da meia noite na sexta-feira. Meu primeiro chopp, ainda menor de idade, foi no Bar do Léo, na calçada da rua Aurora, em meio as sensuais damas da noite, que faziam ponto na região. Sem esquecer o Restaurante Parreirinha na Rua General Jardim, que era muito caro; só fui uma vez comer o prato da casa: rã servida de várias maneiras; local muito frequentado por artistas e classe média. Havia o Ponto Chic, no Largo Paissandu, onde serviam o tradicional bauru no prato com o queijo rococó.
Desde criança com meu pai e depois sozinho sendo office boy, a explorar a cidade. Ainda passei 12 anos trabalhando em um escritório na Praça da República para depois minha história tomar outros rumos. Sem nunca perder na memória o cenário da vida deliciosamente registrado lá na cidade.
Teofilo Rodrigues em passeio com seu pai é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.