Conte Sua História de São Paulo: encontros marcados no Centro Velho

Por Neide de Souza Praça

Ouvinte CBN

Foto Mílton Jung

Nasci e sempre morei em São Paulo. Cresci em Itaquera, e, em 1978, quando conclui a universidade, morava na Parada Inglesa, na zona norte. Formada, comecei a trabalhar em regime de seis horas diárias com uma folga semanal. Por se tratar de uma maternidade, a folga não era fixa, variava de acordo com a escala de serviço. 

À época, o “centro velho” tinha lojas que atraíam a população, que variavam de utensílios domésticos a vestuário. Havia o Mappin, na Xavier de Toledo, logo após o Viaduto do Chá; a loja Pitter, próxima ao Teatro Municipal, com suas vitrines que expunham roupas modernas, voltadas aos jovens. Na rua São Bento havia a Mesbla, bonita loja de departamentos, a Botica Ao Veado d’Ouro, antiga farmácia de manipulação; a Casa Fretin, de materiais cirúrgicos, e muitas outras.

O movimento de pedestres era grande também nas ruas Direita, XV de Novembro, no Pátio do Colégio e nas Praças da Sé e do Patriarca. A linha azul do Metrô já havia sido inaugurada e a Estação Sé fora aberta no início daquele ano. Era por essa estação meu acesso ao Centro Velho. Após um percurso de aproximadamente 10 minutos de ônibus desde minha casa, embarcava no metrô, na estação Santana da linha azul, e viajava por aproximadamente 15 minutos até a Sé.

Eu tinha uma amiga que concluíra a faculdade na mesma turma, e que trabalhava em uma maternidade da zona sul da cidade, atuando em regime de 12 por 36, isto é, trabalhava 12 horas e tinha outras 36 de descanso. Pelo menos uma vez ao mês, sempre que nossas folgas coincidiam, agendávamos um encontro para conversar, passear e tomar um lanche.

Nosso encontro era marcado pela manhã nas escadarias da Catedral da Sé, no “Centro Velho” de São Paulo. Aquela que chegasse primeiro ao local do encontro, aguardava a companheira, esperando no topo da escadaria. Era um momento de observação do movimento de pedestres.

Permanecíamos tranquilas, sem qualquer preocupação com a segurança. As pessoas caminhando na Praça nos pareciam trabalhadores que, apressados, iam cumprir sua tarefa diária. Minha amiga vinha de ônibus do bairro da Aclimação onde morava, e descia no ponto na própria praça.

Assim que nos encontrávamos, entrávamos na Igreja, onde rezávamos por alguns minutos e agradecíamos nossa condição. A Igreja estava sempre silenciosa aquela hora da manhã. Chamava nossa atenção o número reduzido de pessoas em seu interior, rezando ajoelhadas ou sentadas em reflexão e agradecimento. O olhar distante delas nos passava a sensação de que buscavam paz interior. No entanto, permaneciam ali, silenciosas, por pouco tempo. O movimento de entra e sai de fiéis era constante.

A Igreja era pouco iluminado. A luz externa, filtrada pelos vitrais ao alto, era difusa e não suficiente para iluminar a nave. Nem mesmo a iluminação artificial dava conta da tarefa. Nós entrávamos, agradecíamos a vida que tínhamos, e alguns minutos depois saíamos para o passo seguinte de nosso encontro, quando passeávamos pelas ruas do entorno, observando as vitrines das muitas lojas.

Há vários anos, um ponto especial e bastante frequentado na rua Direita, era o das Lojas Americanas, onde se encontravam pequenos objetos para casa, mas também brinquedos e outros produtos. Ainda que sua principal porta de entrada fosse pela rua Direita, a loja era suficientemente grande para oferecer acesso, também, pela rua José Bonifácio, paralela à anterior. Nesta rua, quase em frente à anterior, localizava-se a “Nova Lojas Americanas”, mais moderna e com produtos diferenciados. As pessoas acostumadas à loja antiga, aos poucos descobriam a nova loja e era comum frequentarem ambas, já que bastava apenas atravessar uma rua para o acesso.

Após nosso encontro e prece na Catedral da Sé, e a caminhada pelas ruas próximas, minha amiga e eu dávamos continuidade ao nosso programa, indo à “Nova Lojas Americanas”. Nela, nos dirigíamos à lanchonete, que era exclusiva e cumpria seu papel de modernidade oferecendo produtos que não eram comumente encontrados na região naquele tempo.

Sentadas no balcão, sempre fazíamos os mesmos pedidos: eu solicitava um lanche “americano” e um “sunday”, enquanto minha amiga pedia um sanduiche tipo “cheese salada” e um “banana split”. Enquanto lá permanecíamos, colocávamos as notícias em dia, e trocávamos ideias sobre situações ocorridas em nossos trabalhos. Uma vez concluído o “almoço”, nos dirigíamos à Praça da Sé, onde nos despedíamos com a certeza de novo encontro no próximo mês, exatamente igual a este. Eu me dirigia à estação do Metrô e minha amiga ao ponto de ônibus que a levaria para casa.

Mantivemos estes encontros, exatamente iguais, por vários meses, até que nossa rotina de trabalho nos absorveu totalmente, e perdemos a oportunidade de fazer coincidir nossas folgas para podermos estar juntas em nosso prazeroso passeio ao Centro Velho de São Paulo, ao final da década de 1970.

Ouça aqui este episódio do Conte Sua História de São Paulo:

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquisa. Seja você também personagem desta cidade, escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade e ler o texto completo da Neide, visite o meu blog miltonjung.com.br e conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: desvendando o potencial da Inteligência Artificial 

Photo by Matheus Bertelli on Pexels.com

“Não devemos ignorar a IA, muito pelo contrário, mas em gestão de marca, nossas cabeças e planos para a marca ainda são nossa mais valiosa ferramenta.”

Cecília Russo

No mundo contemporâneo, um dos temas mais discutidos é o da Inteligência Artificial (IA) e sua influência nos diversos setores da economia, e a gestão de marcas ou o branding não ficaria de fora dos impactos desta tecnologia. Com a popularização dos chatbots GPT (Generative Pre-trained Transformer), uma nova era de possibilidades se abre para aprimorar estratégias de marca. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo exploraram as diversas maneiras pelas quais a IA pode contribuir para o branding.

IA no Branding: Uma Parceria Poderosa

A inteligência artificial oferece um vasto leque de contribuições para o branding. Ela é capaz de moldar o tom de voz da marca, criar experiências envolventes, gerar conteúdo personalizado para comunicações, realizar pesquisas de mercado precisas e segmentar audiências específicas. Possibilidades que foram elencadas pela própria IA, a partir de provocação feita pela Cecília no ChatGPT.  

O Papel Humano no Processo Criativo

Apesar de todas as vantagens da IA, é importante destacar que a criatividade humana continua sendo a peça-chave para o sucesso no branding. Na conversa estimulada pela Cecília, o próprio Chat GPT enfatiza que a assistência da IA é valiosa, mas a perspectiva humana é indispensável para garantir que os conteúdos gerados estejam alinhados com a essência da marca e suas metas futuras.

“Ou seja, uma coisa é prover respostas, a outra é o quanto essas respostas atendem à minha marca e ao que eu quero por ela” 

Cecília Russo

Surpreendendo e Encantando o Consumidor

Um dos principais desafios do branding é antecipar desejos e surpreender o consumidor, lembrou Jaime Troiano. Enquanto a IA pode auxiliar na resposta às demandas atuais, a gestão de marca requer a capacidade de oferecer algo inesperado e envolvente. Essa abordagem surpreendente é o que cria conexões emocionais e fidelidade do público. 

“São essas surpresas que geram envolvimento e fidelizam. Seja quando surpreendo com um novo produto, seja com uma comunicação totalmente fora da caixa ou com algo que nem sabíamos que queríamos, mas quando chega, é como se tivessem adivinhado seus desejos”.

Jaime Troiano

A IA como um Espelho Retrovisor

A IA se baseia em algoritmos que analisam dados passados, tornando-se um “espelho retrovisor”. Embora essas análises sejam úteis, a verdadeira gestão de marca depende da visão para o futuro, da compreensão das tendências emergentes e da coragem para inovar além do que já foi feito.

Jaime e Cecília concordam com a ideia de que o futuro do branding é uma harmoniosa colaboração entre a IA e a inteligência natural humana. A tecnologia deve ser abraçada como uma aliada poderosa, complementando as capacidades criativas dos profissionais de branding. Através dessa parceria, as marcas poderão alcançar novos patamares de sucesso ao proporcionar experiências memoráveis, relevantes e surpreendentes aos consumidores.

Mantenha-se atualizado sobre o papel da Inteligência Artificial no branding enviando suas opiniões e perguntas para marcasdesucesso@cbn.com.br. E para mais dicas sobre como tornar sua marca líder de mercado, ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, que vai ao ar aos sábados, às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN: 

Estados podem ter dificuldade de acesso à verba federal se não usarem câmeras em policiais

Foto: Reprodução/ Fabiano Rocha / Agência O Globo

O Ministério da Justiça e Segurança Pública está considerando a incorporação de câmeras nos uniformes de todas as polícias sob comando federal, incluindo a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e a polícia penal. O programa que está em fase inicial também vai privilegiar os estados que aderirem ao sistema de câmeras. Em entrevista ao Jornal da CBN, Marivaldo Pereira, secretário de acesso à justiça do Ministério, nega que a ideia seja criar alguma restrição aos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. Prefere falar em “prioridades”: 

“Não é restrição, é priorização de quem utilizar ou seja quem adotar essa tecnologia receberá mais recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. São critérios que ainda estão em discussão na Secretaria Nacional de Segurança Pública e deve constar nas regras que vão disciplinar o acesso a recursos do Fundo”

Bahia é primeiro estado a aderir ao programa nacional

O plano de implementação das câmeras nas polícias estaduais está em discussão com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, e estados como a Bahia já estão se preparando para adotar a tecnologia. A previsão é de que o acordo de cooperação com a Bahia seja concluído, e a licitação para implementação das câmeras ocorra até abril do próximo ano.

Marivaldo Pereira diz que ainda está em andamento um estudo para avaliar a demanda e a quantidade de câmeras que seriam necessárias. A intenção é que as câmeras possam ser compartilhadas por mais de um policial, permitindo o uso durante as operações.

O projeto tem como meta começar com um piloto de 200 câmeras na Polícia Rodoviária Federal ainda este ano. O objetivo é testar a tecnologia e implementar em locais onde a demanda pelo uso das câmeras é maior.

Para Governo Federal, câmeras protegem policiais

O uso das câmeras visa melhorar a qualidade da segurança pública e a transparência das operações policiais. Estudos mostram que a adoção de câmeras tem contribuído para a redução do número de policiais e civis mortos em confrontos e aprimorado os processos judiciais com a disponibilidade de imagens.

O secretário ressaltou a importância de estabelecer um protocolo padrão e certificação de equipamentos para garantir que as imagens não sejam alteradas e que apenas as autoridades competentes possam acessá-las. 

A ideia é que a Polícia Rodoviária Federal seja um modelo a ser seguido por outras instituições. A implementação começará por locais onde os índices de reclamações e problemas são mais altos.

A adoção das câmeras é vista como um passo importante para avançar na transparência e garantir a segurança tanto dos policiais quanto dos cidadãos. A tecnologia visa aprimorar a qualidade das operações policiais e agilizar os processos judiciais, tornando a justiça mais efetiva.

Ouça aqui a entrevista completa no Jornal da CBN

Se você deixar a tristeza invade até o paraíso

Por Abigail Costa

@abigailcosta

Foto de Masha Raymers

O que é a tristeza a não ser a vontade de não ser e não estar; o desejo de habitar qualquer momento que não seja o presente, de preferência como uma sombra. Num passado nem tão passado assim, vi chegar o que mais desejava na vida: tempo, sem compromisso, sem hora marcada — quase que uma dádiva! 

O tempo veio seguido da aposentadoria, o que não é motivo para reclamação. Só que … (essas duas palavrinhas quase que já anulam o parágrafo). Outras situações apareceram sem serem convocadas. A intenção era a de cuidar mais das crianças, sem considerar que elas já tinham crescido. De viajar no meio da semana, esquecendo-me que todos os demais ainda não estavam desempregados, ops!, aposentados. Filhos, marido, irmãs, amigos, todos gerindo suas vidas e eu sem saber o que fazer da minha com todo o tempo adquirido.

Eu que passei boa parte da vida cuidando das pessoas — e aqui faço a defesa delas, nunca me pediram –; eu que sempre me enfiava de alguma maneira nesse negócio de cuidar da “vida dos outros” para aliviar a carga seja lá de quem fosse (do porteiro, do entrevistado, do amigo), esqueci de colocar no calendário a chegada da menopausa. Justo eu que conversava com médicos diariamente e falava sobre a saúde da mulher, dia sim dia não, começo a me sentir meio “acho que parece que não sei”.

Devo ter desacelerado muito rapidamente do trabalho, pensei, procurando uma justificativa para a tristeza que dava um jeitinho de entrelaçar os dedos com os meus. Os meninos já estão grandes e saindo de casa, é a síndrome do ninho vazio (tenho horror a esse termo, Freud explica!) me disse um profissional da área da saúde. O marido está trabalhando demais, será que isso não te incomoda, sugeriu uma conhecida.

O curioso, avaliando depois de algum tempo, é que todas as possibilidades para detectar de onde vinha e por que vinha essa tristeza faziam sentido. Eu entendia os fatos racionalmente, só não compreendia a dor da tristeza, o que estava para além da minha inteligência.


Por um longo período, tratei a tristeza com remédios para depressão e fui tocando a vida com todo o tempo para fazer a “colher de pau e bordar o cabo”, ou seja, fazer tudo que eu desejava fazer com o tempo. Pulei do “nossa já é essa hora?” para o “ainda é essa hora?”.


Conversando com uma amiga médica, ela pediu para olhar os meus exames de contagem hormonal (hoje pra mim parece tão óbvio). Meus hormônios tinham me abandonado. Sério!  O estrogênio, a progesterona e a testosterona  não apareciam na quantidade mínima no meu organismo. Foi quandome dei conta que, além da ausência dos filhos, da chegada da aposentadoria, e de todas as razões possíveis para estar “mal” e não saber a causa, deveria ter colocado no topo da pirâmide, a menopausa e todos os seus sintomas.

Hoje, quando ouço uma mulher falando que está se sentindo triste, eu pergunto: quantos anos você tem? Esses sintomas tem relação com os seus hormônios? Seu médico conversou isso com você?


Tanto quanto procurar um profissional de saúde, é importante o autoconhecimento e entender as nossas fases e o que elas nos trazem. Faz-se necessário a gente cuidar da gente e isso não implica  ter todo o tempo do mundo. Só precisamos de  um pouco desse tempo para prestar atenção no que está e no que vai nos acontecer.


Durante algum tempo a tristeza invadiu até o meu paraíso; hoje tenho noção que foi quando me faltaram hormônios e me sobraram demônios!

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa “Dez Por Cento Mais”, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.