Conte Sua História de São Paulo: a marmita do senhor Bonifácio

Flávio Cruz

Ouvinte da CBN

(memórias de minha infância em Perus, São Paulo)

A marmita que a dona Eleta preparava para o senhor Bonifácio era uma obra de arte. Tinha cinco andares. Cinco vasilhames redondos de alumínio com alças dos dois lados. Eu era muito criança e a marmita parecia desproporcional para o meu tamanho. Tenho certeza de que uma delas continha feijão e a outra, arroz. Isso era sagrado. As outras três levavam as misturas. Exalava um cheirinho muito gostoso. Ah, havia também, amarrada pelo gargalo, uma garrafinha verde com uma rolha de cortiça que continha o café. Esse café, após minha longa jornada, ainda chegava quente na fábrica de cimento. Garfo e colher eram segurados por um elástico num dos lados. Não me recordo da data exata, mas com certeza era a década de 1950.

O roteiro era perigoso para um garoto com menos de dez anos. Penso que havia mais anjos da guarda naquela época ou, ao menos, menos demônios. Saía de casa sempre no mesmo horário e começava a minha jornada. Descidas, curvas para a direita e para a esquerda, um casarão, o correio e lá no final uma esquina, seguida de uma reta.

Naquela época, acredito que nenhuma rua era asfaltada. Algumas eram cobertas com paralelepípedos e outras ainda eram de terra ou cascalho. Quando chovia, as ruas no alto tornavam-se perigosas, transformando-se em lamaçais, enquanto as mais baixas se enchiam de água. Entre essas pequenas tragédias, continuávamos com nossas vidas.

E também prosseguia meu caminho, até atravessar uma pequena ponte. Logo após, chegava a parte mais arriscada da jornada: um túnel que passava por baixo da estrada de ferro, usado para conduzir as águas do rio de nosso bairro, Perus. No canto, havia uma pequena passarela por onde caminhava cuidadosamente, vendo as correntes de água quase roçarem meus pés. Logo depois, já era possível ver as grandes chaminés da Fábrica de Cimento Portland Perus. Andava então pelo solo coberto por um pó cinza, quase verde, enquanto ouvia o apito anunciando o horário do almoço. Do meu lado esquerdo estendia-se uma grande cerca de arame. Os fios, muito grossos, estavam cobertos com o mesmo pó.

Após algum tempo, via meu pai me esperando. Ele sorria amplamente. Também, quem não sorriria, faminto, vendo chegar tal almoço?

Sentávamos no refeitório e, enquanto ele escolhia as marmitas e pegava os talheres, eu observava os outros trabalhadores, conversando e rindo, apesar do cansaço. Tinha certeza de que meu pai era o mais importante de todos, o mais forte, o mais… tudo.

Era um momento agradável do dia. Afinal, eu estava lá, cumprindo minha importante missão. Após algum tempo, ele terminava sua refeição, arrumava tudo, dava um tapinha em minhas costas e me mandava voltar para casa. Novamente, aquele sorriso de felicidade. Não é que ele sempre sorrisse. Mas quando o fazia, era valorizado. Ele também não era de ficar fazendo carinho ou dando abraços o tempo todo. Ainda assim, sentia que ele era o paizão mais afetuoso de todos, o senhor Bonifácio.

O tempo passou.

Já com dois filhos, visitava frequentemente meus pais em Perus, próximo de onde morava. Não havia mais fábrica de cimento, nem marmita, nem caminhada. A infância já tinha ficado para trás há muito tempo e agora pertencia aos meus filhos. Ao abrir o portão, deixava os dois correrem à frente. Meu pai, já aposentado, que estava abaixado cuidando de sua horta, levantava-se, olhava firme e sorria. Era exatamente o mesmo sorriso de quando eu levava suas marmitas. E esse sorriso era diferente dos outros. 

Foi somente então que entendi. O sorriso não era pelo almoço que eu levava. O sorriso era por mim. Era a alegria de me ver. Agora, já adulto, ele transferira esse presente para os netos. Era um sorriso reservado, mas vasto, do tamanho do mundo.

Agora, enquanto escrevo, após todo esse tempo, sinto que ele está olhando para mim novamente, com o mesmo sorriso, como se eu ainda fosse uma criança.

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Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros episódios, visite o blog de miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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