A sociedade do celular

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O celular deixou de ser um meio. Tornou-se o ambiente.

O show já nasce pensado para a tela do celular. O enquadramento importa tanto quanto a música. O refrão precisa caber em quinze segundos. O aplauso virou registro. O espetáculo só se completa quando alguém levanta o braço, grava e publica. Não basta assistir. É preciso provar que esteve lá.

O mesmo acontece com filmes, séries e novelas. A imagem agora precisa funcionar no ônibus, na fila do banco, na pausa do almoço. O roteiro acelera, o plano encurta, o silêncio incomoda. Tudo para caber no bolso — e na atenção cada vez mais disputada.

A comida segue o mesmo caminho. Antes de ser comida, precisa ser fotografada. A exposição virou “instagramável”. A experiência só existe quando é compartilhada. O prato esfria enquanto o celular trabalha. E segue sobre a mesa, ocupando o espaço do diálogo.

Esse é o lado mais ruidoso da história. Há outro, bem mais duro.

O poder público também aprendeu a olhar pelo celular. Em São Paulo, o Smart Sampa cruza rostos, identifica suspeitos, localiza procurados. Nas estradas, câmeras com inteligência artificial verificam se o motorista usa cinto ou segura o celular enquanto dirige. O olho eletrônico se espalha no espaço público. Vigia. Registra. Arquiva.

Ao mesmo tempo, cresce a disputa sobre quem controla esse olhar. A exigência de câmeras corporais em policiais e agentes de segurança virou batalha ideológica. Para uns, transparência. Para outros, ameaça. O debate não é técnico. É político. E, sobretudo, simbólico.

É nesse ponto que o texto de Julia Angwin, publicado no The New York Times, nesta segunda-feira, acende um alerta.

Ela descreve o celular não como distração, mas como arma cívica. Uma ferramenta de proteção do cidadão diante da violência do Estado. Nos Estados Unidos, pessoas foram intimidadas, agredidas e até mortas enquanto filmavam ações de agentes federais. Em alguns casos, o simples ato de gravar passou a ser tratado como violência. Alex Pretti foi executado por membros do ICE, em Minneapolis, portando como arma um celular.

O que está em jogo não é apenas o direito de filmar. É o direito de testemunhar.

O celular guarda algo precioso: a possibilidade de responsabilização futura. Mesmo que quem filma seja silenciado, a imagem permanece. Ela pode desmentir versões oficiais, expor abusos, recontar a história. Não por acaso, regimes autoritários costumam começar cortando a internet. Sem imagem, não há prova. Sem prova, sobra a narrativa de quem manda.

Há quase três décadas, o escritor David Brin antecipou esse dilema ao perguntar: quem controla as câmeras? Quando só o Estado vê, temos vigilância. Quando todos podem ver, temos fiscalização recíproca. A diferença entre opressão e liberdade passa pelo controle do olhar.

Vivemos, portanto, um paradoxo. O mesmo celular que nos distrai também nos defende. O mesmo aparelho que nos expõe pode nos proteger. Ele banaliza a vida e, ao mesmo tempo, preserva a verdade.

Talvez por isso incomode tanto quando alguém manda “guardar o celular”. Especialmente quando quem faz o pedido é pago com dinheiro público.

Na sociedade do celular, o risco não está no aparelho. Está em desistir de olhar — ou em aceitar que apenas alguns tenham o direito de fazê-lo.

O celular não é neutro. Ele revela quem somos, o que consumimos, como nos exibimos. E, quando necessário, mostra aquilo que alguém preferiria esconder. Nesse sentido, ele não é só um objeto do nosso tempo. É um termômetro da nossa democracia.

Porque onde ninguém pode filmar, quase sempre há algo errado acontecendo.

A Inteligência Artificial pode criar um novo Bach?

Dr Renan Domingues

@o_cerebro_musical & @renandominguesneurologia

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“Onde há devoção à música, Deus está sempre por perto

com sua presença generosa.”

Johann Sebastian Bach 

Antes de iniciar o artigo propriamente dito, vou declarar um conflito de interesse. Sou absolutamente fascinado pela música de Bach desde quando minha memória musical pode alcançar. Ao mesmo tempo, considero-o um dos grandes mistérios da história: como pôde um humano ter feito o que ele fez, na primeira metade do século XVIII, com tanta dificuldade de acesso a informações? Apenas para ilustrar: Bach, com 20 anos, viajou cerca de 400 Km, a pé, de Arnstadt até Lübeck, para ouvir o organista Dietrich Buxtehude. O contato com os compositores italianos, como Vivaldi e Corelli, e franceses, como Couperin e Lully, veio um pouco depois, quando trabalhou na corte de Weimar. Na biblioteca musical da corte, teve acesso a manuscritos de obras desses e outros autores. Como não havia fotocopiadora, teve que transcrevê-las à mão para estudá-las.

Foi justamente o contraste do universo de Bach com o presente, marcado por um acesso quase ilimitado à informação e à escuta, além da facilidade inédita de cruzar estilos, épocas e linguagens e, paradoxalmente, conviver  com uma sensação difusa de saturação criativa que gerou a inquietação que motivou este artigo. Mais do que um exercício de nostalgia ou de comparação ingênua entre passado e presente, trata-se de uma tentativa de refletir sobre o que distingue a mera acumulação de conhecimento da verdadeira criação, analisando o papel da intuição, do limite e da profundidade no processo criativo.

A música criada por Bach não rompeu com o passado. Ele absorveu um volume absurdo de informações musicais e o levou ao limite máximo de coerência, complexidade e universalidade. Nisso incluem-se influências de diversos compositores alemães, italianos e franceses, reorganizadas por ele com uma lógica inédita. Todos os elementos musicais já existentes como as tonalidades são explorados até o limite, e dentro de uma estrutura musical onde nenhuma nota é acidental, estando interligadas em uma lógica musical que transcende tudo o que até então havia sido produzido. Nessa lógica, com suas simetrias formais e elementos verdadeiramente matemáticos, a emoção deriva de uma ordem profunda, e não de soluções superficiais. As soluções musicais elaboradas por Bach deram origem a um campo inesgotável de investigação, atravessando séculos de estudos, análises e releituras, irradiando-se como fundamento da tradição ocidental. Bach foi a grande influência de compositores como Mozart, Haydn e Beethoven, além de todas as futuras gerações representantes da música ocidental estruturalmente elaborada.

Mesmo tendo investigado profundamente a música de sua época, Bach não foi apenas um “superprocessador” de estilos existentes. O seu cérebro foi capaz de absorver todo o passado musical, identificar estruturas profundas comuns entre linguagens distintas e reorganizá-las em um sistema muito maior do que o anterior. Ele não foi simplesmente a soma do que já havia; foi o multiplicador exponencial. Do ponto de vista cognitivo, fez muito mais que processamento; criou paradigmas. Não se restringiu a cruzar dados; criou hierarquias. Ele não apenas reconheceu e recombinou padrões. Decidiu quais eram fundamentais e como deveria organizá-los, para que se submetessem a uma lógica interna definida por ele. Podemos agrupar essas capacidades cognitivas dentro de uma função genérica, que aparentemente todos os humanos têm, em geral em pequeno grau, que é a intuição. 

O conceito neurobiológico de intuição difere do senso comum. Intuição não é “insight”. Tampouco é uma forma ilógica ou preguiçosa de processar informações. Intuição é lidar com informações sem o uso da linguagem. É o que o cérebro sabe, mas não consegue explicar. Através da intuição nosso cérebro consegue extrair padrões a partir da experiência acumulada, sem inferir conscientemente como se deu o processo.

A neurociência tem identificado redes cerebrais que estão associadas ao processamento intuitivo. Um exemplo é a rede do modo padrão (default mode network) que integra várias regiões do cérebro e é importante para processar informações do passado, fazer simulações, pensamento abstrato e recombinações criativas. Outro circuito essencial no processamento intuitivo é a rede de saliência (salience network), que está envolvida na detecção de padrões relevantes e direcionamento da atenção, interrompendo o processamento automático. Uma área do cérebro importante para a intuição é o córtex pré-frontal, que é relacionado ao controle dos processos cognitivos. Curiosamente, a intuição está associada a menos ativação do córtex pré-frontal lateral e menos controle, permitindo ao cérebro quebrar padrões habituais, fazer associações remotas e encontrar soluções não lineares.

Outros circuitos têm sido associados à intuição, e o que reforça que essa é uma função cerebral peculiar é o fato desses circuitos não serem meros armazenadores de regras explícitas. Ao contrário, na intuição o cérebro reconhece estruturas profundas comuns a contextos diferentes, ignora detalhes superficiais e pode reorganizar sistemas inteiros. E, como isso exige integração global em várias camadas e não apenas uma otimização local, como ocorre na memorização simples, a intuição depende do envolvimento de grandes redes cerebrais.

Perguntei a uma ferramenta de inteligência artificial se seria possível, com os algoritmos modernos, construir modelos de processamento mental intuitivo semelhantes aos de Bach. Ela me respondeu que não, pois se hoje temos mais informação do que Bach jamais sonhou, os algoritmos apenas reconhecem padrões, recombinam estilos e atuam dentro de uma coerência local, em nível horizontal. A intuição de Bach lhe permitiu atuar em um nível vertical de abstração, criando hierarquias. Bach operava por sentidos e não meramente por correlações ou probabilidades.

A criação em Bach não foi apenas uma evolução linear do conhecimento, ele mudou as perguntas, e não apenas as respostas, redefinindo assim o que importava como música. Criar uma relação entre forma e conteúdo não surge automaticamente do cruzamento de dados, mas da capacidade de gerar novos sistemas simbólicos. As IAs não sentem relevância e não sabem quando um sistema precisa ser reinventado. Intuição está ligada a valor e significado, dimensões não pertencentes aos algoritmos. Curiosamente, o excesso de opções, que a infinitude de dados das IAs proporciona, atua contra a intuição, enquanto restrições favorecem a criatividade. Nesse sentido, vale destacar que Bach era um trabalhador contumaz, tinha regras rígidas e demandas semanais. A sua intuição era profundidade e não quantidade. Enquanto a IA amplia o território, Bach redefinia o mapa.

E o que falta à IA para dar esse “salto bachiano” rumo à intuição? Segundo essa mesma ferramenta, os algoritmos ainda precisam aprender a meta-criar os processos estéticos, e não apenas recombiná-los, ou seja, serem capazes de transformar o próprio sistema dentro do qual a criação acontece. Eles precisam aprender a reavaliar seus próprios objetivos musicais, decidir o que deve ser preservado e o que deve ser descartado. Para isso seria necessário operar com intenção simbólica e hierárquica, não só estatística.

Se os algoritmos são absurdamente eficientes para otimizar paradigmas pré-existentes, não são capazes de criar paradigmas novos. E o que torna ainda mais improvável esse “salto bachiano” é que o contexto que permitiu que esse fenômeno da música tenha existido no século XVIII, não existe mais. A tradução luterana, sendo a música parte da teologia, a prática semanal intensa (produção semanal de cantatas e oratórios), educação musical rigorosa e foco em profundidade são elementos estranhos aos nossos tempos.

Bach não fazia música para os homens, mas sendo uma pessoa de profunda fé, compunha uma música de grande profundidade para Deus. E aí talvez resida o grande abismo de paradigmas. A música, as artes e tudo que se produz hoje é feito para uma outra divindade: o mercado. Até a música religiosa é para vender, e vende bem! E para o mercado não há hierarquia ontológica, tudo são dados e estatísticas e não atos estético-filosóficos.

Se vivesse nos dias de hoje, Bach não precisaria viajar 400 Km a pé ou transcrever obras inteiras. Em poucos segundos daria a volta ao mundo e teria acesso a qualquer informação musical já arquivada. Talvez, para encontrar a música que ele buscava, teria que fazer uma outra viagem que a tecnologia não permite: uma viagem no tempo. Ouvir Dietrich Buxtehude improvisando ao órgão em uma igreja, no início do século XVIII, talvez não seja uma experiência alcançável com o Spotify. Digitalizar as partituras dos compositores italianos e franceses talvez nunca se equipare a transcrever, e sentir, cada nota copiada.

Bach, o seu Deus e a sua música residem no século XVIII. E, dentre as coisas boas que a tecnologia e o mercado nos permitem, está a possibilidade de olhar e sentir um pouco desse passado. Se isso não nos possibilita revivê-lo, pelo menos nos proporciona algum descanso para o nosso presente saturado, acelerado e encharcado de informação.

Renan Domingues é neurologista e Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. É músico e estudioso da neurociência da música. Escreve a convite do blog do Mílton Jung.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quem manda no seu pedido de comida é o restaurante ou o aplicativo?

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Pedir comida virou um gesto automático: alguns cliques no celular e o jantar está a caminho. Esse hábito cotidiano ajuda a revelar uma disputa silenciosa que vai além da fome e do cardápio. O tema foi analisado no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN de sábado, a partir de uma pergunta simples e incômoda: quem está influenciando a escolha do consumidor: a marca do restaurante ou a do aplicativo?

A discussão parte de um dado concreto da vida urbana. Mochilas de entregadores se multiplicam pelas ruas e mostram como os aplicativos passaram a ocupar um espaço central no consumo. Para Cecília Russo, houve uma inversão relevante na lógica de decisão. “Hoje, muitas vezes, a escolha começa pelo app”, observa, ao lembrar que antes o consumidor pensava primeiro no tipo de comida e depois no restaurante. Agora entram em cena descontos, tempo de entrega e destaque na tela. A fome continua mandando, mas o algoritmo ajuda a decidir.

Esse novo caminho traz consequências diretas para quem produz a comida. Nos ambientes de marketplace, o restaurante perde parte de sua identidade. Fotos padronizadas, descrições genéricas e pouca história dificultam a diferenciação. Cecília alerta para o risco de a marca virar apenas “mais uma opção com 30% de desconto”. Quando tudo se organiza por promoção e velocidade, o valor simbólico some e o preço vira o único argumento.

O cenário fica ainda mais complexo com a expansão das dark kitchens, cozinhas que não existem no mundo físico e operam apenas para atender aos aplicativos. São marcas criadas para performar no algoritmo, pensadas para o clique e não para a experiência. Nesse modelo, o cliente escolhe pela nota, pela imagem e pelo prazo, não pela trajetória ou pelo vínculo. Construir relacionamento, aqui, é tarefa árdua.

Do outro lado da tela estão as marcas dos aplicativos. Jaime Troiano chama atenção para a mudança de confiança do consumidor. “Hoje, muitas vezes, a confiança não está no restaurante, mas na marca do aplicativo”, afirma. É o logotipo do iFood, do 99Food, do Rappi ou do Keeta que garante segurança na entrega e recebe a reclamação quando algo dá errado. Essas plataformas não vendem sabor nem memória afetiva. Vendem tempo, conveniência e menos esforço.

A estratégia passa por ocupar cada vez mais espaço na rotina doméstica, com entregas que vão além da comida: farmácia, mercado, serviços para pets. Na tentativa de se diferenciar, acabam se parecendo. Jaime lembra que há um ponto sensível nessa equação: a relação com entregadores e restaurantes. “A respeitabilidade e a construção de reputação passam por como essas marcas tratam as três pontas do sistema”, diz. Consumidor, parceiro e trabalhador formam uma triangulação que precisa ser equilibrada.

A marca do Sua Marca

O comentário deixa uma mensagem clara para negócios de todos os setores. Rapidez é requisito básico, não diferencial. O desafio está em entregar valor, criar significado e evitar a armadilha de competir apenas por preço ou conveniência imediata.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: é preciso ouvir os sinais

Inter 4×2 Grêmio
Gaúcho – Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 449
Luis Castro comanda o time no primeiro Gre-Nal. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os sinais estão por aí. Espalhados, discretos, insistentes. Falta-nos, quase sempre, atenção para percebê-los e alguma habilidade para traduzir o que tentam nos antecipar. Não é preciso ser vidente. Basta menos ilusão e um pouco mais de perspicácia.

Conto isso porque os sinais falaram comigo. E eu, como costuma acontecer, preferi não escutar.

Quando marquei o retorno da viagem de férias — que se encerra hoje — o Gre-Nal estava previsto para o dia anterior. Plano perfeito: assistir ao clássico com tranquilidade, direto do hotel. Um ajuste no calendário mudou tudo. A bola rolaria exatamente no horário em que eu estaria em voo para São Paulo. Lamentei. Perderia o primeiro clássico da temporada.

Havia saída? Até havia. Bastaria trocar a passagem. O problema é que as companhias aéreas cobram caro por mudanças repentinas. Pensei melhor. Gre-Nal fora de hora não valia tanto assim. Ainda que, como ensina a sabedoria popular, Gre-Nal é Gre-Nal.

Ali estava o primeiro aviso. Ignorei.

Logo após a decolagem, a comissária anunciou que o avião tinha internet. Um sopro de esperança. O processo parecia simples: baixar o aplicativo da companhia, fazer cadastro, aceitar termos, oferecer dados pessoais e, se possível, lembrar a senha criada em algum passado remoto. Nada funciona de maneira simples — o que já deveria ter sido entendido como mais um sinal.

Entre aplicativos, senhas esquecidas e dados inseridos de forma errada, consegui conexão. Fui direto ao site do GE. Quem sabe assistir ao jogo em vídeo, lá do alto. Ingenuidade. A internet não dava conta disso. Qualquer pessoa razoável teria parado ali. O gremista, não.

“Estão tentando me boicotar, mas não vão me afastar do Grêmio”, pensei, já desconfiando da própria teimosia. Se não dava em vídeo, iria no áudio. O rádio pela internet sempre salva. Lembrei da GZH. Um clique no play e pronto: a voz de Pedro Ernesto Denardin preenchia a cabine. Vitória parcial.

Ah, se eu tivesse ouvido os sinais do destino…

Resta torcer para que o técnico gremista tenha mais sensibilidade do que eu. Que saiba ler as mensagens deixadas por esta derrota no Gre-Nal, traduzi-las com clareza e transformá-las em aprendizado. O futebol, assim como a vida, vive nos avisando. Ignorar custa caro.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: de madrugada, entregava pão quente em casa

Lucio Urbano

Ouvinte da CBN

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Dezembro de 1972. Aos 11 anos, comecei a trabalhar como entregador de pão e leite na Vila Mariana. Naquela época, não existiam muitas padarias. As fornadas começavam a sair de madrugada e a última era por volta das sete e meia da manhã. Depois disso, só no dia seguinte.

Os entregadores eram comuns em bairros mais nobres e de classe média. Às três da madrugada, eu chegava a Padaria Cruzeiro, no Largo Ana Rosa — onde havia uma enorme cratera para a construção do metrô. Carregávamos pão e leite na Variant do meu pai. No começo, eram mais bengalas do que pãezinhos; com o tempo, isso foi se invertendo. O leite vinha em garrafas de vidro, transportadas em engradados de ferro. Depois, passou a ser vendido em sacos plásticos.

Por volta das três e meia da manhã começavam as entregas nas casas e prédios da região. Cada residência tinha uma caixa de ferro ou uma sacola de pano pendurada em local previamente combinado, onde deixávamos os produtos.

Perto das seis horas, eu retornava à padaria para a “segunda volta”: mais pão, mais leite e seguíamos até concluir o atendimento da freguesia, por volta das oito da manhã. Aí era hora de ir para casa, tomar café, fazer a lição da escola, ir ao curso de datilografia, almoçar e assistir às aulas no colégio à tarde.

Em 1980, um dos donos da padaria, o senhor Luís, conseguiu para mim uma carta de apresentação com o gerente do Banco Itaú. A ideia era tentar uma vaga, afinal eu já tinha curso de datilografia. Consegui. Fui trabalhar como escriturário em uma agência na Rua Luís Góes.

Passei por várias funções: conferente, somador e separador de documentos, operador de telex, caixa, tesoureiro. Fui crescendo e saí de lá na gerência. Trabalhei em outras agências e deixei o banco em 1991. Já havia concluído a Faculdade de Economia quando fui convidado por um cliente do banco para ser gerente financeiro em sua empresa.

Foi uma experiência marcante, que redirecionou minha carreira. Trabalhei em multinacionais na área administrativa e financeira e, nos últimos anos antes da aposentadoria, atuei no mercado corporativo na área de Recursos Humanos. Um campo que exige preparo, experiência e discernimento, afinal, a matéria-prima é complexa, desafiadora e, ao mesmo tempo, a mais gratificante e preciosa com a qual se pode trabalhar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Lucio Urbano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: tão longe e tão perto de ti

Guarany 0x2 Grêmio

Gaúcho – Estrela D’Alva, Bagé RS

Gremio x Guarany
Carlos Vinícius comeora quarto gol no Gaúcho Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comecei a Avalanche passada falando da minha distância em relação ao Grêmio. Distância física, claro, porque de alma e coração estamos sempre próximos. Estava, como ainda estou, em João Pessoa, na Paraíba, enquanto o Grêmio disputava uma partida em Porto Alegre. A distância volta à nossa crônica, porque na noite de quarta-feira o Grêmio foi para mais distante ainda ao jogar em Bagé, cidade gaúcha tradicional de muitas histórias e personagens.

Na fronteira com o Uruguai, o futebol gremista também esteve tecnicamente distante do que havíamos assistido na rodada anterior, na Arena. É preciso considerar que o time não era aquele que entendemos ser o titular. Ressalvas ainda para  palco da partida: estádio acanhado, vestiários precários, gramado ruim e, como se viu, infraestrutura frágil. O jogo começou com 40 minutos de atraso por problemas no fornecimento de energia na subestação do Estrela D’Alva, segundo informou a companhia elétrica. 

Apesar de a falta de criatividade e coletividade, três nomes se destacaram no primeiro tempo: os jovens Luis Eduardo, na zaga, e Roger e Enamorado, no ataque. No segundo tempo, o time voltou a ter dificuldades para chegar ao gol. O cenário mudou pouco mesmo com a expulsão justa de um dos adversários, aos cinco minutos — pô, Serginho, esperava que ao menos você gritasse na hora que era caso de expulsão (desculpa aí, caro e raro leitor, foi só recado para um dos amigos que mais admiro na crônica esportiva).

Cansado de esperar um desempenho melhor, Luis Castro fez as mudanças necessárias para o time chegar ao gol. Gabriel Meck entrou bem na direita e foi dele o cruzamento para que Carlos Vinícius marcasse o gol que abriu o placar. Vini da Pose precisou de poucos minutos para mostrar a André Henrique como se posicionar corretamente entre os zagueiros e cabecear de maneira certeira no gol. Em lance parecido, no primeiro tempo, André havia desperdiçado uma das poucas oportunidades que tivemos.

O jogo ficou mais fácil com a necessidade de o adversário sair para o ataque e a presença no meio de campo de outro guri da base, Jefferson. O time ganhou em intensidade e criatividade, chegando ao segundo gol em lance que também teve participação de Carlos Vinícius e foi concluído por Edenílson. Uma nota positiva ainda para o goleiro Weverton que fez uma estreia segura nas poucas vezes que foi acionado. 

Domingo tem Gre-Nal. É o dia em que retorno das férias. Estarei um pouquinho mais próximo do Grêmio. E, espero, que o Grêmio esteja muito próximo de mais uma vitória no clássico.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cicerones da cidade

Vera Lucia Curtu

Ouvinte da CBN

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São Paulo era sempre cinza… a vida sempre acontecendo sob uma garoa fina… Os táxis eram grandes e todos pretos, de portas pesadas, daqueles carros antigos como dos filmes. Duraram pouco, para mim… fiquei menina e logo todos viraram fuscas, por dentro e por fora geralmente assustadores: velhos, quebrados, sujos, barulhentos que davam medo. 

Há tempos são carros novos, todos brancos e com motoristas profissionais e educados: conhecem a cidade, perguntam qual caminho preferimos, os carros sempre limpos e fazem o que for preciso para te deixar, com calma, pertinho e não do outro lado da calçada. 

Se tem uma classe paulistana que é “dez” é a dos motoristas de táxis. Não são apenas motoristas, são verdadeiros cicerones da cidade. 

Quanto aos ônibus? Você acha os de hoje são lotados? Ah! isso é porque você nunca tomou um Penha-Lapa nos anos 1970… o pior é que a gente achava normal! 

Bom, é muita coisa para uma sexagenária contar sobre sua cidade na sua rádio preferida, a CBN. Mas, fica aqui esse registro sobre uma pequenina parte de nossa “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil”. Ops, desculpa aí, Rio !

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Vera Lúcia Curtu é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: para quem domina idiomas e aceita ganhar pouco

Evandro Gimenez

Ouvinte da CBN

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Cheguei a São Paulo em 2003. Vim sem ter onde morar. Contei com a ajuda de um amigo do meu irmão, que vivia na Santa Cecília, na Rua Major Sertório. Ele praticamente morava com a namorada e me emprestou o quarto onde dormia.

O “quarto” era uma dispensa de 2,5 metros quadrados. Um colchão no chão, um armário embutido e pouco espaço para eu me deitar — só na diagonal. Ali moravam mais três rapazes, cada um com seu quarto. Fiquei cerca de três meses até encontrar outro lugar para dividir, dessa vez com pessoas que eu nunca tinha visto.

Logo me acostumei ao caos da cidade. O cheiro de gás nas ruas. Metrô e ônibus lotados. Desci do lado errado incontáveis vezes, errei ponto, comi em padarias perto do Minhocão e esperei ônibus no Terminal Princesa Isabel. Hoje rio disso tudo.

São Paulo me ensinou a confiar em mim. Eu não conhecia ninguém. Meus pais ficaram em Jales e eram contra minha vinda. Mandavam 300 reais por mês, só para o básico. Consegui subempregos, lavei banheiro, dormi três horas por noite durante meses. Chegava às 11 da noite e acordava às 4h40. Pela formação em tradução, fazia trabalhos indicados por amigos do interior. Isso ajudava a pagar aluguel, comida e transporte. Trabalhei muitas vezes de segunda a segunda.

Nesse caminho, conheci pessoas que me abriram portas. Comecei a dar aulas de inglês, francês e italiano. Foi assim que surgiu uma proposta inesperada: trabalhar em Alphaville, num ambiente corporativo. “A empresa precisa de alguém jovem, que fale vários idiomas e aceite ganhar mal”, disseram, rindo. Fiz a entrevista. Um mês depois, entrei como assistente de vendas, pegando ônibus intermunicipal pela Castelo Branco.

Nessa época eu morava em Pinheiros, na Teodoro Sampaio, perto da Benedito Calixto. O bairro tinha outro clima: gente despojada, feirinha de antiguidades, jazz saindo das escolas de música. Depois, por necessidade, fui morar sozinho numa quitinete na Rua Castro Alves, em frente ao Hospital do Servidor Municipal. Pagava 300 reais. Era o que dava.

Aos poucos, fui crescendo. Mudando de emprego. Errando e acertando. Discuti com chefes por convicções, fui demitido, consegui trabalhos melhores. Fiz amigos, vivi amores e desamores. Hoje empreendo, unindo música, tecnologia e design.

São Paulo me deu trabalho, profissão, renda e amigos que viraram família. Sou quem sou porque decidi sair do interior e enfrentar a cidade. Apesar de tudo o que dizem, São Paulo me fez mais feliz e mais realizado.

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Evandro Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a telefonista que conectava o Brasil

Maria Dusolina Rovina Castro Pereira

Ouvinte da CBN

Foto: Wikipedia/Domínio Público

Comecei a trabalhar aos 12 anos, em Piracicaba, onde morava. Fui babá, manicure, balconista, auxiliar de escritório até que, aos 17, surgiu um teste para telefonista na Companhia Telefônica Brasileira. Passei. Estava ali meu primeiro emprego formal.

Era o fim dos anos 1960. Todas as ligações interurbanas dependiam da intervenção de uma telefonista. Para falar com outra cidade, o usuário ligava para a CTB, informava o destino, o número e o nome da pessoa. Dependendo do local, do horário e da conexão, a ligação podia ser imediata ou entrar numa fila que durava horas — às vezes, dias. De Piracicaba para a Capital, não era diferente.

Com o pedido em mãos, começava nosso trabalho. Muitas conexões passavam por várias cidades. Ainda me lembro que, da nossa mesa de operação para alguma localidade no Mato Grosso, por exemplo, Piracicaba chamava Jaú, que chamava Bauru, que chamava Cuiabá, até chegar ao destino. Tudo era feito manualmente, com plugues — as “pegas” — encaixados em painéis cheios de luzes. As ligações eram caras, cobradas por minuto. Falava-se apenas o necessário.

Com o tempo, desenvolvi uma verdadeira agenda telefônica na cabeça. Muitas vezes eu já sabia o número solicitado antes mesmo de o cliente dizer. Gostava muito da profissão. Trabalhei ali por três anos, enquanto concluía a Escola Normal — o sonho da minha mãe era ter uma filha professora. Depois fiz cursinho para o vestibular. Aprovada, vim para São Paulo com uma bolsa que pagava apenas o pensionato e o transporte. Quando o auxílio terminou, precisei trabalhar para continuar na cidade.

Bati à porta da Telefônica, na Rua Sete de Abril. A recontratação não era comum, mas insisti. Em 1973, já com o DDD implantado em muitos lugares, o sistema era mais ágil. Eu saía da central às 11 da noite e caminhava rápido até a Praça da Sé para pegar o ônibus rumo à Aclimação. Jovem, sozinha, vinda do interior, sentia medo — mesmo numa São Paulo muito mais segura do que hoje.

Fiquei ali por apenas três meses. Fui chamada para trabalhar em um hospital, já na minha área de formação. Cheguei até esse novo emprego de uma forma inusitada, mas isso já é outra história. 

Hoje, quando falamos com o mundo inteiro em segundos, é difícil imaginar o que significava fazer um interurbano. Mas eu — e tantas outras telefonistas — guardamos com carinho a lembrança de uma profissão que ajudou a conectar pessoas, empresas e caminhos de vida na nossa São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Maria Dusolina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.bre o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a caneta vermelha do revisor de texto

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Sempre morei em Santo Amaro, mas meu primeiro trabalho com carteira assinada foi na FC Editora, no bairro Santa Cecília. O ano era 1992. Para chegar lá eu pegava um ônibus até a Praça da Bandeira e depois o metrô até a estação Marechal Deodoro. Uma hora e vinte minutos de deslocamento.

Consegui o emprego enviando uma carta para o então diretor da revista Autoesporte, Fernando Calmon, que continua firme e forte como um dos jornalistas mais admirados do setor automotivo. Na carta eu expliquei que era formado pela Faculdade Anhembi Morumbi e sabia muito sobre carros porque lia todas as revistas do gênero.

Dias depois me chamaram para um teste. Fui contratado como revisor de textos. Lembro que meu pai ficou tão feliz quanto eu. A revisão era uma das portas de entrada do jornalismo. Usávamos uma caneta vermelha para apontar os erros, um dicionário Aurélio, uma gramática e o Manual do Estadão.

Dia sim, dia não, chegava algum carrão na garagem da editora. As importações tinham sido reabertas no começo dos anos 1990 e a Autoesporte testava todos.

Em 1998, mudamos de mala e cuia da Santa Cecília para o Jaguaré. Foi quando a Editora Globo adquiriu a Autoesporte e também a Casa&Jardim. Como parte do acordo de venda, todos os funcionários foram desligados de uma empresa e recontratados pela outra. No novo prédio passamos a dividir espaço com outras revistas como Galileu, Pequenas Empresas, Globo Rural, Época e também o jornal Valor.

Saí da editora em 2002 com a profissão já encaminhada, atuando como repórter e também como redator em outras empresas. Hoje, tenho 60 anos e percebo que o jornalismo passa por grandes mudanças. A profissão de revisor perdeu espaço nas redações faz mais de 20 anos, mas ainda resiste na publicação de livros e de outros conteúdos em que não se pode escorregar no português.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo 

Mario Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.