Uma semana antes de ouvir o convite da CBN para escrever nossas histórias no rádio, minha Tia Wilma Medeiros, que hoje tem 89 anos, havia me contado um fato de sua infância: ela ouvia o programa de Nhô Totico — um dos ícones do humor radiofônico, no Brasil
O programa se passava em uma classe de escola, era a Escolinha da Dona Olinda, na qual havia vários alunos diferentes, com sotaques diferentes: um inteligente, outro chorão … e o preferido dela era o Jorginho, o Turco.
Minha tia me disse que quando tinha por volta de seis ou sete anos, a professora dela levou os alunos para conhecer o programa do Nhô Totico.
Chegando na emissora de rádio, minha tia ficou esperando pelas crianças da escolinha da Dona Olinda. E nada das crianças chegarem. As crianças não chegaram.
Para surpresa e decepção dela, Nhô Totico era um adulto, gente grande, que imitava a professora, Dona Olinda, e os alunos da sala de aula.
Nhô Totico foi muito gentil com minha tia. Afagou sua cabeça e beijou suas mãozinhas, pois ela era a menorzinha da classe. Apesar do carinho, Tia Wilma disse que estava assustada. Não era o que esperava encontrar. Naquele dia, se desfez a magia daquele programa de rádio.
Para ela o melhor do rádio estava mesmo na imaginação!
Flávia Bissoto Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo, especial 100 anos de rádio. A sonorização é do Cláudio Antonio. A partir de outubro, voltamos a nossa programação normal. Então, aproveite e escreva agora mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br
Neste mês de setembro, o Conte Sua História de São Paulo abre espaço para uma edição especial em homenagem aos 100 anos do Rádio, que se completam no dia sete. Os ouvintes foram convidados a falar de suas experiências com este veículo e os textos selecionados serão publicados todos os sábados deste mês e, também na semana de 5 a 9 de setembro, no CBN SP. Como sempre, a sonorização é de Cláudio Antonio que buscou nos arquivos do rádio de São Paulo momentos desta incrível história.
Mário Curcio
Ouvinte da CBN
Minha história com o rádio começa com um daqueles modelos à pilha e capinha de couro marrom, que já estava em casa antes de eu nascer. A marca era Hitachi. Ele ainda existe. Foi um presente que meu pai deu pra si mesmo no dia em que meu irmão nasceu. Dentro da capa está marcado à caneta o dia da compra: 6 de julho de 1959.
O radinho tem duas faixas, AM e Ondas Curtas, uma frequência em que é possível ouvir até emissoras da Europa e da China nas noites de céu limpo.
O seu João, meu pai, tem hoje 92 anos. Ele cresceu na época de ouro do rádio, quando a família se reunia à noite para ouvir shows de auditório, novelas e também notícias sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas foi com aquele rádio marronzinho que ele comemorou as Copas do Mundo de 1962 e 1970. Também vibrou com muitos gols do nosso Palmeiras.
Neste radinho descobrimos quem era Adoniran Barbosa. Nossa música favorita com o Adoniran ainda é “O Samba do Arnesto”. Em 1970 meu pai estava no auge da carreira dele na indústria farmacêutica Squibb aqui em Santo Amaro e comprou um Chevrolet Opala Standard.
O carro veio sem rádio, mas nas primeiras viagens ele prendia o velho radinho no quebra-vento pra não perder o futebol. Esse aparelho também servia como espanta-ladrão: nas noites em que saíamos, ele ficava ligado na sala pra fazer de conta que tinha gente em casa.
Neste e em outros aparelhos, eu e meus irmãos passamos parte da infância e a adolescência ouvindo duas emissoras de AM aqui na capital paulista, a Difusora 960 e a Excelsior 780, a Máquina do Som, que deu lugar à CBN em 1991. Também pegamos o período de transição para o FM, uma frequência que melhorou muito a utilização do aparelho, especialmente dentro de empresas ou lugares com muitos equipamentos elétricos, que ainda causam interferência no AM.
Sou jornalista e o rádio é minha principal fonte de informação. Ouço a CBN dia e noite. Para o meu pai, que perdeu a visão por causa da diabete, o rádio é sua tevê, seu futebol e sua vida.
Mário Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Em outubro, voltaremos à nossa programação normal, então aproveite para contar a sua história da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Thaciano comemora segundo gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Para falar da vitória gremista nesta noite de sexta-feira, destaco dois momentos que me chamaram atenção na partida.
No primeiro, o VAR cconvoca o árbitro depois do segundo gol do Grêmio. Pior do que a dúvida de ver o gol ser anulado, é o risco de o lance retornar à origem e um pênalti ser assinalado; de o 2 a 0 que o placar da TV já registrava se transformar em 1 a 1, em meados do segundo tempo. Foram quatro ou cinco minutos de discussão, revisão e ameaça de correção. Acostumado com os acontecimentos dos últimos tempos, do alto do sofá de minha casa, já previa o pior porque assim tem sido nossa jornada desde a tragédia do ano passado: se alguma coisa pode dar ruim, dará ruim.
No segundo, um escanteio a favor do adversário é assinalado quando o cronômetro já havia corrido mais de seis minutos desde os 45 finais. Era resultado de uma sequência de tentativas de ataque que pressionavam nossa defesa e provocavam um sofrimento desmesurado na torcida. Um gol naquele momento seria a decretação do empate — já havíamos tomado um aos 33 do segundo tempo —, da manutenção da série sem vitórias e a abertura da temporada de horrores na reta final do campeonato. Antes de o cruzamento se realizar, meu descrédito previa o pior. Tinha a impressão de que nada seria capaz de impedir aquela bola de entrar no nosso gol. E o pior esteve perto de ocorrer, porque a bola foi mal rebatida pelo Grêmio, ficou dentro da área e por duas vezes o adversário teve a oportunidade de marcar.
Do lance em que o VAR tentou anular à iminência de gol nos acréscimos, algo estranho para esses tempos complexos que vivemos aconteceu: nem o árbitro sinalizou o pênalti nem os atacantes adversários conseguiram botar a bola na rede — nesse caso, bem que um deles enxergou o canto aberto e empurrou a bola naquela direção, mas quis o destino que fosse desviada para a linha de fundo.
Nada do que fizemos em campo, nesta noite, foi muito diferente do que vinha sendo feito até então. Feitos que nos colocaram há algum tempo entre os quatro primeiros classificados mesmo que diante de alguns resultados capengas.
Houve a pressão inicial — neste caso premiada com um gol bastante cedo —- e o espaço para o adversário se aproximar da nossa área; assim como houve um esforço descomunal dos nossos jogadores para revelar disposição na marcação e a imprecisão em muitas jogadas de ataque. Houve até Diogo Barbosa (que por sinal jogou bem e participou dos dois gols) e Thiago Santos, no mesmo time —- o que faria as telhas do Estádio Olímpico despencarem na cabeça de qualquer um que por lá se atrevesse passar. Houve vaias para Campaz e muxoxos para qualquer outro que não fosse capaz de fazer em campo o que a torcida imaginava na arquibancada.
Nada mudou. Nem se poderia esperar por isso, apenas porque a direção do Grêmio decidiu demitir todo o comando do departamento de futebol – com medo de perder votos na eleição do conselho deliberativo do clube, no próximo dia 24 – cometendo mais uma injustiça contra Roger. Mas estou convicto de que alguma força qualquer decidiu nos ajudar, nesta sexta-feira. Dessas coisas que a gente não sabe explicar direito. Dessas que alguns chamam de sorte ou azar. Outros falam em sobrenatural. Os atrevidos dizem que é coisa de quem nasceu com aquilo virado para a lua.
Acho que é um pouco de cada coisa, porque tem gente chegando que dá a enteder que foi iluminada por forças superiores, pois mesmo que trace linhas tortas consegue escrever a história do jeito que deseja.
“A nossa cultura é inacreditavelmente diferenciada justamente por isso, porque todos temos a liberdade de opinar em qualquer nível. E a colaboração acaba acontecendo e a inovação vem também acompanhando toda essa dinâmica”
Gilson Magalhães, Red Hat Brasil
O surgimento dos smartphones, que mudaram a sociedade, permitindo que a tecnologia da informação chegasse às mãos de bilhões de pessoas, foi o impulsionador das soluções em código aberto. A opinião é de Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil, líder internacional no desenvolvimento de software open source —- perdão, é assim, em inglês, que a turma costuma se referir ao tipo de produto criado em um regime descentralizado em que a empresa não é a única responsável por sua produção.
“A gente não entende, talvez, a dimensão do impacto dessa tecnologia no nosso dia a dia e como ela veio com escala muito maior. Saímos da escala de milhões de pessoas que usavam Tecnologia de Informação para bilhões de pessoas. Foi necessário o uso de novas tecnologias e um dos casos importantes nesse avanço foi justamente a participação das soluções de código aberto como um fomentador da inovação e crescimento da escala”.
Gilson foi criado no ambiente do código proprietário, ou seja, cada um é dono do seu próprio nariz e ninguém põe a mão. Foi há oito anos que se descobriu um apaixonado pelo código aberto provocado pelo que identificou ser um tendência de mercado e se ofereceu para trabalhar na Red Hat Brasil:
“Não só não me arrependo da decisão, como acho que esse é o caminho para as novas gerações, porque é o caminho que garante que haja, na evolução dessa grande indústria, a possibilidade da colaboração das pessoas participarem da estruturação de como vão ser as entregas, as soluções de TI”
Em uma indústria em que a colaboração é a chave que aciona a inovação, a gestão de pessoas tem de ser pautada por essa mesma ideia. As relações têm de ser abertas como os códigos-fontes e o conceito precisa ser exercitado na dinâmica de trabalho das empresas. Para Gilson, o sucesso desse negócio depende de se ter uma cultura que ofereça espaço para a colaboração espontânea. O método tradicional do comando-controle, do “eu mando e você obedece” ou hierarquizado não funciona nessa indústria. Gilson diz que na Red Hat não adianta mandar fazer, porque se a pessoa não concordar com o caminho proposto, não o seguirá. E isso não é um problema. É a solução.
“Nós temos que fazer e trabalhar com convencimento. O poder de influência é muito mais importante nesse sentido. Isso contamina o líder que tem que ser um exemplo a ser seguido e não ser uma eminência a ser satisfeita”.
A pandemia — não seria diferente nesta indústria — tornou-se um desafio a parte na busca da criação de ambientes colaborativos, porque a ideia de ambiente, muitas vezes relacionada ao espaço físico da empresa, deixou de existir. O que falamos ser ambiente — e no meu caso, escrevo muito aqui no blog — na realidade é cultura da empresa. Agora imagine levar essa cultura a todos os colaboradores quando cerca de 30% deles chegaram nos últimos dois anos, ou seja, já dentro do modelo de trabalho à distância.
Uma das formas de simplificar a adaptação dos colaboradores que chegam é identificar já no recrutamento perfis que estejam de acordo com o pensamento colaborativo e aberto. Essa cultura também impacta nas decisões de promoção que não consideram a senioridade, mas a contribuição ou o poder de influenciar e levar os outros a caminhar em uma direção significativa para o cliente.
“Aqui é uma outra dinâmica. A gente costuma dizer que nós não temos portas abertas, nós simplesmente não temos portas. Não tem como dizer que o chefe é intocável. O chefe precisa estar lidando com qualquer questão, da limpeza do escritório a decisão de novos produtos”.
O presidente da Red Hot Brasil diz que essa forma de trabalhar leva à escuta ativa, o que se fazia com maior simplicidade quando todos compartilhavam o mesmo espaço fisico, mas que agora, com o trabalho à distância, exigiu a criação de novos métodos e hábitos como encontros informais e cafés com os líderes. Nessas e nas demais atividades de relacionamento, Gilson afirma que todos são estimulados a falar o que quiserem e sem restrições ou retaliações.
Provocado por um dos nossos ouvintes, que queria entender se em ambientes colaborativos também haveria espaço para a competição que sempre foi vista como indutora do desenvolvimento e da melhor produtividade, Gilson preferiu colocar essa questão de uma maneira diferente. Começou lembrando que parte dos colaboradores da Red Hat decidiu tatuar a marca da empresa em uma demonstração da admiração por aquilo que fazem; e explicou:
“O que acontece quando a pessoa faz uma tatuagem é que ela está demonstrando que tem um vínculo, uma paixão por aqui. Então, a motivação está mais em fazer parte de alguma coisa transformadora do que você ser melhor do que a outra”.
Ouça o programa Mundo Corporativo com Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil, que também falou sobre oportunidade de emprego nesse setor de soluções de código-aberto e o tipo de profissional que mais buscam no mercado:
O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.
“Há uma precipitação febril no uso de siglas para representar marcas que têm uma história consolidada com seu nome original. Cuidado com isso!”
Jaime Troiano
Que no Brasil, a turma gosta de colocar apelidos, encurtar nomes e criar siglas, nós sabemos bem. O José nunca vai escapar de ser chamado de Zé, a Elizabete de Bete e o Paulo César de PC — apenas para usar alguns dos exemplos que me vieram à mente enquanto escrevo este texto. Tem até uma piada antiga que fala deste hábito, se não me engano contada pelo Juca Chaves. Depois de uma sequência de nomes que ganharam novas versões, ele concluiu com o apelido de um amigo batizado Pica-Pau e apelidado de “Dos dois”.
Piadas à parte, quando migramos para o mundo das marcas é preciso muito cuidado com essas simplificações. Para Jaime Troiano e Cecília Russo existe uma precipitação e até ingenuidade dos gestores em aplicar a tese de quanto mais simples melhor.
“O que preocupa é quando vira sigla nem sempre compreensível e gasta-se um dinheiro muito grande para explicar a mudança do nome. Sempre que se precisa explicar muito alguma coisa, é porque algo já está errado”.
Cecília Russo
Jaime e Cecília lembraram de simplificações de nomes de marcas que foram bem sucedidas, como é o caso da Vale do Rio Doce que se transformou apenas em Vale ou das Lojas Americanas que assumiu o segundo nome. O caso mais recente foi do McDonalds, que mantém a marca internacional, mas aceita de bom grado, inclusive com uso em peças publicitárias e produtos oferecidos ao público, o apelido Méqui.
“Todos esses casos têm algo em comum: eles não são simplificações de nome impostas artificialmente de fora para dentro. São fruto de uma natural acomodação linguística pela qual a identidade original da marca passa”.
Jaime Troiano
Há uma tendência para que a linguagem fique mais compacta no mundo dos negócios e nas relações profissionais em geral, provavelmente influência de novas formas de comunicação no ambiente digital. As abreviações — algumas até forçadas —- já fazem parte do diálogo na rede social, além de palavras que são substituídas por símbolos como é o caso do sorridso que ganhou a versão gráfica :). O que não pode é sob o impacto do modismo “jogar o bebê fora com a água do banho”.
Algumas marcas tem nomes tão conhecidos, tão tradicionais que ninguém nunca ousou transformar numa sigla. Por exemplo, a Viação Cometa não virou VC, no máximo passou a ser Cometa. O cliente quando pede a cerveja Stella Artois reduz para um íntimo Stella, jamais S.A. Há casos de marcas que nasceram simples e aí me permitam olhar para o próprio umbigo: a CBN é por origem Central Brasileira de Notícias, o que talvez poucos se lembrem. A IBM é a Internacional Business Machines e a FIAT, a Fábrica Italiana de Automóveis de Turim.
Forçar um apelido ou uma sigla tende a se transformar em um grande erro de estratégia. É preciso preservar o sentido e o valor da marca; e respeitar a opinião e o hábito daqueles que a consomem:
“As marcas quando bem construídas não pertencem aos donos, pertencem aos clientes. Atenção, você estará mexendo em algo que não é seu”.
Cecília Russo
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo:
Jamais deixarei de torcer pelo Grêmio. Jamais! Nada do que fizerem com meu time será suficientemente forte para desconstruir a paixão que forjei desde criança com o meu Imortal. Se tivessem essa capacidade seria a derrota final. A falência da esperança, contra a qual lutarei sempre. Uma luta que promoverei em todas as dimensões da minha vida, porque sou um apaixonado pelas coisas que me envolvem: família, mulher, filhos, amigos, colegas, trabalho, projetos e, sim, meu time de futebol.
Assisti ao Grêmio em seus piores momentos. aprendi a torcer por este time quando sequer o mais próximo dos títulos possíveis, o Gaúcho, era possível. Acreditei nele mesmo quando assisti do gramado aos torcedores explodindo foguetes contra os meus ídolos. Mantive-me fiel apesar das picuinhas que infernizavam o ambiente do clube e me eram contadas por pessoas que viviam intensamente aquele momento. Vi o Grêmio ser rebaixado três vezes e se reerguer. Vi o Grêmio sobreviver a Batalha dos Aflitos.
Crente nos seus méritos, leguei aos meus filhos o amor que o tricolor havia me proporcionado. Os fiz gremistas mesmo à distância. Os fiz acreditar que aquele era o caminho a ser percorrido. Que o meu sofrer e o meu prazer serviriam de inspiração para a caminhada que eles estavam iniciando nessa incrível jornada que o esporte é capaz de oferecer ao ser humano.
Lembro do dia que fiz os dois guris chorarem ao meu lado porque havíamos vencido a mais incrível das batalhas. E da noite em que os dois vestiram orgulhosos a camisa do Grêmio para entrar no estádio Hazza bin Zayed, em Al Ain, nos Emirados Árabes, e torcer pelo time que disputaria uma vaga à final do Mundial de Clubes, em 2017.
Esses momentos que tive o privilégio de vivenciar são muito maiores do que a mediocridade de dirigentes incapazes de enxergar a grandeza de uma história.
Por isso, hoje, primeiro de setembro de 2022, decreto que não deixarei de torcer pelo Grêmio mesmo diante da maior das injustiças que poderíamos cometer nesse instante de instabilidade: a demissão de Roger. Esse homem que foi vítima do racismo estrutural que impera no Brasil e sofre a intolerância dos incapazes de entender que no futebol podemos ter pessoas com inteligência e senso crítico, agora é demitido em um ato de covardia do seu presidente que, um dia antes, havia confirmado a manutenção dele diante do comando técnico da equipe.
Roger paga pelo que fala, pelo que pensa e pelo que conhece da vida. Paga por sua inteligência e sua consciência. Paga pela incompetência de quem fez o clube refém de pretensões políticas. As mesmas aspirações que tentaram apagar a história de Luis Felipe Scolari, que venceu sete títulos no clube, entre Libertadores, Copa do Brasil, Brasileiro, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho; ou de Vagner Mancini, que conquistou Libertadores e Campeonato Gaúcho, como jogador.
Na primeira vez que Roger foi demitido como técnico, escrevi que “cheguei a imaginar que a política interna do clube seria insuficiente para influenciar o trabalho dele e conseguiríamos desenvolver um planejamento de longo prazo”. Hoje, vejo que sou um iludido, um desatinado diante das coisas podres do futebol, incapaz de ver que o desejo de poder e a vaidade se sobrepõem aos interesses do clube.
Roger mais uma vez é sacrificado. Sofre injustiça. Arca com a responsabilidade que não é dele. Merecia mais respeito do Grêmio e de seu torcedor. Mas, infelizmente, o futebol não é feito de justiça, assim como a vida. A me consolar, está a crença de que Roger saberá ser maior do que estes que o demitiram e o criticaram, porque tem caráter, tem personalidade forte e tem propósitos que estão acima do resultado dentro de campo e da política que corrói o ser.
A demissão dele e a contratação de Renato —- o mesmo que foi incapaz de manter a trilha vitoriosa e nos levou ao caminho da Segunda Divisão — são resultado de uma política covarde, sem personalidade nem índole, que contamina o ambiente do clube, impacta o empenho em campo e mancha nossa história. Um política que apenas visa o poder.
Roger — se é que você um dia lerá essa Avalanche — peço desculpas pelo que os atuais diregentes do Grêmio fazem mais uma vez com sua história. Perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem (e há algum tempo não sabem). E peço que você me entenda — e tenho certeza que entenderá por gremista que nunca deixará de ser: a despeito do que decidam e façam, jamais deixarei de torcer pelo Grêmio. Jamais!
Brasileiro B – estádio Heriberto Hülse, Criciúma/SC
A defesa de Brenno em foto de LucasUebel/GrêmioFBPA
Que Agosto se vá e não deixe saudade! Foi o que pensei ao fim da partida da noite de terça-feira, apesar deste ser o mês de meu aniversário. A sequência de maus resultados — três derrotas e um empate — me remeteu ao dito popular de que “agosto é o mês do desgosto”, má-fama que surgiu na Idade Antiga com crendices romanas de que, neste período do ano, um dragão cruzava o céu —- claro que expelindo fogo pelas ventas, porque não fosse isso, o espetáculo de horror não estaria completo.
A coisa era tão séria e se espalhou pelo mundo que, em Portugal, se dizia que “casar em agosto traz desgosto”, o que fazia com que muitas mulheres adiassem a cerimônia. Necessariamente não era por medo do azar, mas pelo fato de que no período as embarcações deixavam a costa rumo ao Novo Mundo levando seus maridos, o que sempre era uma viagem de risco. Na lista de “malfeitos” do mês, uma lenda que corria entre cristãos dizia que 24 de agosto é o Dia do Diabo. Coincidência ou não, mesma data em que Getúlio Vargas cometeu suicídio — fazendo com que o mês ficasse ainda mais mal-afamado entre os políticos brasileiros.
Convencido de que os maus agouros, as três derrotas e os nove gols tomados eram de responsabilidade do Agosto, antes de começar a escrever olhei nossa performance nas partidas disputadas neste mês e percebi que a primeira semana havia sido bem melhor: ganhamos os dois jogos que disputamos, um fora de casa, coisa rara, e outro de goleada.
Minha pesquisa agora cedo derrubou com minha tese da noite de ontem. Minha desculpa para o desempenho abaixo do esperado e desejado se frustrou. Descobri que meu consolo para o que estamos assistindo em campo era tão frágil quanto o futebol jogado, neste momento.
A despeito dos motivos que tenham nos levado a essa queda de rendimento que Setembro chegue logo e possamos voltar a sorrir com vitórias, gols e classificação garantida.
Te amava subindo e descendo as ladeiras da Casa Verde Alta, para pegar o busão, indo ou voltando do Colégio Centenário, na Casa Verde Baixa. Lembro colegas de classe debatendo o motivo de um bairro se dividir em dois, questionando: haverá também a Casa Verde Média?
Te amava no comércio variado do centro da Lapa, onde passeava no intervalo das aulas da Faculdade de Educação Campos Salles, perto também do Mercado Municipal que tinha de tudo um pouco. Até seriguela e coco.
Te amava ao chegar com meu velho Dodginho Polara, na Avenida Rio Branco e em determinado ponto virar à direita para seguir rumo ao Teatro Escola Macunaíma, onde um aluno achava que um carro como aquele merecia ser personagem de peça mambembe.
Eu te amei em várias fases da minha vida e continuo te amando São Paulo, pois aqui a Casa Verde não desbota, o sonho breca mas não capota e sua grandeza nos impulsiona a seguir não apenas em frente mas para cima. Sempre.
Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Gabriel Silva dribla em foto de LucasUebel/GrêmioFBPA
Venho de três dias especiais para quem dedica sua vida ao jornalismo. Cobertura de eleição por si só é daqueles momentos para os quais nos preparamos com parcimônia, apuro e equilíbrio. No meu caso, tive o privilégio de mediar as entrevistas com três dos candidatos a presidente da República — infelizmente, os dois principais refugaram, fugiram da raia e se furtaram da oportunidade de conversar com milhões de pessoas que nos acompanham na CBN e nos jornais O Globo e Valor. São daquele tipo que têm medo de perder e só arriscam o resultado quando é inevitável.
Quando estamos diante de pessoas que se candidatam ao cargo máximo do país há necessidade de planejamento e estratégia, pesquisa antecipada e atenção redobrada. Por candidatos que são têm suas artimanhas para transformar a entrevista em palanque eleitoral, driblar os temas mais complicados e contra-atacar no primeiro vacilo do “adversário”. É preciso estar atento, saber a hora de dar a bola para ele jogar e saber a hora de retomá-la; respeitar o adversário, sem subserviência; atacá-lo, sem violência. Qualquer vacilo de nossa parte: gol deles!
Há uma cobrança intensa do público, parte dele contaminado por suas ideologias e “torcidas organizadas” — termo usado por Lula, em entrevista ao Jornal Nacional, para definir o papel dos militantes dos partidos. Uma visão reducionista sobre a política, como fez questão de lembrar Ciro, do PDT, candidato que esteve na sabatina promovida pela CBN, O Globo e Valor Econômico, nessa sexta-feira, no Rio — cidade que me abrigou nesses últimos dias.
Foi, aliás, pouco antes de se iniciar essa sabatina, quando os jornalistas costumam trocar algumas palavras amenas com o entrevistado, a espera do início dos trabalhos, que Ciro falou de futebol. Disse ser torcedor do Guarany de Sobral, cidade em que nasceu, no interior do Ceará. Citou dois ou três clubes pelos quais tem admiração pelo Brasil e quando soube que eu sou gremista, lembrou que o candidato dele a governador no Rio Grande do Sul era o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, que quando caiu para a segunda divisão, teve de abrir mão de suas pretensões políticas.
Você não tem ideia como eu adoraria saber, nesta altura do ano, que Romildo estaria candidato e bem cotado no Rio Grande do Sul. Não, não tem nada a ver com as minhas preferências políticas, mas é que se ele estivesse candidato, certamente o Grêmio não estaria na B.
Dito isso, de volta as conversas e fatos de uma eleição.
Foi uma semana interessante, mesmo diante de candidata que, em princípio, teria pouco a contribuir para o debate nacional, como é o caso de Vera, do PSTU, partido de linha trotskista, entrevista na quarta-feira. Não desdenho de suas propostas que, inclusive, agradaram parte da audiência, pelo que li nas mensagens recebidas. Quando digo que teria pouco a contribuir, o digo porque não tem expressão na opinião pública como mostram as pesquisas. Foi uma boa surpresa ouvir algumas de suas histórias. Aprendo sempre. E mais uma vez aprendi. Permitir-se ouvir os diferentes, nos torna melhor, nos enriquece.
Estive à frente de Simone, do MDB, na quinta-feira. A candidata repetiu algumas das frases que marcaram sua campanha. Tentou mostrar otimismo mesmo diante das dificuldades eleitorais que tem para assumir uma posição mais competitiva. Tem percentual de intenção de voto quase tão inexpressivo quanto sua outra colega de disputa, Vera. Saiu da entrevista sem marcar gols. E conseguiu se defender bem de algumas investidas dos jornalistas.
Ao fim e ao cabo, cumpri minha missão, ao lado de excelentes colegas jornalistas da CBN, Globo e Valor, e deixei o Rio satisfeito pelo resultado do trabalho, mesmo que o foco que tive de ajustar tenha me mantido longe deste blog por alguns dias. Talvez você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tenha percebido. Mas eu senti falta, sim. Adoro a arte da escrita, mesmo que não seja exatamente um arteiro nessa prática.
Cheguei em São Paulo ao fim da tarde. Em tempo de me atirar no sofá, e ligar a TV com a intenção de me divertir assistindo ao Grêmio jogar em casa. Não foi exatamente uma diversão que meu time me proporcionou como o resultado, destacado no alto desta Avalanche, deixa explícito. Frustrei-me com a possibilidade de subirmos na tabela de classificação, abrirmos vantagem sobre os adversários que estão menos cotados e demonstrarmos um time mais maduro diante de seus adversários.
Menos mal que nossa chance de passar para o segundo turno, ou melhor, para a série A, permanece, apesar de três partidas com resultados insatisfatórios. Para me consolar, lembrei de frase dita por Ciro, que está bem distante dos dois primeiros colocados na pesquisa, mas mesmo assim insiste em dizer que, se os adversários vacilarem, quem sabe ele não consegue dar uma volta de 180 graus, esticar a perna no alto, alcançar uma bola cruzada e se consagrar marcando um gol de bicicleta ao fim do jogo. Se Ciro tem essa esperança, quem sou eu, como gremista, para não tê-la.
Com reciclagem, grupo quer impactar 1 milhão de pessoas (photo by Magda Ehlers on Pexels.com)
“Na velocidade que o mundo hoje avança o grande desafio também é manter esses compromissos atualizados; trazer uma grande governança para esses compromissos de forma que as mudanças da sociedade também possam estar refletidas dentro daquilo que a gente acredita”
Luiz Meyer, Grupo Boticário
“Está no DNA”. Clichê puro no discurso corporativo. Mas vou pedir licença para usá-lo porque me parece que cabe bem no assunto que vamos conversar agora? Sei que empresas não são seres vivos, mas têm nas suas estruturas elementos responsáveis pela transmissão de todas as suas características. No caso do Boticário, a relação com o meio ambiente é um desses elementos. Nem havíamos deparado com a ECO92 no Rio, marco do debate ambientalista, e a empresa que nasceu como uma pequena farmácia de manipulação no centro de Curitiba, capital paranaense, em 1977, já estava debatendo o impacto que gerava no meio ambiente. Isso se expressou quando no início dos anos de 1990, criou a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que nasceu com a intenção de atuar para proteger a natureza.
No último episódio da série sobre ESG do Mundo Corporativo, nós recebemos Luiz Meyer, diretor de ESG do Grupo Boticário, que falou, em especial, dos 16 compromissos socioambientais assumidos pelo grupo no ano passado que devem ser entregues até 2030. Ué! Coça a cabeça, agora, o caro e raro leitor deste blog. Se o grupo já nasceu com a ideia da sustentabilidade apenas quando completava 44 anos identificou essas metas?
“… porque trazem por trás desses compromissos uma transparência. É um compromisso que a nossa organização assume perante toda a sociedade … Com certeza esses ideias já estavam dentro da empresa. O que a gente fez nesse momento, lá em 2021, foi empacotá-las em um formato muito claro e transparente para toda a sociedade de forma que a gente conseguisse ter uma comunicação mais efetiva”.
Pelo que entendi, a diferença é que agora não tem como recuar. Se prometeu zerar o balanço hídrico industrial até 2023, vai ter de zerar. Ou será cobrada pela sociedade. Para que esse compromisso seja cumprido, por exemplo, serão destinados cerca de R$ 14 milhões, explica Luiz Meyer:
“Desses 16 compromissos, sete tem um olhar ambiental, dentro das ações que nós vamos tomar para reduzir os impactos para a sociedade e para o meio ambiente que as nossas operações e todo o nosso ecossistema vão gerar. Cinco desses compromissos tem um olhar para a diversidade, inclusão: o que o grupo pode fazer mais, pode ir além. Dentro desses, dois temas de diversidade e de inclusão. Dois deles são sociais: então, de que forma a gente pode reduzir a desigualdade social do nosso país. E dois deles olham para a transparência”.
Por ter a transparência como compromisso assumido, as 16 metas estão explícitas no site “Uma beleza de futuro” Quem visitar o site verá que, até o ano que vem, o Grupo Boticário terá de aumentar em 40% a contratação de talentos negros, alcançando ao menos 50% de representatividade; e 25% de lideranças corporativas negras; e, em dois anos, ter ao menos 50% de mulheres na diretoria. No tema da diversidade são trabalhadas cinco dimensões: gênero, raça, Lgbtqia+ e PCDs:
“Já temos 25% de liderança negra presente dentro da nossa organização; 50% de liderança feminina já presente dentro da nossa organização e 29% das nossas diretoras, do nosso público de diretoria, hoje são mulheres. Então, acho que já é um grande avanço, já são números muito importantes, mas a gente tem a certeza que a gente pode ir além e a gente tem metas mais audaciosas”.
Nas transformações sociais propostas pelo Boticário, existe o projeto de reduzir a desigualdade através de ações de gestão de resíduos sólidos que podem alcançar cerca de 1 milhão de pessoas. Nesse item, busca-se desenvolver programas de capacitação para pessoas em vulnerabilidade social que estão em cooperativas de catadores. Inspirar o empreendedorismo é outro caminho para melhorar a qualidade de vida das pessoas mais vulneráveis. E isso acontece através de cursos que tanto preparam profissionais para o mercado de beleza como para o de tecnologia —- onde há carência de mão de obra no Brasil.
Para Luiz Meyer, em especial, o desafio é fazer com que aquilo que dissemos “fazer parte do DNA da empresa” contagie toda a cadeira produtiva. Antes de assumir a diretoria ESG, ele atuava na área de operação e, principalmente, no setor de compras de suprimento. Foi a experiência nesse relacionamento com os parceiros de negócio que fortaleceu o nome dele para o cargo:
“Trazer para eles também uma realidade que vai além do papel dessa área de suprimentos, mas um um papel transformacional que o grupo pode, através dos seus valores, das suas essências, do seu propósito, chegar também a uma rede de mais de quatro mil parceiros e propiciar essa transformação para lá”.
No último episódio do Mundo Corporativo ESG, Luiz Meyer também falou de oportunidades de emprego, vagas afirmativas e fabricação de produtos que reduzem o impacto ambiental:
Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.