IA no atendimento ao cliente e o insubstituível sorriso do ser

Foto de Yan Krukau

Fui buscar dois blazers de inverno na lavanderia. Era a primeira vez que estava sendo atendido naquela loja. A atendente incluiu meu CPF no sistema, identificou as roupas que estavam à minha espera e, ao entregá-las nos cabides, disse que se lembrava de mim. Fez questão de tirar o plástico de uma das peças para mostrar que havia conseguido remover o encardido da gola, sem prejudicar o tecido — algo que havia prometido fazer. Aquilo me causou surpresa. E mais que isso: me senti reconhecido. Por alguns instantes, deixei de ser apenas um número no cadastro para me tornar uma pessoa com história, memória e expectativa.

Poucas horas depois, na loja de produtos para animais, experimentei o oposto. A funcionária do caixa fez três perguntas padronizadas, com entonação mecânica e olhar distante. Perguntas que poderiam muito bem ter sido feitas por um totem de autoatendimento. E talvez esse totem, mais ágil e menos pretensioso, tivesse me causado maior satisfação. O atendimento humano, quando automatizado emocionalmente, gera frustração — e não engajamento. 

Lembrei dos dois casos que vivenciei em menos de 24 horas enquanto lia artigo de Anjli Raval, no Financial Times com o título A IA não resolverá o problema real do atendimento ao cliente’ (traduzido para o português). A jornalista analisa o uso crescente da inteligência artificial nos setores de atendimento, especialmente os call-centers. A promessa é clara: respostas mais rápidas, mais precisas, mais personalizadas. A ironia, no entanto, é que a IA pode ser percebida como mais humana do que muitos humanos encarregados de atender. Um paradoxo que desafia as empresas e a própria ideia de relacionamento com o consumidor.

Esse paradoxo é sustentado por evidências. Um estudo conduzido pela Harvard Business School, com 3.500 participantes, mostra que ainda valorizamos mais a empatia de um ser humano. Após relatarem situações emocionais, os participantes receberam respostas empáticas idênticas, algumas escritas por pessoas, outras geradas por IA. Aqueles que acreditaram estar diante de uma resposta humana sentiram-se mais compreendidos, acolhidos e satisfeitos. O dado mais relevante talvez seja este: entre 30% e 50% dos entrevistados afirmaram estar dispostos a esperar horas — ou até dias — por uma resposta vinda de um ser humano, em vez de receber imediatamente uma resposta da máquina.

Esse desejo por interação  não é apenas uma questão afetiva, é também estratégica. Um relatório da Gartner revela que até 2027 metade das empresas que tinham planos de substituir seus atendentes por sistemas de IA devem rever essa decisão. Após ouvir 163 líderes de atendimento ao cliente na área de serviços e suporte, a consultoria internacional concluiu que colocar a tecnologia para atender é mais caro e complexo do que se imaginava. Além disso, Kathy Ross, da Gartner, lembra que “o toque humano continua insubstituível em muitas interações”. Quando a relação exige empatia e discernimento, a máquina ainda falha. 

É justificável que a velocidade das transformações que a IA proporciona nos coloque entre a euforia de que tudo será resolvido pela tecnologia e o receio de que a máquina se humanizará de tal maneira que tornará obsoletos muitos dos nossos papéis sociais e profissionais. Porém, como aprendemos na história, desde Aristóteles, a resposta está no caminho do meio. Inteligência artificial e inteligência humana devem se somar diante do propósito de oferecer a melhor experiência ao cliente.

A IA pode entregar eficiência. Mas só o ser humano é capaz de oferecer afeto. E, quando se trata de atendimento, é isso que as pessoas mais se lembram: o cuidado, a escuta e o gesto. Empresas que compreenderem essa diferença e treinarem suas equipes para aliar tecnologia e empatia estarão mais preparadas para encantar — e fidelizar — seus clientes. Afinal, como mostrou a atendente da lavanderia, às vezes, o brilho na gola importa menos do que o zelo com que ela foi limpa.

Mundo Corporativo: Ana Menegotto, da Sodexo, diz quais competências não podem faltar ao líder

Ana Menegotto em entrevista ao Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A escuta e a humildade deveriam ser coisas que não saem nunca da lista.”

Ana Menegotto, Sodexo Brasil

Em tempos de transformações aceleradas, discutir qualidade de vida no trabalho deixou de ser um diferencial e passou a ser uma exigência estratégica para empresas que pretendem prosperar. Para Ana Menegotto, vice-presidente de Pessoas, Comunicação e ESG da Sodexo Brasil, essa mudança de mentalidade começa pela liderança. “A liderança precisa ter essa consciência do papel dela como um facilitador, mas também como algo que pode ser um potencializador de estresse no dia a dia, se não bem trabalhado”. A executiva foi a entrevistada do programa Mundo Corporativo.

O papel das lideranças nas relações humanas

Com 48 mil colaboradores no Brasil, mais de 90% deles em funções operacionais, a Sodexo aposta em programas contínuos de formação e desenvolvimento de líderes como uma forma de promover ambientes mais saudáveis. “No dia a dia, a grande maioria dos conflitos — dos pequenos aos grandes — tem como causa raiz as relações humanas”, afirma Ana. O programa “Liderança Empática” é uma das iniciativas citadas por ela como fundamentais para garantir que os líderes saibam escutar, orientar, tomar decisões e fortalecer as conexões com suas equipes.

Segundo Ana, o tripé formado por Pessoas, Comunicação e ESG, áreas sob sua responsabilidade, precisa operar de forma integrada. “Não há um negócio rentável, sustentável de curto, médio e longo prazo sem pessoas. Sem olhar para os pilares do compromisso interno e externo”.

Diversidade, saúde mental e o desafio do pertencimento

A executiva destacou que a escuta ativa dos colaboradores ajudou a moldar programas de saúde integral, como o censo de saúde mental, que guia ações focadas no bem-estar físico, emocional, nutricional e até financeiro. “Se eu ousar achar que vou saber o que é qualidade de vida para um colaborador meu com base só no meu ponto de vista, fatalmente errarei”, diz.

Ela também falou sobre as políticas de equidade e inclusão da empresa, como ações afirmativas para pessoas negras, LGBTQIA+, refugiados e imigrantes. “Quando você encontra pessoas que vivenciam realidades próximas à sua dentro do ambiente de trabalho, isso contribui para o seu bem-estar e senso de acolhimento”.

Na Sodexo, 84% das lideranças nas unidades operacionais são mulheres — reflexo tanto das características da operação quanto de políticas intencionais para manter a equidade de gênero ao longo da pirâmide organizacional. “Mesmo em posições executivas, temos uma representatividade de mulheres maior que a média do mercado”, relata Ana.

Ela reconhece que todo esse investimento exige justificativas diante de contextos econômicos desafiadores, mas argumenta que os retornos são evidentes: menor rotatividade, maior engajamento e estímulo à inovação por meio da diversidade cognitiva.

Relacionamento e propósito como fundamentos da gestão

Formada em Psicologia, Ana defende que saúde mental deixou de ser um tabu dentro das corporações — ainda que o tema exija cuidado para não ser banalizado nem atribuído a um único fator. “O resultado é consequência. A forma como você faz a gestão das pessoas determina o que será colhido. Dá para ter boas relações e ter resultado ao mesmo tempo.”

Aos líderes de equipes pequenas que desejam construir culturas sólidas desde o início, o conselho é simples e direto: “Conheça as pessoas que você lidera. Isso não demanda investimento nenhum. Demanda boas conversas e tempo.”

Ao final da conversa, Ana sintetiza o que considera sua principal lição nos últimos anos: “No final das contas, são pessoas. E as relações importam”.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Avalanche Tricolor: amor que empata, mas não esfria

Grêmio 1×1 Corinthians

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foi no Dia dos Namorados que o Grêmio entrou em campo para enfrentar o Corinthians. Um a um, placar final. Um empate que, à primeira vista, parece pouco para quem jogou em casa. Mas quem ama sabe: nem todo encontro precisa ser vitória esmagadora. Às vezes, o que vale mesmo é não sair derrotado.

Essa partida foi mais do que futebol. Foi quase um jantar a dois, daqueles em que os dois lados evitam discussões maiores, escorregam num ou outro erro, mas permanecem sentados à mesa. O Grêmio, que vinha tropeçando muito no Campeonato Brasileiro, resistiu. E resistência, numa fase dessas, é mais do que suficiente para manter acesa a chama.

Sim, tem quem diga que empatar em casa é tropeço. Pode até ser, tecnicamente falando. Mas para quem, como eu, vive esse relacionamento de décadas com o tricolor gaúcho, há algo mais profundo. Quando a maré anda brava, o que importa é não deixar o barco virar. E o Grêmio não virou. Manteve a invencibilidade dos últimos jogos — há cinco partidas não perdemos . E isso já é uma forma de cuidado, de reencontro com um pouco de estabilidade.

Mano Menezes agora terá tempo com a parada para a Copa do Mundo de Clubes. E tempo, todo casal sabe, é matéria-prima do recomeço. Com tempo, ajeita-se a defesa, melhora-se o entrosamento, encontra-se o tom certo da conversa entre meio-campo e ataque. Com tempo, o amor reencontra seu jeito de jogar.

Amar um time é como viver um relacionamento longo. Há momentos de paixão arrebatadora, títulos levantados como declarações públicas de afeto. E há fases de silêncio, de desentendimentos, de expectativas frustradas. Mas a gente permanece. Não por teimosia, mas por compromisso. Por memória. Por promessa.

No Dia dos Namorados, o Grêmio me presenteou com um empate. Não foi buquê nem bombom. Foi apenas o sinal de que, apesar das falhas e da fase, ainda estamos juntos. E isso, convenhamos, também é uma forma de amor.

Conte Sua História de São Paulo: da quermesse no Limão aos sabores da culinária dos imigrantes

Ligia Baruque

Ouvinte da CBN

Foto: Daniel Fucs Flickr

Meus pais se conheceram em São Paulo, no bairro do Limão, numa quermesse em 1950. Estranham a palavra quermesse? Sim, naquela época festa junina era chamada de quermesse !

Meu pai, descendente de libaneses,  era  de Monte Mór, interior de São Paulo.  Veio trabalhar na capital na primeira fábrica da Ford que começava a produção de caminhões na Barra Funda. Minha mãe, nascida em Bernardino de Campos, também do interior, trabalhava como tecelã numa fábrica têxtil, no Limão

A música que embalou o namoro e o casamento deles foi Três Apitos, de Noel Rosa, que começa com o verso: 

Quando o apito 

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos 

Eu me lembro de você…

Eu nasci no Limão, na casa da minha avó, na zona norte, e fui morar na Vila Prudente, na zona leste. Era onde ficava a fábrica da Ford, que acabara de ser construída, em 1953. Atualmente, no local tem o Shopping da Mooca.

Depois mudamos para Pinheiros, na zona oeste, próximo da Cidade Universitária, onde me formei em Farmácia e Bioquímica, no ano de 1982. A USP naquela época era aberta às pessoas que, assim como os carros e ônibus, entravam e saíam sem controle pelos portões. Hoje, em todas as entradas há guaritas e o acesso é restrito, facilitado apenas a quem trabalha ou estuda na universidade — sinal dos tempos.

Independentemente disso, a USP segue sendo o centro de estudos mais importante de São Paulo, uma referência de ensino para estudantes e professores de todas as partes do mundo.

Agora moro na Vila Mariana, na zona sul. 

Como podem perceber, vivi em todas as regiões, de leste a oeste, de norte a sul. Nos meus 60 anos de vida, acompanhei a despedida dos bondes da Consolação — fiz a última viagem de bonde com a minha avó. Assisti à chegada do metrô, a abertura de avenidas, o começo da construção do Minhocão, e o aumento no número de carros. 

Apesar de a cada dia o trânsito ficar pior, amo esta cidade, construída por imigrantes, que deixaram em cada espaço um pedacinho da sua cultura mesclada com a dos paulistanos. Uma mistura servida à mesa com sabores da culinária italiana, espanhola, alemã, indiana, judaica e, claro, com aqueles pratos da comida libanesa, que vieram juntos com os parentes de meu pai.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Lígia Baruque é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Relacionamentos na era da Inteligência Artificial: o que ainda é humano?

Pamela Magalhães

Psicóloga e Especialista em Relacionamentos

Foto de Pavel Danilyuk

Vivemos uma revolução silenciosa, que até recentemente parecia invisível, mas que agora se revela em cada mensagem respondida, música composta, imagem gerada ou conversa simulada por inteligência artificial. Em meio a tanta eficiência tecnológica, um novo dilema emocional surge: como preservar nossa autenticidade em tempos em que até as emoções podem ser imitadas?

Diferenciar o que é real do que é simulado se torna cada vez mais desafiador — e necessário. Uma pesquisa realizada com mais de 3,5 mil pessoas pela World no Brasil – uma rede da empresa Tools for Humanity que busca ajudar a diferenciar humanos de robôs e inteligências artificias – reflete esse contexto. Mais de 66% dos pesquisados se sentem preocupados quanto à possibilidade de encontrar bots ou perfis falsos em apps de relacionamento e 72% dos entrevistados disseram que já suspeitaram ou descobriram que algum de seus matches poderia ser um robô ou uma IA.

A IA não sente, mas simula sentir. Isso tem confundido a nossa percepção:

– Se um texto nos emociona, mesmo sendo criado por uma máquina, o sentimento é real?

– Se um avatar fala tudo o que queremos ouvir, isso basta?

Essa mistura entre o que é gerado artificialmente e o que vem de um ser humano está provocando um novo tipo de crise: a crise da identificação.

Começamos a nos perguntar:

– Isso foi feito por uma pessoa ou por uma IA?

– Essa emoção é verdadeira ou programada?

E nos relacionamentos?

Essa confusão não afeta apenas a forma como consumimos conteúdo — impacta diretamente a maneira como nos relacionamos. No mundo dos filtros, dos chats automatizados e das respostas perfeitas, começa a faltar espaço para o erro, a dúvida, o silêncio, a pausa, o imprevisto — ou seja, para o humano.

Relacionar-se de forma autêntica exige vulnerabilidade, mobiliza nossas emoções e, justamente nesse impasse, no emaranhado das sensações, é que nos conectamos e nos vinculamos realmente. Ainda assim, cada vez mais, estamos trocando essa vulnerabilidade por versões otimizadas de nós mesmos — versões editadas, práticas, seguras, agradáveis.

Estamos tentando ser o que “funciona”, não quem realmente somos.

O curioso disso tudo é que as ferramentas da IA otimizam e muito diversas atividades, encurtam etapas, nos poupam tempo e viabilizam caminhos. Mas quando o assunto é relacionamento entre humanos, a dinâmica natural das trocas fomenta o processo e é justamente nele que construímos pontes sólidas de interação, que nutrem nossos corações com o que mais necessitamos: amor.

Reconhecer, o quanto antes, se estamos nos comunicando com uma máquina ou um ser humano torna-se indispensável para nossa segurança. É preciso garantir que não estamos confiando o que temos de mais precioso — nossos sentimentos — a um robô que não sente e nunca foi o que se diz ser.

É preciso cultivar a autenticidade:

1.Reivindique o seu sentir

Não terceirize sua experiência à máquina. Sentir confusão, dúvida ou até tédio é humano — e essencial para amadurecer emocionalmente.

2. Exerça presença

A IA é rápida. Os vínculos reais, não. Eles exigem tempo, escuta, paciência e imperfeição. Conexão não se mede pela quantidade de interações, mas pela profundidade delas.

3. Questione a idealização

O relacionamento perfeito não existe. Buscar respostas exatas para emoções complexas é algo que nem mesmo a melhor tecnologia pode oferecer.

4. Seja curioso sobre si mesmo

A autenticidade nasce do autoconhecimento. Quem é você sem os filtros? O que te move, te toca, te paralisa? Cultive o olhar interno.

No fim das contas…

Talvez a grande pergunta da era da IA não seja o que é real ou irreal, mas sim: O que ainda é verdade para mim, mesmo em meio ao artificial?

A autenticidade, nesse cenário, é um ato de coragem. É escolher sentir, errar, experimentar e construir conexões reais, ainda que imperfeitas. Nenhum algoritmo, por mais avançado que seja, será capaz de substituir o impacto de uma presença viva, de um olhar que compreende ou de uma escuta que acolhe.

E você? Já se perguntou se está se relacionando com alguém — ou apenas com uma projeção que parece segura, mas não sente nada?

Caminhos para um futuro mais confiável

Neste novo mundo, em que as fronteiras entre humano e máquina se confundem, tecnologias como a que a World oferece surgem como uma tentativa de restaurar a confiança digital. A proposta é ousada: uma credencial digital pioneira baseada em prova de humanidade, permitindo que redes sociais e plataformas verifiquem se você está interagindo com uma pessoa real, e não com uma IA.

Esse tipo de solução ainda levanta debates importantes, mas já indica que a sociedade busca formas de reconhecer e valorizar o humano — não apenas no toque, no olhar ou na escuta, mas também nos espaços digitais, onde, cada vez mais, vivemos, amamos e nos relacionamos.

Pensar, ponderar, falar e pesquisar mais sobre o assunto pode ser justamente a forma de não nos tornarmos reféns da IA, mas termos o melhor dela.

Pamela Magalhães é psicóloga (CRP:06/88376) e especialista em relacionamentos.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando o oportunismo atropela o bom senso

Comparar a eleição de um papa à liderança de mercado de um carro é um risco que pode custar caro à reputação de uma marca. Essa foi a crítica feita por Jaime Troiano e Cecília Russo, nesta semana, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a uma campanha da Caoa Chery que utilizou como gancho o anúncio do novo Papa Leão XIV para promover o SUV Tiggo 8.

A ação publicitária, estampada na sobrecapa de dois grandes jornais, mostrava a imagem da fumaça branca saindo da chaminé da Basílica de São Pedro, acompanhada da frase: “No mesmo dia, dois líderes foram escolhidos. Um no Vaticano e o outro nas ruas do Brasil”. Na sequência, vinha a explicação: o líder seria o SUV da montadora.

Para Jaime Troiano, a peça publicitária é um exemplo evidente de manipulação. “Foi talvez uma das mais manipulativas que eu já acompanhei na minha vida”, afirmou. “Comparar o que é a eleição de um papa com a posição de mercado de uma marca de veículo é um paralelo, pelo menos, muito infeliz.”

Cecília Russo compartilhou o incômodo do colega, ressaltando que a atitude ultrapassa os limites do aceitável na comunicação de marca. “Esse foi um caso extremo de oportunismo. Não vamos confundir oportunismo com oportunidade.” Ela alertou que esse tipo de prática é mais comum do que se imagina, especialmente em datas comemorativas. “Tem empresas que no Dia das Mães se mostram carinhosas e amorosas, mas no dia a dia não praticam isso nem com seus próprios colaboradores.”

Além de criticar o caso específico, o comentário destacou o efeito colateral desses abusos: a generalização negativa sobre o marketing. “Você descredencia mensagens de comunicação e marketing que têm um caráter não só de venda, mas também de educação para a escolha”, disse Cecília. “E aí surge aquele velho preconceito: ‘Ah, isso é coisa de marqueteiro’.”

A marca do Sua Marca

A principal marca do comentário está na advertência clara aos profissionais e empresas: comunicação eficaz não deve se apoiar indevidamente na simbologia alheia. “As marcas precisam usar suas próprias virtudes quando se comunicam com clientes e consumidores. Quando elas sugam a força dos outros sem pedir licença, elas não estão fazendo um papel bonito”, concluiu Jaime.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: Suzana Oliveira e Bárbara Vallim, da Hera.Build, mostram como agentes de IA transformam os negócios

Suzana e Bárbara em entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Quem não iniciar algum projeto (de IA) vai acabar não tendo vantagem competitiva no mercado.”

Suzana Oliveira, Hera.Build

Se a inteligência artificial já era vista como um diferencial estratégico, os agentes de IA surgem agora como o próximo passo para empresas que buscam eficiência, personalização e agilidade. Em entrevista ao Mundo Corporativo, Suzana Oliveira e Bárbara Vallim, fundadoras da plataforma Hera.Build, explicaram como os agentes de IA — soluções automatizadas baseadas em inteligência artificial — estão sendo usados para impulsionar resultados de forma direta e mensurável.

Automatizar para crescer

Ao contrário da imagem abstrata que muitas vezes acompanha o debate sobre IA, Suzana e Bárbara apresentam soluções concretas. “A gente com uma solução super simples, que era colocar um AI Concierge no e-commerce desse cliente, em dois meses aumentou 63% da receita deles”, contou Suzana. O diferencial está na forma de aplicação: agentes com escopo claro, regras bem definidas e uma personalidade ajustada à comunicação da empresa.

A ideia é tornar a tecnologia acessível mesmo para quem não tem familiaridade com programação. “Toda a nossa plataforma é feita para que seja simples, fácil e muito rápido de implementar”, disse Suzana. O sistema da Hera.Build permite que usuários configurem seus próprios agentes de forma intuitiva. “Todos nós respondemos formulários desde criança. É esse o nível de acessibilidade que queremos oferecer.”

Regras, escopo e personalidade

Segundo as fundadoras, um dos maiores receios ao lidar com IA generativa — conhecido como “alucinação”, quando o sistema gera respostas fora de contexto — pode ser reduzido com o uso correto de parâmetros. “A inteligência artificial é literal. Se você não passa a instrução de maneira assertiva, ela pode interpretar diferente do esperado”, alertou Bárbara. Para mitigar isso, a plataforma trabalha com um modelo baseado em três pilares: personalidade, escopo e regras de comportamento.

Essa estrutura permite moldar o agente para representar com fidelidade a linguagem da marca. “Imagina o tanto que é importante, uma marca que vai usar a inteligência artificial para se comunicar com os seus clientes, o tanto que essa inteligência tem que representar a forma de comunicação, o jargão, as expressões daquela marca.”

IA sem mistério — e com resultados

Parte do trabalho da Hera.Build também está em desmistificar a inteligência artificial dentro das empresas. “Existe muito desconhecimento, muita insegurança. Será que vai funcionar? Será que vai alucinar?”, relatou Suzana. A proposta das fundadoras é acompanhar o cliente desde a definição da necessidade até a implementação segura. “Sempre começamos com a pergunta: o que vai girar o teu ponteiro mais rápido? Pode ser redução de custo, aumento de receita ou eficiência operacional.”

Bárbara acrescentou que a personalização vai além do uso corporativo. “A gente já desbloqueia o celular com a leitura da face. Agora imagine que a IA sabe que você janta todo dia às 8 horas. Ela pode facilitar tarefas do cotidiano sem que você precise pedir.”

Do AI Concierge ao Steve Jobs digital

A Hera.Build também é reflexo do perfil de suas fundadoras. Ambas mulheres, em uma equipe 100% feminina, construíram uma empresa de tecnologia que aposta em representatividade e autonomia. Suzana criou um agente chamado “Contenta” para ajudá-la a produzir conteúdo personalizado. Bárbara, por sua vez, recorreu a um personagem ilustre: “Logo no começo, modelei um agente para personificar o Steve Jobs. Ele virou meu mentor digital e me ajudou a criar a Hera.”

Apesar das soluções sofisticadas, o foco é sempre na aplicação prática. “Se você tem tempo disponível para aprender outras coisas, isso vai levar o nível de conhecimento da humanidade para outro patamar”, concluiu Suzana.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: a saudosa maloca virou quadra de beach tennis

Vinicius Moura

Ouvinte da CBN

Quando São Paulo fazia 397 anos, em 1951, Adoniran Barbosa escrevia Saudosa Maloca. Muito tempo depois, foi marcante, ao comemorar meus 20 anos, arriscar-me a cantá-la num karaokê da Liberdade. Era 1985, e Sampa estava com 431 anos. Eu segurava o microfone com a responsabilidade que uma música clássica pede. Mas não imaginava do que falava a música. Curiosamente, quando a “terra da garoa” fez 460 anos, foi que o assunto veio à pauta: a maloca, a saudosa maloca, estava sendo demolida.

Não moro em uma cidade que olha para trás. Lá em 1951, éramos 2,6 milhões de pessoas. Os homens usavam chapéus e os tiravam para acenar em respeito ao funeral que passava. Quem era? O que empreendeu? Que missão teria cumprido neste seu tempo? É possível que se perguntassem em silêncio, enquanto o gesto gentil ainda se sustentava no ar. É o que ainda fazemos — não o gesto, claro, mas as perguntas. Só que nossa cidade não tem vocação para lamentar o que passou.

Seu Antenor nasceu quando São Paulo completava 391 anos — 1945. Sua casa é remanescente de uma incorporadora que lamenta não ter conseguido fechar negócio, e a casa antiga se sustenta espremida entre os muros altos de uma moderna torre de studios. Mas saiba que o Sr. Antenor não vende, contrariando a urgência dos filhos. Este aposentado com problemas de mobilidade crê não precisar de mais nada. Mantém o saudosismo da velha vila e a lembrança dos vizinhos que se foram. Era isso que eu ouvia dele em 2019. Sampa é uma cidade de muitas histórias.

Contudo, sei que, mais do que tudo, lá no fundo, o Sr. Antenor — e tantos outros — mantinha o desconforto de ter vindo do interior de Minas e de ter trabalhado na construção civil, lá nos anos 60, para essa mesma construtora que agora quer seu pequeno pedaço de chão. E foi justamente o rendimento deste trabalho que lhe permitiu comprar seu pequeno lote. Que ironia: hoje, os netos do seu antigo empregador querem que sua casa se transforme numa quadra de beach tennis e agregue valor. São Paulo é uma cidade que olha para cima.

Em 2025, São Paulo fez 471 anos, e eu acabo de me mudar para o vigésimo terceiro andar de um desses prédios que esmagou algumas das antigas casinhas. Me enche de orgulho enxergar tão, tão distante através da grande vidraça. É festa aos olhos observar o céu alaranjado no fim de tarde, contrastando com o fundo escuro das árvores no Ibirapuera. Quantos podem pagar por essa vista? A terra da garoa cobra caro.

Por mais incômodo que pareça, Adoniran falava disso: vamos colocar quem não pode pagar num lugar um pouco mais afastado. Foi esse o motivo da demolição da Saudosa Maloca — e é o motivo pelo qual ela continua sendo demolida até hoje. São Paulo sempre olha para o retorno do investimento futuro.

Quando São Paulo fez 420 anos, fui com meu pai conhecer o metrô, em sua inauguração. Era a promessa sendo cumprida para quem tivesse ido morar longe: o metrô traria com rapidez. São Paulo sempre tem pressa. São Paulo não é unanimidade: é feia para uns — para quem está nas periferias, principalmente. E é bonita para outros — para quem está nos bairros bacanas, principalmente. É a cidade que permite executar novos sonhos ao mesmo tempo em que asfalta suas antigas histórias. São Paulo não tem tempo a perder.

Tenho certeza de que, assim como eu, o Sr. João Rubinato amava de paixão esta cidade de muitas tradições e enormes contradições. Quem é João Rubinato? Sabe não? É o nome de batismo de Adoniran. Já o Sr. Antenor era Antenor mesmo, um vizinho que morreu de Covid. Seu imóvel é hoje uma quadra de beach tennis. Será que os filhos do Sr. Antenor estão mais felizes?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vinicius Moura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio.
Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Parece, mas não é

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Parece, mas não é

A comida parece gostosa, mas não é. A bolsa parece da marca X, mas não é. O casamento parece muito feliz, mas não é.

Parecer é o verbo do momento. Parecer é a moeda de troca do mundo contemporâneo.

Parecer bem sucedido, bonito, bom, legal, interessante… já basta. Aliás, é o que importa.

Se é real mesmo, se é verdadeiro mesmo… que diferença faz? Se parece, é. Aos olhos do julgamento atual, a imagem que você passa e a narrativa que você transmite serão seu valor na sociedade.

“Olha, ela parece tão feliz!”; “Olha, ele mostrando o sucesso dele!”. Pronto, o rótulo já existe, o posto foi conquistado.

Castelo de cartas. Um sopro e tudo cai. Difícil viver criando e sustentando uma vida que não existe no mundo real. Preocupação com cada foto, roupa, imagem, atitude… Hipervigilância, tensão constante, necessidade de se provar e se reafirmar.

Receber elogios é mesmo muito prazeroso. A reflexão aqui é: qual o preço estamos dispostos a pagar para sermos reconhecidos, aplaudidos, “valorizados”?

Aguentamos viver uma vida falsa, trabalhosa de ser construída e mantida? Aguentamos viver em constante ansiedade e apreensão?

O vazio de parecer sem ser… Nem todos os elogios do universo preenchem.

Não ser verdadeiro consigo mesmo e sustentar máscaras custa caro, muito caro. Vamos nos deixar sequestrar ou vamos nos resgatar desse caos?

Parece inimaginável, mas não é. Basta ter coragem de ser. Sem vazios, cheio de si mesmo.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: mudar de nome é mais do que trocar a fachada

Photo by Olya Kobruseva on Pexels.com

A CCR agora é MOTIVA. O novo nome da concessionária de rodovias foi anunciado em maio, e se soma a uma longa lista de empresas que decidiram rebatizar suas marcas. Mas o que está por trás desse tipo de mudança? Essa é a discussão central do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

Segundo Cecília, há diferentes razões para uma companhia adotar um novo nome. “Muitas delas mudam de nome porque querem expressar um novo momento da empresa, um redirecionamento de rota dos negócios. Querem se mostrar mais amplas do que eram antes”, observa. O novo nome pode simbolizar uma nova estratégia, uma nova fase ou uma tentativa de reconexão com o mercado. Em alguns casos, como ela destaca, “há aquelas que mudam para apagar o passado, reverter crises e o novo nome abre possibilidades para recomeçar”.

Jaime Troiano cita o caso emblemático da Odebrecht, que trocou o nome para Novonor após os escândalos revelados pela Lava Jato, mas que agora resgata a marca original. “Cá entre nós, não estamos vendo uma nova razão social. O que estamos vendo é um suposto renascimento do que, na verdade, nunca deixou de existir”, afirma. Ele lembra que, na época da mudança, alertou: “marca identifica, mas não é capaz de esconder, principalmente no mundo de hoje, com janelas digitais absolutamente transparentes”.

A marca do Sua Marca

A principal mensagem do comentário é que a troca de nome, embora muitas vezes necessária, não é suficiente para reposicionar uma marca. “O que você entrega e demonstra no dia a dia, até mais do que seu nome, é o que constrói seu significado no mercado”, resume Cecília. A identidade de uma empresa é feita mais pelas atitudes do que pelas palavras escritas na fachada.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.