Nos bastidores da política, entre discursos e ações

Por Christian Müller Jung

Trabalhar na política — ou com políticos — me ensinou a relativizar o que se diz e o que, de fato, se faz. Essa é uma constatação que vale tanto para quem ocupa cargos públicos quanto para quem os critica. No ambiente político, a palavra e a prática nem sempre caminham juntas, e essa distância costuma aumentar nos períodos de maior polarização — que, diga-se, sempre existiu, mas ganhou um novo fôlego com o formato inflamável das redes sociais.

É impressionante a quantidade de comentários distorcidos sobre governantes que circulam por aí. E não me refiro apenas aos exageros dos militantes ou às narrativas fabricadas, mas também às críticas mal embasadas, que ignoram a complexidade do processo público. Não estou aqui para defender A ou B. Se boa parte da população pensa mal da política, é porque continua a assistir a verdadeiras barbeiragens administrativas — para não falar das falcatruas escancaradas.

Mesmo assim, a vida em sociedade segue seu curso. E isso só é possível porque há muita gente séria atuando nos bastidores. O problema não está na política em si, nem na função pública, mas na condição humana. A corrupção não nasce do cargo, mas da escolha de quem o ocupa — inclusive de quem julga, acusa e, por vezes, também comete seus deslizes pela vida afora.

Estar próximo do dia a dia político permite enxergar o que muitas vezes passa despercebido: a quantidade de projetos, estudos, articulações e superações de barreiras burocráticas que existem por trás de cada ação governamental. Processos que, idealmente, servem para proteger o contribuinte, mas que, em muitos casos, acabam travando o próprio serviço público. E quando esses projetos chegam à ponta, nem sempre a população percebe sua origem.

Há uma ineficiência estrutural na forma como a política se comunica. As propagandas eleitorais, por exemplo, contribuem pouco para a compreensão do que se faz — e muito para a confusão sobre o que se promete. Parte dessa falha, aliás, vem dos próprios políticos, que, ao assumir o papel de oposição, muitas vezes desconstroem o trabalho de colegas que atuam na mesma esfera. E isso vale, inclusive, para aqueles que já estiveram no poder. É o jogo político. Mas esse jogo, que alimenta uma eleição, também corrói a credibilidade de quem trabalha de verdade.

Aristóteles definia a política como o instrumento para promover a felicidade dos cidadãos. O que vemos hoje, no entanto, é uma performance superficial, marcada por discursos fabricados. Muitos políticos que conheço, com conhecimento técnico e vivência legítima, se transformam em robôs lendo teleprompter — com textos genéricos, escritos por agências que parecem desconectadas da realidade de quem atua na linha de frente.

Esse distanciamento impede que a comunicação política cumpra seu papel: aproximar, esclarecer, criar vínculos. O que chega ao eleitor, no fim das contas, é um discurso raso, repetido ano após ano, como se nada tivesse mudado — ainda que algo tenha mudado. E mesmo quando se apresentam realizações concretas, há sempre quem diga que tudo não passa de autopromoção. A crítica até faz sentido. Mas também revela um paradoxo: para sobreviver na política, é preciso comunicar. E para comunicar, é necessário visibilidade.

No meio disso tudo, há quem siga acreditando que política é, sim, uma ciência nobre — voltada ao bem comum. E que vale a pena dedicar tempo, energia e inteligência para desenvolver programas de governo que façam a diferença na vida das pessoas. O desafio é mostrar isso sem ser engolido pela caricatura do “mais do mesmo”. Porque há uma diferença entre estar na política e fazer política. Quem vive os bastidores sabe.

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: nem a Imortalidade salva!

Grêmio 0x0 CSA

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É difícil até escolher por onde começar diante de um fracasso tão retumbante. Cair na Copa do Brasil na terceira fase não foi a primeira vez, mas é raro. Agora, ser eliminado sem vencer nenhum dos adversários é algo para não esquecer tão cedo. E todos os três times que enfrentamos eram, no máximo, da Série C.

Faço um mea culpa: me deixei levar pelo entusiasmo quando conquistamos as vagas nas duas primeiras fases com gols heróicos, marcados nos últimos minutos ou nos acréscimos, e, em seguida, superando os adversários nos pênaltis. Me iludi com a ideia de que aquelas classificações expressavam a Imortalidade que nos consagrou. Errei. Não eram sinais da nossa resiliência, mas da nossa fragilidade.

A derrota para um time da Série C, em casa, depois de termos sofrido a virada no jogo de ida, escancara mais um episódio da temporada deprimente. No Campeonato Gaúcho, desperdiçamos o Octa. No Brasileiro, estamos na 17a. posição da tabela, naquela zona que você sabe qual é. Na Sul-Americana, mesmo enfrentando equipes de pouca expressão em seus países, só conseguiremos avançar disputando os play-offs — uma espécie de repescagem.

Em campo, os ajustes recentes no posicionamento dos jogadores deram alguma esperança de que alcançaríamos maior consistência defensiva, mas seguimos sofrendo gols desnecessários. Falta criatividade no meio-campo, e os atacantes seguem à míngua, esperando por uma chance que quase nunca chega.

Como se não bastasse toda essa fragilidade, ainda somos obrigados a assistir aos descalabros cometidos pela arbitragem. Ontem, mais uma vez, fomos claramente prejudicados com a anulação do gol que nos daria a chance de decidir nos pênaltis. Nos foi roubado até o direito a mais uma classificação no estilo “me engana que eu gosto”.

Já disse — e escrevi — que me recuso a decretar a falência da esperança, mas está cada vez mais difícil preservá-la. Que venha logo a parada para o Mundial de Clubes, e que Mano Menezes tenha tempo para colocar a cabeça dos jogadores no lugar. A cabeça — e o pé, é claro.

O Jaguar ferido: “Se algo pode dar errado, dará.”


A Lei de Murphy nunca pareceu tão precisa quanto no caso do rebranding da Jaguar — um exemplo clássico de quando os riscos estavam claros, mas foram ignorados.

Em dezembro de 2024, no comentário do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo já haviam feito o alerta. A Jaguar, uma das marcas mais icônicas da indústria automobilística, abandonou seu lendário felino em troca de uma identidade visual “moderna”, com cores e linhas ousadas. Para Jaime, tratava-se de uma “mudança adolescente de identidade”. Cecília foi além, chamando atenção para uma “pandemia de mudanças precipitadas” e lembrando que em branding, “preservar o essencial na busca do novo” é o que garante consistência.

Pouco mais de seis meses depois, como relatou Daniel Bruin, da XCOM, no LinkedIn, o resultado está aí: o rebranding foi abandonado. A agência responsável, Accenture Song, afastada. A Jaguar, que tentava se reposicionar, agora corre para remendar os danos à sua reputação. A “celebração ao modernismo” foi criticada de todos os lados, as vendas caíram e o impacto negativo foi imediato.

Daniel questiona: “Mas não fizeram testes com consumidores, workshops, clínicas de degustação?” A sensação é que o projeto nasceu em um ambiente de convencimento interno, sem escuta verdadeira nem conexão com o público.

Como disse Jaime, “marcas pertencem aos seus consumidores, são eles que dão vida e significado emocional para elas”. E quando esse vínculo é quebrado por decisões apressadas ou vaidosas, as consequências não tardam.

A Jaguar tinha diante de si todos os alertas. Tinha também a oportunidade de escutar mais e ousar menos. Não o fez. E, como ensina a Lei de Murphy, se havia chance de algo dar errado, era muito provável que desse. Deu.

Avalanche Tricolor: luto, lamentos e lágrimas

São Paulo 2×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi, São Paulo (SP)

O luto na braçadeira dos jogadores. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É tarde da noite, neste sábado, e não me arrependo da decisão de não ter ido ao Morumbi — que fica próximo de onde moro desde que vim para São Paulo. Ao longo do dia, considerei algumas vezes a ideia de assistir ao jogo no estádio, experiência que sempre me trouxe prazer, mesmo quando o resultado não colaborava.

Ver o Grêmio apenas se defendendo desde o primeiro minuto, sem demonstrar qualquer vontade ou possibilidade de atacar, foi o suficiente para me convencer de que tinha feito a escolha certa ao permanecer diante da televisão. Evitei o desconforto de chegar ao estádio, o ingresso sempre mais caro do que o espetáculo merece, a arquibancada descoberta e fria, e a insegurança de voltar para casa no fim da noite.

Foi, então, que em um raro contra-ataque, Aravena balançou as redes. Já passava da meia hora de jogo quando, pela primeira vez, o time entrou na área adversária e chutou em direção ao gol — e ao fim da partida, saberíamos que isso só se repetiria outras duas vezes, sem o mesmo sucesso.

O gol, aos 36 minutos, foi o único instante em que minha memória afetiva me fez questionar a ausência no estádio. Que saudade de poder pular na arquibancada, comemorar uma conquista, abraçar quem estivesse ao lado com aquela intimidade que só os torcedores sabem exercer. Uma sensação fugaz.

Infelizmente, os fatos que se seguiram confirmaram que a alegria seria momentânea, e a ausência no estádio, longe de ser lamentada. Abdicamos da posse de bola, insistimos em apenas nos defender e repetimos os vacilos na marcação que têm sido frequentes nas últimas três temporadas. Sim, há três anos o Grêmio sofre uma quantidade absurda de gols, e essa sangria parece não ter fim — seja quem for o técnico na casamata.

O pênalti marcado — e, como sempre, discutido — além de irritação, deveria provocar reflexão. Independentemente da qualidade dos árbitros e dos erros do VAR, é preciso admitir: o Grêmio se expõe a esses riscos por conta das circunstâncias do seu jogo. Um time que vive com a bola sendo jogada dentro ou ao redor da própria área está sempre à beira do desastre, seja por trapalhadas do juiz, seja pelas próprias falhas defensivas.

Lamento pelo futebol mal jogado e por estarmos de volta àquela zona que você sabe qual é. Mas esse é o tipo de lamento que se dissolve no jogo seguinte. Sempre há espaço para recuperação, seja daqui uma semana, seja algumas rodadas à frente.

Confesso, porém, que me envergonha ficar desanimado com as coisas do futebol quando a vida impõe tragédias reais, como a enfrentada por Mano Menezes. A morte de dois de seus ‘netos de coração’ em um acidente automobilístico é uma dor infinita, que eterniza uma cicatriz na alma. A ele e a todos os familiares que choram por essas duas crianças, nossa solidariedade e nossas lágrimas de tristeza e consternação.

Conte Sua História de São Paulo: fui office-boy com pastinha de plástico na mão

Carlos Assis

Ouvinte da CBN

Foto: Ouvinte da CBN Ricardo Biserra

Meu pai tinha uma firma de material industrial na rua dos Andradas. E minha mãe ajudava fazendo os pagamentos nos bancos. Antigamente, um título do Bradesco — título, era assim que chamávamos os boletos — só podia ser pago no Bradesco. O do Banco do Brasil só no Banco do Brasil. E havia bancos em São Paulo com apenas uma ou duas agências. Então, a gente tinha de ir ao centro velho, na rua Boa Vista, na São Bento, na Quinze de Novembro … E fazia tudo a pé. Não tinha metrô. Desse modo, conheci bem a cidade. 

Passei dezenas e dezenas de vezes no viaduto Santa Ifigênia, no viaduto do Chá, no Largo Paissandu. A agência do Citybank era na avenida São João com a Ipiranga, em frente ao Bar Brahma — bar que nunca visitei, apesar de passar pela frente uma centena de vezes. 

Minha mãe era uma pessoa simples e católica, o que me fez conhecer as igrejas do centro: o Mosteiro de São Bento, a Sé, a de São Francisco, a do Rosário, a de Santo Antônio.

Lembro quando fui com ela pagar um título no Unibanco, na Praça do Patriarca. Assim que entramos havia uma escada rolante. Precisávamos subir no primeiro pavimento. Minha mãe tinha medo da escada rolante, que era algo novo na cidade. O segurança teve de desligar a escada para a gente subir e depois descer. 

Com uns 13 anos, já era office-boy e andava com aquela pastinha de plástico na mão. Mas não me atrevia a fazer malabarismos como os garotos maiores. Minha diversão era entrar por uma rua e sair em outra, passando por dentro de prédios. Adorava andar na galeria da Avenida São João, passar pelas lanchonetes, sentir aquele cheiro de comida no ar, e sair na 24 de Maio. 

Entrava nas Lojas Americanas e Brasileiras, na rua Direita, e saia na rua José Bonifácio, do outro lado. Entrava no Banco de Boston, no Vale do Anhangabaú, e alcançava a Libero Badaró — essa agência foi a primeira a ter porta automática e era m luxo ver a porta se abrindo sozinha. Outro atalho que usava era entrar no prédio da Telefônica, na Sete de Abril, e sair na Basílio da Gama. Ou entrar na Galeria Metrópole para chegar na praça da Biblioteca Municipal.

Além de pagar contas, eu fazia entregas de documentos, cartas e cotações. Frequentava os Correios para passar telegramas e despachar cartas. Os Correios tinham máquinas automáticas que selavam as cartas. Eu levava centenas de cartas em uma mochila. E lá era o único lugar em que se podia fazer isso. Entregava cotações paras as empresas. 

A CSN Companhia Siderúrgica Nacional ficava na avenida Senador Queirós; a Petrobras na Barão de Itapetininga; a Petrobras Distribuidora ficava no Edifício Andraus. Sim, eu estive no vigésimo-segundo andar do mesmo prédio que pegou fogo. Dei sorte. E algumas vezes, ia na avenida Paulista entregar cotação na Liquigás, no Conjunto Nacional. Fui dezenas de vezes nas Indústrias Matarazzo, na Água Branca, e a na Companhia Antártica, na Borges de Figueiredo. Uma vez fui na Bayer, em Santo Amaro. Acho que demorei quase duas horas para chegar lá. 

Certa vez, passando o farol fechado —- office-boy não esperava o farol abrir —, na rua Xavier Toledo, em frente ao Mappin, levei um apitaço do Guarda Luizinho. Meus ouvidos ficaram zunindo. Nem entendi o que ele disse. Só vi as pessoas rindo. Daquele dia em diante, aprendi a usar a passagem subterrânea que tinha do lado do prédio da Light — acho que por pura vergonha. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias como essa, vá no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: André Carneiro, da Sophos, alerta para vulnerabilidade digital das empresas brasileiras

André Carneiro no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN

“Quem não monitora a empresa 24 horas por 7 dias, está vulnerável a tomar um ataque.”

André Carneiro, Sophos

O Brasil lidera a classificação global de empresas que mais pagam resgate após sofrerem ataques cibernéticos. Um dado que revela não apenas a fragilidade dos sistemas de segurança corporativa, mas também uma cultura de reação tardia frente ao avanço do crime digital. O alerta é do diretor geral da Sophos no Brasil, André Carneiro, convidado do programa Mundo Corporativo.

Durante a entrevista, Carneiro apontou que 58% das empresas brasileiras atacadas nos últimos anos optaram por pagar o resgate exigido por criminosos virtuais. “Quando uma empresa toma um ataque, ela fica 1, 2, 30 dias sem operar. Isso leva ao desespero do board executivo, que acaba pagando”, afirmou. A consequência direta desse comportamento é o estímulo a novos ataques. “O criminoso percebe que, se atacar aqui, tem boa chance de retorno financeiro.”

Segurança negligenciada

Segundo Carneiro, muitas empresas ainda tratam segurança como gasto, e não como parte do negócio. “Imagina um time de futebol. Ele quer ter muito atacante, mas não está nem aí para quem vai catar no gol”, comparou. O resultado são organizações com sistemas frágeis, expostas a invasões que usam desde e-mails com links maliciosos até a exploração de falhas em firewalls.

Carneiro também criticou a falta de transparência no Brasil quando o assunto são incidentes de segurança. “O brasileiro não gosta de admitir que foi atacado. Nos Estados Unidos, por exemplo, há uma cultura de reportar falhas para aprender com elas.”

Prevenção e cultura digital

Para o especialista, a conscientização começa antes mesmo do ambiente corporativo. “Quisera eu que um dia as escolas ensinassem o que é clicar num link incorreto e o quanto isso pode prejudicar uma pessoa ou empresa.” Além da educação digital, ele destaca a importância de monitoramento constante com uso de inteligência artificial e ferramentas que antecipem os movimentos dos atacantes.

“Hoje, o crime virtual é mais lucrativo que o tráfico de drogas. O cybercrime já movimenta valores maiores que o PIB de muitos países”, afirmou Carneiro, ao destacar a sofisticação e globalização desses grupos, muitos deles baseados na deep web, com estrutura empresarial e atuação descentralizada.

Mesmo diante de casos extremos, pagar o resgate não é garantia de solução. “Já vi empresa pagar dois milhões, e depois o criminoso pedir mais dois. E se a empresa não pagar? O prejuízo dobra.”

Assista ao Mundo Corporativo


O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Avalanche Tricolor: aprendendo a salivar no amargo

Grêmio 1×1 Godoy Cruz
Sul-Americana – Arena do Grêmio

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O sabor do empate já foi tema desta Avalanche em outras ocasiões. Foram tantas as vezes em que saímos de campo com esse estranho resultado no placar, que ele já começa a parecer rotina. Cada um azeda nossa boca de uma forma diferente. Alguns são absorvidos com a acidez amarga de um café queimado no fim do expediente. Outros se parecem com o vinagre branco, seco e implacável, que desce cortando, como quem não aceita réplica. Da mesma forma que os empates, há azedos que despertam, outros que ardem.

Perdi a conta — e não vou me dar o trabalho de rever — da quantidade de vezes que saímos à frente e fomos incapazes de manter a vitória em nossas mãos, nesta temporada. O fato é que me esforço para tirar de cada um desses empates algum ensinamento e um pouco de esperança. No desta noite, em Porto Alegre, a dupla Braithwaite e Arezo, com o dinamarquês jogando de ‘meio-atacante’ — é assim que se chama quem fica naquela posição? —, sinalizou que pode evoluir à medida que insistirmos nessa formação. Talvez não seja a solução, mas é uma opção.

Sei que tem torcedor que não reconhece, mas é evidente que o time está num esforço desmedido para oferecer mais. Percebe-se uma doação da alma para que a bola seja alcançada, a jogada se complete e, especialmente, o adversário não nos imponha risco. Não existe acomodamento. O treinador tenta de um jeito, escala de outro, explora o potencial de cada jogador que tem à disposição… aí vêm as lesões — hoje, os dois laterais direitos saíram machucados de campo; aparecem os tropeços, os limites técnicos acabam se impondo e, mesmo quem pode entregar talento, sucumbe. Nem vou falar do descaso dos árbitros com as infrações que poderiam nos beneficiar.

Como, porém, fui forjado na sofrência de um time que carrega a alcunha de “Imortal”, fique certo, caro e cada vez mais raro leitor: mesmo com o azedume do empate (mais um empate), agora na Sul-Americana, sou capaz de lembrar que o gosto da vida não precisa ser suave para ser bom. Como disse na abertura desta conversa, o azedo incomoda, mas também desperta. Faz salivar, limpa os excessos, realça o que estava apagado. É o gosto do estranhamento que, quando aceito, vira prazer.

Sigo à espera de salivar o sabor da vitória.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: sete maneiras de sabotar sua própria marca

Prometer e não cumprir, ignorar o cliente, mudar o que deveria ser preservado e agir como se uma marca fosse indestrutível são caminhos certos para levá-la à ruína. Foi sobre isso que tratou o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo, que desta vez inverteram a lógica da construção de marca para alertar: muitas empresas estão falhando justamente por não perceberem os erros que elas mesmas provocam.

“A primeira grande falha é não ter uma identidade clara. Quando a marca não sabe o que quer significar, ela pode ser qualquer coisa”, alertou Cecília Russo. Ao lado disso, ela destacou a incoerência na comunicação — desde o silêncio até a mudança constante de tom verbal ou visual — e o distanciamento em relação ao consumidor: “Criar produtos sem entender as dores do cliente é fatal”.

Na sequência, Jaime Troiano apontou que o problema vai além da falta de coerência e entra no campo da frustração: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão”. Para ele, marcas que prometem e não cumprem quebram a confiança e perdem espaço sem chances de retorno. Além disso, Troiano listou ainda o descaso com o atendimento e a resistência às mudanças. “Tão perigoso quanto mudar o tempo todo é não mudar nunca e perder o bonde da história”, explicou, lembrando que a inovação deve respeitar o ritmo e a essência de cada setor — especialmente no caso de restaurantes, onde pratos icônicos são parte da marca.

Em um tom provocativo para ironizar práticas comuns de má gestão de marca, Jaime sugeriu, por exemplo, que se você quer mesmo sabotar sua marca, basta “reduzir o investimento em comunicação” ou “mudar constantemente de agência”. Cecília completou com outras atitudes igualmente prejudiciais, como jogar fora os elementos tradicionais da identidade, ignorar pesquisas e recorrer ao improviso amador no design. “Você sempre tem uma sobrinha com um Mac em casa…”, disse com humor crítico.

O jogo dos sete erros

  1. Falta de identidade clara: A marca não sabe o que quer significar. Sem clareza, transmite confusão e não gera expectativa consistente no público.
  2. Incoerência na comunicação: Mudança constante de tom verbal, identidade visual, mensagens desencontradas ou mesmo o silêncio comprometem a credibilidade da marca.
  3. Desconexão com o consumidor: Criar produtos ou campanhas sem entender as dores e desejos dos clientes mina a relevância da marca e impede a criação de vínculos duradouros.
  4. Promessas não cumpridas: Entregar menos do que o prometido destrói a confiança. Como disse Jaime: “Você nunca tem uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão.”
  5. Descaso com o atendimento Ignorar feedbacks, demorar para responder ou tratar mal o cliente gera prejuízo imediato e ecoa negativamente nas avaliações públicas.
  6. Resistência à inovação (ou mudança sem critério) Marcas que não se atualizam perdem relevância. Por outro lado, mudar tudo sem preservar elementos essenciais prejudica a identidade.
  7. Desvalorização da marca como ativo estratégico Cortar investimento em comunicação, ignorar pesquisas, improvisar no design e não cultivar relacionamentos duradouros com agências leva ao esquecimento e ao sucateamento progressivo da marca.

A marca do Sua Marca

O programa desta semana defendeu que mais importante do que saber o que fazer é reconhecer o que não deve ser feito. A marca do comentário é o alerta direto: erros aparentemente pequenos ou decisões econômicas equivocadas podem causar prejuízos profundos e irreversíveis à reputação de uma empresa.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: esperança driblada no final

Grêmio 1×1 RB Bragantino
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Cristian Oliveira foi um dos destaques. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há um cansaço emocional em torcer por lampejos de melhora quando a realidade insiste em repetir os mesmos erros. Passamos a temporada em busca de sinais de recuperação: um empate nos minutos finais, uma classificação nos pênaltis, a simples melhora técnica de um jogador ou o surgimento promissor de alguém da base. Mas, a cada novo alento, a realidade se impõe — e fala mais alto.

Neste início de noite de sábado, a esperança se renovou especialmente no segundo tempo, quando Mano Menezes corrigiu o time com dois pontas de qualidade e um meio-campo mais criativo. A defesa já dava sinais de estabilidade desde o início da partida, apesar de alguns sustos pontuais. O problema estava do meio para frente: faltava agressividade e criação.

Com Monsanto no lugar de Nathan – o que ele estava fazendo em campo? – e Amuzu aberto pela ponta, o Grêmio passou a produzir mais. Cristian Oliveira, que havia sido destaque na etapa inicial pelo lado esquerdo, trocou de lado e manteve o ímpeto — até onde o físico permitiu. Arezo entrou e tornou o ataque mais contundente. As chances apareceram, e o torcedor, enfim, teve a sensação de que o time se encontrava.

O gol de Amuzu, aos 42 minutos da etapa final, parecia confirmar esse pressentimento. Não foi obra do acaso. A jogada começou no campo defensivo, com Arezo, passou por Braithwaite — que fez um lançamento longo e preciso — e chegou aos pés do atacante belga. Amuzu driblou seus marcadores e, de fora da área, finalizou com categoria, sem chances para o goleiro.

A vitória estava ao alcance, pronta para mudar o rumo da temporada. Ledo engano. Menos de dois minutos depois, uma rara desatenção defensiva, na partida de hoje, nos custou o empate. A frustração retornou com força, diluindo o otimismo que mal havia se formado.

Há pontos positivos? Sim. A defesa, mesmo com mais um gol sofrido — o 12º no Brasileiro —, demonstrou evolução tática. Jemerson, frequentemente alvo da torcida, jogou com mais segurança. Os dois laterais, Igor Serrote e Marlon, seguem como os mais confiáveis do elenco. Monsanto, saindo do banco, teve sua melhor atuação recente. No ataque, Cristian Oliveira e Amuzu foram os nomes mais perigosos, criando oportunidades com dribles e velocidade.

A esperança agora — e eu rejeito a falência da esperança — é que o time, sob o comando de Mano Menezes e observado por Luiz Felipe Scolari, continue evoluindo. Que essa evolução, finalmente, se transforme em vitórias. Porque só elas, no fim das contas, sustentam qualquer projeto.

Conte Sua História de São Paulo: de office-boy ao pioneirismo dos motoboys

Comecei minha vida profissional ainda menor, em 1972 na Techint, uma empresa de engenharia na Praça da República, que participou da construção da primeira linha do Metrô da cidade. Eu era office boy, e vivia nas ruas e avenidas do centro, pegando fila, entrando em bancos, cartórios e repartições publicas. Vendo e vibrando com cartazes de cinema escritos e pintados à mão; teatros, fliperamas, lojas e galerias  movimentadas.

Comia, às vezes, no restaurante Sopa Paulista, na Avenida São João, mas geralmente carregava minha marmita no Penha-Lapa lotado e à noite estudava no ginásio.

Até no famoso Bar Brahma almocei, mas pra mim o bom mesmo era o churrasco grego, com suco no copo de plástico, que vez ou outra vinha com uma abelha — era bem rapidinho.

Entrava no Cine Maraba, na Loja Pitter,  na Pirani e na Eletro-Radiobras. Gostava do fliperamas da Play Time. Uma felicidade! E tinha o icônico Mappin. Esse, sim, onde mais tarde eu seria um dos pioneiros dos motoboys com minha Suzuki “cinquentinha”. Eu entregava as temidas cartinhas de cobrança aos devedores dos carnês do famoso magazine.

Frequentava a General Osório para ver os novos modelos de motos que chegavam do Japão — e os antigos, também. Nas sextas-feiras, tinha o movimento Black Power, no Viaduto do Chá, onde inúmeros adeptos ao movimento dominavam o cenário usando boas roupas e cabelos da moda Black. 

Nas andanças pelo centro, também vi de perto os incêndios  dos edifícios Andraus e Joelma — tristes recordações.  Ainda trabalhei na Sabesp e, finalmente, no Tribunal de Justiça na Praça da Sé, onde permaneci até  me aposentar.

Tenho na lembrança,  e com saudades, um tempo mágico que vivi em São Paulo e se mantém muito presente na minha memória, mesmo morando agora em Santa Isabel.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Domenico Ban é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.