Celulares fora da sala de aula. E da mesa do jantar?

O psicólogo e escritor Jonathan Haidt, autor do best-seller A Geração Ansiosa, não poupa palavras: estamos diante de uma crise de saúde mental provocada pelo uso precoce e excessivo de celulares e redes sociais. Em visita ao Brasil, ele alertou que até mesmo alunos das melhores universidades já não conseguem mais ler. Isso mesmo: não conseguem manter a atenção em um único texto. “Abrem um livro, leem uma frase, fecham e vão para o TikTok”, descreve. A leitura profunda, a reflexão e a concentração foram corroídas por estímulos curtos, constantes e viciantes.

A constatação é mais do que acadêmica — é política. Haidt tem atuado diretamente com congressistas nos Estados Unidos e, agora, no Brasil, para defender duas medidas urgentes: a proibição do uso de celulares nas escolas e a restrição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A seu ver, estamos pagando um preço alto por ter deixado que a infância fosse sequestrada pela lógica da monetização da atenção promovida pelas Big Techs.

Os dados o apoiam. Desde 2015, ano que ele chama de “ruptura da humanidade”, houve uma explosão nos índices de ansiedade, depressão e automutilação entre adolescentes. As curvas crescem em sincronia com a chegada dos smartphones e da cultura das redes. Os ambientes digitais passaram a ser o lugar onde meninos e meninas buscam validação, enfrentam comparações e, muitas vezes, sofrem em silêncio.

Haidt elogiou o Brasil por debater leis que banem celulares nas escolas e defendeu que o país pode se tornar referência mundial nessa agenda. Mas foi além. Propôs que os governos invistam em playgrounds e espaços de convivência real, onde o corpo volte a ocupar o espaço que a tela roubou. “Precisamos dar às crianças oportunidades para serem humanas novamente”, disse.

É nesse ponto que a conversa sai das salas de aula e entra nas salas de jantar.

Se o poder público pode e deve legislar sobre o uso de celulares nas escolas, quem vai estabelecer regras no ambiente doméstico? Quem vai dizer “basta” à presença de smartphones durante as refeições? Que autoridade terá coragem de afirmar aos filhos que a mesa do jantar é lugar de escuta e de presença, não de rolagem infinita?

A provocação é inevitável: estaremos caminhando para um ponto em que o Estado precisará legislar também sobre o uso de telas dentro de casa? Parece absurdo, mas não mais do que ver pais e filhos em silêncio, lado a lado no sofá, cada um imerso em seu próprio universo digital. A dificuldade de desconectar já não é mais só dos jovens — é dos adultos também.

Haidt nos alerta para uma geração que perdeu habilidades sociais, não sabe iniciar uma conversa, fazer um amigo, ouvir um não. Mas como desenvolver essas competências se o exemplo dentro de casa é o do silêncio digital consentido?

A escola, claro, tem papel fundamental. Mas a formação emocional e os vínculos sociais não se resolvem apenas com leis. Começam no cotidiano, no olhar trocado, no tempo partilhado, na conversa sem tela. Se quisermos reverter a curva da ansiedade, talvez tenhamos que começar pela mais simples — e mais difícil — das mudanças: guardar o celular na gaveta durante o jantar.

Não por imposição legal. Mas por amor.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quatro lições de Lady Gaga para a construção de marcas

Mais de dois milhões de pessoas se reuniram nas areias de Copacabana para assistir ao show de Lady Gaga — um espetáculo que, além da música, ofereceu uma poderosa lição sobre o que significa ser uma marca com presença, propósito e comunidade.

Esse foi o tema do comentário do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN. O fenômeno Lady Gaga serviu de ponto de partida para uma análise sobre a forma como marcas podem se conectar de maneira genuína com o público.

Cecília destacou que, ao longo da apresentação, Lady Gaga emocionou-se diversas vezes, abrindo espaço para mostrar fragilidade e emoção diante da multidão. “Ela está lá intocável no palco, mas é gente como a gente, que sofre, que ri, que chora, que pula”, afirmou. Essa postura reforça o que ela chama de “marca humana”, que assume suas vulnerabilidades e se torna mais acessível.

Ainda segundo Cecília, a artista construiu uma verdadeira comunidade em torno de si: os Little Monsters, nome oficial dado aos fãs. “Mais do que fãs, os Little Monsters são parte da identidade da própria marca Lady Gaga”, observou, ressaltando os valores de inclusão, diversidade e autoaceitação que unem o grupo.

Jaime Troiano ampliou a discussão ao dizer que a força da marca Lady Gaga vai além do palco. “Ela não apenas promove um show, ela promove toda uma experiência de marca, desde figurinos, luzes, interação com fãs, até ativações de patrocinadores”, disse. Para ele, são essas experiências multissensoriais e emocionais que tornam a marca inesquecível.

Ele acrescentou ainda que Lady Gaga constrói sua presença em múltiplas plataformas e linguagens, o que amplia seu alcance e profundidade. “Ela se comunica e abre novos canais para se expressar — hoje em dia, em construção de marca, isso é fundamental.”

A marca do Sua Marca

Lady Gaga é apresentada como uma marca que se conecta emocionalmente, forma comunidades fiéis, entrega experiências marcantes e se comunica por múltiplos canais. Quatro pilares que sustentam não só o sucesso de uma artista, mas de qualquer marca que queira relevância e longevidade.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Carta Aberta à Sociedade Brasileira: Por uma Velhice Digna e Visível para as Pessoas LGBT+


Diego Felix Miguel

Foto de Markus Spiske

O Brasil envelhece rapidamente, enquanto uma parte fundamental da população continua invisível para as políticas públicas: as pessoas idosas LGBT+. Essa constatação me atravessa desde 2016, quando iniciei meus estudos sobre as velhices LGBT+, ainda atuando na gestão de um ambulatório de referência para pessoas idosas no Sistema Único de Saúde (SUS), em São Paulo. Tratava-se de um modelo de atendimento que inspirou políticas públicas em outros municípios, estados e até mesmo países.

Mesmo trabalhando por quase dez anos nesse serviço do SUS, por onde passavam mais de mil pessoas idosas por dia, não conheci sequer uma pessoa idosa LGBT+ que pudesse ser uma referência sobre o envelhecimento dentro da própria comunidade. Ao longo dos anos de estudos em Gerontologia, tampouco me recordo de uma única citação que abordasse o envelhecimento dessas pessoas. Essa ausência sempre me inquietou profundamente, pois o tema dizia respeito ao meu próprio futuro — como homem gay jovem que já temia o que viria depois dos 40 anos.

Veja que curioso: minha preocupação não estava atrelada ao marco institucional que define uma pessoa idosa no Brasil — a partir dos 60 anos —, mas sim a uma lógica específica da comunidade LGBT+, onde, após os 40, passamos a ocupar um lugar sociocultural diferente. Como se não bastassem os estigmas impostos pela normatividade heterossexual e cisgênera, também somos atravessados pelo idadismo — o preconceito contra a idade — mesmo antes de sermos oficialmente considerados velhos ou velhas pelo Estado.

E então me perguntei: o que acontece com as pessoas LGBT+ depois dos 60 anos? Onde elas estão? Por que não estavam inseridas no serviço de saúde em que eu atuava?

Na busca por dados oficiais, percebi que a população LGBT+ sequer é quantificada. Acredito que essa omissão seja uma estratégia perversa de um Estado estruturalmente LGBTfóbico: se não conhecemos, não reconhecemos demandas — e, sem demandas, não há políticas públicas voltadas para essas pessoas.

Historicamente, sabemos que nossos direitos só foram conquistados por meio de resistência, ocupação de espaços e luta ativa. Nada nos foi dado. Por isso, desde então, além de estudar pesquisadores nacionais e internacionais que abordam o tema, aprendo diariamente com a própria comunidade LGBT+, tanto com as pessoas mais velhas quanto com as mais jovens.

Mas há um abismo entre gerações. As pessoas idosas LGBT+ de hoje são sobreviventes: resistiram à ditadura, à epidemia de HIV/AIDS e a contextos sociais hostis. Foram protagonistas das conquistas que hoje celebramos. Ainda assim, muitas vezes são desvalorizadas dentro da própria comunidade.

Por outro lado, as gerações mais novas têm nos ensinado novas formas de viver e expressar identidades de gênero, orientações sexuais e afetivas. Expandem as possibilidades para além do binarismo, da monogamia e de modelos herdados da heterocisnormatividade — algo iniciado com a luta das gerações anteriores, mas que hoje se expressa com mais liberdade e diversidade.

A ausência de representatividade torna as pessoas idosas LGBT+ duplamente invisibilizadas: não são vistas nem pela sociedade, nem pelo próprio ativismo LGBT+, tampouco são reconhecidas pelas políticas públicas. O resultado disso? Um desamparo concreto nos serviços de saúde, assistência social e direitos humanos.

O reconhecimento da interseccionalidade — ou seja, da intersecção de aspectos como gênero, raça, classe, geração, entre outros — é essencial para compreendermos as experiências únicas dessas pessoas. Afinal, mesmo dentro de um grupo já diverso, há uma diversidade ainda mais profunda que não pode ser ignorada.

Como dar visibilidade às pessoas idosas LGBT+ sem sua participação ativa? Como compreender a pluralidade dentro da própria diversidade, se não buscamos ir além do perfil de quem, com dificuldade, consegue chegar até nós? A quem cabe a representatividade daquelas e daqueles que ficaram do outro lado dessa linha abissal?

Nesse sentido, a iniciativa da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo — a maior do mundo — ao trazer o tema “Envelhecer LGBT+: Memória, resistência e futuro” para o centro do debate é, além de importante, urgente. A realização do evento no dia 22 de junho marca uma oportunidade simbólica e concreta de promover um verdadeiro encontro de gerações, um espaço de troca, celebração e reconhecimento. Que possamos agradecer a quem veio antes, abrindo caminhos para que hoje possamos existir e resistir com mais liberdade.

E que esse evento inspire o Estado a ouvir com atenção qualificada as demandas das velhices LGBT+, promovendo políticas públicas que não apenas reconheçam a diversidade sexual e de gênero, mas garantam segurança, cuidado e dignidade às pessoas idosas LGBT+.

Porque envelhecer com dignidade é um direito. E, para as pessoas LGBT+, esse direito não pode continuar sendo negado pela invisibilidade.

Com respeito, esperança e urgência,


Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: o Grêmio venceu!

Grêmio 1×0 Bahia — Campeonato Brasileiro
Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Kannemann é um dos nossos méritos. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Fazia tanto tempo que eu não via um árbitro marcar pênalti para o Grêmio que, no primeiro momento, nem reconheci o lance como tal — entenda como quiser essa frase. A verdade é que não temos o luxo de discutir as circunstâncias de uma vitória — elas têm sido raras demais. Esta foi apenas a segunda nas últimas treze partidas.

Apesar das limitações repetidas e dos riscos desnecessários de sempre, o Grêmio teve alguns méritos neste início de domingo. A resiliência diante de um adversário mais organizado e com talento no meio-campo foi um deles. E não dá para reclamar da entrega dos nossos jogadores que, visivelmente, têm redobrado esforços para impedir qualquer triunfo adversário. Surpreendentemente, hoje, não tomamos gol. Mesmo aqueles que, ao receberem a bola, parecem não saber exatamente para que serve aquele objeto, correm intensamente no gramado — registre-se: o mais feio da Série A do Campeonato Brasileiro.

Christian Oliveira, pelo lado direito, também está na restrita lista de méritos gremistas. Pena que não tenhamos sido competentes para transformar seus dribles e cruzamentos em finalizações. Ao lado dele, Kannemann. Apesar das duas cirurgias recentes e dos 34 anos, continua um exemplo de dedicação. Vê-lo protagonizando jogadas ofensivas — hoje, deu chapéu, cruzou para a área e ainda deu assistência — revela tanto o destemor do nosso zagueiro quanto o grau de desorganização que ainda nos define. Tem ainda a cobrança de pênalti certeira nas redes de Braithwait — um surpresa se pensarmos que nossos jogadores não têm tido o costume de ver árbitros apitando pênalti a nosso favor.

Por fim, é claro, os três pontos. Conquistados a despeito de todas as condições, são o que temos a comemorar, por enquanto. O Grêmio venceu! Portanto, que comemoremos!

Conte Sua História de São Paulo: a adolescência nos Jardins

Fabio Lemmi

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

Nasci na Pró Matre paulista há 75 anos. Meus pais moravam na tranquila avenida Nove de Julho, quase na Lorena. Com a morte de minha mãe em 1956, fui morar com meus avós na Peixoto Gomide, esquina da Tatuí. Foi lá que vivi o fim da infância e o início da adolescência – um tempo feliz.

Nos anos 50 e 60, o bairro era feito de casas, vilas e ruas calmas. A Tatuí, com seu único quarteirão asfaltado, virou nosso campinho: jogávamos taco, pingue-pongue, patinávamos, soltávamos bombinhas e, claro, jogávamos futebol. Era o nosso forte.

O time da Tatuí enfrentava, com frequência, os meninos da José Maria Lisboa. O clássico virou rotina e, aos poucos, a rivalidade virou amizade. Da Tatuí: Paulo Carioca, Paulo André, Gui, Garaude, Carlinhos, Augusto, Osvaldo, Dandado. Da Zé Maria: Cido, Tabela, Alex, Wilson, Bubi, Frederico e Antonio. Ainda nos encontramos, de vez em quando.

Tinha também o Boris, mais velho, apresentador na rádio Santo Amaro, que organizava partidas em campos improváveis: Pacaembu, Hebraica, Santa Cruz… Sempre jogávamos, quase sempre perdíamos. Dali saíram dois nomes da imprensa: Guilherme Ivo Cunha Pinto, o jovem Gui, editor no Jornal da Tarde e na revista Playboy, e o próprio Boris, Casoy de sobrenome.

Entre travessuras, lembro de uma coleção de 400 garrafinhas de bebida que ficou pra trás após um divórcio. Aos poucos, “degustamos” todas. Criamos habilidades em repor os líquidos sem levantar suspeitas. Ninguém virou alcoólatra. Até onde sei.

Outra figura: João Grandão, magro, alto, com um Fusca, que adorava seguir balões juninos. Virou, dizem, um personagem exótico e loiro que exibe sua excentricidade sobre um conversível em avenidas paulistanas.

E teve a Bic, minha primeira paixão. Dorothèe, uma francesa vizinha. Quando ela terminou o namoro após férias na França, repeti de ano. Três meses depois, a moça estava na capa da revista Realidade e desfilando para Denner. Eu? Tinha de vê-la todos os dias nas bancas, nas fotos gigantes do Center 3. Adolescente sofre.

Entre os vizinhos: os irmãos italianos Marco e Fabio, que ouviram o assassinato de Kennedy em rádios de bolso; e Bruce, filho de diplomata americano, frustrado por nunca conseguirmos construir o carrinho de rolimã. Mais tarde virou diplomata no Caribe.

E mais: o rotundo guarda noturno Seu Antonio; o carteiro João e suas frases para o diabo; Ataliba, o vendedor de biju que jogava bola; o padeiro das cavacas anotadas em caderneta; o verdureiro empurrando a carroça; o tintureiro japonês; o milionário garoto do Aero Willys; e o eterno comprador de roupas usadas, gritando: “compá ropá”.

Os Jardins de 60 anos atrás. Ainda sem prédios. Ainda cheios de histórias.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Lemmi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você pode enviar as suas lembraças para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, vá agora para o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Alfredo Cardoso, da Valsa Saúde, fala do desafio de equilibrar tecnologia e humanidade na saúde

Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“No final do dia, são pessoas cuidando de pessoas.”

Alfredo Cardoso, Valsa Saúde

A inteligência artificial avança, as tecnologias médicas se sofisticam, mas nada disso faz sentido se o cuidado com o paciente perder o vínculo humano. Esta é a convicção de Alfredo Cardoso, CEO do grupo Valsa Saúde, que defende uma gestão baseada em compaixão, escuta e personalização no atendimento em saúde. O tema foi tratado na entrevista ao programa Mundo Corporativo, que foi ao ar na CBN.

“Temos uma estrutura hospitalar desenhada para o pior cenário, mas a maioria dos pacientes precisa de cuidado contínuo e preventivo fora do hospital”, explica Alfredo. Com esse diagnóstico, o grupo Valsa Saúde passou a atuar em cuidados pré e pós-hospitalares e reabilitação, monitorando mais de 5 mil pacientes com doenças crônicas. O modelo busca atender precocemente, reduzir custos e melhorar a qualidade de vida, com médicos generalistas, clínicas especializadas e um hospital voltado para reabilitação.

Humanização como estratégia

A tecnologia, para Alfredo, deve ser ferramenta e não substituição: “Se o médico faz o diagnóstico mais rápido com ajuda da IA, o que ele faz com o tempo que sobra? Deve escutar o paciente”. Ele critica a massificação e lembra que o paciente “representa 100% da sua própria estatística”.

Alfredo alerta para o risco de os avanços servirem apenas para aumentar a produtividade: “O desafio é que a tecnologia aproxime, e não afaste o profissional de saúde do paciente”. No grupo Valsa, a agenda médica não é comprimida por metas rígidas. “Deixamos que o médico determine quanto tempo precisa para cada paciente”, afirma.

Ouvir, explicar, consentir

Para Alfredo, o tratamento humanizado exige também uma comunicação clara e transparente com o paciente. “O procedimento consentido é uma boa prática. Não basta o profissional dizer o que será feito. O paciente precisa entender, confiar e aceitar.” O CEO do grupo Valsa defende uma escuta ativa também na gestão: “Verdades absolutas em saúde não existem. Estamos sempre aprendendo. É preciso ouvir as necessidades do outro”.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Nos bastidores da política, entre discursos e ações

Por Christian Müller Jung

Trabalhar na política — ou com políticos — me ensinou a relativizar o que se diz e o que, de fato, se faz. Essa é uma constatação que vale tanto para quem ocupa cargos públicos quanto para quem os critica. No ambiente político, a palavra e a prática nem sempre caminham juntas, e essa distância costuma aumentar nos períodos de maior polarização — que, diga-se, sempre existiu, mas ganhou um novo fôlego com o formato inflamável das redes sociais.

É impressionante a quantidade de comentários distorcidos sobre governantes que circulam por aí. E não me refiro apenas aos exageros dos militantes ou às narrativas fabricadas, mas também às críticas mal embasadas, que ignoram a complexidade do processo público. Não estou aqui para defender A ou B. Se boa parte da população pensa mal da política, é porque continua a assistir a verdadeiras barbeiragens administrativas — para não falar das falcatruas escancaradas.

Mesmo assim, a vida em sociedade segue seu curso. E isso só é possível porque há muita gente séria atuando nos bastidores. O problema não está na política em si, nem na função pública, mas na condição humana. A corrupção não nasce do cargo, mas da escolha de quem o ocupa — inclusive de quem julga, acusa e, por vezes, também comete seus deslizes pela vida afora.

Estar próximo do dia a dia político permite enxergar o que muitas vezes passa despercebido: a quantidade de projetos, estudos, articulações e superações de barreiras burocráticas que existem por trás de cada ação governamental. Processos que, idealmente, servem para proteger o contribuinte, mas que, em muitos casos, acabam travando o próprio serviço público. E quando esses projetos chegam à ponta, nem sempre a população percebe sua origem.

Há uma ineficiência estrutural na forma como a política se comunica. As propagandas eleitorais, por exemplo, contribuem pouco para a compreensão do que se faz — e muito para a confusão sobre o que se promete. Parte dessa falha, aliás, vem dos próprios políticos, que, ao assumir o papel de oposição, muitas vezes desconstroem o trabalho de colegas que atuam na mesma esfera. E isso vale, inclusive, para aqueles que já estiveram no poder. É o jogo político. Mas esse jogo, que alimenta uma eleição, também corrói a credibilidade de quem trabalha de verdade.

Aristóteles definia a política como o instrumento para promover a felicidade dos cidadãos. O que vemos hoje, no entanto, é uma performance superficial, marcada por discursos fabricados. Muitos políticos que conheço, com conhecimento técnico e vivência legítima, se transformam em robôs lendo teleprompter — com textos genéricos, escritos por agências que parecem desconectadas da realidade de quem atua na linha de frente.

Esse distanciamento impede que a comunicação política cumpra seu papel: aproximar, esclarecer, criar vínculos. O que chega ao eleitor, no fim das contas, é um discurso raso, repetido ano após ano, como se nada tivesse mudado — ainda que algo tenha mudado. E mesmo quando se apresentam realizações concretas, há sempre quem diga que tudo não passa de autopromoção. A crítica até faz sentido. Mas também revela um paradoxo: para sobreviver na política, é preciso comunicar. E para comunicar, é necessário visibilidade.

No meio disso tudo, há quem siga acreditando que política é, sim, uma ciência nobre — voltada ao bem comum. E que vale a pena dedicar tempo, energia e inteligência para desenvolver programas de governo que façam a diferença na vida das pessoas. O desafio é mostrar isso sem ser engolido pela caricatura do “mais do mesmo”. Porque há uma diferença entre estar na política e fazer política. Quem vive os bastidores sabe.

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: nem a Imortalidade salva!

Grêmio 0x0 CSA

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É difícil até escolher por onde começar diante de um fracasso tão retumbante. Cair na Copa do Brasil na terceira fase não foi a primeira vez, mas é raro. Agora, ser eliminado sem vencer nenhum dos adversários é algo para não esquecer tão cedo. E todos os três times que enfrentamos eram, no máximo, da Série C.

Faço um mea culpa: me deixei levar pelo entusiasmo quando conquistamos as vagas nas duas primeiras fases com gols heróicos, marcados nos últimos minutos ou nos acréscimos, e, em seguida, superando os adversários nos pênaltis. Me iludi com a ideia de que aquelas classificações expressavam a Imortalidade que nos consagrou. Errei. Não eram sinais da nossa resiliência, mas da nossa fragilidade.

A derrota para um time da Série C, em casa, depois de termos sofrido a virada no jogo de ida, escancara mais um episódio da temporada deprimente. No Campeonato Gaúcho, desperdiçamos o Octa. No Brasileiro, estamos na 17a. posição da tabela, naquela zona que você sabe qual é. Na Sul-Americana, mesmo enfrentando equipes de pouca expressão em seus países, só conseguiremos avançar disputando os play-offs — uma espécie de repescagem.

Em campo, os ajustes recentes no posicionamento dos jogadores deram alguma esperança de que alcançaríamos maior consistência defensiva, mas seguimos sofrendo gols desnecessários. Falta criatividade no meio-campo, e os atacantes seguem à míngua, esperando por uma chance que quase nunca chega.

Como se não bastasse toda essa fragilidade, ainda somos obrigados a assistir aos descalabros cometidos pela arbitragem. Ontem, mais uma vez, fomos claramente prejudicados com a anulação do gol que nos daria a chance de decidir nos pênaltis. Nos foi roubado até o direito a mais uma classificação no estilo “me engana que eu gosto”.

Já disse — e escrevi — que me recuso a decretar a falência da esperança, mas está cada vez mais difícil preservá-la. Que venha logo a parada para o Mundial de Clubes, e que Mano Menezes tenha tempo para colocar a cabeça dos jogadores no lugar. A cabeça — e o pé, é claro.

O Jaguar ferido: “Se algo pode dar errado, dará.”


A Lei de Murphy nunca pareceu tão precisa quanto no caso do rebranding da Jaguar — um exemplo clássico de quando os riscos estavam claros, mas foram ignorados.

Em dezembro de 2024, no comentário do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo já haviam feito o alerta. A Jaguar, uma das marcas mais icônicas da indústria automobilística, abandonou seu lendário felino em troca de uma identidade visual “moderna”, com cores e linhas ousadas. Para Jaime, tratava-se de uma “mudança adolescente de identidade”. Cecília foi além, chamando atenção para uma “pandemia de mudanças precipitadas” e lembrando que em branding, “preservar o essencial na busca do novo” é o que garante consistência.

Pouco mais de seis meses depois, como relatou Daniel Bruin, da XCOM, no LinkedIn, o resultado está aí: o rebranding foi abandonado. A agência responsável, Accenture Song, afastada. A Jaguar, que tentava se reposicionar, agora corre para remendar os danos à sua reputação. A “celebração ao modernismo” foi criticada de todos os lados, as vendas caíram e o impacto negativo foi imediato.

Daniel questiona: “Mas não fizeram testes com consumidores, workshops, clínicas de degustação?” A sensação é que o projeto nasceu em um ambiente de convencimento interno, sem escuta verdadeira nem conexão com o público.

Como disse Jaime, “marcas pertencem aos seus consumidores, são eles que dão vida e significado emocional para elas”. E quando esse vínculo é quebrado por decisões apressadas ou vaidosas, as consequências não tardam.

A Jaguar tinha diante de si todos os alertas. Tinha também a oportunidade de escutar mais e ousar menos. Não o fez. E, como ensina a Lei de Murphy, se havia chance de algo dar errado, era muito provável que desse. Deu.

Avalanche Tricolor: luto, lamentos e lágrimas

São Paulo 2×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi, São Paulo (SP)

O luto na braçadeira dos jogadores. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É tarde da noite, neste sábado, e não me arrependo da decisão de não ter ido ao Morumbi — que fica próximo de onde moro desde que vim para São Paulo. Ao longo do dia, considerei algumas vezes a ideia de assistir ao jogo no estádio, experiência que sempre me trouxe prazer, mesmo quando o resultado não colaborava.

Ver o Grêmio apenas se defendendo desde o primeiro minuto, sem demonstrar qualquer vontade ou possibilidade de atacar, foi o suficiente para me convencer de que tinha feito a escolha certa ao permanecer diante da televisão. Evitei o desconforto de chegar ao estádio, o ingresso sempre mais caro do que o espetáculo merece, a arquibancada descoberta e fria, e a insegurança de voltar para casa no fim da noite.

Foi, então, que em um raro contra-ataque, Aravena balançou as redes. Já passava da meia hora de jogo quando, pela primeira vez, o time entrou na área adversária e chutou em direção ao gol — e ao fim da partida, saberíamos que isso só se repetiria outras duas vezes, sem o mesmo sucesso.

O gol, aos 36 minutos, foi o único instante em que minha memória afetiva me fez questionar a ausência no estádio. Que saudade de poder pular na arquibancada, comemorar uma conquista, abraçar quem estivesse ao lado com aquela intimidade que só os torcedores sabem exercer. Uma sensação fugaz.

Infelizmente, os fatos que se seguiram confirmaram que a alegria seria momentânea, e a ausência no estádio, longe de ser lamentada. Abdicamos da posse de bola, insistimos em apenas nos defender e repetimos os vacilos na marcação que têm sido frequentes nas últimas três temporadas. Sim, há três anos o Grêmio sofre uma quantidade absurda de gols, e essa sangria parece não ter fim — seja quem for o técnico na casamata.

O pênalti marcado — e, como sempre, discutido — além de irritação, deveria provocar reflexão. Independentemente da qualidade dos árbitros e dos erros do VAR, é preciso admitir: o Grêmio se expõe a esses riscos por conta das circunstâncias do seu jogo. Um time que vive com a bola sendo jogada dentro ou ao redor da própria área está sempre à beira do desastre, seja por trapalhadas do juiz, seja pelas próprias falhas defensivas.

Lamento pelo futebol mal jogado e por estarmos de volta àquela zona que você sabe qual é. Mas esse é o tipo de lamento que se dissolve no jogo seguinte. Sempre há espaço para recuperação, seja daqui uma semana, seja algumas rodadas à frente.

Confesso, porém, que me envergonha ficar desanimado com as coisas do futebol quando a vida impõe tragédias reais, como a enfrentada por Mano Menezes. A morte de dois de seus ‘netos de coração’ em um acidente automobilístico é uma dor infinita, que eterniza uma cicatriz na alma. A ele e a todos os familiares que choram por essas duas crianças, nossa solidariedade e nossas lágrimas de tristeza e consternação.