Não me faz te pegar nojo, Sam Altman

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Sou o que costumam chamar de ‘early adopters’. Perdão pelo anglicismo logo na abertura do texto, mas é assim que a turma que fala de tecnologia prefere chamar aquilo que lá no meu Rio Grande do Sul denominaríamos de ‘guri metido’ — aquele cara que não pode ver uma novidade e já se atreve a usar. Foi assim com o ChatGPT. No dia em que ouvi falar, já estava fuçando suas funcionalidades. Virei embaixador do negócio. Sugeri para colegas, amigos e parentes — até para o cunhado.

Fiz o primeiro curso que apareceu. Comprei o primeiro livro sobre o assunto. Entrevistei as fontes que entendi serem mais relevantes e acessíveis. O negócio cresceu em uma velocidade exponencial e tomou uma dimensão que não dei conta diante de todas as possibilidades. Mesmo assim, apaixonei!

As primeiras polêmicas se tornaram públicas. O CEO Sam Altman foi demitido e recontratado em um movimento tão rápido quanto as respostas que a inteligência artificial é capaz de nos oferecer. Questionamentos sobre segurança e responsabilidade causaram tanta ‘alucinação’ quanto o ChatGPT pode produzir frente a um ‘prompt’ impreciso.

A última polêmica foi a situação envolvendo Scarlett Johansson.  Após quase um ano de negociações para que a atriz emprestasse sua voz ao ChatGPT 4.0o, Johansson recusou. No entanto, a OpenAI lançou uma voz incrivelmente semelhante à dela, chamada Sky, sem sua autorização. Quando a estrela de “Encontros e desencontros” ouviu a demo, ficou chocada e irritada. Mesmo com a negativa clara da atriz, Altman pareceu brincar com a situação ao sugerir no Twitter uma referência ao filme “Her”, onde Johansson dubla uma assistente de IA.

Essa atitude de Altman lembra muito o que Elon Musk fez com o Twitter, agora rebatizado de X. Musk, em sua gestão tumultuada e desrespeitosa com o cliente, transformou a plataforma, outrora um espaço de troca de ideias e informações, em um terreno de controvérsias e desinformação. A marca Twitter, construída ao longo de anos, foi profundamente danificada pela conduta errática e decisões questionáveis de Musk. E agora, Altman parece trilhar um caminho semelhante com a OpenAI.

A comparação é inevitável. Ambas as situações envolvem líderes carismáticos que, ao invés de preservar e fortalecer as instituições que dirigem, parecem mais interessados em promover seus próprios egos e preferências pessoais. No caso de Altman, a obsessão com o filme “Her” e a tentativa de replicar a voz de Johansson sem sua permissão demonstra um desrespeito pelas normas éticas e pelos direitos individuais. Isso não só prejudica a imagem da OpenAI como também levanta questões sérias sobre a integridade da empresa.

A saída de Ilya Sutskever, cofundador da OpenAI, e de outros membros da equipe de superalinhamento, reflete o ambiente conturbado dentro da empresa. Eles faziam parte do time focado em garantir a segurança de possíveis futuros sistemas de inteligência artificial ultra-qualificados

A OpenAI, que deveria ser um exemplo de pesquisa e desenvolvimento seguro de IA, agora parece mais preocupada em lançar produtos chamativos e ganhar mercado a qualquer custo. Essa mudança de foco é preocupante, especialmente com relatos de acordos de confidencialidade abusivos e uma cultura de segredo.

Assim como Musk transformou o Twitter em um campo minado de controvérsias, Altman está levando a OpenAI por um caminho perigoso. A empresa, que nasceu com a missão de desenvolver IA de forma segura e ética, agora parece mais interessada em ganhar visibilidade e lucro rápido. As ações de Altman, como no caso de Scarlett Johansson, mostram um desrespeito pelos princípios que deveriam nortear a OpenAI.

A postura de “vencer a qualquer custo” não é apenas insustentável, mas também prejudicial. Quando líderes colocam seus interesses pessoais acima das responsabilidades institucionais, a confiança do público e a integridade da organização são comprometidas. O caso de Johansson é um alerta para todos nós sobre os perigos de uma liderança que negligencia a ética em favor do ganho pessoal.

Sam Altman precisa reconsiderar suas ações e prioridades antes que a OpenAI sofra danos irreparáveis, assim como o Twitter nas mãos de Musk. A comunidade global de tecnologia e os usuários — especialmente aqueles que como eu nos apaixonamos pelo tema — querem confiar que essas ferramentas sejam desenvolvidas com responsabilidade e respeito. É hora de voltar aos princípios fundamentais e garantir que a OpenAI se alinhe novamente com sua missão original.

Recorrendo a um jargão consagrado pelo conterrâneo e humorista Andre Damasceno, criador do personagem o “Magro do Bonfa”: Altman, “não me faz te pegar nojo”, porque a OpenAI merece mais do que isso!

A era dos parlamentares selfie: novo guia propõe mudanças na comunicação legislativa

Nos dias de hoje, é cada vez mais comum ver políticos utilizando selfies e postagens nas redes sociais como principal meio de comunicação com seus eleitores. Essa prática, embora promova a proximidade, muitas vezes carece de conteúdo qualificado, desdenhando das discussões legislativas em prol de uma presença digital superficial. Nesse cenário, surge uma necessidade urgente de estratégias mais efetivas e substanciais para a comunicação parlamentar.

É exatamente essa lacuna que o livro “Comunicação Legislativa para Gabinetes Parlamentares” busca preencher. A obra, escrita pelo experiente jornalista Sergio Lerrer, apresenta diretrizes claras e práticas para que os gabinetes possam desenvolver uma comunicação mais eficaz e de maior alcance. Com mais de 30 anos dedicados à comunicação pública e legislativa, Lerrer destaca a importância de uma comunicação bem estruturada, que não se limita apenas ao ambiente legislativo, mas se estende à sociedade, entidades setoriais, imprensa e blogs.

Lerrer alerta para os desafios contemporâneos da comunicação parlamentar. Se por um lado, as redes sociais e o mundo digital facilitaram a disseminação de informações, por outro, é crucial que essa comunicação não seja desordenada e superficial. Publicações sucessivas e desgovernadas podem minar a autoridade e a reputação do parlamentar. Assim, o livro orienta sobre estratégias, rotinas e modelos de comunicação que promovem uma visão consistente e confiável da atividade parlamentar.

Em capítulos dedicados, o autor aborda temas como a “Comunicação com Waze”, que sugere uma navegação estratégica na comunicação, e o “Parlamentar Selfie”, que critica o excesso de personalismo em detrimento de conteúdo relevante para o cidadão. Essas metáforas ajudam a ilustrar de maneira prática e acessível como os gabinetes podem melhorar suas práticas comunicativas.

A obra é pioneira ao oferecer uma literatura especializada para os colaboradores de comunicação dos gabinetes parlamentares, servindo como um guia básico para a execução de suas atividades com mais acertos. É um recurso valioso para a profissionalização dessa função, utilizando a experiência acumulada no Brasil até o momento.

Sergio Lerrer, jornalista, cineasta e profissional de comunicação, é um precursor na área de comunicação legislativa no Brasil, com uma carreira dedicada a essa atividade como pesquisador, formulador e professor. Sua experiência inclui a gestão de comunicação de entidades de interesse público e frentes parlamentares, além de ser um dos pioneiros na organização de eventos e na publicação de livros sobre comunicação legislativa.

O lançamento do livro “Comunicação Legislativa para Gabinetes Parlamentares” marca um importante avanço para a profissionalização da comunicação nos gabinetes parlamentares, proporcionando ferramentas valiosas para a construção de um diálogo mais efetivo e produtivo entre os parlamentares e a sociedade.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: está chegando o B2G

Campanha de fabricante de aço aproxima o produto das pessoas Foto: divulgação

“Esse muro entre B2B e B2C está balançando. E acho que vai cair. Nem B2B nem B2C, apenas: bem-vindo à era do B2G.”
Jaime Troiano

O conceito de B2G, ou “business to gente”, está transformando a maneira como empresas enxergam suas relações com o mercado. No comentário desta semana no “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso”, Jaime Troiano e Cecília Russo exploraram essa tendência que está derrubando as barreiras entre os mundos corporativos de B2B e B2C.

Jaime Troiano iniciou explicando a tradicional divisão entre B2B (business to business) e B2C (business to consumer). Ele entende que sempre existiu um preconceito envolvendo os profissionais de B2B e B2C. O pessoal do B2B diz que aqueles que trabalham com o consumidor final são mais superficiais; a turma do B2C enxerga do outro lado um agrupamento de engenheiros que julgam que os produtos falam por si mesmos e precisariam explorar mais instrumentos de marketing e branding.

“B2B e B2C sempre foram separados por um muro, como se os conceitos técnicos de marketing, comunicação e branding não se aplicassem a ambos.”

Jaime Troiano

Em sintonia com o que pensa Jaime, Cecília Russo também percebe uma transformação diante da visão de que tanto um lado como o outro têm a necessidade de falar com as pessoas:

“B2G significa: business to people ou, business para pessoas, business para gente.”

Cecília Russo

Um exemplo dessa mudança é a campanha publicitária da ArcelorMittal, um fabricante de aço, lançada neste ano, que mostra como produtos B2B podem ser apresentados ao público em geral, trazendo um entendimento maior sobre a importância desses produtos no cotidiano das pessoas.

“À primeira vista, pode parecer uma ingenuidade: anunciar aço para o público em geral. Afinal, ninguém acorda e sai de casa pensando: acho que hoje vou comprar um pouco de aço. Mas um dia, essa mesma pessoa vai entender que certos produtos com os quais ela convive e usa, começaram lá atrás numa siderúrgica.”

Cecília Russo

Cecília enfatizou que quando empresas B2B adotam essa visão o papel da empresa adquire maior grandiosidade social.

A marca do Sua Marca

A principal marca do comentário foi a ênfase na integração dos mundos corporativos, derrubando as barreiras que separam B2B e B2C e promovendo uma visão mais ampla e socialmente responsável das empresas.

“Quando empresas B2B adotam essa visão, o papel da empresa adquire maior grandiosidade social.”

Cecília Russo

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização é do Paschoal Júnior.

Mundo Corporativo: Bia Martins e Mateus Ferrareto querem democratizar o ESG

Bia e Mateus em entrevista ao Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti

“O ESG nada mais é que uma sigla que comprova as práticas socioambientais de uma empresa. Só que o ESG se tornou algo muito grande e muito difícil para pequenas e médias empresas.”

Bia Martins

Como pequenas e médias empresas podem adotar práticas de sustentabilidade e se beneficiar das políticas ESG (Ambiental, Social e Governança)? Essa foi a questão central da entrevista com Bia Martins e Mateus Ferrareto, fundadores da ESG Pro Brasil, no programa Mundo Corporativo. Eles discutiram como transformar a governança ambiental, social e corporativa em algo acessível e aplicável a negócios de menor porte. 

“Não tem como uma pequena empresa zerar carbono. Ela não sabe o que é isso e vai ser distante. Mas ela consegue trocar o copo plástico por um copo de vidro. Ela consegue apagar a luz quando não estiver usando. Ela consegue desligar o ar condicionado no dia que não está tão calor”.

Mateus Ferrareto

Estratégias e práticas

A ESG Pro Brasil é uma empresa dedicada a facilitar a adoção de práticas sustentáveis para pequenas e médias empresas. Ela oferece um selo de certificação ESG que valida e promove ações socioambientais corporativas. Além disso, a ESG Pro Brasil desenvolve trilhas de boas práticas em parceria com a Unesco, simplificando o processo de implementação dessas práticas. A empresa também colabora com mais de 180 ONGs, atendendo às metas de desenvolvimento sustentável da ONU, e fornece um sistema de benefícios e cashback para as empresas certificadas, incentivando o engajamento e a responsabilidade socioambiental no setor empresarial.

“Então, o que a gente é hoje, de uma forma bem prática: a gente é um selo e a gente quer democratizar o acesso ao ESG juntos”.

Bia Martins

Trajetória Profissional e Engajamento Social

Bia Martins começou seu envolvimento com questões sociais desde muito jovem. Aos seis anos, fundou a ONG Olhar de Bia, motivada por uma experiência pessoal marcante ao ver crianças em situação de vulnerabilidade. A partir dessa iniciativa, Bia se dedicou ao combate à miséria através da educação e da solidariedade. Sua trajetória é marcada por um profundo compromisso com a transformação social, que agora se estende ao seu trabalho na ESG Pro Brasil.

“O olhar de Bia nasceu de uma ação pontual no Natal, ajudamos 600 pessoas e hoje já impactamos mais de 450.000 vidas” 

Bia Martins

Mateus Ferrareto, por sua vez, encontrou no empreendedorismo uma forma de aliar suas habilidades profissionais ao propósito de promover a sustentabilidade. Formado em Arquitetura, ele cofundou a Eco Flame Garden, empresa que desenvolve móveis para áreas externas. Entendeu logo no início o peso de carregar o nome “eco” no seu negócio. Perdeu seu primeiro cliente, porque não considerava os conceitos ESG nas suas práticas. Ao deparar com aquela realidade, percebeu que precisava se aprofundar no tema:

“A Eco Flame Garden se tornou uma empresa carbon-free, com projetos que utilizam materiais reciclados, como redes de pesca retiradas dos oceanos”.

Mateus Ferrareto

A experiência com a Eco Flame Garden inspirou Mateus a criar a ESG Pro Brasil. Sua jornada profissional reflete uma busca constante por soluções inovadoras que conciliem negócios e responsabilidade socioambiental.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: a aroeira que nos abraçou na cidade

Alejandra Silva Arenas

Ouvinte da CBN

Foto: Giselda Person/ TG

Nos anos oitenta, recém-chegados ao Brasil, tomamos a decisão de comprar nossa casa própria. Esse momento mágico marcou nosso estabelecimento neste país que nos acolheu com a generosidade típica dos brasileiros. Nosso filho de oito anos acompanhava atentamente o processo, enquanto nosso bebê brasileiro ainda não compreendia a importância desse passo.

Quando chegamos ao que hoje é nosso lar, nosso filho correu até o fundo do quintal. Fomos recebidos com braços abertos e um ar majestoso por uma aroeira plantada no centro de um terreno virgem, pronto para ser cultivado. Desde aquele dia, seja a aroeira que escolheu nosso filho ou vice-versa, ele se tornou o mais dedicado guardião da árvore.

Adaptamo-nos rapidamente ao bairro Assunção, em São Bernardo do Campo, vibrante com as atividades das indústrias automobilísticas. A casa já era encantadora por si só, então focamos nossos esforços no quintal. Optamos por cobrir o solo com cerâmicas, deixando espaços nas laterais para um futuro jardim e uma generosa área ao redor da aroeira, conferindo-lhe uma elegância destacada.

Uma vizinha trouxe-nos mudas de plantas similares aos arbustos da pracinha próxima. Encantada tanto pelas mudas quanto pelo gesto, dividi-as e plantei-as em ambos os lados do quintal ainda cobertos de terra. O jardim, assim como nossos filhos e os meninos da vizinhança que vinham brincar, florescia. Para entreter a criançada, estabelecemos um ateliê de pintura, transformando nosso pequeno espaço em um lugar vibrante que crescia tão rapidamente quanto as crianças. 

Numa sexta-feira, o “japonês das flores” visitou nossa casa, trazendo consigo mudas de café. Intrigada por essa novidade, decidi experimentar o cultivo, apesar de não saber muito sobre o assunto. Após comprar as mudas, pedi conselhos ao japonês, que enfatizou a importância de plantá-las com dois metros de distância entre si. Observando as pequenas mudas, que mal alcançavam dez centímetros e possuíam apenas duas folhas, duvidei da necessidade de tanto espaço e optei por ignorar sua recomendação, plantando-as mais próximas uma das outras.

A aroeira cresceu tanto que suas raízes começaram a levantar as cerâmicas do chão, e seus robustos galhos, um dia, danificaram a parede do fundo do quintal, causando problemas com a propriedade vizinha. Chamamos os bombeiros, que, após removerem um de seus grandes galhos, advertiram sobre a possível necessidade de removê-la completamente devido ao risco futuro. Meu filho, profundamente ligado à árvore, passou horas ao lado do galho cortado, pensativo. Durante aquela semana, ele trouxe especialistas em botânica que nos informaram sobre a centenária idade da aroeira e recomendaram podas regulares a cada dois anos para preservar sua saúde.

Os anos seguiram, os filhos e as árvores amadureceram. As mudas, que eram pequenas quando plantadas, transformaram-se em altas palmeiras. Os pés de café, plantados muito próximos uns dos outros por minha inicial desobediência aos conselhos do “japonês das flores”, cresceram mais para cima do que para os lados, complicando a colheita que, com o tempo, dominei, aprendendo a arte de torrar, moer e preparar um café delicioso diretamente de nosso quintal.

Hoje, os meninos que brincavam aqui são adultos casados. De vez em quando, tocam a campainha para apresentar seus próprios bebês. Durante a pandemia, nossa aroeira assumiu uma nova função: foi sob seus galhos que celebramos o casamento do meu filho mais novo. À sua sombra, colocamos a mesa do bolo dos noivos e dos docinhos “bem-casado”. Frases românticas foram penduradas em seus galhos, e ela, junto com as palmeiras e os pés de café, adornou as mesas cobertas por toalhas brancas, mostrando que, de fato, todos somos uma única grande família.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Alejandra Silva Arenas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Use o seu Imposto de Renda para ajudar crianças e idosos, no Rio Grande do Sul

No Brasil, os contribuintes têm a possibilidade de destinar parte do Imposto de Renda (IR) para fundos de assistência a crianças e idosos, com um potencial de arrecadação de R$ 11 bilhões. No entanto, até o dia 8 de maio de 2024, apenas 0,7% desse montante foi efetivamente destinado, alcançando R$ 89 milhões. Desse total, 59% foram direcionados a instituições que atendem crianças e adolescentes, e 40,5% para entidades voltadas a idosos.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lidera a campanha “Se Renda à Infância” para incentivar essas destinações, com a colaboração de diversas entidades, incluindo a Receita Federal e a Associação dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon). O prazo para a declaração do IR encerra-se em 31 de maio, mas foi estendido até 31 de agosto para os residentes do Rio Grande do Sul devido à calamidade pública causada pelas recentes tragédias climáticas.

Importância da Destinação

O juiz auxiliar da Presidência do CNJ, Edinaldo César Santos Junior, reforça a importância dessa destinação para os Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente (FDCA) no Rio Grande do Sul. Isso é válido tanto para contribuintes com imposto a pagar quanto para aqueles com direito à restituição. Quem já entregou a declaração pode acessar novamente o site da Receita Federal e destinar parte dos impostos para esses fundos.

Cezar Miola, vice-presidente de Relações Político-Institucionais da Atricon, ressalta que essa colaboração não implica nenhum custo adicional para o contribuinte. “Parte dos tributos que iriam para os cofres da União é revertida em benefício direto às populações atingidas pelas inundações, agilizando e ampliando o acesso a serviços essenciais, sobretudo aos vulneráveis”, afirma Miola.

Desempenho dos Estados

O levantamento revela que o Rio Grande do Sul é o estado com maior percentual de destinação, com 1,94%, seguido por Paraná (1,71%) e Goiás (1,65%). No outro extremo, Amapá (0,09%), Pará (0,13%) e Distrito Federal (0,10%) apresentam os menores percentuais. Estados como São Paulo (0,57%) e Rio de Janeiro (0,17%), apesar de terem alta renda per capita, apresentam percentuais baixos de destinação.

Como Destinar

Destinar parte do IR para fundos de crianças e idosos é um gesto de solidariedade que não implica em custos adicionais para o contribuinte. Através dessa ação, é possível contribuir diretamente para melhorar a vida de muitas crianças e idosos, especialmente em um momento de grande necessidade no Rio Grande do Sul.

Para outras informações sobre a campanha “Se Renda à Infância” e como realizar a destinação, visite o site do CNJ: Campanha Se Renda à Infância.

Assim, ao destinar parte do seu IR, você pode transformar tributos em esperança e dignidade para os mais vulneráveis.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: branding, o maná do agronegócio

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“É fundamental a marca do agronegócio ser capaz de contar essa história, demonstrar sua proposta de valor única”

Cecília Russo

O branding é um poderoso aliado para agregar valor às marcas em diversos setores econômicos. O Brasil, reconhecido mundialmente como uma potência no agronegócio, também encontra na gestão de marcas um importante espaço de relevância. Este foi o tema discutido por Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso” no Jornal da CBN.

Cecília Russo destacou a importância das marcas no agronegócio mencionando o mote utilizado pela TV Globo, desde 2016: “O agro é pop, agora é tech, agro é tudo”. Segundo ela, essa campanha visa mostrar o poderio do setor agrícola brasileiro, motivo de orgulho nacional. E para ajudar na reflexão sobre estratégias de branding no segmento, Cecília traz à tona a definição de marca, segundo a American Marketing Association (AMA): 

“Um nome, termo, sinal, símbolo ou design, ou uma combinação de tudo isso, destinado a identificar os bens ou serviços de um fornecedor ou de um grupo de fornecedores para diferenciá-los de outros concorrentes”. 

Portanto, mesmo em um setor em que se vendem commodities, como soja, café e carne, as diferenças no cultivo, nas tecnologias empregadas e nas práticas de trabalho fazem com que seja essencial contar essa história através da marca. 

“A marca é quem traduz e tangibiliza o que a soja da empresa A é diferente da empresa B”.

Cecília Russo

Jaime Troiano compartilhou exemplos concretos de empresas que têm se destacado no agronegócio por meio de um trabalho eficiente de branding. Começou com a mais tradicional dessas marcas, criada nos anos de 1940, a fabricante de adubos Manah, lembrada eternamente pelo slogan: “com Manah, adubando dá!”, criado por um de seus fundadores, Fernando Penteado Cardoso, que morreu com 106 anos, em 2021.

Mais recente é a marca Melão Mossoró, da empresa Mata Fresca, que usa a literatura de cordel na sua identidade visual para destacar a qualidade diferenciada do seu produto. Jaime também citou a Pink Farms, uma fazenda vertical que cultiva hortaliças de forma hidropônica na cidade de São Paulo, utilizando o branding para refletir sua proposta inovadora e seu cuidado com o produto.

 Por fim, ele mencionou a Adubos Real, empresa com a qual trabalhou diretamente, enfatizando que adubo não é tudo igual e destacando o propósito da empresa: “cultivamos elos, nutrimos crescimento” 

“Ao lado da equipe, fomos responsáveis por escavar o Propósito da empresa, que foi traduzido por uma frase “cultivamos elos, nutrimos crescimento””. 

Jaime Troiano

A marca do Sua Marca

O principal ponto é que, no agronegócio brasileiro, o Branding pode potencializar ainda mais o crescimento e a competitividade, especialmente no mercado internacional. Cecília Russo concluiu que, assim como a Colômbia elevou o status do seu café por meio de uma forte identidade de marca, o Brasil também tem a oportunidade de se destacar globalmente ao investir na construção organizada de suas marcas.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

O segredo da mudança cultural: histórias

Manoel Amorim, Jay B. Barney e Carlos Júlio

Quando o tema é cultura organizacional relacionada com desempenho empresarial, a maioria dos thinkers e practioners busca sugerir a cultura organizacional “ideal” – ultimamente, tem sido a cultura que favorece a inovação, por exemplo. Mas o que nos interessa é diferente: queremos falar de como se faz uma mudança cultural. Culturas são normalmente desenvolvidas e mantidas por meio das histórias que os funcionários de uma empresa contam sobre o que significa trabalhar em determinada empresa. Assim, partimos da hipótese de que, se você quiser mudar a cultura de uma empresa, precisará contar novas histórias. Então fomos conferir o que acontece na vida real, com várias histórias de empresas {o quadro abaixo lista algumas}.

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Pesquisamos mais de 150 histórias derivadas de entrevistas com mais de 50 líderes de empresas de grande e médio porte e identificamos seis atributos das histórias que os CEOs constroem que os tornam mais propensos a ser bem-sucedidos na mudança da cultura de uma organização:

  1. As ações que constroem essas histórias são autênticas.
  2. Tais histórias são “estreladas” pelo líder.
  3. As ações que constroem essas histórias sinalizam ruptura com o passado e um caminho claro para o futuro.
  4. Essas histórias apelam para “corações e mentes” dos funcionários.
  5. As ações que constroem essas histórias costumam ser teatrais.
  6. Tais histórias são contadas e recontadas em toda a organização.

Também identificamos como ocorre o processo de mudança. Primeiro, é preciso entender que, durante a construção das histórias, a organização parece que “descongela”. Aí emerge a primeira história, do líder, e funcionários vão construindo e trocando outras histórias de mudança cultural.

À medida que essa nova cultura começa a amadurecer e tomar forma, o líder empresarial pode ajustar outros aspectos da empresa para reforçar e solidificar a nova cultura na empresa (mudando o mix de funcionários, a forma como os funcionários são avaliados e remunerados, o modo de treinamento etc.). Em seguida, uma nova cultura é “recongelada”.

Leia o artigo completo publicado na MIT Sloan Management Review Brasil nº 15.

Manoel Amorim e Carlos Júlio foram CEOs de várias empresas e são empresários e membros de conselhos de administração. Jay B. Barney é professor de gestão estratégica da University of Utah, EUA. Os três são autores do livro O Segredo da Mudança de Cultura (Saraiva Educação) que será lançado, nesta quarta-feira, dia 15 de maio, às 19h, na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, 1501, em São Paulo.

Por falar em jornalismo de rádio, livros e carreira

“O reconhecido jornalista Mílton Jung, âncora do Jornal da CBN e do Mundo Corporativo, ambos da rádio CBN, é um dos profissionais que amam o que fazem e, naturalmente, vem se destacando em meio a tantos outros. Além disso, sua paixão e sua entrega pelo Jornalismo, fizeram ele aprender tanto que passou a palestrar sobre Comunicação e Liderança para que os profissionais das empresas se tornem melhores, mais produtivos e mais felizes no ambiente de trabalho”

Assim, Analice Nicolau inicia entrevista na qual tive a oportunidade de falar da minha carreira e de projetos que realizo, além do rádio. Agradeço a ela e seu colega de coluna, Rafael Gmeiner, pela oportunidade que me ofereceram.

Leia aqui a reportagem completa publicada na coluna da Analice no Jornal de Brasília

Caxias do Sul: memórias e desafios na cobertura da tragédia no Rio Grande do Sul

Foto: Andréia Copini/Prefeitura de Caxias do Sul

A entrevista com o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico, nesta manhã de segunda-feira, no Jornal da CBN, trouxe à tona memórias e emoções profundas. A cidade, ainda despertando de mais um pesadelo, teve sua área rural devastada pelas fortes chuvas e passou a madrugada sob o impacto de um tremor de terra que, segundo relato de moradores, durou cerca de meia hora.

Caxias do Sul não é apenas um ponto no mapa; é um lugar de recordações pessoais vividas quando criança, durante as férias escolares, sempre ao lado dos Ferretti. Foi lá que meu bisavô, Seu Vitaliano, viveu. Foi lá que nasceu minha avó, Ione, e para lá que ela voltou apenas para parir meu pai. Das muitas lembranças, recordo das Tias Ema e Olga, esta última residia no casarão de madeira da Nove de Julio. A avenida, famosa pelo desfile da Feira da Uva, é um símbolo de momentos felizes da minha infância.

Adolescente, retornei a Caxias para jogar basquete com os amigos do Recreio da Juventude, clube esportivo e social da cidade. Essas experiências construíram uma conexão forte e duradoura com a região, tornando a entrevista desta segunda-feira especialmente tocante.

Durante a conversa, vários sentimentos se misturaram. O prefeito lembrou que Caxias do Sul era o maior produtor de hortifrutigranjeiros do Rio Grande do Sul, e as recentes calamidades dificultaram o acesso aos centros de consumo devido aos bloqueios nas rodovias. Desde o início, áreas de risco foram evacuadas e passagens foram abertas nas regiões de deslizamento para permitir o trânsito de veículos e o transporte de mantimentos para as famílias ilhadas.

Ouça a entrevista completa com o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico

Cobrir essa tragédia em Caxias do Sul, mesmo à distância, é um desafio que vai além do profissional, evocando lembranças de tempos passados. Cada relato faz com que eu sinta a dor da comunidade como se fosse minha, reforçando a importância de uma cobertura empática e comprometida com a verdade e a solidariedade.

Manter o equilíbrio e a frieza jornalística em momentos como esse é uma tarefa complexa. Esforço-me para imaginar o que estão sofrendo os colegas jornalistas que presenciam a tragédia no “campo de batalha”. Muitos deles gaúchos como eu. A psicologia dessa cobertura exige um controle emocional que nem sempre é fácil de alcançar. É aqui que os ensinamentos de estudiosos do jornalismo se tornam particularmente valiosos.

Philip M. Seib, em “Broadcasts from the Blitz: How Edward R. Murrow Helped Lead America into War”, discute como jornalistas precisam equilibrar empatia e profissionalismo durante a cobertura de crises. Ele ressalta a importância de preservar a objetividade enquanto se reconhece o impacto emocional das histórias que estão sendo cobertas. Isso se aplica diretamente à minha experiência ao entrevistar o prefeito de Caxias do Sul, onde cada palavra e expressão trazia à tona uma mistura de sentimentos pessoais e responsabilidades profissionais.

Para abordar a necessidade de equilíbrio emocional no jornalismo, a obra de Anthony Feinstein, “Journalists under Fire: The Psychological Hazards of Covering War”, oferece uma análise detalhada dos efeitos psicológicos que os jornalistas enfrentam ao cobrir conflitos e desastres. Feinstein destaca a importância de intervenções psicológicas e de apoio profissional para ajudar os jornalistas a lidarem com o trauma e o estresse associados a essas coberturas.

Adicionalmente, os ensinamentos de Dan Harris, jornalista e autor do livro “Dez Por Cento Mais Feliz” — que já foi referência neste blog — são especialmente úteis. Harris defende a prática da meditação como uma ferramenta para melhorar a saúde mental e emocional, lição que aprendeu duramente após sofrer “panes” enquanto apresentava telejornais nos Estados Unidos. A meditação ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, proporcionando uma maior clareza mental e um senso de calma, fundamentais para jornalistas que cobrem crises. Incorporar essas práticas pode fazer uma diferença significativa na capacidade de manter o equilíbrio durante coberturas emocionalmente desafiadoras.

Essas referências sublinham a importância de buscar um equilíbrio psicológico durante a cobertura de tragédias. Técnicas como a respiração controlada, a meditação e o estabelecimento de limites claros entre o pessoal e o profissional são cruciais – não, infelizmente, eu não as pratico. Além disso, buscar apoio em colegas e profissionais de saúde mental, reconhecer e aceitar as próprias emoções, sem deixá-las dominar a cobertura, são passos essenciais para realizar um trabalho ético e eficaz.

Revisitar Caxias do Sul em meio a uma tragédia — e ressalto, mesmo que à distância — me trouxe à mente não apenas a responsabilidade jornalística, mas também a necessidade de cuidar de meu próprio bem-estar emocional. Assim, posso continuar a fornecer uma cobertura que não só informa, mas também honra a resiliência e a humanidade da comunidade que tanto significa para mim.