Conte Sua História de São Paulo: escolas de datilografia e bondes de teto de linóleo, eu vi

Rubens Cano de Medeiros

Ouvinte CBN

Foto: Mílton Jung

Por volta de 1960. Tenho treze anos. Mas não lembro se São Paulo já dispunha de supermercados – ao menos o pioneiro Peg-Pag, na Vila Mariana. Perto do Cine Phenix. Não faltavam mercearias, empórios ou quitandas, onde – tal qual em padarias, bares e botecos – uma plaquinha alertava. “FIADO? Quando o Corinthians for campeão”. Durou até 1977, sabemos. Osvaldo Brandão tirou as plaquinhas, das paredes.

Num incerto dia – quase noitinha, lembro – subi a escada de cimento e granilito do sobradão, ainda hoje em pé. Dobrando a esquina toda, Domingos de Morais com Rodrigues Alves, grandão! À frente do então lindo Largo Dona Ana Rosa, que mantinha resquícios, ainda, de footing… Ali, um entroncamento de trilhos e fios. Dos bondes; uns iam até São Judas; outros, até Santo Amaro. Mais um: Vila Clementino.

Então, eis-me no amplo salão de grandes janelas, onde ouvíamos o “tec-tetec”, típico, dos teclados da Escola de Datilografia Rodrigues Alves. Quando, inédita vez, meus olhos e minhas mãos acercaram-se pertinho de uma máquina de escrever – se lembro, hein! Uma Olivetti, meio esverdeada.

Aluno do curso, eu me sentava rente à janela. Donde podia ver – não antes visto – os bondes, de cima, que passavam. Algo me intrigava. Do chão, mal se notava. Era um revestimento escuro que recobria o bonde, exteriormente; todo o “teto” que suportava a alavanca de contato. Que seria “aquilo”? Perguntava-me, a mim. Alguém explicou. Era linóleo. Imensa lona que impermeabilizava o teto de madeira, do bonde, ante a intempérie. Igual aos tetos dos carros de passageiros da Santos-a-Jundiaí. Que podíamos ver na Luz, das passarelas sobre as plataformas. Jornais antigos mostram que ônibus paulistanos, de até os anos 40, também traziam revestimento de linóleo – um charme que carrocerias metálicas dispensaram, obviamente.

Todos sabem. A datilografia, a das máquinas, morreu, não? De atestado emitido – ironicamente – pela própria causa-mortis: e-mail! Digitar, no computador, eu? Não morro de amores. Sempre adorei da-ti-lo…grafar! Tanto que – inviável, descabido e anacrônico, sei bem, mas…

Deparasse eu, num jornal, com um fantasmagórico anúncio… Exatamente assim: “PRECISA-SE DE DATILÓGRAFO”, ah… Precisa-se, é? Algum rascunho de escritorinho, de fundo de corredor? Uma portinha só, uma tosca escrivaninha – puxa vida! – com uma autêntica Remington-Rand? Caramba!

Ei! Eô, eô: me chama, que eu “vô”!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quem são as celebridades com maior índice de conexão com as marcas?

Iza é a celebridade que teve maior conexão com marca Foto: Alex Santana/Divulgação

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“Tudo acontece num espaço escuro e úmido de 1 cm cúbico na cabeça dos consumidores. Entenda o que se passa aí dentro antes de sair por aí investindo”

Jaime Troiano

A relação entre marcas e celebridades segue sendo um ponto de discussão entre anunciantes e empresas de comunicação, especialmente diante dos desafios impostos pelo excesso de informação que bombardeia o consumidor. No comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo, em “Sua Marca Vai Ser Um Sucesso” o tema foi revisitado para abordar a eficácia dos investimentos em publicidade que envolvem famosos e influenciadores.

Jaime destacou o que os estudos chamam de “efeito clutter”, referindo-se à confusão causada pelo grande volume de estímulos que sobrecarregam o cérebro. “Estudos americanos de Princeton mostram que o nosso cérebro está naturalmente predisposto a ordenar o caos”, comentou Jaime, explicando que o excesso de informações visuais não só cansa a mente como também dificulta o foco nas mensagens que realmente importam. Nesse cenário, marcas e celebridades tentam estabelecer uma conexão em meio a essa sobrecarga de estímulos.

Cecília Russo, por sua vez, trouxe à tona os resultados de uma pesquisa que analisou a associação entre 28 celebridades brasileiras e as marcas que elas representam. Apesar de nomes amplamente conhecidos, como Fátima Bernardes (88%), Ivete Sangalo (87%) e Michel Teló (87%), os índices de conexão efetiva entre essas personalidades e as marcas ficaram bem abaixo do esperado. Cecília ressaltou: “Iza foi a celebridade com maior índice de correlação, alcançando apenas 21%, seguida por Marina Ruy Barbosa e Fátima Bernardes, ambas com 18%”. 

Conheça o TOP 5

Quais foram as celebridades que deram índices de conexão mais altos, entre 2.300 pessoas entrevistadas? 

  • Iza 21%
  •       Marina Ruy Barbosa 18%
  •       Fátima Bernardes 18%
  •       Tiago Leifert 17%
  •       Marcos Mion 16%

Esses números surpreendem, uma vez que tanto as marcas quanto as celebridades são muito conhecidas. No entanto, Cecília sugere que o ambiente de comunicação atual, “jorrando volumes muito grandes de mensagens”, pode estar prejudicando a capacidade do público de assimilar e fazer as conexões desejadas.

A marca do Sua Marca

A principal lição que emerge do comentário é que a popularidade de uma celebridade por si só não garante uma associação de sucesso com uma marca. Jaime Troiano alerta: “Não escolha uma celebridade só porque ela é conhecida ou porque o investimento parece atraente”. O verdadeiro desafio está em entender o funcionamento da mente do consumidor e como ele processa as mensagens em um ambiente saturado de informações.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo. A sonorização é do Paschoal Júnior

Mundo Corporativo: Matthias Schupp, CEO da Neodent, fala de cultura organizacional e inovação

Matthias Schupp na gravação do Mundo Corporativo

“A cultura da empresa nunca vai se adaptar a uma pessoa. É a pessoa que precisa se adaptar à cultura.”

Matthias Schupp, Neodent

Nos corredores de uma empresa global, a cultura organizacional não se molda pelas preferências individuais dos funcionários. Pelo contrário, quem ingressa deve se ajustar ao ambiente já estabelecido. Esse é um dos princípios que sustenta o sucesso da Neodent, líder brasileira em soluções odontológicas com presença em 95 países, de acordo com Matthias Schupp, CEO da companhia. Em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, ele afirmou que o compromisso com a cultura empresarial é o alicerce que impulsiona a inovação e fortalece a marca.

A cultura, segundo Matthias, prospera quando é constantemente reforçada. “Cada pessoa que se junta à Neodent tem que se adaptar a essa cultura”, disse o executivo. Esse princípio gera, segundo ele, um “processo automático” que assegura a consistência dos valores organizacionais.

Investimento em pesquisa e desenvolvimento

Na fábrica da Neodent, em Curitiba, a área de pesquisa e desenvolvimento desempenha um papel crucial no avanço da odontologia moderna. Matthias, destacou que a empresa lidera o mercado de implantes, e também investe em soluções digitais e personalizadas. “Hoje, oferecemos não só implantes, mas também alinhadores transparentes e outras tecnologias de ponta, todas desenvolvidas no Brasil”, explicou o CEO. Ele ressaltou o orgulho em manter um centro de pesquisa avançado, onde são testadas novas técnicas que depois são replicadas globalmente, em sinergia com o Grupo Straumann. Essa estrutura permite à Neodent exportar tecnologia e conhecimento, consolidando sua presença em 95 países.

Matthias, também destacou o impacto crescente da transformação digital na odontologia. “A transformação digital que estamos vivendo agora é apenas o começo”, afirmou, mencionando inovações como o uso de impressoras 3D para próteses dentárias em tempo real e o uso de robôs em cirurgias odontológicas nos Estados Unidos.

A inclusão como chave para o futuro

Entre os desafios abordados, Matthias, destacou a importância da diversidade na cultura corporativa. “Acredito que somente as empresas que oferecem as mesmas condições para mulheres e homens terão um futuro brilhante”, disse ele, reforçando que a inclusão é um pilar essencial para o crescimento sustentável. Na fábrica da Neodent, 49% dos funcionários são mulheres, o que reflete a realidade da prática da diversidade na empresa, segundo Matthias Schupp.

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Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Conte Sua História de São Paulo: o rádio “penhorado” do Sílvio Santos

Nilson Bonadeu

Ouvinte da CBN

Photo by Brett Sayles on Pexels.com

Morava em Curitiba e vim trabalhar na prefeitura de São Paulo, em 1992. No Edifício Martinelli, no centro. Prédio histórico, belíssimo! Me hospedei em uma pensão, na Duque de Caxias, perto do trabalho: a Pensão Maria Teresa. Era um casarão antigo, histórico, muito charmoso, pé direito alto, portas bipartidas nos quartos, assoalho de madeira nobre. 

No corredor do andar de cima, onde ficava meu quarto, tinha uma prateleira com um rádio antigo de madeira, bem grande. Me chamava atenção porque meu avô tinha um igual. Um dia tomei coragem e perguntei ao dono da pensão se ele me vendia aquele rádio. Disse que jamais venderia. Segundo ele, o avô que era o dono original da pensão, havia pegado o rádio como garantia porque o Peru não pagava as mensalidades. 

–   Peru? Que Peru? 

– Você não sabe quem é o Peru! 

– Não, não sei. 

– Peru é o Silvio Santos! 

    Lembrei dessa história, verídica, ao menos na parte que me toca, agora, no dia 17 de agosto quando Sílvio partiu. Tem-se notícia que Senor Abravanel morou naquela pensão logo que chegou do Rio de Janeiro. Salvo engano, na história dele, fala-se apenas de outra pensão no Bixiga, a Pensão da Dona Gina, onde morou para ficar perto de sua namorada, que veio a ser sua primeira esposa, a Cidinha, filha da proprietária. 

    Seja como for, com tristeza e nostalgia, lembrei-me também de uma das célebres frases do Sílvio que ouvimos em uma de suas músicas: “Do mundo não se leva nada, vamos sorrir e cantar”. 

    De volta à pensão: posso dizer que não mais existe, porém, o prédio segue. Agora, está restaurado com novos donos. E o rádio? Ah! O rádio que era bonito, mas não funcionava, não sei o que aconteceu com ele.  Seja lá o que tenha lhe acontecido, o certo é que o Senor não o levou deste mundo, se é que aqule rádio ainda exista de alguma forma; se é que aquele rádio pertenceu mesmo a esse Abravanel notável. 

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    Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a origem como chave para o futuro

    Reprodução de anúncio da marca Dona Benta

    “Dificilmente uma marca cresce negando sua origem. Até para ser original ela precisa reconhecer sua origem”.  J

    Jaime Troiano

    “The fruits are in the roots” ou, em português e sem a mesma rima,  “os frutos estão nas raízes.” Essa máxima foi criada por Joey Reiman, uma das maiores referências internacionais na área de publicidade e desenvolvimento de marcas. Jaime Troiano e Cecília Russo, que trabalharam com Reiman, consideram essa lição primordial para que as marcas garantam um crescimento sustentável e autêntico.

    Em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime reflete sobre como a essência de uma marca é fundamental para seu desenvolvimento. Para ilustrar essa ideia, ele menciona a marca Ypê como exemplo, destacando que, desde os primórdios, em Amparo, interior de São Paulo, o fundador Waldyr Beira cultivou uma ligação íntima com o produto que criava. “Quando nós queremos saber até onde uma marca é capaz de chegar, precisamos conhecer o seu DNA, sua história”, reforça Troiano. Essa visão não apenas preserva a identidade, mas também ilumina o caminho para inovações que respeitem a tradição da marca.

    Cecília Russo trouxe outra experiência para fortalecer o pensamento de Reiman. Ela fala da trajetória da J. Macêdo, uma empresa centenária conhecida por marcas icônicas como Dona Benta e Petybon. Cecília destaca que “todas as empresas centenárias que conhecemos têm essa trajetória. Elas se reconstroem a partir de suas raízes.” Segundo ela, mesmo diante de inovações e ousadias, as raízes de uma marca são o terreno fértil de onde brotam os frutos mais valiosos. Essa conexão entre origem e sucesso é, para Cecília, uma constante nas histórias de empresas que perduram no mercado.

    A Marca do Sua Marca

    O principal ensinamento do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é a importância da coerência histórica e da identidade. As raízes de uma marca não apenas moldam seu presente, mas são o alicerce do seu futuro. A mensagem central é clara: conhecer e respeitar a origem de uma marca é essencial para construir um legado duradouro e bem-sucedido.

    Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

    O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

    Nunca estamos prontos

    Dra. Nina Ferreira

    @psiquiatrialeve

    Foto de Mabel Ambert

    Nascemos. Aprendemos a nos alimentar, a andar, a falar. Vamos pra escola para aprender a ler e a escrever; depois, aprender a fazer contas de matemática, entender sobre a história das civilizações, conhecer mais sobre a natureza e o corpo humano…

    Desde que nascemos, precisamos aprender algo novo para sobreviver e existir no mundo.

    E, o mais desafiador: precisamos aprender a ser um ser humano.

    Como vencer o medo e a preguiça?! Como tolerar a frustração e o desconforto?! Como lidar com as dores profundas que vêm e passam e voltam… estão, insistentemente, sempre à espreita?!

    A gente cai o tempo todo e tem que reaprender – como levanto dessa, como volto a caminhar?

    A gente acredita que “agora vai” e, de repente, se sente perdido e confuso: “Vou pra onde? E se der errado?”

    Parece um treinamento eterno. Quando parece que chegamos onde precisávamos, aparece outro problema, uma novidade, um desafio… E lá vamos nós de novo: aprender.

    Então, quando acaba? Quando poderemos dizer: “Agora sim – já passei por muita coisa, tenho bagagem, sei tudo o que preciso e terei uma vida em paz.”?

    Quando ficamos prontos?

    “Ficar pronto” é concluir, é não precisar mais evoluir ou acrescentar, é chegar ao ápice do seu potencial. Um bolo fica pronto quando todas as etapas da receitas foram concluídas. Um carro fica pronto quando todas as estruturas foram agregadas e ele funciona para nos transportar. E uma pessoa… quando “fica pronta”?

    Do pouco que sabemos e percebemos… Não fica. Nenhum de nós sabe até onde um ser humano é capaz de chegar. Não sabemos todo o potencial que um ser humano precisa e pode atingir.

    Então, pelo menos por hora, esqueçamos o tal “ficar pronto”. Vamos fazendo, aprendendo, desconstruindo pra reconstruir melhor, caindo e levantando e caminhando e vivendo…

    Ao invés de “ficar prontos”, vamos “estando em construção”. Vamos nos dedicar a estar presentes no dia de hoje, no momento do agora, e fazer o que sentimos ser possível, necessário, impactante.

    Nosso objetivo, portanto, não será “chegar lá” – esse “lá” que nem sabemos onde é. Nosso objetivo, portanto, é existir, experienciar, desenvolver habilidades, vivenciar a chance de estar aqui, agora.

    Não estamos nem estaremos prontos… Atenção: somos seres humanos em obra, em construção.

    Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

    Avalanche Tricolor: o retorno amargo e o fim de uma ilusão

    Grêmio 2×3 Atlético MG

    Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

    Braithwaite marca o gol inicial, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

    Foram 134 dias distante da Arena, desde as enchentes que destruíram o Rio Grande do Sul e deixaram marcas no coração dos gaúchos. O Grêmio foi o time de futebol mais prejudicado com a tragédia que abateu o Estado. Peregrinou como um circo mambembe por estádios brasileiros disputando três competições importantes. Embora tenha conquistado resultados significativos, despediu-se de dois torneios, em meio a essa jornada cambaleante, e persiste no Campeonato Brasileiro com a pouco inspiradora luta para ficar longe da zona-que-você-sabe-qual-é. 

    O retorno ao estádio foi marcado pela precariedade. A infraestrutura não permitia jogos sem luz natural, por isso a disputa foi às 11 da manhã de domingo. Apenas parte das arquibancadas está liberada e muitos espaços internos seguem interditados. As manchas da lama aparecem em várias paredes e no mobiliário da Arena. O gramado foi instalado de maneira emergencial e trouxe uma cor e aparência estranhas. 

    A coincidência do calendário nos trouxe de volta à Arena em momento de emoções diversas. Não bastasse a retomada nossos estádio, o adversário foi o clube que melhor soube acolher o drama de todos os gaúchos. Merecia nossa reverência. Há uma semana, havíamos perdido o patrono e o “maior de todos os torcedores”, Cacalo. E o futebol amargava o luto provocado pela morte de Juan Izquierdo, do Nacional, esse time uruguaio que nos é próximo do coração.

    Com a bola rolando, o sofrimento, a alegria e a frustração voltaram a se expressar. Ter Gustavo Martins expulso com menos de 20 minutos de partida – exagerada ou não a punição ao zagueiros que fez dupla trapalhada  na jogada — nos colocava diante de dois cenários: o da derrocada iminente, que serviria para destruir a ilusão de que o drama que enfrentamos nesta temporada haveria de ser recompensado com uma recuperação heróica; ou o da vitória pela superação, sustentando a escrita da imortalidade e da energia emanada por um lugar sagrado que voltava a nos abrigar.

    O primeiro tempo, em especial, e boa parte do segundo rascunhavam uma história incrível, daquelas de contar para os filhos, reunir os amigos e deixar a lágrima correr pelo rosto. Dizer do gigantismo deste time pelo qual escolhemos torcer e agradecer àqueles que nos tornaram gremistas. O primeiro gol veio pelos pés de Braithwaite, o atacante dinamarquês pelo qual já nos apaixonamos, e o segundo, na insistência de Cristaldo, que voltou a marcar.

    De tão incrível que era o roteiro, sequer sofremos com o primeiro gol do adversários, aos 26 minutos do segundo tempo, após mais um pênalti cometido pelo nosso time e não defendido por nosso goleiro — que tem a capacidade de errar o lado em que a bola vai em quase que 100% das cobranças as quais é submetido. O revés naquela altura do jogo, estaria ali apenas para corroborar como seria glorioso sofrer pelo Grêmio. Ledo engano!

    Nos acréscimos, aquele momento em que nosso técnico insiste em sinalizar a seus jogadores que “acabou, acabou”, levamos dois gols e a virada. O primeiro, de empate, também de pênalti e o segundo na pressão do adversário, quando tínhamos quatro zagueiros dentro da área. A jornada do herói imortal foi desconstruída em poucos minutos. Restaram a tristeza e a frustração, sentimentos dolorosos diante da expectativa que tínhamos no retorno à Arena.

    A verdade é que o futebol é jogado dentro de campo, minuto a minuto.  A história que nos trouxe até aqui pode não servir para nada na partida seguinte.  O jogo depende muito mais das escolhas feitas pelo técnico e os jogadores, no instante em que a bola está rolando, do que qualquer fenômeno sobrenatural que costumamos evocar. A partida desta manhã de domingo chutou para longe toda e qualquer ilusão de que os deuses do futebol estariam dispostos a interferir a nosso favor. Eles não estão nem aí para nós. É no que acredito, ao menos até a próxima partida.

    Mundo Corporativo: Christian Gebara, da Vivo, fala do futuro da inclusão digital no Brasil

    Christian Gebara, da Vivo, nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti

    “Mesmo as relações digitais podem ser cada dia mais humanizadas. Não é porque elas são digitais que precisam ser apenas transacionais.”

    Christian Gebara, Vivo

    Imagine um país continental, repleto de desafios de infraestrutura, que encontra na tecnologia um meio para transformar a realidade de milhões de pessoas. Para Christian Gebara, CEO da Vivo, a digitalização não é apenas uma tendência, mas uma ferramenta crucial para a inclusão social. Com a promessa de conectar quase a totalidade da população brasileira, a digitalização surge como um motor capaz de impulsionar educação, saúde e inclusão financeira. A importância dessa transformação digital e suas implicações para a sociedade foram o foco da conversa de Gebara no programa Mundo Corporativo

    “Na minha opinião, é vital que um país como o nosso, que ainda enfrenta carências importantes de infraestrutura, possa aproveitar o investimento em digitalização para promover a inclusão social,” afirmou o CEO da Vivo.

    A Vivo, como principal operadora de telecomunicações do país, se posiciona na linha de frente dessa transformação, com iniciativas que vão além da conectividade, incluindo educação, saúde e segurança digital. “A inclusão digital depende basicamente de três grandes coisas: cobertura, acessibilidade e letramento digital,” explicou Gebara, destacando o papel fundamental de políticas públicas que facilitem o acesso a dispositivos e reduzam a carga tributária sobre serviços de telecomunicações.

    A Importância da Cobertura

    No primeiro pilar, a cobertura, Gebara destaca a necessidade de uma infraestrutura robusta que chegue a todas as regiões do Brasil, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também nas áreas mais remotas. “Hoje, estamos conectando quase 100% da população com 4G e já alcançamos cerca de 50% com 5G,” afirma. Esse avanço é resultado de investimentos significativos em redes de fibra ótica e na expansão de tecnologias móveis de última geração. Segundo Gebara, a digitalização oferece uma oportunidade sem precedentes para transformar a sociedade brasileira, desde que seja possível levar conectividade de qualidade a todos os cantos do país.

    Acessibilidade e Letramento Digital

    O segundo pilar, acessibilidade, refere-se à necessidade de tornar os dispositivos e serviços digitais economicamente viáveis para a população. “Grande parte da população não tem condições de comprar um aparelho 5G ou pagar por serviços de internet de alta qualidade,” explica Gebara. Ele defende a adoção de políticas públicas que reduzam a carga tributária sobre dispositivos e serviços digitais, facilitando o acesso para famílias de baixa renda.

    O terceiro pilar, letramento digital, envolve capacitar a população para usar a tecnologia de forma produtiva e segura. Gebara enfatiza que o Brasil, embora seja um país com alta adesão às redes sociais e ao uso de smartphones, ainda carece de programas educativos que ensinem habilidades digitais. Ele cita, por exemplo, que apenas uma pequena parcela das escolas brasileiras possui computadores para seus alunos, em comparação com 98% das escolas americanas. “A inclusão digital não se resume a conectar pessoas. É preciso educá-las para que possam tirar o máximo proveito das ferramentas digitais em suas vidas diárias, seja para aprender, trabalhar ou acessar serviços de saúde,” argumenta.

    Conectividade Humanizada

    Uma preocupação constante para Gebara é garantir que a digitalização não afaste as pessoas umas das outras, mas que promova interações mais humanas. Ele defende a importância de combinar a tecnologia com um toque pessoal. “Nosso objetivo é que, mesmo com o uso de inteligência artificial, as interações com nossos clientes sejam humanizadas,” comenta. A Vivo investe em personalização de serviços e utiliza a inteligência artificial para oferecer um atendimento mais eficiente e adaptado às necessidades individuais dos clientes, seja através de aplicativos, WhatsApp ou atendimento em lojas físicas.

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    Conte Sua História de São Paulo: o dia em que a freira e o Zorro foram detidos no aeroporto

    Celia Corbett

    Ouvinte da CBN

    Foto de Nesrin Öztürk

    Eram 1970. Tempos tumultuados. A ditadura tinha atingido seu auge. Qualquer manifestação de opinião contrária ao sistema era proibida. Nós éramos jovens estudantes, filhos respeitosos, gostávamos de Rita Lee, Chico Buarque, Beatles e assim seguíamos.

    Estudantes mackenzistas com muito orgulho, estávamos entre o ensino médio e a faculdade. Eu cursava o último ano do Técnico de Administração e meu irmão, o Carlos, a faculdade de Engenharia. Todos nós éramos amigos dos amigos e formávamos um grupo muito legal. 

    Fim de semana com festa era o máximo. Com festa a fantasia, era genial  Seria na casa da namorada do Andrade. Muita atrasada fui a loja de fantasia na Bela Vista e quase fiquei na mão. Tinha sim uma roupa que me servia. Mas será? De Freira? E assim foi. 

    O quanto eu ouvi antes de sair de casa foi para a vida toda. Lá estava eu vestida com um hábito de freira perfeito, preto e branco, como manda o figurino. Mas qual a jovem de 16 anos não faria uma maquiagem a altura de uma festa de arromba. Festa, aliás, que estava fantástica com direito a odaliscas e piratas. Sensacional estava o Castro de zorro com capa e espada. Foi ele que me convidou para  acompanhá-lo e levar uma amiga lá pelos lados do Aeroporto de Congonhas. 

    Nada era comparável ao café no aeroporto nos fins de noites daqueles ditos Anos Dourados. Aquele saguão chiquérrimo com seu piso quadriculado era muito badalado. O Castro tirou os adereços da fantasia e estava de calça e camisa pretas . Eu fiquei apenas com o hábito de freira e a maquiagem. E isso se transformou em um pesadelo.

    Quando estávamos curtindo o saboroso cafezinho no balcão do salão fomos abordados por um policial que nos intimou a acompanhá-lo a delegacia do aeroporto. Por quê?

    – Vocês estão detidos, disse o policial.

    – Documentos na mesa, deu a ordem.   

      Logo nos apressamos a entregar a carteira de identidade e de estudante. Sim, de estudante porque mostrávamos que éramos pessoas de bem. Mas 1968 ainda estava na cabeça de todos assim como a Batalha da Maria Antonia, que fez com que nosso policial  nos condenasse antecipadamente.

      – Ah, estudantes do Mackenzie. Isso explica porque estão vestidos assim.

      Da festa de Ali Baba nos tornamos estudantes subversivos. Ficamos aterrorizados com a repressão do policial. Mesmo sem sofrer nenhuma agressão física, foi um pesadelo que só terminou quando o delegado de plantão chegou. Fez algumas perguntas: onde morávamos, oi que estávamos fazendo com as roupas estranhas. Todas devidamente respondidas. 

      Assim que fomos liberados pelo delegado, voamos para o carro que estava no estacionamento e de lá direto para casa. Além de um susto enorme, isso rendeu muita conversa pelos corredores do Mackenzie.

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      Quando a histórica curiosidade infantil se encontra com um jarro milenar

       Foto: Museu Hecht/Reprodução

      Era um jarro de 3.500 anos, testemunha de uma era que só conhecemos pelos livros e pelas escavações arqueológicas. Descansava silencioso em sua vitrine, sem barreiras, como se a história o protegesse por si só. Até que um menino de cinco anos, com sua curiosidade desmedida e típica dessa idade, se aproximou do objeto. Talvez tenha imaginado que ali, dentro daquele recipiente milenar, se escondesse um segredo tão antigo quanto o próprio tempo.

      Puxou o jarro, quem sabe desejando ouvir algum som misterioso ou ver um brilho dourado surgir de dentro. Mas a história é feita de imprevistos, e aquele som que ecoou pelas paredes do Museu Hecht, em Israel, foi o de uma quebra, uma colisão abrupta entre o passado e o presente. O jarro, que sobreviveu ao tempo, à erosão e às mãos de tantos povos, sucumbiu à curiosidade infantil.

      O pai, ao ouvir o som do jarro se estilhaçando, correu. Calmamente, acalmou o filho, com a sabedoria que só os pais conhecem. Chamou um segurança e esperou as consequências que viessem. E o museu, como reagiu? Não acionou a polícia, não apontou dedos. Em vez disso, tratou o incidente como um acidente. Um erro sem culpa. Um descuido compreensível. Afinal, a história do jarro e a curiosidade de uma criança estavam, de certa forma, alinhadas. Ambos são, em sua essência, uma busca por entender o que veio antes.

      Leia notícia no G1: Menina quebra jarro raro de 3.500 anos em museu de Isral

      A decisão do museu de expor as peças sem barreiras, como se o passado pudesse ser tocado pelo presente, ressoa como um convite à conexão. Não se trata apenas de objetos antigos; são relíquias que nos fazem sentir, de alguma forma, parte de algo maior, algo que transcende as barreiras do tempo. O museu declarou que continuará com essa prática, permitindo que os visitantes apreciem de perto a magia dos artefatos, sem o filtro do vidro ou a distância das cordas de proteção.

      O jarro será restaurado, as marcas da queda suavizadas pelas mãos habilidosas dos restauradores. E, quando voltar ao seu lugar de origem, trará consigo uma nova história. Não mais apenas a de uma peça que transportou vinho ou azeite em tempos bíblicos, mas a de um encontro com a curiosidade pura e simples de uma criança. E talvez seja essa a maior lição de todas: que a história, por mais distante que pareça, continua viva em cada um de nós, especialmente naqueles que ainda têm coragem de perguntar, de tocar, de descobrir.

      Assim, o jarro voltará à sua vitrine. Um pouco mais frágil, talvez, mas carregando em suas rachaduras um lembrete silencioso de que o passado e o presente estão sempre a um toque de distância.