Olhar para trás e seguir em frente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

Belchior

 

Segundo o dicionário Aurélio, passado significa aquilo que passou. Antiquado, obsoleto. Portanto, algo antigo, que caiu em desuso e que não existe mais. Apesar dessa definição, um comportamento comum para muitas pessoas é o apego a lembranças do passado, de forma tão intensa, capaz de produzir emoções no momento presente.

Recordar momentos que nos foram agradáveis ou utilizar experiências vividas para resolver problemas podem ter efeitos benéficos, inclusive para elaborarmos um planejamento para o futuro. Porém, quando ficamos presos a pensamentos negativos e repetitivos, fazemos o que em psicologia é chamado de ruminação mental.

O processo de ruminação é caracterizado por pensamentos persistentes, geralmente com conteúdo negativo, autocríticos e relacionados a acontecimentos do passado. 

Os pensamentos ruminativos tendem a gerar perguntas feitas a si mesmo:

  • Se eu não tivesse feito aquilo?
  • Se eu tivesse me comportado de outra forma?
  • O que eu poderia ter feito para que isso nunca tivesse acontecido?

Esses pensamentos repetitivos e contínuos tendem a produzir emoções negativas, como tristeza, culpa e arrependimento, favorecendo o círculo vicioso da ruminação, apontado como fator de agravamento ou manutenção de sintomas depressivos.

Avaliar situações do passado e pensar como poderiam ser diferentes é o mesmo que tentar correr na vida adulta com o calção que usávamos na infância: não serve mais. Aperta, incomoda, aprisiona a uma condição que não mais nos pertence. 

Desejamos modificar eventos ou ações praticadas no passado e ignoramos que são justamente nossas vivências, nossas experiências, as memórias construídas sobre nós e sobre o mundo que nos constituem.

Aceitar aquilo que não podemos mudar não significa resignação. Pelo contrário, envolve um conhecimento amplo de quem somos, da nossa história, e com olhar refinado, experiente e menos crítico; nos permite construir metas direcionadas à mudança, não do passado, mas de quem somos hoje, de quem desejamos ser amanhã. Não é voltar e percorrer o mesmo caminho. É olhar para trás, mas para seguir em frente.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A volta à escola e o desafio de proteger os sonhos e a esperança dos jovens do poder destruidor do coronavírus

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A pandemia de COVID-19 tem promovido mudanças em todas as esferas — sociais, educacionais e econômicas — com consequências que ultrapassam os impactos provocados pela infecção. Recentemente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou que a pandemia pode aumentar os fatores de risco para suicídio, convocando ações efetivas para sua prevenção. Isso se torna urgente, uma vez que os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam o suicídio como a segunda causa de morte entre pessoas jovens.

Estudos iniciais sugerem que apesar de crianças e adolescentes serem menos propensos à infecção pelo coronavírus e permanecerem assintomáticos ou com sintomas mais leves da doença, sofrem diretamente seus impactos psicológicos, podendo apresentar ansiedade, depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), com consequências que podem se estender mesmo após o término do isolamento social.

Se por um lado as medidas de distanciamento tornaram-se necessárias, com evidências de eficácia na contenção da doença, reduzindo a propagação do vírus; por outro lado, têm sido associadas com piora nos sentimentos de solidão, desencadeando quadros de depressão e ansiedade. Isso se torna mais acentuado especialmente entre os jovens, tendo em vista a importância das interações sociais nessa fase da vida.

Diversos fatores são apontados como aqueles que impactam a saúde mental durante a pandemia, dentre os quais: incertezas em relação à doença, medidas rígidas de distanciamento social, perda de entes queridos e o fechamento prolongado das escolas.

Atualmente, a escola é considerada uma das principais instituições sociais, uma condição que começou a ser ocupada lá atrás, após a Idade Média. Até aquela época, o meio social, em seu conjunto, era o contexto educativo e todos os adultos eram responsáveis por promover a aprendizagem a partir das experiências pessoais. 

O desenvolvimento da industrialização trouxe mudanças significativas nos séculos XIX e XX, alterando o local de trabalho das residências para as fábricas. As casas passaram a ser locais privativos, com espaços individuais, como quartos e áreas de estudo, e o trabalho passou a fazer parte da vida pública, deslocado para lugares na cidade, exigindo nova organização urbana. 

Isso gerou mudanças na família, que não conseguia mais preparar as crianças para as novas exigências de trabalho, diferente de como era feito anteriormente, muitas vezes em ofícios transmitidos de pais para filhos. Além de preparar o indivíduo para o trabalho, a escola passou a ter uma função social, à medida que possibilitou o convívio com outros indivíduos, além dos familiares, favorecendo as interações e preparando para a vida em sociedade. 

Com a inserção da mulher no mercado de trabalho, novas mudanças aconteceram, como o aumento no tempo de permanecia dos alunos no ambiente escolar.

Considerando a importância atual que a escola representa nos processos de socialização e o impacto do isolamento social na saúde mental de crianças e adolescentes, a OMS tem alertado aos governantes que analisem com cautela o período pelo qual as escolas permanecerão fechadas. 

Pensar em políticas públicas que envolvam crianças e adolescentes durante a pandemia exige maturidade dos governantes e da sociedade. Impõe afastamento de ideias simplistas, amadoras ou partidárias. Exige ponderação e decisão séria, tendo em vista os perigos desse vírus, que ainda conhecemos tão pouco, e suas consequências nas diversas esferas da vida. 

A COVID-19 já matou quase um milhão de pessoas. Paralelamente, os estudos mostram que a pandemia gerou um aumento de depressão e de TEPT em crianças e adolescentes, considerados fatores de risco para o suicídio.

Como tantos desafios já impostos pelo coronavírus, não parece haver uma resposta fácil sobre a abertura ou manutenção do fechamento das escolas. 

Pais, professores, governantes… somos todos responsáveis pela promoção do bem estar físico, psíquico e social de nossos jovens. Penso no poder devastador do coronavírus nas vidas e na saúde mental… e sem a presunção de propor uma solução definitiva, torço para que as medidas adotadas impeçam que o poder destruidor desse vírus atinja ainda mais os jovens, quer seja em sua saúde física quer seja em sua saúde mental, permitindo seus sonhos e esperanças.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Desafio à frente: recalculando …

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

Foto: Pixabay

 

“Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros.

Porque nos oferece resistência.

 Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer”

Antoine de Saint-Exupéry

 

 

Muitas pessoas se recordam de Saint-Exupéry por seu famoso livro O Pequeno Príncipe (1943). Durante meu pós-doutorado na França, conheci sua história como piloto do correio aéreo francês, através de suas experiências descritas no livro Terra dos Homens (1939).  Um livro poético cujas frases muitas vezes me faziam voltar e ler novamente por conta de suas narrativas tão profundas sobre a vida, amizade e heroísmo. Imaginar o que era pilotar aviões que atravessavam oceanos com uma única hélice e sem pressurização, aviões cujos motores não ofereciam segurança e falhavam de repente, com “barulheira de louça quebrada”, me fazia refletir que isso era possível graças à coragem daqueles pilotos.

 

Na vida cotidiana somos convidados ao enfrentamento de desafios. Situações que vão exigir reinvenção, novas atitudes, mudança, mas acima de tudo coragem. Coragem para acreditar em nós mesmos e trilhar outros caminhos.

 

Construir novos objetivos e se engajar para atingi-los pode ser uma tarefa árdua. Quem nunca pensou: “isso é demais para mim” ou “não vou dar conta”? Por costume ou hábito, muitas vezes as pessoas estão insatisfeitas com o modo como estão vivendo, mas não conseguem mudar. Preferem a certeza ao risco, numa ilusão de que assim estão seguras, protegidas dos perigos da vida. Subestimando a própria capacidade de superar os desafios, desconsideram que a incerteza é uma das características do mundo que vivemos.

 

Mudanças levam tempo, exigem planejamento e dedicação. Mudanças geram autoconhecimento, nos permitindo enxergar potencialidades que nem sabíamos que eram nossas. Geram aprendizagem. O mais curioso é que ao decidirmos realizar algo diferente, as transformações se iniciam, produzindo novos comportamentos. Pense em alguém que decidiu aprender a cozinhar ou dirigir, a praticar uma atividade física, um segundo ou terceiro idioma, trocar de emprego… a decisão inicial gerou uma ação, um comportamento direcionado para atingir esse objetivo.

 

As estruturas neurobiológicas localizadas nos lobos frontais, mais especificamente no córtex pré-frontal, desempenham um papel essencial na formação de metas e objetivos, bem como no planejamento de estratégias necessárias para alcançá-los. Além disso, o córtex pré-frontal é responsável pela avaliação do sucesso ou fracasso das ações realizadas e o estabelecimento de novas estratégias, quando se torna necessário mudar o curso de ações ou pensamentos de acordo com as exigências do ambiente.  

 

Uma vez ouvi o CEO de uma empresa dizer que atingir um objetivo em nossa vida deveria ser como usar o aplicativo de trânsito: você coloca o destino que deseja chegar e segue o trajeto definido. E se errar? Para isso existe o “recalculando”. Não é desistindo, é recalculando.

 

Apesar de Albert Einstein ser sinônimo de genialidade, ter desenvolvido a teoria da relatividade e ter sido eleito o mais memorável físico de todos os tempos; suas palavras servem de incentivo para aqueles momentos nos quais a gente quase joga a toalha, pensa em desistir, mas se recorda que vale a pena tentar novamente:

 

“Eu tentei 99 vezes e falhei, mas na centésima tentativa eu consegui. Nunca desista de seus objetivos mesmo que esses pareçam impossíveis, a próxima tentativa pode ser a vitoriosa”.

 

Se assim era para o gênio, imagine para nós, pobres mortais! Diante de novos objetivos, surgem os obstáculos, mas a gente se empenha, se esforça, desenvolve habilidades… se conhece e se supera. Como no aplicativo de trânsito, a gente recalcula e chega lá.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Psicologia: sua construção histórica e as histórias construídas

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

 

“Há mais na superfície do que o nosso olhar alcança”.

 Aaron Beck

 

A busca pela compreensão sobre o ser humano parece tão antiga quanto a própria história da humanidade. Por que uma pessoa age de um jeito e não de outro? Quais os impactos que um evento pode produzir no psiquismo? Por que diante de uma situação semelhante as pessoas agem de maneiras tão diferentes?

 

Mesmo sem ser psicólogo, todos arriscam respostas para tais perguntas, indicando uma apropriação dos conhecimentos da Psicologia Científica, ainda que superficiais, para explicar e compreender os fenômenos e problemas da vida cotidiana. Por outro lado, tais explicações não podem ser confundidas com a Psicologia, uma área da ciência que envolve estudos acadêmicos e sistemáticos sobre o processamento mental e o comportamento, cuja origem remete à filosofia da Grécia antiga

 

Os filósofos gregos procuravam compreender a relação do homem com o mundo, valorizando o papel da razão na sobreposição aos instintos. Na Idade Média, o conhecimento psicológico ficou associado à religiosidade, tendo como principais expoentes Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, cujos estudos procuravam explicar a diferença entre essência e existência.

 

No renascimento ocorreu uma valorização do ser humano e um grande avanço da ciência. O corpo passou a ser visto como uma máquina e os estudos em fisiologia e anatomia permitiram novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro.

 

No século XIX, estudos em psicofísica permitiram a mensuração de comportamentos, especialmente os reflexos, favorecendo a realização de estudos que atendiam aos critérios metodológicos e científicos vigentes. A psicologia foi se afastando da Filosofia e novos estudos começaram a ser estruturados na área da psicofísica, com o objetivo de compreender os fenômenos mentais.

 

Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório para experimentos em psicofisiologia, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Inaugurava-se a era científica da Psicologia.

 

Desde a fundação do laboratório de Wundt, muitos conhecimentos foram sendo desenvolvidos e aprimorados sobre o funcionamento mental e comportamental, admitindo-se, atualmente, que estes sejam influenciados por três grupos de fatores: biológicos, psicológicos e socioculturais.

 

Essa perspectiva biopsicossocial do ser humano exigiu que a construção teórica do saber psicológico se amparasse em outras áreas científicas, com estudos em fisiologia, sociologia, neurociências, dentre outros. Se o embasamento teórico exigiu multidisciplinaridade, não seria diferente com a prática psicológica. Na maioria das áreas de atuação, o psicólogo trabalha em equipes ou com diferentes profissionais, de maneira interdisciplinar.

 

No Brasil, a Psicologia passou a ser reconhecida como profissão apenas em 27 de agosto de 1962, data atualmente instituída como o Dia Nacional do Psicólogo.

 

Apesar de ser uma profissão relativamente nova, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, nosso país tem atualmente mais de 370 mil psicólogos, atuando nas diversas áreas: psicologia clínica, social, escolar/educacional, organizacional e do trabalho, hospitalar, do esporte, do trânsito, psicologia jurídica e neuropsicologia.

 

Faço parte desses 370mil profissionais e nessa breve retomada da história da psicologia, fui relembrando um pouco da minha história também…

 

Ainda na adolescência, a minha curiosidade sobre o ser humano e meu gosto em trabalhar com pessoas acabaram definindo a minha escolha profissional. Recordo o dia da matrícula, quando vi na ficha de disciplinas a cursar que no primeiro semestre teria aula de anatomia. Estudar cadáveres? Não! Eu tinha escolhido a psicologia para trabalhar com gente viva!

 

Ali fui descobrindo que para ser psicóloga teria um longo caminho a percorrer, com muitos estudos, mais completos e complexos do que imaginara. Além da graduação e da especialização, como optei por uma carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado, atuando no ensino da psicologia, uma das minhas atuações favoritas e tão importante para o desenvolvimento da profissão em nosso país.

 

Quando olho para a história da psicologia e para minha trajetória profissional compreendo que talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos hoje seja a conscientização de que a prática psicológica não pode ser confundida com práticas indiscriminadas, muitas vezes denominadas terapias alternativas, que se afastam significativamente das teorias científicas, seguindo métodos duvidosos e muitas vezes beirando ao charlatanismo.

 

Pegam carona na Psicologia, se revestem de psicologismos, mas não são Psicologia. Psicologia é exercida por psicólogos!

 

Ser psicólogo é conviver com os dilemas, dores e sofrimentos alheios. É muitas vezes se perguntar quanta dor cabe numa vida.  Mas também é participar da construção de vidas mais adaptadas, realizadas e felizes. É saber que as mudanças são possíveis. É contribuir para que as transformações aconteçam tanto de forma individual como coletiva.

 

Não apontamos o caminho a ser seguido, mas percorremos esse caminho junto com o paciente, com uma lanterna na mão. Essa lanterna é a luz do conhecimento científico e da experiência, acumulados com muito estudo, dedicação e prática, que permite a nós e aos pacientes enxergarmos aquilo que num primeiro momento, como sugere Aaron Beck, talvez nossos olhos não pudessem alcançar.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A metamorfose e a subjetividade humana

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

Borboleta

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”
Raul Seixas

 

A palavra metamorfose tem sua origem no grego antigo e significa, como bem representada na música de Raul Seixas, um processo de transformação ou de mudança. Apesar de os seres humanos não passarem pelo processo de metamorfose, como compreendido na Biologia, as mudanças ocorrerão em todo o ciclo de desenvolvimento da vida humana, extrapolando as transformações físicas e, sobretudo, contribuindo para a construção da subjetividade: o jeito de ser de cada um.

A subjetividade pode ser compreendida como a singularidade de cada pessoa, construída a partir das experiências vividas, reunindo o conjunto de características, ideias, opiniões e comportamentos. Esse conjunto de características engloba aspectos biológicos, como a nossa herança genética, mas também aquilo que nos representa, como as preferências musicais, alimentares, amorosas, o jeito de lidar com as situações difíceis ou de comemorar as conquistas, as opiniões políticas, a preferência por exatas ou humanas… ou seja, tudo aquilo que expressa quem somos.

Algumas pessoas acreditam que a nossa subjetividade é imutável ou inata. Quem nunca ouviu aquela frase: “eu nasci assim e vou morrer assim”? De fato, as nossas transformações não são abruptas, acontecem pouco a pouco, a medida que participamos do mundo social, da coletividade e do encontro com o outro. Somos influenciados e influenciamos. É no espaço coletivo que manifestamos a nossa individualidade, mudando o mundo e recriando a nós mesmos. A cada dia já não somos mais exatamente como éramos no dia anterior, pois tivemos vivências diferentes, ouvimos coisas diferentes, tivemos novas experiências. Isso permite reflexões e conduz a renovações.

 

Em tempos nos quais prevalecem opiniões acirradas e extremistas, há uma exigência por atitudes do tipo tudo ou nada, ser isso ou aquilo, estar de um lado ou de outro. Mudar de ideia ou descobrir que não há um jeito único para fazer as coisas pode ser visto, nessas circunstâncias até mesmo como uma fraqueza. Valorizam-se os rótulos, sufocando a criatividade, a espontaneidade e a capacidade de adaptação. Essa rigidez ou apego exagerado às próprias ideias e atitudes aprisiona, indicando que existe apenas um caminho e uma única maneira de percorrê-lo.

 

A vida admite tantas definições e possibilidades para termos uma única versão, pronta, acabada ou definitiva de nós mesmos. Da mesma forma que a lagarta se transforma em borboleta, somos seres em constante mudança. Essa é a nossa natureza: podemos mudar de gosto, de ideias, de amigos, de atividades, de opiniões formadas sobre tudo!

 

Disse Luís de Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.

É justamente isso que vai possibilitar sermos quem somos!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Autoimagem e redes sociais: aquilo que não se vê

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Reprodução do quadro “O Nascimento de Vênus”

 

O Nascimento de Vênus, pintura de Sandro Botticelli, criada entre 1482 e 1485, é uma das inúmeras formas de representação artística que procuram reproduzir Vênus, deusa da mitologia romana associada à beleza. Mais de 500 anos se passaram desde aquela pintura até o surgimento da Internet, a qual facilitou a conexão de pessoas, especialmente através das redes sociais.

 

O que ambas têm em comum?
A exposição de padrões idealizados.

 

A globalização e o avanço das tecnologias favoreceram a divulgação das informações em tempo real, possibilitando novas formas de se relacionar, trabalhar e viver em sociedade. As mídias sociais, além de modificarem as interações entre pessoas, se tornaram fontes de respostas para questões da vida cotidiana.

 

Muitas das informações divulgadas envolvem padrões de beleza, busca pelo corpo ideal e estilo de vida. Embora as telas permitam a aproximação de pessoas distantes, escondem em si que exposições virtuais de vidas interessantes, beleza e felicidade mais correspondem a realidades editadas, amparadas no desejo de aceitação e aprovação.

 

Se antigamente era a proximidade física, o olho no olho, que permitia a compreensão da imagem que o outro tinha de nós, hoje essa aceitação é mediada pelas redes sociais, validada através das curtidas e comentários obtidos nas postagens. Receber um elogio pode ser gratificante. Porém, a preocupação excessiva com a autoimagem ou aparência e a busca constante pela aprovação alheia, podem conduzir a sentimentos de frustração, ansiedade e decepção, tendo em vista a idealização de padrões inatingíveis, vinculados a modelos de perfeição.

 

Dias atrás, lancei um desafio para uma paciente que apresentava pensamentos negativos sobre si, após navegar pelas fotos postadas em uma rede social: fazer uma busca nas mídias sociais e encontrar perfis que revelassem correções digitais de imagem, modificando as fotos e transformando-as em imagens perfeitas. Um dos perfis encontrados foi o de Danae Mercer, uma influenciadora fitness que após sofrer com distúrbios alimentares resolveu mostrar o que estava por trás das suas fotos de “corpo perfeito”, revelando o uso de aplicativos de edição, além da escolha de ângulos certos e iluminação adequada.

 

Na tentativa de tornar a vida uma obra de arte, capaz de ser apreciada pelos outros, corremos o risco de esquecer aquilo que disse Antoine de Saint-Exupèry: “o essencial é invisível aos olhos”.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sobre memórias, doces e afetos

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Abigail Costa

 

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”
Fernando Pessoa

 

 

Você se recorda onde estava no dia 11 de setembro de 2001 ou o que estava fazendo quando soube que Ayrton Senna havia sofrido um acidente automobilístico e tinha morrido? Essas perguntas são frequentemente feitas para elucidar como as emoções influenciam os processos de memorização, aumentando a probabilidade de se recordar uma experiência ou um evento vivido.

 

Diversos estudos em neurociências evidenciam o papel das emoções e os mecanismos fisiológicos envolvidos na formação de memórias, sugerindo que no momento da aquisição das informações, o organismo ativa uma série de neurotransmissores e hormônios, como adrenalina e corticoides, que agem sobre o cérebro e modificam a ação dos neurônios. Quanto maior a intensidade da emoção, mais essas substâncias serão liberadas e vão agir sobre os neurônios responsáveis pelos processos de memória.

 

Não são apenas os conteúdos negativos ou eventos trágicos que serão mais facilmente armazenados. As memórias carregadas de emoções positivas também permanecerão por mais tempo no cérebro.

 

Proponho, então, novas perguntas: como é o lugar que você mais gostou de conhecer? Onde fica? Qual a música que te remete às boas lembranças da infância? Qual o cheiro mais gostoso que vinha lá da cozinha da sua avó ou da sua mãe? Qual o sabor daquela comida que para você é especial? Qual situação foi a mais divertida ou romântica que você passou com a pessoa amada?

 

Essa coletânea que guardamos sobre nossas experiências pessoais e conta sobre nós mesmos em tempos e lugares chama-se memória autobiográfica. Recorda a nossa história, as pessoas com as quais convivemos e o que vivemos.

 

Popularmente, quando essas lembranças são repletas de carga emocional positiva, são chamadas de memórias afetivas. São lembranças fortemente associadas a estímulos sensoriais, como estímulos visuais, auditivos, táteis e olfativos. Recordamos o local onde estávamos, com quem estávamos, a música que tocava ao fundo enquanto o jantar acontecia, o friozinho que vinha pela porta de entrada e o cheiro bom do chá para encerrar a noite… A música ou o cheiro do chá, em outras situações, serão estímulos suficientes para que as lembranças sobre aquele evento sejam ativadas. Evocar memórias que são emocionalmente significativas confere vivacidade às nossas experiências, resgata um pouco (ou muito) de nós mesmos.

 

Minhas filhas dizem que gosto de fazer doces e oferecer às pessoas para registrar a importância que elas têm para mim. Concordo. Um brigadeiro gostoso tem textura, cor, cheiro de chocolate e um sabor único. Memória salva com sucesso! Lá vou eu pensando nas memórias e nos afetos… Faço uma caixa com brigadeiros e envio para um casal de amigos. Apoiada nas palavras de Fernando Pessoa, demonstro meu afeto para essas pessoas incomparáveis e espero que seja intenso o suficiente para construir memórias que tornem esse momento inesquecível.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

 

Do mito de narciso às “carteiradas”: saiba com quem você está falando!

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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foto: Pixabay

 

Na mitologia grega, Narciso era um herói reconhecido por sua beleza, mas era orgulhoso e tinha uma arrogância que ninguém conseguia modificar. Devido à tamanha beleza, Narciso era indiferente aos sentimentos alheios, vivia sozinho e desprezava as outras pessoas por acreditar que ninguém era merecedor de seu amor. Incorrigível, recebeu como castigo dos deuses apaixonar-se pela própria beleza, refletida num lago. Permaneceu ali, contemplando sua imagem, definhando até a morte.

 

O mito de Narciso simboliza a importância exagerada atribuída à autoimagem, o excesso de vaidade e a tendência a desvalorizar outras pessoas para manter a superioridade. Para os gregos os excessos ou aquilo que passasse da medida, que fosse exagerado, promovia o desequilíbrio nas condutas humanas e era um empecilho à virtude, a capacidade de agir com prudência e bom senso.

No Brasil, o comportamento de superestimação de si mesmo é frequentemente evidenciado em situações conhecidas como “carteiradas”, nas quais a ideia de superioridade é revelada pela conhecida frase: “você sabe com quem está falando?”.

Análises históricas e sociais buscam compreender os motivos pelos quais tal atitude parece tão enraizada em nossa sociedade. O antropólogo Roberto Da Matta, em entrevista recentemente publicada pelo portal G1, indicou o forte componente aristocrático da sociedade brasileira, avesso ao igualitarismo pelo desejo de manter privilégios, numa sociedade na qual ter privilégios é equivalente a não ter limites.

 

Na mesma reportagem, a historiadora Lilia Schwarcz avaliou que essa cultura da “carteirada” cresceu num ambiente em que historicamente poucos mandavam e muitos obedeciam:

“O sistema colonial e o esquema de capitanias hereditárias, o regime escravocrata que perdurou por mais tempo aqui do que em outros países, o coronelismo e o nepotismo político que confunde as esferas do público e do privado deram condições para a carteirada reinar”.

Na psicopatologia, o perfil caracterizado por um padrão de grandiosidade, necessidade de ser admirado e falta de empatia é compreendido como um transtorno de personalidade: o transtorno de personalidade narcisista. Esse transtorno, de causa ainda desconhecida, atinge aproximadamente 1% da população, sendo mais frequente em homens e pessoas mais jovens.

 

Pessoas com transtorno de personalidade narcisista superestimam suas habilidades, julgando-se superiores ou mesmo especiais. Há uma preocupação excessiva em serem admiradas por seus talentos, com supervalorização de aspectos como inteligência, beleza, poder e influência. A necessidade exagerada por admiração torna essas pessoas muito sensíveis às críticas, podendo reagir com raiva, desprezo e até mesmo de maneira agressiva. Suas atitudes frequentemente envolvem falta de empatia, arrogância e a ideia de que suas vidas são invejadas pelas outras pessoas, que são vistas como inferiores.

 

Ter uma boa imagem de si mesmo e confiança na capacidade de realizar coisas permite um relacionamento saudável conosco e com as demais pessoas. Mas como desde a antiguidade já alertavam os gregos, o problema está no excesso.

 

Confesso que algumas vezes já ouvi a frase “você sabe com quem está falando?” e, muitas vezes sem poder responder exatamente o que eu pensava, me fixava na resposta: “não sei, mas posso imaginar”.

 

Oh, Narciso! Mal sabia que aprisionado à imagem refletida para si mesmo, não compreendia que as águas para as quais olhava eram mais profundas.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Voo de fênix: estratégias resilientes

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Vários povos da antiguidade utilizavam os mitos para explicar diferentes questões da vida humana. Um desses mitos refere-se à fênix, um pássaro lendário que, após morrer, ressurge das próprias cinzas. Não bastasse o seu renascimento, a fênix ainda tem como característica uma força extraordinária, capaz de carregar cargas muito pesadas durante o voo.

 

Devido a esse caráter simbólico, envolvendo renascimento, superação e esperança no futuro, a fênix tem sido frequentemente associada à resiliência, termo usado em Psicologia para explicar a capacidade de enfrentar e superar situações desafiadoras ou dramáticas, mantendo-se física e psicologicamente saudável.

 

Se houve um momento em que buscávamos compreender os fatores que levavam ao adoecimento, hoje há um interesse crescente em compreender os mecanismos pelos quais uma pessoa mantém a saúde mental, apesar das adversidades. Vários fatores estão associados à capacidade de resiliência, como autoestima, autoconfiança, criatividade, relacionamentos com familiares e amigos, habilidades sociais e espiritualidade.

 

Diversos estudos têm sido conduzidos, com o rigor científico e metodológico, e apontam que o envolvimento espiritual – capacidade de ter um sentido para a vida, independentemente de estar ou não relacionado com religião – está associado ao bem estar psicológico, como satisfação com a vida, felicidade e afetos positivos (o que não significa que pessoas que não têm atividades espirituais não sejam resilientes).

A capacidade de enfrentar as dificuldades e superá-las não é uma característica que temos determinada em nós, mas um conjunto de estratégias que vamos treinando e desenvolvendo desde a infância. Envolve aceitação, altruísmo e autorrealização: aceitar o que não se pode mudar; fazer algo para ajudar outras pessoas; realizar coisas importantes para nós. Em geral, as pessoas lidam melhor com as dificuldades e têm mais esperança quando a vida tem um significado, um propósito.

 

Para os que acham que pode ser tarde demais acreditar na capacidade de superação ou ter projetos para o futuro, cito aqui um trecho da poetisa Cora Coralina, considerada uma das maiores expressões da poesia moderna, cujo primeiro livro foi publicado quando ela tinha 75 anos:

“Nasci em tempos rudes. Aceitei contradições, lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo. Aprendi a viver”.

A resiliência não diminui as durezas da vida, não extingue as dores, mas minimiza o sofrimento e nos permite seguir em frente, com esperança em dias melhores. Otimismo? Pode ser, mas prefiro chamar de coragem. Como no mito da fênix, ainda que a carga seja pesada, que o renascimento (ou a resiliência) nos encoraje e nos habilite a buscar voos mais altos.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: empresas estão preocupadas com a saúde mental de seus colaboradores, diz Gustavo Tavares

 

“Isso mostra também o caminho que as empresas estão levando agora no século XXI. Não é só o desempenho a qualquer custo, não é só o resultado e depois a gente vê o que acontece. É, também, garantir que essa jornada seja uma jornada caminhada com todo mundo da melhor maneira possível, o tempo todo” — Gustavo Tavares, Top Employers Institute

Com os riscos impostos pela pandemia, com as crises humanitária, sanitária e econômica, a pressão sobre os colaboradores das empresas aumenta. Muitos de nós estamos trabalhando em cenários diferentes, tivemos de migrar para o home office e nos adaptar muito rapidamente a novos modelos de trabalho e negócio. O impacto na saúde metal dos colaboradores foi intenso e as empresas precisam estar atentas a essas mudanças.

 

De acordo com Gustavo Tavares, gerente-geral do Top Employers Institute para as Américas, já é possível identificar situações de estresse, esgotamento mental, ansiedade e até mesmo consumo mais frequente de bebida e cigarro. Em alguns momentos até mesmo de aumento da violência doméstica. Diante disso, empresas têm adotado uma série de ações preocupadas com a saúde mental de seus colaboradores. Segundo Gustavo, 62% das empresas brasileiras certificadas pelo instituto disponibilizavam aos seus profissionais algum tipo de suporte psicoterapêutico com níveis crônicos de estresse, no início deste ano:

“O que mudou agora é que os modelos que tinham sido adotados (de home office) não eram para essa situação de hoje. As empresas tinham estruturas preparadas mas não para todo mundo ao mesmo tempo nem os cinco dias da semana. Sobre esgotamento mental tratavam muito mais da pressão do trabalho diferente desta que se soma a pressão social e familiar”

Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, Gustavo chamou atenção para o fato de que a produtividade no home office chega a ser 44% maior do que no escritório. Em casa, o profissional perde a interação com os outros colegas, reduz o tempo de almoço e esquece de fazer pausas durante o trabalho. Um conjunto de fatores que vai impactar na saúde do colaborador, com disparos de ansiedade e estresse.

 

Algumas empresas têm produzido manuais de conduta e alertas eletrônicos para lembrar o colaborador a parar a tarefa, beber água, caminhar um pouco e respeitar a hora do almoço. Além disso, têm investido na interação com seus profissionais:

“Não tenha medo de comunicar, garanta que todas as informações que precisam ser passadas para os seus colaboradores estejam sendo passadas. E é importante a gente garantir isso para que todo mundo esteja na mesma página, e todo mundo esteja absolutamente confortável na relação com a empresa neste momento tão específicos que estamos vivendo na nossa vida”

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Alan Martins.