Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como Barbie vira lição para marcas longevas ao enfrentar o desafio de permanecer relevante ao longo dos anos

Foto divulgação do filme Barbie

“Para manter a relevância, marcas precisam preservar o essencial na busca do novo!”

Cecília Russo

As marcas longevas enfrentam um desafio constante: como se manter relevantes ao longo dos anos em um cenário competitivo e em constante mudança. Um exemplo emblemático é a icônica Barbie, que teve seu filme lançado há pouco mais de uma semana. A trajetória de sucesso da Barbie ao longo de mais de seis décadas é notável, mas também levanta a questão de como a marca pode evoluir e se adaptar às expectativas e aspirações das novas gerações. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília Russo e Jaime Troiano exploraram como a Barbie tem enfrentado esse desafio e as lições valiosas que essa jornada pode oferecer a outras marcas longevas.

A Evolução da Barbie ao Longo dos Anos

A história da Barbie remonta a 1959, quando foi criada por uma empreendedora co-fundadora da Mattel. Desde então, a boneca passou por diversas transformações e representou diferentes papéis, desde astronauta até presidente dos Estados Unidos. A visão original da Barbie era permitir que as meninas se identificassem com ela e sonhassem em ser o que quisessem ser, abrindo caminho para a imaginação e a liberdade criativa. 

“Eu fui da geração da Susi, que se não me engano era da Estrela. A Barbie foi lançada em 1959 por uma empreendedora que era co-fundadora da Mattel. Segundo fontes que li, sua ideia original era criar uma boneca em que as meninas pudessem se identificar e ser o que quisessem ser”.

Cecília Russo

O Sucesso da Marca: Um Mundo Idealizado e Inspirador

A Barbie conquistou um enorme sucesso ao longo dos anos, tornando-se sinônimo de um universo feminino idealizado, repleto de fantasia e cor-de-rosa. Sua capacidade de mostrar às meninas mundos distantes da realidade cotidiana pode ser considerada um dos ingredientes-chave de sua popularidade. A marca entendeu a importância de representar aspirações e sonhos, criando um ambiente onde a imaginação pudesse florescer sem limites.

O Novo Filme da Barbie: Rebranding ou Preservação de Valores Tradicionais?

Com o lançamento do novo filme da Barbie, surge a questão se este representa um rebranding, aproximando a personagem da geração atual, ou se apenas reforça os valores e ícones tradicionais que tornaram a Barbie uma figura icônica.

Cecília, em suas reflexões, tende a acreditar que o filme não representa uma revolução completa na marca. Ela menciona elementos como a persistência do cor-de-rosa característico, a presença do Ken e uma relação entre os personagens aparentemente similar ao passado. Essas observações sugerem que a Barbie mantém sua essência intocada, o que pode ser compreendido como uma estratégia para preservar o que torna a marca tão amada por suas consumidoras.

A Importância de Preservar o Essencial na Busca do Novo

Jaime, por sua vez, destaca que marcas longevas precisam de uma abordagem equilibrada: preservar o essencial enquanto buscam a inovação. Essa convivência inteligente entre tradição e renovação é fundamental para que uma marca permaneça relevante e atenda às expectativas do público-alvo em constante evolução.

“Tem  de entender muito bem o que é essencial em sua marca e podem ser várias coisas, desde as tangíveis até coisas impalpáveis, como a personalidade de uma marca”

Jaime Troiano

Exemplos Práticos de Sucesso e Fracasso

Dois exemplos práticos, um positivo e outro negativo, de marcas brasileiras que ilustram esse conceito. A extinta marca Kichute não conseguiu se adaptar à crescente concorrência e, consequentemente, não inovou para atender às novas demandas do mercado, resultando em sua decadência. Em contraste, a Olympikus soube inovar, expandindo sua linha de produtos e aprimorando a qualidade, enquanto manteve o compromisso com esportes e sua personalidade única. Esse equilíbrio resultou em um crescimento significativo para a marca mesmo em tempos desafiadores

“Com uma linha extensa de produtos, com inovação mas preservando seu compromisso com esportes e com qualidade, a Olimpikus, na pandemia, cresceu 300%, segundo dados da empresa”

Jaime Troiano

Barbie é Uma Lição Para Marcas Longevas 

A trajetória da Barbie e outros exemplos práticos destacam uma lição essencial para marcas longevas: a busca do novo não deve comprometer a preservação daquilo que torna a marca autêntica e apreciada. A Barbie, ao longo de mais de seis décadas, soube se reinventar, mantendo sua essência de inspirar a imaginação e os sonhos das meninas. Esse equilíbrio entre preservação e inovação é a chave para que marcas perdurem no tempo e continuem relevantes para as futuras gerações, conquistando a fidelidade de seu público e se tornando verdadeiras referências no mercado. 

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Cecília Russo e Jaime Troiano, e com a sonorização do Paschoal Júnior:

(este comentário foi ao ar no dia 15 de Julho)

Conte Sua História de São Paulo: as lembranças de infância de uma decendente croata na cidade

Por Arlete Bačić

Ouvinte da CBN

A catedral da Sé em foto de Thgusstavo Santana

Uma descendente de croatas em São Paulo.

Nasci em 1974 na maternidade do Brás — na época ainda se escrevia com Z — e sou apaixonada por São Paulo. Morei em vários bairros da zona leste, principalmente Belenzinho e Tatuapé, o que não me impediu de conhecer tantos outros.

Da minha infância, lembro com muito carinho do ônibus elétrico que saía da Praça Silvio Romero rumo ao centro; das compras no Mappin e na Mesbla; do Largo do Anhangabaú e suas fontes; da Catedral da Sé com suas iguanas escondidas na arquitetura; dos curiosos edifícios com os vidros para fora das persianas; dos belos jardins escondidos da Liberdade; do Centro Cultural onde tantas vezes fui fazer trabalhos de escola.

Tenho lembranças ótimas do Jardim Vila Formosa onde moravam meus avós; da Vila Santa Isabel com seus tradicionais tapetes de serragem nas ruas para o Corpus Christi; da Igreja São Paulo onde eram encomendadas as missas para os parentes falecidos; e de jogar taco e basquete, e andar de skate pela Rua Cantagalo, no Tatuapé.

Lembro também do Museu do Ipiranga com suas ânforas de cristal; do Parque do Tietê onde fazíamos piquenique; do CERET onde aprendi a nadar; dos peixes no Aquário de Itaquera, na Jacu-Pêssego, e do caminho saindo de São Paulo com destino a Bertioga.

São tantas lembranças que precisaria de muitas linhas para narrar todas, então me concentrei apenas nas da infância, pois são elas as mais importantes na memória afetiva que tenho da nossa maravilhosa São Paulo! 

Arlete Bačić é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.

Avalanche Tricolor: alucinações de um torcedor

Grêmio 0x2 Flamengo

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Reprodução de ClicRBS, foto de André Avila/Agência RBS

Um a zero no primeiro; dois a zero, no segundo tempo. E Grando resolve na cobrança de pênaltis. O roteiro para mais uma virada histórica do Imortal, no Rio de Janeiro, já está escrito no coração do torcedor gremista — aquele que lotou a Arena e cantou e cantou e cantou mesmo após o apito final de uma partida em que perdemos por dois gols de diferença e tivemos de jogar mais de meia hora com um jogador a menos contra o time mais rico e poderoso do Brasil. 

Para quem ainda precisa de mais uma pitada de alucinação, pouco antes de o jogo se iniciar, leio no ex-Twitter de Edu Cesar, titular e editor do @PapodeBola, uma frase clássica de Armindo Antonio Ranzolin, um dos maiores narradores esportivos que o rádio gaúcho já teve: eu disse que acreditassem, eu pedi que acreditassem, eu nunca deixei de acreditar” — o grito do locutor foi proferido ao fim do título da Libertadores da América, em 1983, e virou estrofe de música dos Engenheiros do Hawaii.

Quem me convence de que deparar com essa lembrança em um tuíte (ou agora se chama “xiste”?) sem pretensão, escrito sei lá por qual motivo, não seja um sinal dos céus para apaziguar o coração angustiado deste torcedor que lhe escreve, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. 

Acabo de ver meu time ser derrotado em casa,  sair atrás na decisão da vaga à final da Copa do Brasil e perder seu principal zagueiro e capitão, Kannemann, por “duplo” cartão amarelo — aplicado por um árbitro que foi pouco criterioso na distribuição das punições —, no início do segundo tempo, o que lhe tira da próxima partida, no Maracanã. Tudo isso acontecendo em uma noite na qual o futebol gremista pouco apareceu, com exceção dos 20 primeiros minutos de jogo quando Suarez tentou mais uma vez aquele gol antológico à longa distância e Villasanti desperdiçou um gol frente a frente do goleiro quando o placar ainda estava zerado. 

A persistirem os sintomas de alucinação desta Avalanche, pode começar a levantar uma estátua para Gabriel Grando, porque iremos agradecer muito a ele por ter defendido um pênalti ainda no primeiro tempo do jogo de hoje. Será graças aquela defesa que nos habilitaremos a cometer mais um desvario no futebol brasileiro, nos classificando à final contra todos os prognósticos e crenças.

Volta às aulas: comportamento e sentimentos de alunos, pais e professores

Por mIA Codegeist  

Foto de Max Fischer


A volta às aulas é um momento aguardado por alunos, pais e professores após as férias de inverno. Um período importante para refletirmos sobre os diversos comportamentos e sentimentos que permeiam essa retomada do calendário escolar, bem como a importância do acolhimento e colaboração para uma adaptação bem-sucedida.

Comportamento e Sentimentos dos Alunos


Após as férias de inverno, os alunos retornam à escola com uma mistura de emoções. Alguns estão animados e ansiosos para reencontrar amigos e professores, além de mergulhar em novos conteúdos e atividades escolares. Outros podem sentir resistência, devido à quebra da rotina descontraída das férias. É essencial entender essas variações de comportamento para promover uma integração harmoniosa.

O Papel dos Pais na Adaptação


Os pais desempenham um papel crucial na adaptação dos filhos à volta às aulas. Alguns se sentem aliviados por retomar a rotina escolar, mas outros podem estar preocupados com a adaptação dos filhos e suas dificuldades acadêmicas. A comunicação aberta entre pais e educadores é essencial para oferecer suporte aos alunos e garantir uma transição tranquila.

O Desafio dos Professores


Para os professores, a retomada após as Férias de Inverno pode ser um desafio, mas também uma oportunidade. Preparar-se para o restante do ano letivo, inovar nas estratégias pedagógicas e engajar os alunos são metas importantes. Entender a diversidade de reações dos estudantes ajuda os educadores a criar um ambiente estimulante e inclusivo.

A Importância de um Ambiente Acolhedor


Para que a volta às aulas seja bem-sucedida, a escola deve proporcionar um ambiente acolhedor para todos. Atividades de integração entre os alunos fortalecem os laços e facilitam a adaptação. Além disso, a parceria entre pais e professores é fundamental para apoiar o desenvolvimento acadêmico e emocional dos estudantes.


A volta às aulas após as férias de inverno é um momento repleto de emoções e comportamentos variados. Compreender e respeitar os sentimentos de alunos, pais e professores é essencial para criar um ambiente saudável e propício ao aprendizado. A colaboração entre todos os envolvidos na jornada educacional é a chave para garantir uma adaptação positiva e enriquecedora para a comunidade escolar.

mIA Codegeist abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade (e alguns nem tão relevantes assim).

Pensamento à toa

Abigail Costa

@abigailcosta

“O pensamento parece uma coisa à toa

 mas como é que a gente voa

 quando começa a pensar?”

Lupicínio Rodrigues

Quando a música de Lupicinio, cantada por Caetano, começou a tocar na Rádio Nacional, no começo dos anos de 1970, eu era uma menina que acreditava no que diziam as canções e fascinada pelas palavras de felicidade. Viajei nos pensamentos! Lembro-me de ter ido parar numa loja de brinquedos enorme na região da Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiro, em São Paulo. Nunca havia conhecido a loja pessoalmente mas de tanto ouvir histórias das meninas do meu bairro, construí uma imagem e passeei pelos corredores até chegar a seção de bonecas. Lá peguei uma “Dorminhoca”, aquela boneca molenga de cor lilás. Linda de viver!

Também incentivada pela letra da música, comprei um saco bem grande, recheado de coisas quase proibitivas em casa, doces antes das refeições — tinha maria-mole, uma variedade de chocolates e um monte de balas Juquinha, sabor frutas de mentirinha. Ao contrário do que minha mãe jurava que aconteceria, nem uma coisa nem outra foi verdade nos meus pensamentos: não perdia o apetite do sagrado arroz e feijão mais bife, muito menos que sentia dor de barriga.

Junto com o meu crescimento, os pensamentos também perderam a inocência, ganharam maioridade, maturidade, ficaram mais chatos,  desconfortáveis e passaram a voar mais perigosamente.

Num determinado momento, tive que confrontar as palavras da música quando fiquei sabendo que certos pensamentos são bem-vindos enquanto outros, Ave Maria!

Comecei a ouvir que pensamentos não são ações. Como assim? E as minhas histórias? A visita a loja, a boneca Dorminhoca, o saco de guloseimas?

Foi estudando que aprendi que certos pensamentos deixam a gente doente, que podem ser negativos, acelerados; e pra voar nos bons pensamentos é preciso me certificar que estou com os dois pés fincados nos chão. 

A simplicidade de só pensar é objeto de estudo.

Fico eu aqui pensando no Lupicínio, no Caetano…

“felicidade foi-se embora

 e a saudade no meu peito inda mora, 

porque eu sei que a falsidade não demora.”

Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Como tornar a comunicação uma solução para o bem-estar e a longevidade

Foto de Andrea Piacquadio

A comunicação é uma ferramenta poderosa que molda nossas relações sociais e influencia diretamente nosso bem-estar. Falei sobre esse tema com o Márcio Atala quando fui convidado por ele a participar no programa Bem-Estar e Movimento, que vai ao ar, aos sábados. Estava de férias quando a entrevista foi reproduzida na CBN — está disponível em podcast, também —, por isso trato do assunto apenas agora. 

Nós discutimos a importância da comunicação em nossas vidas e como essa competência evoluiu ao longo dos anos. Ponderamos que o bem-estar e a longevidade estão intimamente relacionados à comunicação eficiente. Haja vista que uma boa comunicação é essencial para estabelecer relações sociais profundas e significativas, o que tem sido demonstrado em pesquisas sobre longevidade e felicidade.

Inspirado pelo livro “Escute, expresse e fale! Domine a comunicação e seja um líder poderoso” (Editora Rocco), lembrei que a comunicação é composta por três caixinhas de recursos: verbal, não verbal e vocal. Esses elementos combinados possibilitam uma comunicação eficaz, mas cada um deles, isoladamente, também pode gerar interações significativas com os outros. Por exemplo, um simples olhar solidário ou um sorriso de um desconhecido pode impactar positivamente o dia de alguém.

Os desafios da comunicação digital

No entanto, a evolução da tecnologia e da comunicação digital também trouxe desafios. Atualmente, somos inundados por uma quantidade exorbitante de informações todos os dias, levando à ansiedade informacional. A capacidade de filtrar e selecionar fontes confiáveis torna-se essencial para evitar a desinformação e a propagação de notícias falsas.

Além disso, a violência também está intrinsecamente ligada à comunicação. Estudos mostram que pessoas que se comunicam mal tendem a cometer e ser vítimas de violência. A comunicação inadequada pode levar a conflitos e brigas, enquanto a capacidade de argumentar e se comunicar efetivamente pode evitar esses problemas.

Destaquei a importância da comunicação em todas as profissões, especialmente em um mundo digital onde a imagem e a presença online são fundamentais. Porém, alertei para o perigo de influenciadores que, apesar de serem excelentes comunicadores, podem propagar informações falsas e não oferecer um serviço real para a sociedade.

A busca da verdade é antídoto a fake news

Enfatizei que, apesar dos desafios e das más interpretações que podem surgir, é essencial resistir e continuar se comunicando com qualidade e responsabilidade. A comunicação tem o poder de inspirar e transformar, e a busca por uma comunicação efetiva é um passo importante para promover o bem-estar individual e coletivo.

Neste contexto, os jornalistas enfrentamos o desafio de encontrar e informar a verdade, especialmente em um cenário onde notícias falsas e desinformação são disseminadas com facilidade. A busca pela verdade e pela informação confiável torna-se crucial para combater a propagação de mensagens enganosas.

Dicas importantes para melhorar a comunicação:

1. Escutar: o ato de escutar é tão importante quanto falar. A escuta ativa e o acolhimento do outro são fundamentais para uma comunicação bem-sucedida. Entender a intenção do interlocutor e também a própria intenção no processo de comunicação é fundamental para estabelecer uma conexão efetiva.

2. Escolha de fontes de informação: em um mundo com excesso de mensagens, é essencial fazer escolhas conscientes sobre as fontes de informação que consumimos. Buscar fontes confiáveis e qualificadas ajuda a evitar a propagação de informações falsas ou enganosas.

3. Simplicidade e objetividade: ao se comunicar, seja simples, direto e objetivo. Evite complicar a mensagem e busque expressar-se de forma clara para que o público compreenda facilmente o que está sendo transmitido. Isso ajudará a inspirar e impactar positivamente as pessoas.

Em resumo, devemos aprender a selecionar fontes confiáveis, filtrar informações e promover uma comunicação eficaz, respeitosa e construtiva. Somente assim poderemos criar relações mais saudáveis e uma sociedade mais informada e harmoniosa. E ao adotar a escuta ativa, escolher fontes confiáveis e comunicar-se de forma simples, direta e objetiva, podemos melhorar a qualidade das nossas interações e contribuir para uma sociedade mais informada, consciente e saudável.

Assista à entrevisa completa que concedi ao Márcio Atala, em Bem-Estar e Movimento

Minha conversa com Dora: a história inspiradora de uma mulher idosa lésbica que quebrou barreiras

Por Diego Felix Miguel

Reprodução do Instagram

No dia em que recebi o convite para escrever para este blog, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Dora, uma das mulheres idosas que me inspirou a refletir sobre a velhice muito além das perspectivas convencionais.

Dora é lésbica, uma das primeiras idosas lésbicas assumidas que conheci. Faz questão de mencionar sua condição em toda oportunidade que tem, porque segundo ela, pouco pensamos ou falamos sobre a sexualidade e a orientação sexual de pessoas idosas, principalmente das LGBTQIA+. Isso prejudica a visibilidade para questões sociais e de saúde estão presentes nessa realidade.

O afeto sem medo de discriminação

Conheci Dora em 2017, no “Café e Memórias LGBT50+”, um encontro destinado à socialização e à convivência de pessoas idosas LGBTQIA+. É um evento organizado mensalmente pela Associação EternamenteSou, uma organização social sem fins lucrativos que atua em prol das velhices LGBT.

Desde então, sempre que a encontro, lembro da sensação que tive quando a conheci. Sempre disposta a abraçar e expressar palavras de afeto, Dora exala carinho e acolhimento, que muito se igualam a um amor maternal. É sempre muito gostoso estar com ela e experimentar esse sentimento, visto que, sendo LGBTQIA+, nem sempre vivenciamos esse bom afeto sem o medo de discriminação.

Passados quase seis anos do dia em que a conheci, cá estava eu, aguardando Dora numa lanchonete escolhida por ela no centro antigo de São Paulo. Queria saber mais sobre sua história de pioneirismo e coragem. A tarde estava chuvosa e fria.

Cheguei cedo, bem antes da hora marcada. A lanchonete estava praticamente vazia, apenas o vai e vem de pessoas que paravam rapidamente para comer alguma coisa. Enquanto esperava e observava a chuva, busquei na memória algumas histórias que já havia compartilhado com Dora para me preparar para o encontro.

O desafio do LGBTQIA+ ao serviço de saúde

Entre as lembranças mais marcantes estava a Dora ativista, que não perdia oportunidades para relatar, de forma incisiva, as dificuldades para ser bem atendida nos serviços de saúde, alertando para o preconceito e discriminação que mulheres lésbicas sofrem durante o atendimento. Foi dela que ouvi pela primeira vez que era quase impossível alguém como ela conseguir fazer exames ginecológicos: primeiro, porque alguns profissionais médicos consideram desnecessário o exame para pessoas que não praticam sexo penetrativo; e segundo, porque esses mesmos profissionais presumem que a pessoa idosa não é ativa sexualmente, com base simplesmente em sua idade. Não bastassem esses empecilhos, Dora contava também que, quando insistia em solicitar o exame, a título de prevenção e autocuidado, enfrentava o despreparo dos profissionais que não sabiam lidar com seu corpo, muitas vezes a machucando.

A denúncia de Dora confirma dados de pesquisas internacionais que apontam essa desigualdade de acesso aos serviços de saúde por parte das pessoas idosas LGBTQIA+. No Brasil, o geriatra e professor Milton Crenitte, coordenador do ambulatório de sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, foi pioneiro em apresentar dados que demonstram a iniquidade sofrida por mulheres idosas lésbicas em exames preventivos. Essa iniquidade é atribuída principalmente ao desconhecimento de profissionais em relação às questões inerentes a sexualidade e gênero, portanto colocando essas mulheres numa condição de maior vulnerabilidade e exposição a doenças como o câncer de colo do útero.

Um outro fator também endossa esse despreparo: o idadismo, que nos faz acreditar numa velhice assexuada e distante de temas relacionados a práticas sexuais. Mesmo quando se consegue transpassar essa visão, o resultado é a elaboração de uma estratégia de prevenção estereotipada, que dissemina o medo de doenças, e um reforço conservador sobre práticas sexuais, distantes da realidade de muitas pessoas LGBTQIA+.

Compenetrado em meus pensamentos, quase não percebi Dora me procurando na lanchonete. Fiz um sinal com as mãos, e enquanto ela se aproximava, observei uma certa alegria em seus olhos, que a deixava ainda mais linda. A senhora de pele escura, cabelos raspados à maquina e tingidos, tão vermelhos quanto seus lábios sorridentes, vestia uma blusa preta de veludo macio e com bordados brilhantes na gola. Em sua gargantilha dourada, um pingente em formato de coração trazia as cores do arco-íris, que estampava  seu orgulho por ser a mulher que se tornou.

Depois de um demorado abraço de reencontro, tentei iniciar a conversa a partir do que estava refletindo ali, mas fui delicadamente interrompido.

Dora queria contar a sua própria história.

Ajuda para ser quem se é

Aos trinta e poucos anos, Dora rompeu seu casamento heterossexual e se permitiu viver uma nova relação, dessa vez com uma mulher. Disse que esse processo, que aconteceu na década de 1990, só foi possível com o suporte social de uma instituição que frequentava e com a ajuda de uma terapeuta. O serviço comunitário tinha como missão o empoderamento feminino, com atividades fundamentadas em estudiosas do feminismo e que contribuíam para um olhar crítico em relação às desigualdades da relação de poder e violência contra a mulher.

Dora mencionou em vários momentos como o acesso a um serviço como esse, com um importante suporte emocional, a ajudou a ser quem realmente era e permitiu que conquistasse a sua autonomia. Sua vivência reforça o que diz a Organização Mundial da Saúde a respeito de oportunidades assim, por meio do conceito de Envelhecimento Ativo: os aspectos relacionados a autonomia (de escolha) e a independência (de ação) ao longo da vida são fundamentais para se experimentar uma velhice ativa e saudável.

Sabe-se que não é fácil romper a barreira sociocultural baseada na heterossexualidade, nem driblar os estigmas que cerceiam pessoas LGBTQIA+, como a promiscuidade, doenças, solidão e abandono.

Mas por meio de sua trajetória, Dora mostrou que estamos muito além dos estereótipos que nos desqualificam como pessoas. Mais que isso: ela provou que a vida de pessoas LGBTQIA+ não é  nem precisa ser baseada na heteronormatividade – convenções sociais baseadas numa perspectiva heterossexual.

Ela fala com carinho sobre o acolhimento de sua família quando passou a se relacionar com mulheres, da vida que construiu em conjunto com sua esposa e das amizades que conquistou ao longo de sua história, tão preciosas e importantes para seu suporte social.

Porém, nem tudo “foram flores” em sua história, mesmo depois de “se assumir” lésbica. Dora sentiu na pele, por exemplo, o que é viver um relacionamento abusivo, inclusive com episódios de violência – viu, então, que o machismo é violento e perverso e, infelizmente, também pode ser reforçado por mulheres. Mais uma vez encontrou apoio para entender e superar essa situação no serviço comunitário que frequentava.

Dora também falou sobre o papel da religião em sua jornada – um ponto comum com a minha própria história. Num processo de autoconhecimento, conseguiu transpassar o ideário conservador de um Deus punitivo para um que ama a diversidade, num contexto em que o amor é um dos mais sublimes sentimentos, em todas as suas possibilidades. Para ela, era a sensação de validação da própria existência, não para os outros, mas para si mesma, onde pode se permitir ser feliz, sem medo ou culpa.

Uma vida em três horas

Aprendi com Dora que nossas histórias precisam ser compartilhadas. Muitas pessoas vivem em condições parecidas e, a partir das nossas vivências, podem encontrar o conforto e a motivação para romper com as estruturas sociais que ferem sua autonomia e independência. Esse reconhecimento pode evitar sofrimentos e situações de vulnerabilidade.

Hoje, Dora é vice-presidente da Associação EternamenteSou e exerce um papel essencial no fortalecimento da representatividade de mulheres idosas lésbicas na sociedade. Ela ocupa um lugar importante de participação social e resiste a uma cultura que muitas vezes, por conta do machismo, idadismo e tantos outros preconceitos, coloca mulheres idosas lésbicas em condições de discriminação, onde são submetidas a invisibilidade e silenciamento, sem a oportunidade de fala para apontar suas necessidades.

Dora, apesar de todas as dificuldades, se manteve fiel à sua essência e dia após dia abre caminhos para que outros consigam fazer o mesmo.

Conversamos por três horas. Nem vimos o tempo passar. Quando nos despedimos, a chuva finalmente havia dado uma trégua.

Diego Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo.

Avalanche Tricolor: eu vim ver o Grêmio e venci!

Grêmio 1×0 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio

Ronald comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estar em Porto Alegre é estar em família. É reviver o passado. É relembrar a vida que se foi e me trouxe até aqui. É homenagear os que me legaram a carreira que percorri e reencontrar o principal protagonista da minha história nas casas que frequentei quando criança, nas ruas pelas quais passei na adolescência e nas esquinas que me provocavam a escolher um caminho em busca do amadurecimento — eu mesmo.

Todas essas sensações percorrem as veias e mexem com as emoções quando chego à cidade. Estando aqui não há como esquecer o quanto minha história com o Grêmio foi importante — mais do que o time de futebol, aquele espaço que hoje é ruínas, muito próximo da casa em que vivi e me abriga sempre que visito a capital gaúcha foi meu palco de vida, onde forjei parte da personalidade que me representa, construí relações familiares e fraternais e aprendi a valorizar tanto vitórias quanto derrotas.

Estar na Arena, na noite desse sábado, ao lado do Christian, meu irmão, e da Jacque, minha irmã, é evocar aos céus a presença daquele que me fez gente e gremista — meu pai, que nos deixou há quatro anos em um 28 de julho. Por isso, mais do que o resultado, o que me importava era a solenidade do ato: vestir a camisa do Grêmio, sair de casa em direção ao estádio com meus irmãos, sentar-me em uma cadeira e ao lado deles torcer pelo que desse e viesse.

Veio uma vitória que nos projetou à vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Vitória sofrida! Nem tanto pela forma como se construiu. O gol chegou cedo em uma cobrança de escanteio que foi concluída nas redes por Ronald, de apenas 20 anos, que está no clube desde pequeno e estreou hoje realizando o sonho de todos nós que já fomos um guri gremista.

O sofrimento deu-se na sequência quando o adversário se adonou da bola. Mesmo que não tenha sido capaz de transformar esse ato em superioridade técnica, exigiu uma atenção redobrada dos nossos marcadores. Nesse quesito, Walter Kannemann foi a referência do torcedor, foi gigante ao anular toda e qualquer tentativa de ataque. Nas vezes em que as ações passavam distante da intervenção de nosso zagueiro, Grando voltou a ser grande. Defendeu as bolas que por ventura não eram interceptadas por nossos defensores. E o fez mesmo naquelas em que o nível de dificuldade exigia rapidez e habilidade.

Saber sofrer é preciso. E o gremista ontem aprendeu mais um pouco. Entendeu o momento da equipe, apoiou do início ao fim, e comemorou de gol marcado a bola despachada pela lateral; de gol anulado a cartão amarelo para o adversário —- foi a primeira vez que assisti à revisão do VAR no estádio, e gostei, especialmente porque foi providencial. Sabia que os três pontos se faziam necessários e a torcida esteve ao lado do time — uma prévia do que acontecerá na quarta-feira, na Copa do Brasil. 

Nenhuma ausência no gramado me fez frustrar a expectativa de estar na Arena, porque vim a Porto Alegre, vi o Grêmio e venci (dentro e fora do campo)!

Mundo Corporativo: Samuel Campos, da Vega, mostra como a tecnologia e o compliance ambiental transformam o Agronegócio

“Quem não tiver, não acompanhar esse movimento, não vai conseguir escoar o seu produto e não vai conseguir ter acesso, nem a prêmios ou investimentos, financiamentos de bancos que têm linha de crédito verde com juros diferenciados no mercado; e para ter acesso a isso você tem que mudar o seu modelo”

Samuel Campos, Vega

O conceito de compliance ambiental abrange as práticas e o manejo agrícola, buscando entender a interação da produção do imóvel rural com aspectos ambientais relevantes, como o combate ao desmatamento, sobreposições com terras indígenas, povos e comunidades tradicionais e unidades de conservação. A implementação dessas práticas sustentáveis é essencial para que o produtor atenda aos principais protocolos internacionais, como os da União Europeia, garantindo a aplicação desse conceito em toda a cadeia de suprimentos. Sobre o tema, o Mundo Corporativo entrevistou Samuel Campos, da Vega, uma empresa que especializada em monitorar a produção agrícola e testar a sustentabilidade das práticas na cadeia produtiva do agronegócio.

Rastreabilidade e Avaliação de Fornecedores

A rastreabilidade dos produtos agrícolas é fundamental para garantir a procedência sustentável da matéria-prima. Empresas como a Vega monitoram toda a produção desde a origem até a chegada na indústria, aplicando certificações e selos de sustentabilidade que atestam a conformidade com os protocolos ambientais. A avaliação de fornecedores desempenha um papel crucial nesse processo, e muitas empresas têm regras bem definidas para aceitar ou barrar a compra de produtos com origem não sustentável.

Tecnologia e Desafios para a Sustentabilidade no Agronegócio

A tecnologia tem papel fundamental no desenvolvimento sustentável do agronegócio. Samuel explica que a Vega usa técnicas de Inteligência Artificial e Big Data para processar e analisar dados de mais de 48 milhões de hectares de terras agrícolas no Brasil, buscando formas de integrar lavoura, pecuária e floresta para otimizar a produção e reduzir emissões de CO2. Os desafios incluem a conscientização dos produtores, a regularização ambiental, o monitoramento em tempo real e a transparência de toda a cadeia produtiva.

“O produtor rural às vezes quer estar dentro de um modelo mais produtivo, mas ele não encontra ainda as alternativas de saída: como é que ele vai regularizar o seu passivo? Como é que ele vai trabalhar com o estado no programa de regularização ambiental? Como é que a gente vai trabalhar esse monitoramento dessa transição? Esse para mim é um grande desafio na conscientização e na mudança desse modelo de produção brasileira”

Potenciais Impactos Negativos e Incentivos para a Sustentabilidade

Os produtores que não se adaptarem aos protocolos de compliance ambiental podem enfrentar restrições na venda de suas commodities em mercados internacionais, reduzindo a liquidez de seus produtos, de acordo com Samuel. Por outro lado, aqueles que adotam práticas sustentáveis têm a oportunidade de receber prêmios financeiros pela sua produção, além de acesso a linhas de crédito verde com juros diferenciados. A conscientização e a transparência na cadeia de suprimentos são cruciais para que a sustentabilidade se torne um ativo e não um passivo para os produtores. Além disso, lembra Samuel, os produtores ao aplicarem em tecnologia podem ampliar a variedade de safras e melhorar a produtividade:

“A gente costuma dizer que quando a gente conseguir mudar o mindset do produtor rural, que ele pode ter uma safra, uma safrinha, uma terceira safra ambiental, conectada a rastreabilidade da produção sustentável dele, a gente vai mudar toda a cadeia”.

Samuel destaca que o agronegócio está passando por uma grande transformação, impulsionada pela tecnologia e pelo compliance ambiental. O futuro do agronegócio está na conscientização dos produtores, na transparência da cadeia produtiva e no investimento em tecnologias inovadoras que permitam uma produção mais eficiente e sustentável. O desafio é grande, mas as oportunidades para profissionais qualificados no campo da tecnologia e da inovação são igualmente promissoras.

“Hoje, o mercado ele precisa  cada vez mais pessoas que enxerguem essa visão de sustentabilidade, que tem noção dessas questões de  ESG, de compliance; e quando você traz isso munido ali de conhecimento de inovação de tecnologia, você hoje é um profissional diferenciado no mercado”. 

Assista à entrevista completa com Samuel Campos, da Vega, ao Mundo Corporativo que tem a colaboração de Renato Barcellos, Letícia Valente, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: tinha a impressão de que meu pai e meus tios eram donos dos prédios

Por Teofilo Rodrigues

Ouvinte da CBN

A caminho do Teatro Municipal, foto de Thgusstavo Santana on Pexels.com

Nasci em 1959, no Jardim Maringá, zona Leste de São Paulo; minha família foi uma das pioneiras no bairro onde o asfalto era uma raridade. Éramos oito irmãos. Eu, filho homem  mais velho, cresci seguindo meu pai, Seu Nestor Teofilo Rodrigues, que me levava com frequência à cidade, como chamávamos o centro.

Pegávamos o ônibus e eu ficava alucinado com o passeio, a começar com o pitoresco cobrador que transitava dentro do coletivo com o dinheiro dobrado entre os dedos, sem a mínima preocupação em ser assaltado. O ponto final era na Praça Clóvis Bevilaqua, ao lado da Praça da Sé. 

Ali começava a aventura:

A Praça da Sé era um monumento e eu observava os transeuntes, a maioria simples, mas tinha muitos de terno e chapéu. Eu me impressionava com as rodas que se formavam, desde o “homem da cobra” — este alegava que havia uma cobra num caixote, contava histórias mirabolantes, ameaçava soltar a cobra e propagava o seu produto, uma pomada que servia para tudo; e nada de a cobra aparecer. Tinha roda de capoeira, vendedores de bilhete da Loteria Federal, vendedores de bilhetes premiados, pedintes, pregadores evangélicos e um cadeirante que escrevia cartas para quem quisesse, com uma caligrafia impecável, chamava-se Dr. K-neta. Tinha na Praça o Restaurante “Um dois, feijão com arroz”, com um  “pf” delicioso.

Depois pegávamos a Rua Direita repleta de lojas; havia o Almanara que, na porta, servia esfihas assadas num forno de pedra. Tinha um sem número de pregoeiros gritando “calça Lee americana”, a última moda na cidade. Ter uma calça índigo, velha, azul e desbotada era o sonho de todos os jovens. Na Praça Patriarca, a Igreja de Santo Antônio distribuía pãezinhos bentos, no dia do padroeiro. 

Atravessar o Viaduto do Chá era emocionante; sempre parávamos no meio para admirar os carros trafegando no Vale do Anhangabaú.

Muitas vezes almoçamos na Liga das Senhoras Católicas, locadas debaixo do viaduto; serviam “bandejão” a preços populares, sempre acompanhados de um copo de leite frio. Ao fim do viaduto o Mappin era algo exuberante, um prelúdio dos shoppings de hoje; eles ofereciam inédito crédito para compras parceladas no carnê; tinha também o guarda Luizinho, fazendo troça com os motoristas e pedestres que desobedeciam o farol.

Passando o viaduto, encontrávamos o majestoso Teatro Municipal e atrás dele a Pitter, uma loja futurista com decoração exótica, roupas ousadas e  moderníssimas; dentro da loja me imaginava nos Estados Unidos, sem nunca ter saído do Brasil. 

Meu pai e meus tios, que vieram do interior de Minas, se fixaram como faxineiros, ascensoristas, zeladores nas Ruas Xavier de Toledo, Barão de Itapetininga e Rua Sete de Abril. Eu tinha a impressão que eles eram donos dos prédios; conhecidos por todos, eram muito populares; eram super trabalhadores, pau para toda obra. Também eram boêmios e fanfarrões.

Nunca me esquecerei da comida de rua da Barão de Itapetininga; eram pontos na porta de bares e lojas, onde serviam uma esfiha aberta cuja cobertura era um parco molho com alguma lembrança de carne moída. Ficavam empilhadas aos montes e eram servidas num guardanapo; tínhamos o “churrasco grego”, retalhos de carne de segunda, dispostas num espeto vertical e giratório, numa estufa; o compacto de carne era fatiado e servido no pão. Uma delícia… Pertinho dali, no largo do Café, tinha o Rei da Salsicha: servia sanduíches de frios, recheados exageradamente, para serem degustados na rua, pois o espaço era minúsculo.

Na rua Aurora íamos no Restaurante Tabu, onde se saboreava um delicioso Mocotó e a feijoada que era servida a partir da meia noite na sexta-feira. Meu primeiro chopp, ainda menor de idade, foi no Bar do Léo, na calçada da rua Aurora, em meio as sensuais damas da noite, que faziam ponto na região. Sem esquecer o Restaurante Parreirinha na Rua General Jardim, que era muito caro; só fui uma vez comer o prato da casa: rã servida de várias maneiras; local muito frequentado por artistas e classe média. Havia o Ponto Chic, no Largo Paissandu, onde serviam o tradicional bauru no prato com o queijo rococó.

Desde criança com meu pai e depois sozinho sendo office boy, a explorar a cidade. Ainda passei 12 anos trabalhando em um escritório na Praça da República para depois minha história tomar outros rumos. Sem nunca perder na memória o cenário da vida deliciosamente registrado lá na cidade.

Teofilo Rodrigues em passeio com seu pai é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.