Como melhorar sua comunicação e reduzir os impactos negativos das videoconferências

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Saí de um reunião pelo Zoom pouco antes de iniciar este texto. Ainda estou de férias, mas havia a necessidade de uma conversa com um grupo de profissionais para alinhar algumas mensagens de projeto que estamos elaborando em conjunto.  Não nego que ter de focar nas preocupações do trabalho, mesmo que por apenas uma hora, interrompe o relaxamento que os dias de descanso oferecem à mente e mexe com gatilhos que me levam, por exemplo, a querer escrever como estou fazendo agora. Por outro lado, a tecnologia à disposição e o recurso da videoconferência tornaram possíveis esse encontro que agilizará o planejamento e a organização do evento. Nessa semana que se foi, havia lido texto sobre o impacto das reuniões virtuais na qualidade da comunicação, escrito pela neurocientista Thaís Gameiro, da Nêmesis, empresa que atua na área de Neurociência Organizacional. 

Pesquisadores avaliaram riscos das videoconferências

Duas pesquisas foram apresentadas pela neurocientista para embasar sua reflexão sobre os riscos que as videoconferências podem gerar, algo que passamos a perceber com maior frequência. a partir da pandemia de Covid-19, em 2020. Em um estudo publicado na revista Nature, foi constatado que a modalidade presencial comparada a virtual favorece a criatividade e a geração de novas ideias, enquanto tarefas mais objetivas podem ser realizadas tanto presencialmente quanto virtualmente. Outro estudo, publicado no The Journal of Neuroscience, analisou o impacto das videoconferências no comportamento pró-social dos participantes. A redução na troca de interlocutor e os padrões alterados de coerência cerebral indicaram uma perda na qualidade das interações sociais virtuais.

Sete sugestões para as suas próximas videoconferências

Considerando que o meu encontro virtual foi para “colocar todos na mesma página” me satisfarei com a segunda resposta obtida no estudo de Melanie S. Brucks (Columbia) e Jonathan Levav (Stanford) que entendeu que as reuniões virtuais e presenciais têm o mesmo efeito em decisões de caráter mais objetivo — ou seja, minha parada breve do descanso teve efeitos positivos para a condução e produtividade do trabalho. Diante do desafio que a videoconferência se transformou, a ponto de provocar prejuízos à saúde, batizados de Zoom Fatigue, no livro “Escute, expresse e fale!” (Rocco) dedicamos ao menos um capítulo ao tema. Com base em trabalho realizado pelos professores Guy Itzchakov e Jennifer Grau, elencamos sete dicas para as reuniões virtuais e acrescentamos mais algumas baseadas no conhecimento que desenvolvemos ao longo de nossa jornada na comunicação.

Por agora, fiquemos com as sete dicas para gerenciar melhor e aliviar o desgaste das reuniões virtuais

  • Preste atenção nas pistas vocais: em reuniões virtuais, onde o não verbal é limitado, é essencial prestar atenção na voz. Observe a entonação, a velocidade da fala e as pausas. Por exemplo, após discutir um tema, observe se a fala da sua equipe parece entusiasmada (rápida, com variedade vocal e poucas pausas) ou hesitante (lenta, mais monótona e longas pausas). Na dúvida, pergunte como o seu colega se sente..
  • Evite a distração do “espelho”: durante as reuniões virtuais, pode ser desanimador se ver na tela enquanto fala ou escuta. Isso tira o foco do interlocutor. Antes da reunião, ajuste as configurações da câmera e da plataforma para ocultar sua própria imagem. Caso não seja possível, uma dica útil é colocar um post-it sobre sua imagem para evitar distrações desnecessárias.
  • Lide com problemas de áudio: os problemas de áudio são comuns em reuniões virtuais, desde som baixo até eco e falta de sincronia entre voz e imagem. Não hesite em pedir para que repitam informações caso não tenha entendido. Peça aos participantes que fechem aplicativos desnecessários e melhorem a qualidade do som. É importante priorizar a compreensão em vez da polidez.
  • Crie intervalos para reflexão: a transição rápida de uma reunião para outra, sem tempo para relaxar e processar informações, pode prejudicar a assimilação de ideias. Considere reduzir o tempo das reuniões para reservar alguns minutos de pausa entre elas. Utilize esse tempo para sintetizar as ideias da reunião anterior e se preparar para a próxima, melhorando assim sua performance.
  • Utilize métodos para engajar: promover a discussão em grupo durante as reuniões virtuais pode ser um desafio. Utilize os recursos da plataforma para estimular a participação, como a sala de bate-papo. Considere dividir a reunião em grupos menores para facilitar a comunicação e garantir que todos sejam ouvidos. Isso aumenta o engajamento e torna a reunião mais produtiva.
  • Priorize a conexão humana: a comunicação virtual pode gerar sentimentos de isolamento e solidão. Priorize o contato individual com os membros da equipe. Agende conversas curtas, seja por telefone ou vídeo, para se conectar pessoalmente. Inicie as reuniões com uma pergunta rápida para medir a temperatura emocional do grupo. Isso não apenas demonstra preocupação, mas também resolve problemas técnicos antes do início da reunião.
  • Gerencie as emoções: as reuniões virtuais podem ter um custo emocional, como exaustão, frustração e irritação. Esteja atento aos sinais não verbais dos participantes durante as reuniões. Faça uso de perguntas reflexivas e demonstre reconhecimento. Reserve pausas quando possível e utilize a melhor tecnologia e conexão disponíveis. Líderes devem ser empáticos ao lidar com problemas, reconhecendo as dificuldades enfrentadas pelos participantes.

Seguindo as sete dicas apresentadas em “Escute, Expresse e Fale!” você poderá aprimorar suas reuniões virtuais. O livro que escrevi com Leny Kyrillos, Antonio Sacavém e Thomas Brieu tem outras sugestões específicas sobre cada um dos recursos da comunicação (verbal, não verbal e vocal) que ajudarão você a aproveitar melhor os recursos da comunicação para uma interação mais eficaz, mesmo em ambientes remotos. Ao adaptar-se às restrições e explorar as ferramentas disponíveis, você poderá alcançar resultados excelentes em suas reuniões virtuais. Bons encontros — de preferência fora do do seu período de férias.

Avalanche Tricolor: no limite!

Grêmio 0x2 Botafogo

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Suárez em destaque na foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio joga no limite. Com o seu limite. 

Luis Suárez é quem melhor representa essa verdade, ao não conseguir esconder mais a expressão de dor no rosto, a passada marcada pelo arrastar da perna direita e o segurar de joelhos com as mãos sempre que a bola para. Sofre em campo e não desiste. Não se entrega. Tira do limite do corpo o melhor que seu talento consegue oferecer. Tabela com os companheiros, antevê a jogada, se posiciona para receber e não desperdiça uma oportunidade de chutar a gol. Hoje, por duas vezes, esteve próximo de ser antológico. Na primeira, a bola desviou no travessão; na segunda, o goleiro adversário impediu o gol. Entre uma e outra jogada, chutou como poucas vezes se viu nesses últimos jogos. Desta vez, sem sucesso. 

Considerando o limite do seu grupo de jogadores — que não é apenas físico, como no caso de Suárez —, o Grêmio surpreende até aqui ao permanecer entre os primeiros colocados do Brasileiro, especialmente se pensarmos que chegou na temporada alvo de desconfiança. Dentre os descrentes muitos dos nossos torcedores — alguns, é verdade, apenas oportunistas a espera de um revés para exalar suas discordâncias. Mesmo diante de todas as restrições, o Grêmio vem acumulando bons resultados, alguns construídos na última hora, como os da Copa do Brasil. 

Temos indícios de bom futebol, também. Na partida de hoje, assistimos nossos jogadores se aproximando e tabelando apesar do pouco espaço diante da marcação forte do adversário. Toques curtos e de primeira permitiram que avançássemos em direção a área. Houve boas viradas de jogo, passes qualificados e entrega na marcação que permitia a roubada da bola para iniciar o ataque. As chances se acumularam no primeiro tempo. Infelizmente, foram desperdiçadas.

Desta vez, pagamos caro por não transformar nosso esforço em gol. Contra um adversário que também surpreende a lógica do futebol ao disparar na liderança do campeonato após entrar desacreditado na competição, fomos incapazes de conter a precisão de seus ataques e amargamos uma rara derrota em casa. Foram dez meses e 24 jogos de invencibilidade na Arena,  o que, convenhamos, também desafiava nossos limites. 

O resultado não nos tira do topo da tabela. Seguimos entre os três primeiros classificados no Brasileiro. Na Copa do Brasil, vamos para mais uma decisão, na quinta, outra vez diante da nossa torcida. A medida que a temporada avança novos limites surgirão e caberá ao Grêmio reconhecê-los e superá-los como sempre fizemos ao longo da nossa história. 

Inclusão e Desafios: como a inteligência artificial pode mudar a realidade da população com deficiência no Brasil

Por Mia Codegeist 

Foto de cottonbro studio

No Brasil, a inclusão e a garantia dos direitos das pessoas com deficiência são temas de extrema importância. De acordo com estimativas recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tem uma população de 18,6 milhões de indivíduos com deficiência, representando 8,9% da população com dois anos de idade ou mais. Diante dessa realidade, é crucial buscar soluções que promovam a inclusão e melhorem a qualidade de vida dessas pessoas. A Inteligência Artificial traz recursos que podem ser explorados pelos governos, instituições e pessoas que trabalham por respostas que atendam as necessidades das pessoas com deficiência. Antes de falarmos desse tema, vamos ao cenário que o IBGE acaba de revelar com base na Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2022.

Desigualdades na Educação:

Uma das áreas em que as desigualdades são mais evidentes é a educação. Infelizmente, crianças e jovens com deficiência enfrentam maiores obstáculos para acessar a educação formal em comparação com aqueles sem deficiência. Dados do IBGE revelam que apenas 89,3% das crianças com deficiência entre 6 e 14 anos frequentam o ensino fundamental, enquanto essa taxa é de 93,9% para crianças sem deficiência. A disparidade se mantém no ensino médio e superior, demonstrando a necessidade de políticas inclusivas e recursos adequados para garantir o direito à educação de qualidade para todos.

Desafios no Mercado de Trabalho:

Outro aspecto preocupante é o acesso ao mercado de trabalho. A taxa de ocupação para pessoas com deficiência é de apenas 26,6%, em contraste com a média de 60,7% da população total. Essa discrepância reflete barreiras que ainda persistem, como preconceitos, falta de acessibilidade física e falta de oportunidades adequadas. É essencial que as empresas e órgãos governamentais se comprometam em criar ambientes inclusivos, promovendo a diversidade e garantindo oportunidades iguais para todos os profissionais, independentemente de suas habilidades ou limitações.

Desigualdades na Renda

As desigualdades também são evidentes quando analisamos a renda das pessoas com deficiência. O rendimento médio do trabalho para essa população é de R$ 1.860, enquanto para aqueles sem deficiência é de R$ 2.690. Além disso, existem diferenças regionais significativas. O Nordeste apresenta o menor rendimento médio, com uma diferença de R$ 508 entre pessoas com e sem deficiência. É fundamental que sejam implementadas políticas públicas que visem à redução dessas disparidades e à garantia de um salário digno para todos os trabalhadores.

O poder transformador da IA

A inteligência artificial tem um potencial transformador na promoção da inclusão e melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência no Brasil. Por meio de tecnologias de acessibilidade, aprendizado personalizado, acessibilidade digital aprimorada, robótica assistiva e diagnóstico precoce, a IA pode ajudar a superar as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência, proporcionando maior autonomia, independência e igualdade de oportunidades. A seguir, falamos sobre cada uma dessas cinco abordagens em que a inteligência artificial pode ser explorada em benefício das pessoas com deficiência.

1. Tecnologias de acessibilidade impulsionadas pela IA:

A IA tem o potencial de impulsionar o desenvolvimento de tecnologias de acessibilidade inovadoras. Por meio de avanços em reconhecimento de voz, tradução automática e próteses inteligentes, a IA pode auxiliar pessoas com deficiência de fala, audição ou mobilidade, proporcionando maior autonomia e inclusão social.

2. Aprendizado personalizado para a inclusão educacional:

A IA pode desempenhar um papel fundamental na promoção da inclusão educacional. Sistemas de aprendizado personalizado baseados em IA podem adaptar o conteúdo e as estratégias de ensino de acordo com as necessidades individuais dos alunos com deficiência, facilitando seu acesso à educação e promovendo um aprendizado mais eficaz e envolvente.

3. Acessibilidade digital aprimorada:

A IA pode ser usada para melhorar a acessibilidade de plataformas digitais, tornando-as mais inclusivas para pessoas com deficiência visual, auditiva ou cognitiva. Algoritmos de IA podem analisar e adaptar automaticamente o conteúdo, fornecendo descrições de imagens, legendas em vídeos e recursos de navegação simplificados, garantindo que todos tenham igual acesso à informação e aos serviços online.

4. Automação e robótica assistiva:

A IA tem o potencial de impulsionar o desenvolvimento de robôs e sistemas autônomos para auxiliar pessoas com deficiência em suas atividades diárias. Desde a locomoção e a realização de tarefas domésticas até o suporte emocional, essas tecnologias podem ampliar a independência e a autonomia, proporcionando uma maior qualidade de vida.

5. Prevenção e diagnóstico precoce:

Algoritmos de IA podem ser utilizados para analisar grandes volumes de dados médicos, permitindo a identificação de padrões e indicadores precoces de deficiências. Dessa forma, é possível realizar diagnósticos precoces e intervenções mais eficazes, melhorando os resultados de saúde e garantindo acesso adequado aos cuidados desde o início.

Dito isso, não esqueça: ao pensar em formas de explorar a inteligência artificial em favor das pessoas com deficiência é fundamental garantir uma implementação ética e inclusiva da IA, envolvendo essas pessoas em todas as fases do processo, para que suas necessidades e perspectivas sejam devidamente consideradas. Criar soluções inclusivas sem a abordagem das pessoas com deficiência não é inclusivo!

Mia Codegeist é autor que abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade.

Conte Sua História de São Paulo: o Pedro, o Lobo e os meus amiguinhos de corrida

Paulo Mayr Cerqueira

Ouvinte da CBN

Foto de Caique Araujo

Mil anos atrás, mesmo não sendo próximo a minha casa, costumava correr na Pista de Cooper do Parque do Ibirapuera. Estacionava o carro em uma travessa da 4º Centenário e caminhava um pouco.

Dois dias seguidos, um menino de uns três, quatro anos, que estava com a empregada no jardim de casa puxou conversa:

– Quem é você?

– Sou o corredor do Parque.

Parei e continuamos o bate-papo.

Na semana seguinte, ao me ver, chamou o irmão, um pouco maior, para me apresentar.

Meu já amigo, o Pefeli, e o novo, o Nirani.*

E assim foi indo. Com frequência, eles estavam por ali e conversávamos.

Então, no começo de dezembro, fiz uma fita K7 com a História do Pedro e o Lobo do músico russo ProKofiev, narrada por Roberto Carlos, no início do início da carreira do ídolo.

A ideia do autor era introduzir, de maneira lúdica, crianças no mundo da música erudita. Assim, cada personagem da história era representada por um instrumento de orquestra.

Em um envelope natalino, além da fita, o histórico, que xeroquei da contracapa, e um cartão meu de Feliz Natal. Eles não estavam em casa. Deixei com a empregada, já minha conhecida.

Dia 25 de dezembro, por volta de meio dia, antes de ir para o Almoço da família, passei por lá. Toquei a campainha. A avó, pelo interfone, perguntou quem era. Disse que havia deixado uma fita K7 para as crianças.

Ela:

– Não vai embora, não vai embora.

E veio correndo para o portão.

Novamente, os meninos não estavam. Ela contou que todos haviam se encantado comigo; e insistiu para eu tomar uma bebida com eles. Agradeci, mas não aceitei.

Hoje Pefeli e Nirani são homens feitos e talvez tenham um toca-fitas de museu só para, de vez em quando, ouvir com chiados a lembrança que o Corredor do Parque lhes deu.

Paulo Mayr Cerqueira e seus amigos, Pefeli e Nirani, são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: não dá pra elogiar!

Bahia 1×1 Grêmio

Copa do Brasil – Arena Fonte Nova, Salvador/BA

Bitello e Reinaldo iniciam jogada que resulta no gol de Cuiabano Foto: LucasUebel/GrêmioFBPA

Calma! Não se precipite! O título que abre esta Avalanche não se refere ao Grêmio que conquistou mais um bom resultado no desenlace da primeira partida das quartas de final da Copa do Brasil. É uma referência a conversa que tive com você, caro e cada vez mais raro leitor, sobre minha experiência com a internet durante meus períodos de férias ou, para ser mais preciso, minhas aventuras para assistir ao Grêmio onde quer que eu estivesse.

Hoje, com toda a tecnologia disponível, 5G no celular, banda larga de alta velocidade e outras traquitanas que nos colocam em contato com qualquer (ou quase) parte do mundo, ainda encontramos barreiras que nos afastam do prazer de um jogo de futebol. Chuvas e raios registrados há alguns dias aqui em Ansedonia, litoral do Tirreno, onde aproveito minhas férias, teriam atingido o sinal de internet da casa — a operadora promete resolver tudo nesta quarta-feira. Além disso, aqui no alto da montanha  o celular teima em navegar no velho e lento 3G, o que torna impossível assistir a imagens ao vivo. 

Diante desses problemas da tecnologia e de a partida ter se iniciado às duas da madrugada, hora local, pouco me restou a fazer a não ser driblar a ansiedade, fechar os olhos, dormir e esperar por boas notícias na manhã seguinte.

Claro que não tive sucesso. Assim como algumas das nossas tentativas de ataque, ontem à noite, no Brasil, fui desarmado pelo adversário —  a inquietação. De tempos em tempos, acordava e acessava o celular para saber o que estava acontecendo lá na Bahia. 

Acordei algumas vezes ainda no primeiro tempo e o placar permanecia no 0 a 0, o que para mim já estaria de bom tamanho, considerando que a vaga será decidida na nossa Arena. Como minha fonte de informação era o “placar em tempo real” do Google, não soube da ausência de Luis Suárez, que sentiu dores enquanto fazia o aquecimento pré-jogo. Nem sofri com os constantes chutes a gol do adversário.

Por uma generosidade de Morfeu, após ser informado que tínhamos ido para o intervalo no 0 a 0, o sono se estendeu por mais tempo e só fui acordar quando tudo já estava resolvido — sem o sofrimento de assistir ao gol do adversário nos primeiros minutos da segunda etapa e a pressão de um time embalado pela torcida nem o prazer de comemorar mais um resultado positivo conquistado nos acréscimos. 

Restou-me conferir os melhores momentos da partida que sequer foram tantos — ao menos na ótica do editor do vídeo do GE. E vibrar —- acredite, comemorei no “videotape” — com o gol de Cuiabano que concluiu nas redes, em lance que lembrou o da vitória de domingo. Uma chegada forte pela esquerda, um passe preciso de Bitello, o deslocamento de Reinaldo em direção a linha de fundo e o cruzamento dentro da pequena área. No jogo passado foi Ferreirinha quem fez as vezes de Reinaldo e Gustavo Martins as de Cuiabano. Bitello seguiu sendo Bitello.

Este Grêmio que estamos assistindo conecta muito bem a experiência e a juventude, o talento e a intensidade, a paciência e a raça que nos impedem de desistir enquanto houver um sinal de esperança. Claro que a medida que essa conexão estiver funcionando pouco importa meu sinal de internet — mas que o pessoal da TI resolva logo os problemas por aqui porque tem mais decisão nas próximas semanas.

“Não sou velha, sou usada” 

Por Diego Felix Miguel

Foto de Mihuel/Pexels

Confesso que a frase que dá título a esse texto me abalou bastante e, agora, ao escrever essas linhas tento elaborar qual profundidade esse desconforto alcança relacionando-a a um contexto muito específico. 

Ela foi proferida por uma mulher transgênera de 70 e poucos anos que mora no extremo leste da cidade de São Paulo enquanto contava que para chegar no auditório onde estávamos, às nove horas da manhã, teve de acordar de madrugada e enfrentar um transporte público pouco confortável, como esperado (e naturalizado) para quem vive por aqui. Sabemos que essa é uma realidade para milhares de pessoas, principalmente aquelas que trabalham diariamente para conseguir sustentar a si e sua família; mas, naquele contexto específico, a presença dessa nobre senhora era voluntária, movida por uma força de vontade que muito me inspirou quando a conheci naquele dia.

O evento onde nos conhecemos foi organizado pela Prefeitura de São Paulo em virtude do dia 28 de junho – data que celebramos mundialmente o Dia do Orgulho LGBTQIA+  e reuniu profissionais, especialistas, líderes de movimentos sociais e autoridades, para conversar sobre questões relacionadas ao acesso de pessoas idosas LGBTQIA+ a serviços de cuidados de longa duração como Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) — pejorativamente conhecidas por “asilos –, Centros-dia — um centro com foco no cuidado de pessoas idosas que precisam de auxílio para executar suas atividades de autocuidado durante o dia — e Centros de Acolhida Especiais para Idosos — um serviço voltado às pessoas idosas que demandam de um acolhimento temporário por estarem em situação de alta vulnerabilidade social.

Sem dúvida, a organização desse seminário foi louvável, haja vista as demandas complexas que envolvem essa realidade, infelizmente quase imperceptível para a maioria das pessoas. O lugar que ocupei no evento foi o de palestrante, considerando a minha trajetória de estudo, vivência e pesquisa nessa área.

A senhora em questão, que foi a grande inspiradora dessas linhas que escrevo, estava ali ocupando um espaço seu, por direito, e que muito além que qualquer estudo ou pesquisa, pode falar com grande propriedade sobre “o que é ser uma mulher idosa transgênera que mora no extremo leste do município de São Paulo” e, em algum momento da sua vida, pode ter necessidade de acessar algum desses serviços — logo, essa foi a oportunidade de expressar seus receios e percepções sobre o atendimento. 

Pouco antes do início das atividades, ela estava sentada na primeira fila, próximo a mim, e percebi que comentava com as pessoas da organização do evento sobre tudo que enfrentou naquela manhã para chegar até ali.  De forma sabiamente majestosa, posicionou-se dizendo algo relacionado à importância da sua presença naquele lugar sem mesmo ter sido nomeadamente convidada e, diga-se de passagem, que era um espaço majoritariamente ocupado por pessoas brancas, heterossexuais, cisgêneras – em conformidade com o gênero que foi atribuído ao nascimento –, e com menos idade que ela.

Trocamos um olhar de acolhimento que me fez lembrar o real sentido de estarmos aliados, provocando inquietações para que as políticas públicas e serviços possam, de fato, ter como base a equidade, considerando as diferenças que compõem a nossa identidade e que nos condicionam a ocupar um lugar social bem específico. 

Logo nesse contato inicial, fui provocado a pensar: como tornar acessível as políticas e serviços, se não com a representatividade em suas diferentes realidades e contextos? “Nada para nós, sem nós”, um slogan conhecido na luta pela inclusão do movimento anticapacitista, contra o preconceito e discriminação de pessoas com deficiência.

Do mesmo modo, não há como falar de acesso de pessoas idosas LGBTQIA+ sem a presença delas e com a organicidade de suas falas construídas a partir de suas experiências. Não há como desconsiderar a interseccionalidade que envolve a construção identitária, a partir de ideários machistas, racistas, xenofóbicos entre tantos outros estereótipos, preconceitos e discriminações que se relacionam gerando um contexto ainda mais complexo e desafiador.  

Movido nessas reflexões, apresentei minha palestra e se formou uma mesa com os demais colegas para conversarmos sobre os aspectos que estávamos trabalhando no evento. 

A senhora foi convidada a estar com a gente no palco e, logo nos primeiros minutos de sua retórica, com uma voz embargada, num misto de emoção e empoderamento, fala repetidas vezes, com uma pausa dramática, essencial para dar ênfase à complexidade em questão: “Não sou velha, sou usada”.

À primeira vista associei essa frase a uma negação da velhice e a resistência que ainda temos em nos colocarmos na condição de velha ou velho, por conta dos mitos e estereótipos relacionados à incapacidade, improdutividade e apequenamento da pessoa idosa, fatos hoje referenciados e associados à forma de preconceito conhecida como Idadismo. 

Mesmo a comunidade LGBTQIA+ está distante da pauta do envelhecimento e velhice e, infelizmente, muitas pessoas idosas que em tempos remotos lutaram para que usufruíssemos de nossos direitos hoje, estão submetidas ao esquecimento e ao abandono, muitas dessas ainda sofrendo um apagamento de suas histórias por desconstruírem sua identidade, tentando manter minimamente sua segurança num ambiente hostil junto daqueles que não têm a menor compreensão sobre as questões relacionadas a gênero e sexualidade, principalmente as que divergem do padrão socialmente estabelecido.

Confesso que perdido em minhas ideias me senti um tanto quanto envergonhado. A questão ali não era exatamente sobre idadismo, apesar de dialogar com ele. 

Fui buscar no “google” interpretações sobre “o que é usado” e uma delas me chamou a atenção: adaptado ou condicionado (a algo); habituado, acostumado.

A partir dessa leitura, consegui identificar a profundidade do meu estranhamento com a frase: Nós, pessoas LGBTQIA+ estamos condicionados a ocupar um lugar social imposto/permitido socialmente? Ou podemos ocupar os lugares que realmente queremos?

Partindo de um lugar que experiencio, de conforto e certo privilégio, ainda, sim, sei que não é fácil transgredir um sistema que formam corpos e identidades socioculturais por um olhar heterocisnormativo – uma perspectiva que padroniza pessoas a partir de um modelo centrado na heterossexualidade e cisgeneridade.

Consigo lembrar de vários momentos que não me senti seguro com minha orientação sexual e tentei forjar uma condição que não era exatamente a minha, anulando parte da minha identidade, mesmo que de forma temporária, em troca de uma aceitação, apoio ou uma falsa sensação de segurança. Em vários momentos fui usado por essa ideia centrada numa normalidade.

Penso então que para uma mulher transgênera de uma geração bem anterior a minha, a vida não tenha sido nada fácil. Para resistir e poder seguir viva e existindo socialmente, foi usada por esse sistema, subordinada a ocupar espaços sociais que ampliaram sua vulnerabilidade e exposição à violência. Ainda assim, como num processo de resiliência e resistência absurda, com uma força muito maior do que possamos imaginar, buscou estratégias para transformar essa realidade superando uma expectativa de vida que lhe é atribuída – que não sabemos ao certo se é de 35 anos de idade, mas temos certeza que é muito menor que os 72 anos atribuídos a pessoas cisgêneras – caminhando entre as fissuras de sistemas conservadores, perversos e violentos. Marcou sua presença e deu a visibilidade necessária para sua existência e demandas. 

Estar naquele momento, ocupando um espaço de visibilidade enquanto uma mulher transgênera idosa a torna uma grande mestra, permitindo-se mais uma vez ser usada socialmente para ilustrar uma realidade que muitas pessoas ainda insistem em invisibilizar, silenciar ou relativizar. Essa senhora promoveu a geratividade, “passando o bastão” de seu legado para todos nós que estávamos ali, cúmplices de seu apelo.  

Será que nessa atenção e toda energia investida ao longo de uma vida, para ser usada e ao mesmo tempo ressignificada socialmente, ainda resta tempo para se atentar a um corpo envelhecido, uma rede de suporte social diminuída e uma invisibilidade acentuada por ser uma pessoa LGBTQIA+ e idosa? 

Para mim e para várias pessoas que ali estavam essa senhora foi a grande protagonista desse encontro, perpetuando essa inquietude de uma frase tão simples, mas ao tempo densa. E no meu caso, posso dizer sem sombras de dúvida que fui afetado, transformado por suas palavras, e que estas se tornarão eternas em minha trajetória.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: com o Grêmio onde a internet estiver

Bahia 1×2 Grêmio

Campeonato Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador/BA

Gustavo Martins comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Férias nunca me afastaram do Grêmio. Para acompanhar seu desempenho e seus resultados, usei de todos os artifícios que encontrei. Já “assisti” a partidas a bordo do navio e com internet à lenha (o máximo que conseguia era atualizar o placar em um site); investi em uma “caixa mágica” que replicava minha TV a cabo em qualquer parte do mundo; e, confesso, recorri a transmissões alternativas quando nada mais me restava. Nem sempre esse esforço foi recompensando. Uma passagem de olhos em Avalanches escritas em tempos de férias mostra quão difícil já foi nossa vida para manter a audiência e a torcida — derrotas retumbantes, performances frustrantes e placares desfavoráveis me ajudaram a escrever essas crônicas no exterior.

A vida hoje é bem mais simples. Pouco antes da meia-noite, aqui na Itália, acessei a internet, preenchi uma ou duas vezes os pedidos de confirmação de email e senha, e as imagens do canal Premier estavam à disposição na tela do computador. Verdade que a internet do hotel em Orbetello ameaçava me deixar na mão em alguns momentos, atrasando a conclusão da jogada para  aumentar minha ansiedade. Nada parecido com que já sofri no passado. 

Assim como a tecnologia avançou, o Grêmio e seu futebol, também. Mesmo com os riscos que sofremos e o gol de empate que tomamos ainda no primeiro tempo, o desempenho gremista nesse início de rodada de Campeonato Brasileiro foi muito bom. Comemorei até gol anulado pelo VAR. A jogada que fez Suárez concluir às redes, no que deveria ter sido o gol da vitória, foi simbólica, desde o passe de costas de Villasanti, o cruzamento em um só toque de Bitello até o chute de primeira de nosso atacante.

Nos deixamos dominar pelo adversário em parte do primeiro tempo, apesar de termos iniciado melhores e marcado logo de início através de Cristaldo. Voltamos no segundo tempo com uma intensidade alucinante. Fico pensando o que teriam conversado no vestiário para sermos capazes de retomar o ritmo e a forma brilhante de passar a bola, se deslocar, receber e chutar. 

Villa e Bitello foram incríveis. Suárez com todas as limitações físicas e visíveis, consegue ser muito superior a qualquer outro vivente que se atreva a jogar futebol. Cuiabano entrou muito bem.

A defesa, depois dos primeiros desacertos de posição, manteve-se segura e foi decisiva nos dois gols. No primeiro, a jogada começou com um desarme de Kannemann na intermediária adversária. E o segundo teve a conclusão do jovem Gustavo Martins — naquela altura do jogo, um zagueiro aparecer dentro da área para marcar é sinal de muita disposição, fôlego e crença. 

A ressaltar a assistência de Ferreirinha que entrou nos minutos finais, depois de uma lesão que o tirou por mais de três meses do time, e com drible e precisão nos proporcionou a oportunidade dos três pontos que nos mantém na vice-liderança do Campeonato Brasileiro — uma posição alcançada apesar de derrotas que havíamos sofrido contra dois dos principais concorrentes ao título, que seguem atras de nós. Aliás, uma verdade que apenas confirma o que sempre pensei nestas competições de longo alcance. O título jamais se conquista em um só jogo ou contra um só adversário — li muitos gremistas vaticinando o pior depois daqueles placares adversos (“nos restará o meio da tabela” e “temos times só pra não cair”  — não adianta apagar porque eu já li). É o equilíbrio e a constância das vitórias que mantém vivas as nossas chances.

Se seremos capazes de manter esse ritmo considerando as duas competições que temos pela frente e as dificuldades que a necessidade de dar folgas a Suárez e seu joelho direito pode gerar, só o tempo dirá. De minha parte, esteja onde estiver, sempre depositarei esperança na vitória e meu esforço será jamais perder um só jogo do Grêmio, claro, desde que a tecnologia siga colaborando (já basta ter ficado longe da goleada contra o Coritiba por causa de compromissos com o lançamento de “Escute, expresse e fale!”).

Trabalho nas férias desde que a internet se comprava na venda

De Orbetello/Itália

A praça Eroe dei due mondi e o bar que vendia internet Foto: eu mesmo

Da primeira vez que estive aqui, sinal de internet se comprava na venda. Foi em 2008, época em que as atividades nesse blog eram intensas e a busca por um acesso à “rede mundial de computadores” — sim, naqueles tempos ainda era comum essa expressão —, uma aventura. Fui encontrá-lo no bar e tabacaria da praça principal de Orbetello, cidade italiana que estou hospedado desde o fim da semana passada e de onde me vou em seguida para outra cidade na vizinhança. Não tenho ideia de quantos euros me custavam uma hora de navegação em um dos computadores Windows à disposição. Lembro que a conexão era lenta e baixar fotos ou publicá-las exigiam um pouco de paciência.

Nesses 15 anos, muita coisa mudou — perdão, pela frase óbvia —, haja vista a facilidade com que publico esse texto, a partir do 5G de meu celular e diretamente da areia da praia. O bar e tabacaria, não mudaram. Tão pouco, a praça principal,  Eroe dei due mondi — referência a Giuseppe Garibaldi, que fez das suas lá pelas bandas do Rio Grande do Sul e talvez seja lembrado por alguns como o marido da Anita (a Garibaldi). 

Minha presença aqui no Argentário e arredores se tornou frequente desde que conheci a região. Uma casa de familiares próximos, nos altos da praia de Ansedonia, com vista para o Tirreno, tornaram acessível as férias na Itália, a despeito da valorização do Euro, do aumento do preço da passagem de avião e da perda de poder aquisitivo no Brasil – longe de mim reclamar diante dos privilégios que a vida me ofereceu.

A pandemia deixou-me a Itália distante e somente agora conseguimos retornar com tranquilidade, não sem antes sentir as emoções que Portugal me reservava.

Na primeira semana de “férias” — as aspas explico mais adiante —, vivenciei um dos momentos mais realizadores da quase sexagenária experiência que tenho. Ao lado de três colegas autores, lancei o livro “Escute, expresse e fale! Domine a comunicação e seja um líder poderoso”, em Lisboa, Porto e Cascais. Em acordo com a editora Rocco, que já nos deu o prazer de publicar a terceira edição, no Brasil, a portuguesa Escolar Editora levará o livro aos demais países de língua portuguesa. 

Com Antònio Sacavèm, Thomas Brieu e Leny Kyrillos, tivemos a a oportunidade de encontrar leitores em dias de extremo calor, muita alegria e tertúlia. Fizemos apresentações nas três cidades, diante de uma plateia entusiasmada e interessada em saber mais sobre o poder da comunicação nas relações humanas. Encontrei ouvintes além-mar, amigos que estavam distantes, brasileiros expatriados e lusitanos que me foram apresentados – uma gente que talvez nunca saberá exatamente o que a presença dela nas livrarias significou no meu coração. E se pensa que sabe, vou contar-lhe: dobre esse significado, multiplique quantas vezes for capaz de imaginar e talvez você se aproxime da satisfação que esses momentos me proporcionaram.

Fomos os primeiros autores brasileiros publicados pela Escolar Editora que pretende repetir essa experiência com outros escritores da minha terra — e saber disso me fez ainda mais realizado.

Quando a Rocco acreditou em nosso potencial, ainda em 2022, também estava atrás de autores brasileiros, o que nos permitiu concretizar o sonho de publicarmos um livro que alguns entendiam ser de pouco alcance: “o leitor não gosta de livro com muitos autores”, me disse um editor. Realmente, livro de muitos autores são complexos, o que apenas valoriza o esforço que Antònio, Thomas, Leny e eu tivemos de fazer para a escrita traduzir os múltiplos conhecimentos, culturas e sotaques em um diálogo próximo do leitor como se fossemos um só a falar.

Sei que colegas que permanecem no Brasil, a comandar o Jornal da CBN (leia-se Cássia Godoy e Marcella Lourenzetto), e seus cúmplices têm cometido o crime de difamação contra este que lhe escreve. Usam a força do rádio para construir a imagem de que sou o “Rei das Férias” quando, de verdade, mal consigo usar o tempo previsto em lei para relaxar. 

Perceba, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, que a primeira semana fora do Brasil foi a trabalho: lançar livro, fazer palestra e costurar novos negócios exigem habilidade profissional, apuro técnico, competência relacional e conhecimento psicossocial. Agora, já na Itália, cá estou escrevendo, o que também tem relação com meu trabalho. E seguirei a fazê-lo inclusive lançando novos colaboradores — não deixe de voltar ao blog nesta segunda-feira — e retomando uma prática esquecida no tempo: a de falar da vida, do cotidiano, de fatos comezinhos e compartilhar tudo isso com você que ainda está por aqui — um desejo que me tomou quando em pesquisa no blog descobri o primeiro texto escrito, aqui de Orbetello, lá em 2008, na época em que internet se comprava na venda. Desde lá, trabalho nas férias. Com muito prazer!

Conte Sua História de São Paulo: meus personagens da Vila Jafet

Olga Pereira Pinto da Silva

Ouvinte da CBN

Palácio da família Jafet, no Ipiranga

Meu nome é Olga Pereira Pinto da Silva. Tenho 78 anos. Morei, dos sete aos 15 anos na Vila Jafet, no Ipiranga. Todas as casas dessa vila eram destinadas aos trabalhadores da tecelagem e estamparia Jafet. Em todas as residências havia crianças e adolescentes — amiguinhos que até hoje guardo na lembrança. Meu pai era funcionário da fábrica.  

Minha infância foi marcada por personagens interessantes. O Sr. Armando vinha com seu veículo cheio de pães de todos os tipos e as nossas mães,  todo dia, compravam os deliciosos produtos. O que eu mais gostava eram os pães doces. Maravilhosos! O padeiro atendia a todas com muita educação e sempre bem humorado.

O Sr. Paco, um simpático espanhol, era o verdureiro. Chegava com sua carroça lotada de frutas, verduras e legumes. Minha mãe era sua freguesa assídua. Mas ela reclamava, pois ele chegava bem na hora do almoço,  quando ela estava servindo à mesa e tinha que largar tudo para fazer a compra….  porém, minha mãe o elogiava pelos produtos frescos e de boa qualidade.

O mais esperado e o mais querido de todas as crianças era,  sem dúvida,  o sorveteiro, sr. Jean. Ele era um senhor belga, falando um português com sotaque francês, o que lhe dava um charme especial. Seus sorvetes de massa eram divinos. A gente tinha que levar um copo de vidro, no qual ele punha as bolas do que, para mim, eram verdadeiros manás dos céus.  

Às vezes, fico pensando que todas estas personagens da minha infância já estejam em outro plano quem sabe saboreando as alegrias que nos ofereceram aqui na terra.

Ouça aqui o texto completo do Conte Sua História de São Paulo de Olha Pereira com narração de Mílton Jung

Olguita Maria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: flanando nas lembranças da cidade

por Adair Loredo

Ouvinte da CBN

Photo by Vinu00edcius Pimenta on Pexels.com

Num sábado qualquer, decidi passear pelo centro de São Paulo. Não tinha ideia por quais ruas ou lugares passaria. O meu destino era incerto. Me entregaria ao acaso, sem hora para chegar a qualquer lugar. Sem itinerário fixo, e nem horário para retornar. A única fixação que tomava conta de mim era sair e perambular pelos locais que um dia fizeram parte da minha vida, que me transformaram na pessoa que sou hoje.

Queria fazer algo diferente daquilo que fazia desde 1981, quando tinha 14 anos, e saía de Ferraz de Vasconcelos para trabalhar no centro de São Paulo, como office boy.  Naquela época, o meu tempo era cronometrado. O olho sempre fixo nos ponteiros do relógio para não me atrasar. Aliás, o tempo não era meu, ele não me pertencia. Fui engolido por ele, que mastigou a minha infância e cuspiu o resto que juntei ao longo da minha juventude. Só me restou a opção de buscar a sobrevivência por meio dos estudos e do trabalho prematuro.

São Paulo transforma, tanto para o bem quanto pro mal. Dá mas também nos tira muitas coisas. Quem vive aqui, se choca com os contrastes construídos por misturas de vidas, histórias, horrores, tragédias e belezas.

Caminhei pelos calçadões de pedras portuguesas da Praça da Sé até o local onde fui apresentado a ela: Praça Antônio Prado, número 33. Aqui foi um divisor de águas. Tudo foi diferente depois desse trabalho. Não foi o meu primeiro, mas foi onde encontrei alternativas que poderiam converter a vida pacata em novas oportunidades.

Parado na frente do prédio lembrava da minha chegada acanhada no primeiro dia. O olhar sempre em direção ao chão. Tudo era muito estranho. Eu tinha medo de não me adaptar. Pensei em desistir ao fim da primeira semana. Queria voltar para a minha cidade e me ocupar com o serviço de antes: engraxar sapatos na Praça Independência, em frente a estação de trem.

O meu gerente percebeu que eu estava deslocado naquele ambiente, quando me convidou à sua sala e me disse: “não desista garoto, você tem capacidade para enfrentar os novos desafios. Siga em frente…”. Foi o que fiz!

Hoje estou aqui de volta. Muita coisa mudou. Parado no meio da praça, observava as pessoas caminhando, de um lado para o outro, os prédios, as loja. Contudo, eu só conseguia ver o meu passado. A cidade se esvaziou. Não mudou para mim, porque há mais lembranças guardadas na memória. As áreas públicas tem menos verde, e muita sujeira espalhadas pelas vias públicas.

Enquanto me refrescava na sombra que vinha do antigo prédio do Banespa, olhava para o relógio instalado no ponto inicial da Avenida São João, sem funcionar, enferrujado e com a sua estrutura de mármore toda empoeirada. Não estava lá o coreto, local onde populares e apoiadores do movimento Diretas Já, costumavam se aquecer, antes de se dirigirem ao Largo do Anhangabaú e Praça da Sé. Os engraxates profissionais também desapareceram. A banca de revistas e periódicos, onde comprei o meu primeiro jornal: O Estado de São Paulo já não ocupava o seu lugar.

Atravessei a praça e Fui até a esquina com a Rua São Bento. Neste lugar funcionava a loja de roupas masculinas Ducal, onde comprei minhas primeiras calças e camisas sociais, com a gratificação que ganhei, por ter alcançado em primeiro lugar, as metas estabelecidas pelo meu gerente. A alegria tomava conta de mim.

Me lembro da felicidade da minha mãe quando, no portão de casa, me viu chegar com as sacolas cheias de roupas novas. Ela cuidava com tanto carinho, que até passou a engomar as golas das camisas.

Caminhei pela São João. A minha direita estava o prédio antigo do Correio, ao seu lado o Viaduto do Chá, por onde eu atravessava todos os dias, com a minha pasta de plástico cheia de documentos que deveriam ser entregues em alguma escritório, empresa, banco ou cartórios. A esquerda o Vale do Anhangabaú, que passou por reformas. Mais a frente, o Largo do Paissandu, e a sua volta várias tendas improvisadas para abrigar moradores de rua.

Encontrei-me com o prédio do SPCine, que dava sinais de total abandono. Continuei minha andança e cheguei nas esquinas da São João com a Ipiranga, e, para a minha tristeza, notei que os cines Marabá e o República também estavam com suas atividades encerradas. Estes cinemas foram palcos de grandes exibições de filmes e atraiam pessoas de vários pontos do Estado. Recordo do dia em que eu e o meu irmão fomos ao Marabá assistir ao lançamento do filme “Rambo – programado para matar”. Era uma tarde de domingo, ensolarada. Nas mãos pipocas e refrigerantes. Os olhos atentos na sequência de imagens vindas do videoteipe projetadas no telão.

O passeio e as lembranças pareciam não ter fim, mas agora já era noite e o cenário não era mais o mesmo daquela época. As ruas com iluminação precária, e vários comércios com suas portas fechadas, em total abandono e degradação. Retornei às minhas lembranças em que São Paulo era mais linda.

Adair Loredo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.