Thiago Santos comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
“É ruim contra ruim” disse o filósofo esportivo das redes sociais, Casimiro, há algumas rodadas, após assistir ao time de coração dele perder para o meu time de coração. Do seu jeito, eloquente e hiperbólico, que conquistou o Brasil — e meus guris aqui em casa —- definiu bem a “Maior Série B de Todos os Tempos” — foi esse o título que o pessoal do marketing batizou a competição que reúne seis ex-campeões brasileiros e põe em jogo quatro vagas de acesso à primeira divisão. Esqueceu de combinar com os times.
Dentre a criatividade dos publicitários e a fala crua do comentarista, fico com esse último. É a realidade de um campeonato em que ver seu time jogar fora de casa tem se transformando em um martírio. Com a exceção de praxe que toda regra nos impõe, os clubes de melhor desempenho não têm muito mais do que 50% de aproveitamento como visitante. Uma performance mediana, sinônimo de medíocre. Por isso, garantir os três pontos em casa faz diferença na competição.
O Grêmio perdeu dois pontos hoje à tarde, depois de um primeiro tempo em que jogou melhor e desperdiçou seus ataques. Foi punido com um gol nos acréscimos, no único lance em que o adversário impôs perigo. No segundo tempo, foi um deus-nos-acuda: o Grêmio subia de maneira desorganizada, tomava decisões erradas e sequer conseguia desperdiçar gols, pois não era capaz de proporcionar perigo dentro da área adversária.
No raro momento em que fizemos uma jogada de linha de fundo, Guilherme, que entrou no intervalo e não precisou de cinco minutos com a bola nos pés para ser vaiado pelo torcedor, fez um cruzamento preciso para Thiago Santos concluir de cabeça. Nosso volante, outro que havia entrado no intervalo para desespero de parcela da torcida, que até hoje o vê como símbolo do rebaixamento (em tempo: há gente muito mais culpada pelo que aconteceu com o Grêmio), estava predestinado a marcar. Momentos antes havia concluído para as redes, em um gol anulado devido a um impedimento na origem da jogada. E não teve mais uma chance, naquele que poderia ter sido o gol da virada, porque Diego Souza se precipitou sobre ele na conclusão de um lance de área, nos acréscimos.
O resultado final só não foi lamentado porque a combinação da rodada conspirou a favor, com o empate entre os outros dois times que buscam à classificação —- um deles, o de Casimiro —, em jogo, aliás, que não se encerrou devido a violência de torcedores e a invasão de campo. Cenas de entristecer e desmerecer o título que os marqueteiros deram ao Brasileiro B.
A três rodadas do fim do Campeonato, o Grêmio está mais próximo do acesso. Nem tanto pelo que tem feito nessas últimas partidas. Muito mais pelo que seus adversários deixam de fazer. A preocupar, o fato de dois desses jogos serem fora de casa e o Grêmio terá de mudar a rotina da B fazendo ao menos três pontos no estádio adversário —- um deles o do Náutico, no Recife, domingo que vem, o mesmo cenário da Batalha dos Aflitos. Aflitos? Sim, aflitos é como estamos nós torcedores nesses momentos finais de uma disputa que, como diz o filósofo Casimiro, “é ruim contra ruim”.
Sou nascido e criado na Penha nos idos de 1960. O primeiro aparelho de televisão da família só veio quando eu tinha 10 anos. Logo, minha infância era ilustrada pelo rádio e pelas imagens que ele me fazia tecer na mente. O som das músicas que meus pais ouviam, embalavam meus sonhos de menino pobre na distante periferia da cidade de São Paulo.
Aos seis anos, por causa da Copa de 1970, eu descobri o futebol e nos anos seguintes as transmissões esportivas, foi uma festa! Quantas vezes não nos emocionamos com os gritos de gol de Fiori Giglioti, Oscar Ulisses, Dualcei Camargo, Waldir Amaral, Osmar Santos .… Também Cantamos com Chico, Caetano, Gil , Elis , Paulinho da Viola …
Comecei a ouvir a Rádio Nacional que anos depois viraria a Rádio Globo. Tinha a portentosa voz de Pedro Luís, que preenchia todos os espaços da sala. Achava o máximo ouvir as ondas curtas, que sintonizava o futebol do Paraná, do Rio Grande do Sul e de tantos outros lugares .
Um dia ganhei um rádio de pilha de seu Bene, o meu pai . Aí era um desfile de comunicadores quando voltava da escola: música, informação, notícia e, claro, muito esporte bretão aos fins de semana.
Cresci filho do rádio, quando já adulto e com alguns anos de profissão, veio a CBN Primeiras Notícias e Jornal da CBN. Como trabalhava o dia todo, só conseguia ouvir de novo na volta pra casa, mas eram vocês da emissora que como até hoje fazem me punham a par do que acontece no Brasil e no mundo. Sempre foram nossa janela para o mundo.
O rádio fez-se um de meus melhores amigos, e é como conhecêssemos cada um de vocês que estão sempre em nossos lares, nossos computadores, no rádio do carro: o Milton, a Cássia, o Paschoal, o Sardenberg, os meninos do Hora de Expediente, o PVC o Atala, o Rusty, a Andrea, a Natuza, o Lauro são nossa família estendida, com quem conversamos quando estão no ar, com quem nos preocupamos em saber se estão bem de saúde, quando voltam das férias, porque não estão no ar do dia de hoje. Aconteceu alguma coisa?
Somos sim uma grande família, nós os ouvintes somos gratos por vocês existirem e encherem nossas vidas de carinho e atenção. O rádio faz parte da gente, atentos ouvintes.
Viva o rádio, viva todos os profissionais que não medem esforços no microfone, na redação, nas externas, nas análises para nos nutrir com as notícias nossas de cada dia. Muito obrigado ao rádio e a vocês que fazem o rádio para nós!
Ismael Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo, especial 100 anos de rádio. A sonorização é do Cláudio Antonio. A partir de outubro, voltamos a nossa programação normal. Então, aproveite e escreva agora mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br
“A gente precisa, na nossa cabeça, determinar as prioridades. Aquilo que te faz bem. A gente precisa aprender a ter um autoconhecimento e saber, realmente, olhar para dentro de você”
Ligia Buonamici, empresária
Entre os sonhos e as realizações existe um oceano —- parafraseando aqui dito italiano que busca revelar a distância que separa ações de intenções. Para a empresária Ligia Buonamici, CEO da Liz Lingerie, isso não era um problema, mesmo que, no início, a ideia fosse construir uma escola de línguas. O ramo da educação foi deixado de lado, mesmo após a busca de especialização nos Estados Unidos, quando decidiu morar em Fortaleza com um namorado. Lá a oportunidade que surgiu foi em uma fábrica de lingerie — setor que a conquistou e no qual atua há mais de 30 anos.
O conhecimento e o gosto por língua estrangeira não foram em vão. Na fábrica de lingerie, Ligia era responsável, entre outras atividades, a apresentar as coleções para comitivas de americanos, além de ter contato com negociadores de outros países — ela domina com fluência cinco línguas. Em seguida migrou para a área de desenvolvimento de produtos, o que a obrigou a retornar à sala de aula:
“Eu me apaixonei (pelo setor) e tive que estudar tudo de novo. Eu me aprofundei bastante em todos os assuntos que envolviam desde o desenvolvimento do produto até a entrega desse produto na mão da consumidora. Foi aí que me encantei pelo marketing, pelo comercial”
A escolha por uma empresa de médio porte, na época, foi consciente. Segundo Ligia, havia o desejo de buscar desafios intelectuais e, ao mesmo tempo, crescer rapidamente. Empresas desse tamanho, de acordo com a empresária, tendem a oferecer essas possibilidades:
“Eu poderia no momento criar o meu negócio ou ir para uma multinacional. Às vezes, em um negócio pequeno, sem muito capital, você acaba tendo uma realização, sim, mas uma um desafio intelectual menor — e isso era uma questão muito forte para mim. Em uma multinacional, você tem esse desafio intelectual, mas geralmente os planos de carreiras são mais alongados”.
O tema do conhecimento aparece em vários momentos da nossa conversa no Mundo Corporativo. Ao ser convidada para dar sugestões aos profissionais que pensam em se desenvolver na carreira e estarem preparados para os diversos desafios que surgem, Ligia lembra da imagem que mantém em um quadro na sua empresa, onde estão três copinhos: o do conhecimento, o das atitudes e o dos valores. É preciso mantê-los cheios o tempo todo.
O conhecimento precisa ser atualizado a todo instante. Para ela, um bom sinal de que esse “copinho” está se esvaziando é quando passamos a repetir com muita frequência a expressão “no meu tempo”. Cuidado! Por mais que a maturidade seja uma referência importante, é preciso estar sintonizado com os tempos atuais.
As atitudes devem ser lapidadas a todo momento. E Ligia usa sua própria experiência para mostrar que é possível fazer mudanças. Disse que era uma pessoa muito agressiva e intensa no trabalho e, atualmente, consegue ouvir mais, considerar os feedbacks e ser mais permeável. Uma transformação que a fez crescer como ser humano.
Os valores são intrínsecos. E quando fala em valores, se refere a responsabilidade, honestidade e ética. Para Ligia, esses são mais difíceis de serem moldados porque estão no seu âmago.
“Preste atenção nos copinhos. Faça a análise dos seus copinhos, diariamente ou semanalmente. E procure sempre fazer o que você gosta, o que você ama. Porque levantar todo o dia, passar horas fazendo alguma coisa que não te traze um prazer, uma emoção, não é a melhor forma de você viver a sua vida”.
Assista à entrevista completa com Ligia Buonamici, CEO da Liz Lingerie, onde também falamos da importância de se investir em diversidade, da projeção que as mulheres estão conquistando no mercado de trabalho, do desfio de se sobreviver à intensa transformação digital, além de um alerta para que se tenha uma vida mais saudável no ambiente de trabalho:
O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
“Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi.” Giuseppe Tomasi di Lampedusa
“É preciso que as coisas mudem para que elas permaneçam.” Assim respondeu a Rainha Elizabeth II, quando o jornalista perguntou a respeito dos seus 70 anos de reinado. Era uma referência à frase original, que pertence à obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e está impressa no livro ‘Il Gattopardo (O Leopardo)’, publicado em 1958, sobre a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento. Ganhou fama e as telas de cinema cinco anos depois, em filme assinado por Luchino Visconti e com Alain Delon no papel de Tancredi – descrito como arruinado e simpático oportunista ‘Príncipe de Falconeri’. Perante a possibilidade de mudança, a aristocracia resolve pactuar com a burguesia para a sobrevivência de ambas, e Tancredi anuncia ao tio, Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, que se unirá aos revoltosos e ,na tentativa de convertê-lo, imortaliza o ensinamento:
“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”
A frase me veio à mente quando da morte da Rainha Elizabeth II que, aos 96 anos de vida e 70 de reinado, manteve-se respeitada e a mais atual que as regras da monarquia permitiam. A Rainha foi capaz de sobreviver, nessas sete décadas que manteve a coroa, com sua imagem icônica, dentre outros fatores, por ter sabido se adaptar ao tempo, ter mudado para que tudo permanecesse igual.
Inspiro-me na lição de Lampedusa e na rigidez de padrões que pauta o reinado, para convidar você a pensar sobre a necessidade de adaptação da prática protocolar nos tempos atuais, destacando não apenas os papeis de Mestre de Cerimônias e cerimonialista – com os quais tenho intimidade profissional -, mas refletindo, também, sobre até que ponto a liturgia do cargo das autoridades deve se moldar às novas realidades.
Passamos, necessariamente, por uma atualização na forma de executar os eventos, devido ao momento pandêmico. Regime de exceção, é lógico. Foram praticamente dois anos de desespero pelas faltas de trabalho e contato interpessoal. Tempo que nos desafiou a continuar. A transmissão via internet foi o que possibilitou a realização de uma demanda de eventos e, de lá pra cá, a modalidade foi incorporada tornando-os híbridos e ampliando a participação do público.
Mesmo na minha área de atuação, a de Cerimonial Público, as transmissões online se fizeram presentes e os canais das redes sociais entraram nos endereços dos, até então, “imexíveis” convites oficiais do Governo. Foi um aprendizado à força, com acontecimentos senão constrangedores, por vezes engraçados – mas isso fica para outra conversa. Fiquemos com os protocolos!
A rigidez dos padrões têm cedido à nova dinâmica do cotidiano. A rapidez da evolução tecnológica nos empurra para isso. Um dos questionamentos é quanto à interminável lista do “Prestigiam”, que costuma abrir os eventos ou os “Vocativos” das autoridades. Talvez o espaço para a leitura dessa lista de nomes e cargos pudesse ser ocupado por citações mais genéricas, focando no discurso, no conteúdo da fala.
Precisamos entender que o vocativo, mesmo que pareça entediante em determinados momentos, dignifica o evento, que tem sua importância expressa pela presença dos representantes de outros poderes, instituições e da sociedade civil. Não é, portanto, tão somente uma leitura de nomes e cargos. Ainda assim, temos percebido que parcela das pessoas gosta de algo mais informal e com menos pronomes de tratamento. Preferindo um “papo reto” – como se diz na gíria.
Há quem defenda que se substitua o formato tradicional das cerimônias, inclusive as públicas, por cenários e roteiros que lembrem programas de televisão, com a ideia de descontrair o ambiente. Nos cerimoniais e, em especial, no cerimonial público, essa liberalidade pode gerar conflitos ou revelar a insensibilidade dos organizadores. Ao transformar o protocolar em programa de auditório corre-se o risco de se desprestigiar os demais poderes que participam do evento. E como você sabe, todo mundo quer “aparecer na foto”. Dar destaque e seguir a precedência é a forma com que se construiu uma sociedade, que levou tempo para se organizar.
Isso não significa que mudanças não devam ser realizadas, nem que tenham deixado de acontecer, especialmente do ponto de vista tecnológico. Os equipamentos estão muito mais avançados. Microfones têm cápsulas mais sensíveis, amplificadores mais potentes, dando voz até mesmo a quem não tem um padrão adequado para se pronunciar. Os registros e transmissões de fotos e vídeos são imediatos, feitos em celulares e não dando chance de se editar os erros.
Essas transformações moldam gerações. Vamos lembrar das belas e potentes vozes que marcaram o início da ‘Era do Rádio’. Naquela época, os cantores se apresentavam ao vivo, ao lado das orquestras e dentro de estúdios. Os microfones e equipamentos não eram tão modernos e sensíveis como os de hoje. Se o cantor ou cantora não tivesse uma voz potente, ninguém os escutaria – a carreira acabava ali mesmo. Os locutores, da mesma forma. Todos com a conhecida “Voz de Peito”.
Voltemos a nos inspirar na Rainha para refletir sobre o cerimonial dos novos tempos. O que teria mudado em seus 70 anos de coroa para que permanecesse uma liderança? É certo que da missa não se sabe um terço, mas é bem provável que o “discurso”. Sim, o discurso se adaptou ao tempo dos smartphones. O conteúdo também, ao tratar de questões mais relevantes para o desenvolvimento das nações. A imagem da Rainha se transformou: sempre alinhada, moderna ao estilo de uma senhora, sem ficar com a imagem do ranço da corte, mas da elegância que ela nos ensina. Se manteve mulher nesse mundo onde sabemos que elas ainda têm muito para lutar. Ainda mais nessas terras Tupiniquins.
Por falar em Brasil, não devemos esquecer de nossas peculiaridades. Ao mesmo tempo em que assistimos aos eventos em formato de arena, com telões digitais ao centro, aproximando-nos de personalidades mundiais em tempo real, até mesmo com o uso de holografia, metaverso e as mais avançadas tecnologias, ainda fazemos inaugurações de trechos asfálticos, trevos de acesso e portais de cidades com tribunas emprestadas de câmaras de vereadores, em palcos de madeira ou aboletados na caçamba de caminhões, com dezenas de autoridades amontoadas e se equilibrando para aparecer na primeira página da próxima edição do jornal local.
Do Palácio de Buckingham às praças de Sucupira, de tudo ainda temos um pouco.
Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônia. Este texto foi publicado originalmente no site Coletiva.net
Diego comemora mais um gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O Grêmio pode garantir passagem à Série A daqui uma semana, jogando diante da torcida, foi o que disseram os jornalistas esportivos durante a jornada desta tarde de sábado. Vai depender da combinação de resultados dos demais jogos e, claro, de uma vitória em casa na próxima rodada.
Não me esforcei a entender essa matemática porque precisa tirar pontos daqui, colocar outros ali e somar onde é possível chegar. Perda de tempo, agora. A ascensão está próxima quase que por inércia. Mesmo que a campanha seja de altos e baixos, de vitórias, de algumas derrotas e de muitos empates, os adversários colaboram em seus tropeços. Se não der domingo que vem, dará na sequência. Temos três rodadas para alguma coisa dar certo. Talvez até consigamos subir enfrentando o Náutico, no Recife — o que, convenhamos, não seria uma novidade.
Hoje, foi mais do mesmo. Um time de contradições. Quando esteve melhor, não conseguiu transformar a performance em gol. Quando o desempenho piorou, marcou. Contou com a presença dentro da área de Diego Souza, o atacante que ainda tem torcedor com coragem de reclamar. Subiu mais alto e de cabeça concluiu para as redes. Como sempre.
No segundo tempo, o técnico decidiu “fechar a casinha” — no meu tempo chamavam isso de retranca. E foi aí mesmo que a “casinha” se abriu. Escalou nove jogadores da intermediária para trás: um goleiro, dois zagueiros, três laterais e três volantes. Com tal congestionamento não é de se surpreender que uma bola haveria de resvalar na mão de alguém. Pênalti visto pelo olho eletrônico. E cobrado no meio do gol. Gol! Como sempre.
De diferente mesmo só o fato de ter sido o primeiro ponto conquistado fora de casa sob o comando do novo-velho treinador — até aqui, longe da Arena, só havia somado derrotas. A despeito de tudo isso, voltaremos à Primeira Divisão, como sempre!
O rádio fez parte da minha vida desde muito cedo. Eu era criança, cursava o (antigo) grupo escolar e todas as noites, após o jantar, meu pai ligava o rádio na Rádio Nacional para ouvir o Repórter Esso.
Meu pai era metalúrgico nas Oficinas Dedini, em Piracicaba; cursou a escola rural só até o terceiro ano, mas gostava de ouvir as notícias e aprender. Ele me colocava sentada ao seu lado, abria um Atlas Geográfico que comprara e ficava a buscar os locais e a me ensinar quem eram as pessoas, onde ficavam os lugares e o que estava acontecendo.
E foi assim que, antes dos 10 anos, pude “conhecer” Patrice Lumumba, o líder anticolonial congolês assassinado em Catanga em 1961; aprendi também sobre Chiang Kai-shek, figura controversa que serviu como Presidente da República Popular da China e depois, de Taiwan.
Foram muitas descobertas sobre personalidades ligadas à política, à Igreja e ao cinema. Mesmo sem entender do assunto, conhecia muitos nomes da política nacional: Carlos Lacerda, Jânio Quadros, João Goulart, Brochado da Rocha e tantos outros.
Claro que eu e meu pai não sabíamos como era conduzida a linha editorial daquele jornal, mas era muito bom ouvir “Alô, alô, Repórter Esso” e “testemunha ocular da História”.
O tempo passou, cresci, vim de Piracicaba para São Paulo para estudar. Aqui conheci um gaúcho “do” Alegrete (RS), apaixonado pela Rádio Guaíba, onde ouvia pelas Ondas Curtas noticiário e futebol e torcia apaixonadamente pelo Grêmio! Imaginem, que ali conheci o “primeiro” Milton Jung!!!
Casamo-nos e ele trouxe consigo seu aparelho de Rádio Philips, com ondas curtas, médias e frequência modulada! Trouxe também um aparelho de rádio amador, sua outra paixão, onde conheceu muita gente e acompanhou jornadas como a de Amyr Klink.
Em razão do trabalho, mudamo-nos para Irecê, na Bahia, onde ficamos por três anos. Ali, o rádio era nosso maior contato com o mundo para saber as notícias; e o aparelho de rádio amador muitas vezes atendeu às necessidades de pessoas para falarem com suas famílias, principalmente os padres do local que, na época, eram italianos. Depois de mais algumas mudanças, retornamos a São Paulo, eu em 1998 e ele em 2000.
Aqui, logo descobri a CBN e passei a ouví-la em casa e depois no carro, até chegar ao trabalho ou durante o dia enquanto rodava pela cidade, também a trabalho, ou retornava à casa. E sozinha, contestava alguns comentários ou esbravejava em voz alta com algumas notícias.
Na época, o Jornal da CBN era ancorado por Heródoto Barbeiro e uma das minhas comentaristas preferidas era Lúcia Hippolito: “porque você sabe, né, Heródoto, que o PMDB não é para amadores”… Saudades dela!!!! E, em 2000, também conheci o Milton Jung Jr., comandando o CBN SP e mais tarde, a partir de 2011, o Jornal da CBN. E continuo a acompanhar as notícias.
E continuo a ouvir, a concordar e a discordar de algumas análises, ainda contestando as falas em voz alta. Sim, me permito às vezes discordar de grandes comentaristas porque disso é feita a Democracia: da possibilidade e liberdade de discordar civilizadamente de conceitos, opiniões e análises.
Ouço Sardemberg, Dan, Teco Medina, José Godoy, Merval, Miriam Leitão e os excelentes comentários sobre Educação de Ricardo Henriques, além do O mundo em meia hora. Não posso esquecer dos muitos outros comentaristas de política, saúde, esportes, tecnologia, agro, cozinha, etc.
E há algum tempo, a possibilidade de ouvir todos esses comentários em podcast, tornou o rádio ainda mais companheiro.
O rádio está completando 100 anos e eu acompanho a evolução no Brasil há aproximadamente 60; creio ter sido uma grande jornada em ótima companhia
Maria Dusolina Rovina Castro Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo, especial 100 anos do Rádio. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br
“Não dá para ter medo, porque o medo tem dois lados: dá aquela aquela sensação gostosa, ao mesmo tempo que te trava. Não dá para ter medo, mas você precisa saber onde você tá pisando. Não dá para ir de olhos fechados”.
Fabiola Meira, advogada
A secretária falta, o funcionário se atrasa, os boletos do escritório não param de chegar, o aluguel aumenta e os clientes sempre querem mais e mais. É o que você ganha quando decide ser protagonista do seu próprio negócio em lugar de seguir prestando serviço a outras empresas e empregadores.
Foi esse o desafio que a advogada Fabíola Meira decidiu encarar em um dos momentos mais sensíveis para uma mulher: o nascimento do primeiro filho. Desconfia que o puerpério — esse estágio na vida de todas as mães, no qual enfrentam transformações hormonais, físicas e emocionais — tenha influenciado na decisão de deixar um emprego seguro para tocar o próprio escritório de advocacia. Uma desconfiança que se expressa em tom de brincadeira porque Fabíola sabe que tinha outros ótimos argumentos para deixar o escritório em que trabalhava há 15 anos:
“Eu queria alguma coisa bem especializada para os clientes. Que eles sentissem que estavam sendo acolhidos, cuidados, com alguma coisa muito específica”.
Diante disso, vem a primeira lição para profissionais liberais que pretendam seguir carreira própria. Fabíola conversou com muita gente do mercado em que atua, fez várias reuniões com escritórios de advocacia e elencou argumentos antes de tomar sua decisão. O segundo passo foi entender se seria seguida por sua equipe no escritório em que já atuava e por seus clientes —- já que tinha uma carteira bastante robusta na área de direito do consumidor, que foi na qual se especializou. Não dá para começar do zero.
A terceira lição que se tira da experiência da Fabíola é que, mesmo não sendo a “dona” desenvolveu uma visão empreendedora — especialmente, quando sugeriu que a área dela fosse administrada de forma independente no escritório que atuava no modelo “full service”, ou seja, prestava serviços jurídicos com a oferta de especializações nas diversas áreas do direito.
Nossa entrevistada no programa Mundo Corporativo também contou com uma ajuda extra e importante em momentos decisivos de nossas carreiras: o da família. Seja pela experiência que o pai tinha em escritório próprio seja no impulso que o marido dela ofereceu, incentivando-a a abrir o seu. Fabíola que, na frase que abre este texto, pede para não se ter medo, confessa que teve. E para superá-lo, pesou dores e prazeres:
“Apesar das preocupações, tem um lado gostoso de você ver que as coisas estão acontecendo da sua forma, que você está crescendo, que você está desenvolvendo outras pessoas na carreira, que tem um toque seu nas coisas. Tem as dores, mas também tem um lado muito positivo”.
Acho que você, caro e raro leitor deste blog, já percebeu que a Fabíola tomou a decisão de ser “dona do seu próprio nariz” ao mesmo tempo em que teve o primeiro filho. O que não contei ainda para você é que este filho nasce depois dela ter completado 40 anos —- uma decisão que muitas mulheres têm adotado ou pensam em adotar atualmente, com a intenção de, antes de ser mãe, garantir estabilidade profissional e financeira.
Assim como nos ensina sobre como se transformar em uma profissional liberal e abrir negócio próprio, Fabíola também usa nossa conversa para orientar outras mulheres que queiram aproveitar a maternidade com maturidade: congelem seus óvulos. Um alerta que só foi ouvir — e de amigas — quando estava com 38 ou 39 anos, motivo que lhe causou angústia. Entende que é preciso falar desse tema, porque muitas mães têm filhos aos 44 ou 45 anos e não contam que o tiveram a partir da fertilização in vitro e não em uma fecundação natural:
“Eu não tenho vergonha nenhuma de dizer isso, até porque eu acho que isso a gente precisa falar para outras mulheres. É um assunto que muitas mulheres escondem e isso acaba atrapalhando. Tenho amigas que engravidaram naturalmente depois dos 40 anos. Mas não é a regra”.
Assista à entrevista completa com a advogada Fabíola Meira na qual conta, também, sobre as mudanças que as empresas tiveram de fazer para atender as demandas do consumidor diante da pandemia do coronavírus.
O Mundo Corporativo tem as colaborações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
Lucas Leiva comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Dois têm 37 anos. O terceiro, tem 35. Os três têm muita história boa para contar. Têm dores e sofrimentos para compartilhar, também. Enxergam o futebol como poucos jogadores o fazem dentro de campo. E exercem uma liderança difícil de ser medida para quem nunca viveu o cotidiano do vestiário de futebol, local em que dramas pessoais, fragilidades emocionais e disputas internas contaminam o ambiente. Situações que precisam ser atendidas na conversa ao pé de ouvido, no puxão de orelha diante dos colegas e, às vezes, em uma chacoalhada de ânimo, naquela corrente de abraços que mais parece curso de autoajuda.
Geromel e Diego Souza (os de 37) e Lucas Leiva (o de 35) são os personagens desta vitoriosa e otimista Avalanche, escrita com sentimento bem diferente daquele que ecoava no inquieto coração deste escrevinhador (que, apenas por curiosidade, tem 59 anos), na semana passada. Lá havia um misto de frustração, tristeza e desencanto com o que havia assistido e ouvido de alguns dos nossos. Que por serem nossos queremos que sejam perfeitos, quando sabemos que as pessoas, por seres humanos que são, não são assim: erram, se omitem, pecam, traem tanto quanto acertam, transformam, glorificam e vencem. Nós somos assim, eles são assim, eu sou assim —- muito mais talvez do que todos os outros.
Lucas Leiva, o mais novo dos veteranos, pediu para voltar. Queria encerrar carreira no time pelo qual é apaixonado. Os torcedores, mesmo escolados com a decepção proporcionada por outros que, recentemente, tomaram a mesma decisão, oferecemos a ele o benefício da dúvida. Teve dificuldade para se readaptar ao futebol (mal) jogado na Série B e aos desacertos de um time que até agora não entendeu o que está fazendo na segunda divisão. Foi reposicionado em campo e dá a impressão que se redescobriu mais à frente, onde mata suas sede e fome de gol. Marcou o primeiro de hoje, o segundo dele nas duas últimas partidas disputadas.
Diego, nosso goleador, soube-se agora, além de enfrentar a violência, a pressão dos zagueiros e o peso da idade, precisa superar a dor de uma hérnia inguinal que entra em campo com ele, acompanha-o em cada disputa de bola e torna os movimentos ainda mais difíceis. Hoje, mais uma vez, subiu ao lado dele, mais alto do que todos os marcadores para, de cabeça, definir a vitória. Se o número de gols somos capazes de registrar —- foram 13 apenas nesse campeonato —, incontáveis foram as vezes em que vimos nosso atacante orientando companheiros, sinalizando o melhor caminho a percorrer, mostrando qual o comportamento adotar diante dos diversos desafios que temos pela frente. Um líder na tabela de goleadores gremistas tanto quanto um líder à frente do grupo de jogadores.
Geromel foi pouco exigido na noite desta terça-feira quando demos mais um passo importantíssimo à Série A. Foi eficiente, como costuma ser, nas poucas vezes em que a bola rondou o espaço ocupado por ele. Mas é personagem, sim, desta Avalanche porque ninguém, nenhum outro jogador, veterano ou novato, se dedicou de forma tão séria à missão de elevar o Grêmio a seu patamar quanto nosso zagueiro, nesta temporada. Em campo, nunca deixa qualquer um que esteja vestindo nossa camisa esquecer o significado de vesti-la. É respeitoso com o adversário. Elegante no comportamento. Sério na execução de sua tarefa. Preciso, muito preciso nos movimentos que realiza.
Lucas, Diego e Geromel, veteranos que escolhi para serem personagens desta Avalanche, são, por merecimento, protagonistas da história do Grêmio. E da nossa ascensão que está cada vez mais consolidada.
“É importante ter um plano, sim, mas é importante a gente estar sempre sensível para novas oportunidades”
Flávio Augusto da Silva, empresário
Nem o Estado nem as multinacionais. O maior empregador no Brasil é o pequeno e o médio empreendedor, responsável pela contratação de 70% dos profissionais que ocupam uma vaga de trabalho de maneira formal. Isso significa que quanto mais a mentalidade empreendedora se espalhar mais empregos serão gerados. Apesar disso, é bem provável que você não encontre na área da educação, escolas dispostas a levar para o currículo essa mentalidade —- seja por preconceito seja por falta de visão seja por total desconexão com as possibilidades que a vida oferece aos jovens. Para o empresário Flávio Augusto Silva, entrevistado do Mundo Corporativo da CBN, o ensino tem de ir além dos caminhos convencionais:
“Não existe apenas um caminho, existem vários caminhos. Nossos jovens podem ser um atleta, um sacerdote, um artista, e, também, ser um empreendedor. Ele pode também no futuro ser aquele cara que vai investir o seu o dinheiro, o dinheiro dele, que ele economizou com muito sacrifício, com o objetivo de realizar um sonho e com isso gerar emprego”.
Flávio Augusto tem uma história que vai além do clichê “o vendedor de curso que virou dono do curso”, apesar de ter iniciado assim sua trajetória quando fundou a rede de idiomas Wise Up, em 1995. Quatro anos antes começou a trabalhar “casualmente” como vendedor de um curso de inglês, no Rio de Janeiro e, graças aos bons resultados, logo ascendeu na empresa, até entender que havia uma enorme oportunidade no ensino do idioma para adultos. Arriscou ao usar o cheque especial e os juros de 12% ao mês para abrir 24 escolas próprias nos primeiros três anos — o que não recomenda para ninguém. Em 18 anos, a rede se expandiu para 396 escolas. Um sucesso que foi vendido para a Abril Educação por R$ 877 milhões, em 2013. E recomprado, dois anos depois, pela metade do preço. Sim, ele voltou a ser o dono da Wise Up.
Antes de seguir nessa história, é bom saber o que leva um empresário a vender um negócio que está dando certo. Flávio Augusto recorre a metáfora do construtor de prédio:
“Não é muito da cultura brasileira entender que um construtor constrói um prédio para vender os apartamentos. Você não vai ver um construtor de repente olhar para o prédio e pensar: ‘eu vou ficar com esses 200 apartamentos para mim porque eu gostei muito’. O ápice do sucesso de um empreendedor é quando ele constrói um negócio a ponto do mercado desejar aquele negócio e pagar por ele. A venda de um negócio, é uma métrica de sucesso de um empreendedor”.
Para o empresário existem três possíveis destinos para uma empresa, dois deles deveriam ser evitados. O primeiro é o negócio quebrar; o segundo, o dono morrer; e o terceiro é ser vendido. Por isso, diz que, sempre quando tem um negócio, tem um plano de saída. Não entramos no tema, mas reportagens em sites de finanças e negócios dizem que Flávio Augusto estaria preparando a Wiser, empresa que comanda e investe na área da educação e da tecnologia, para um movimento estratégico que poderia ser tanto um IPO quanto a venda do grupo — plano de saída ou de expansão?
Verdade que, nos últimos anos, apesar e por causa da pandemia, Flávio Augusto e a Wiser têm se dedicado muito mais a entrar em novos negócios. Para ter ideia, comprou a Conquer, escola de negócios, e a AprovaTotal, plataforma que prepara estudantes para o vestibular, entre outros investimentos. Ter percebido o movimento que o mercado fazia em direção ao ensino online, antes do fechamento das escolas físicas, por causa da crise sanitária, permitiu que a Wiser se fortalecesse e se colocasse no mercado como “compradora”.
De volta as lições que aprendemos ao ouvir a entrevista de Flávio Augusto ao Mundo Corporativo. Ele recomenda muito cuidado na elaboração do plano de negócios da empresa, que pode ser impactado por questões tributárias, fiscais e trabalhistas.
“O erro mais comum que cometemos quando entramos no mundo do empreendedorismo é não fazer o plano de negócio ou subestimar o plano ou superestimar o plano, porque o plano vem com a necessidade de se ter um capital junto. E aí se você subdimensionar o capital no seu plano e demorar demais para chegar no seu ponto de equilíbrio, vai te faltar o capital de giro. Essa é aquela hora que o empresário, às vezes, começa a se endividar mais do que deveria. Ou aquele momento que ele vai ficar desesperado procurando um sócio. E de repente pode falir”.
Alerta aos novos empreendedores, que a empresa não é apenas uma planilha de Excel, transações financeiras ou desenvolvimento de produto. Antes de qualquer coisa —- palavras dele — é preciso saber gerir pessoas, se é que o empreendedor tenha a intenção de expandir seu negócio.
“Gente tem suas contradições, tem suas dificuldades, tem suas traições, tem um pouco de dor de cabeça, tem! Mas, também, gente tem muita alegria. Tem gente boa, tem gente talentosa, gente que quer crescer, gente que vai contribuir com você. Então, tem os dois lados da moeda. Agora, uma coisa é necessária, você tem que aprender a gerir pessoas e, infelizmente, isso não se aprende na escola”.
E como não se aprende nas escola formais, claro, Flávio Augusto foi lá e transformou isso em mais uma oportunidade.
Ouça a entrevista completa de Flávio Augusto, fundador da rede de idiomas Wise Up e CEO da Wiser, no Mundo Corporativo:
Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscilla Gubiotti e Rafael Furugen.
Calma! Antes de me condenar, perceba a vírgula que precede o nome próprio e se expressa logo após o vocativo. Muda o sentido daquilo que você, caro e cada vez mais raro leitor, deve ter imaginado assim que deparou com a ‘manchete’ desta Avalanche.
Não o culpo por ter interpretado o título de forma errada. Seria natural no futebol pedir a cabeça do treinador que, em momento decisivo, abrisse mão de seu time titular e reduzisse o ritmo de treino e mobilização do elenco porque a partida é fora de casa — bem distante da sede — e, com essa decisão, prolongasse a agonia da presença na Série B.
Por muito menos, parte do torcedor fez isso com Roger — e olha que o treinador em nenhum momento baixou a guarda, fez seus jogadores pensarem que o compromisso à frente era de menor importância, afastou-se do clube para aproveitar a praia e tenha dado folga a seus principais e poucos talentos. Alguns gremistas foram além: o condenaram pela “petulância” de proferir discurso de cunho político quando tinha de estar preocupado com o baixo rendimento do time — algo muito mais relevante para vida das pessoas do que combater o racismo, por exemplo (atenção, atenção: contém ironia nessa frase e se você não entendeu azar o seu!).
Das arquibancadas da Arena, ouvia-se a vaia sempre que o nome do técnico era anunciado. Quando se atrevia a escalar os “malditos”, até porque faltavam (na verdade, faltam) opções no elenco precariamente montado para a Série B, era desconjurado. Os idólatras, que costumam ser pobres de espírito e fracos de memória, além dos apupos, gritavam o nome de Renato — como se o técnico consagrado em uma estátua nos arredores da Arena não tivesse sido uma das causas pela tragédia que nos colocou na segunda divisão.
Pensar que “Fora, Renato!” tivesse o mesmo sentido de “Fora Renato!” , depois de mais uma derrota na casa do adversário, seria muito lógico para quem acredita que o futebol é movido pela lógica. Até porque o aproveitamento de Renato, desde que voltou ao time, após a aclamação de parte da torcida, é de apenas 50%. Ganhou os dois jogos disputados na Arena e perdeu os dois jogados fora — a partida vencida, logo depois da demissão de Roger, não conta, né, afinal, Renato preferiu fazer ‘home office’, no Rio de Janeiro, em lugar de assumir a responsabilidade de comandar o time na casamata — imagino que tivesse algo mais importante a fazer na cidade fluminense.
Não! Definitivamente, não! Eu não estou aqui liderando qualquer grito pela demissão do nosso treinador — não é do meu estilo nem seria apropriado para o momento. Espero que Renato permaneça até a rodada final (e só) e, antes que esta chegue, tenha conseguido nos elevar à primeira divisão. Vencer ao menos duas das três partidas na Arena, imagino, serão suficientes para alcançar esse objetivo que já estava bem encaminhado por Roger, apesar dos pesares e das críticas de gente que colocava seus preconceitos acima dos interesses do clube.
O título desta Avalanche, esclareço, é apenas uma forma de chamar atenção para o momento que estamos vivenciando, em que a lógica no futebol tende a ser ofuscada pela paixão — no futebol e na política, também. De lembrar que, talvez, se estivermos dispostos a conquistar um ou dois pontos “fora, Renato”, a classificação chegará antes da rodada final.