Consocial: plano de metas e financiamento público aprovados

 

O Plano de Metas que está em vigor na cidade de São Paulo desde 2009 deve ser implantado em todos os Estados e municípios brasileiros, de acordo com proposta aprovada durante a 1a. Consocial – Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. A decisão tomada no encontro dará suporte para a mobilização que já existe pela aprovação de projeto de emenda constitucional que está em andamento no Congresso Nacional e prevê que o presidente, os governadores e os prefeitos apresentem, três meses após tomarem posse, as metas que pretendem alcançar nos quatro anos de mandato. O texto da PEC, assim como ocorre na capital paulista, não prevê punição ao administradores se os resultados não forem atingidos, porém é uma ferramenta excelente de avaliação de desempenho. Acompanhe a campanha municipal em São Paulo este ano e você perceberá como o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e aqueles candidatos que ele apoiar serão cobrados pela não realização de obras e programas que haviam sido previstos.

 

O financiamento público de campanha foi a proposta que alcançou o maior apoio entre os participantes da Conferência, no fim de semana, em Brasília. Dos 1.200 delegados 970 votaram em favor da mudança no financiamento dos partidos e candidatos com estratégia para reduzir o impacto do poder econômico nas eleições. É interessante esta convergência de opiniões a medida que o tema ainda divide boa parte dos cientistas políticos e especialistas no tema, mesmo entre aqueles que concordam que o atual modelo é prejudicial à democracia ou que haja necessidade de se aumentar o cerco contra o caixa dois.

 

Dentre as propostas que mais se destacaram na Consocial estão, também, o apoio ao projeto de lei 6826/10 que aplica penalidades civil e administrativa às empresas corruptoras, que pode ser votado ainda nesta seamana; o incentivo a política de dados abertos que aumenta o controle da população sobre o serviço público; e a criação de conselhos de transparência e combate à corrupção em todos os níveis, assim como já ocorre no Governo Federal.

 

Das 40 propostas que vão integrar o Plano Nacional de Transparência e Combate à Corrupção uma pretende incluir no currículo escolar aulas de ética, controle social e educação fiscal, como forma de transformar os estudantes em cidadãos capazes de monitorar a prestação de serviço público.

 

Confira aqui todas as propostas votadas na Conferência

Partido tem de ser punido por político corrupto, também

 

No noticiário, Demóstenes Torres aparece sempre seguido da informação de que é um senador “sem-partido”, desde que o Dem que o elegeu por mais de uma vez, afastou-o de seus quadros devido às denúncias de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A estratégia tem sido usada por vários partidos políticos quando surgem acusações de irregularidades envolvendo um de seus integrantes. A atitude é uma forma de demonstrar discordância com o comportamento dele, mas não exime o partido da responsabilidade de ter dado legenda para o político. É o que pensa o ouvinte-internauta Milton Pereira que defende a ideia de que os partidos sofram algum tipo de punição para que tenham mais responsabilidade na hora de escolherem seus candidatos nas eleições.

 

Leia o e-mail que ele enviou para milton@cbn.com.br

 

“Existe um assunto que me deixa muito intrigado, pegando o exemplo do caso Demóstenes Torres, me causa indignação saber que ele foi ou será destituído, cassado, expulso do partido e ou da política mas o partido que o elegeu ficará impune.

 

Fico indignado de saber que hoje qualquer partido recebe dinheiro do candidato, faz propaganda com o candidato, ajuda a eleger esse candidato, usa a imagem do candidato para se promover, mas quando esse é eleito e pego em situação “complicada” a única coisa que o partido faz é correr para desvincular o nome do partido do nome do político.

 

Hoje vejo a posição dos partidos como muito cômoda, pois são tantos investigados que praticamente envolve todos os partidos, mas todos continuam isentos da responsabilidade de aceitar na legenda condidatos “honestos”. Até acredito que no passado um partido envolvido com candidato desonesto era penalizado pelo simples fato de ser noticiado o envolvimento. Lembro até de partidos que desapareceram, mas hoje não mais.

 

Não seria interessante que, com o objetivo de diminuir a corrupção e forçar o partido a captar candidatos honestos e também “acompanhar” para que este permaneça honesto, o partido fosse penalizado de alguma forma?

 

Essa punição poderia ser em relação ao tempo na propaganda na TV, ou com a diminuição no recebimento de verbas partidárias, ou sobre a quantidade de cadeiras no plenário, ou até, dependendo da gravidade, a impossibilidade do mesmo apresentar candidatos para determinada região ou eleição. Lógico que a premissa para a pena seria a prova do envolvimento do político com facilitações, desvios de dinheiro, recebimento de propinas, etc.

 

Hoje, vejo uma total falta de “punição declarada” sobre o partido que, em minha opinião, é o primeiro filtro para captar candidatos honestos e interessados em atender aos interesses da população e não aos interesses exclusos dos patrocinadores da sua candidatura. Também não vejo hoje nenhuma iniciativa da mídia para exigir que os partidos respondam sobre o que estão fazendo para evitar candidatos desonestos nas suas legendas.

 

A pergunta que não sai da minha cabeça é: “não está na hora dos partidos que ajudam a eleger candidatos envolvidos com picaretagem também serem responsabilizados?”.

 

Em outros países os partidos têm essa mesma liberdade?

 

Abraços,
Milton Pereira
Empresário em São Bernardo do Campo – SP

Audiência pública discute terreno para Instituto Lula

 

Desde a promessa do prefeito Gilberto Kassab (PSD) de ceder um terreno na região da Cracolândia, em São Paulo, para o Instituto Lula, em período no qual “namorava” com o candidato à prefeitura Fernando Haddad (PT), uma polêmica surgiu na capital paulista. Em um debate contaminado pelas convicções partidárias, cada lado defende com unhas e dentes (e pouquíssimos argumentos coerentes) sua posição a favor ou contra a entrega de 4,4 mil metros quadrados para que a instituição criada pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva levante um prédio onde deve funcionar o Memorial da Democracia. Em todas as entrevistas que fiz no Jornal da CBN para tratar do assunto, confesso, não consegui ser convencido nem por vereadores petistas nem por vereadores tucanos em relação as suas pretensões em relação ao projeto de lei. Tudo soava muito parecido com “sou a favor porque é do Lula” e “sou contra porque é do Lula”.

 

Foi apenas na semana que antecedeu a aprovação do projeto assinado pelo Executivo em primeira votação na Câmara Municipal, em abril, que ouvi alguma explicação mais clara sobre o que se pretende fazer com a área. De acordo com Paulo Vannuchi, diretor do Instituto Lula e ex-Secretário Nacional dos Direitos Humanos, a intenção é criar no local um museu interativo aos moldes do Museu do Futebol dedicado a resguardar a memória da luta no país pela democracia e com referências a períodos importantes da história brasileira como a abolição da escravatura e a campanha pelas Diretas. “Sempre colocando a população como personagem central”, disse Vannuchi em resposta aos que temem que o espaço se transforme uma espécie de Museu do Lula. Além da cessão do terreno, a instituição seria toda mantida com dinheiro privado, explicou. Nada disso, porém, está explícito no projeto 29/2012.

 

Desde a primeira votação, quando 37 vereadores foram a favor da cessão do terreno e 10 contrários, aumentou a pressão de diferentes setores da sociedade. E parte destas ações poderá ser percebida nessa quinta-feira, durante audiência pública que se realizará, a partir das 10 da manhã, na Câmara Municipal de São Paulo. O Grupo NasRuas ao lado de o Revoltados On Line que se notabilizaram pelas manifestações contra a corrupção estão divulgando uma petição eletrônica pedindo o cancelamento do projeto de lei sob a justificativa de que “a população tem o direito de escolher o que fazer com um terreno desta dimensão e que será concedido à uma instituição privada por um século”. Reclamam, entre outros aspectos, do fato de o projeto não especificar o que de fato será realizado no terreno e não ter havido concorrência pública. Você pode ler aqui a petição pública e assinar se considerá-la justa. Mas pode, também, participar da audiência na Câmara acompanhando os diferentes argumentos, interferindo na discussão e influenciando na opinião dos vereadores.

Enfiando os pés pelas mãos

 

Por Julio Tannus

 

Há algum tempo, para ser um pouco mais preciso há cerca de 13 anos, tramitou no Congresso Nacional Brasileiro um projeto de lei que atribuía aos evangélicos a exclusividade da atividade de psicanálise. Já pensou que desespero! Não que sejamos contra os evangélicos, mas temos tudo contra os evangélicos terem a exclusividade da psicanálise. Afinal de contas, 100 anos de ciência de repente nas mãos do sobrenatural!

 

E de repente me deparo com a notícia: “Senado inclui restrições a pesquisas na lei eleitoral”. Isso é muito próximo de atribuir exclusividade da psicanálise aos evangélicos, ou seja, o Senado Federal Brasileiro legislando sobre algo que não tem a menor ideia e a mínima formação.

 

Senão vejamos: segundo a emenda, dados socioeconômicos, como sexo e grau de instrução, terão de seguir padrão do IBGE. Ora, isso é tão absurdo como dizer que, tomando como base os dados do IBGE, há mais mulheres do que homens e mais jovens do que idosos no prédio onde moro. Pois, não só o correto, mas o mandatório é que uma amostra para ser representativa de um universo tenha que ser extraída desse mesmo universo. No caso de pesquisas de intenção de voto, o universo a ser considerado é o universo de eleitores e, portanto, a amostra deve ser extraída desse universo e não do total da população. Assim, a fonte correta de obtenção de amostra é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e não o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Além disto, toda amostra deve ser obtida a partir de informações as mais atualizadas. Os dados do IBGE sobre a população brasileira, os denominados dados censitários, são obtidos a cada 10 anos e o último censo foi realizado em 2000. O que existe de mais atualizado são projeções, portanto sujeitas a desvios. Assim, quem possui os dados mais atualizados desse universo é o TSE e não o IBGE.

 

E, por fim, toda amostra deve ser obtida a partir de critérios metodológicos, e corresponde a uma área técnica da pesquisa cuja responsabilidade está a cargo de um profissional de estatística. E aqui eu pergunto: como e por que uma instituição política como o Senado Federal se propõe a estabelecer critérios técnicos de estatística?

 

Ou seja, o que estamos aqui contestando é o Senado se imiscuir nos critérios metodológicos de uma pesquisa de intenção de voto. Só falta o Senado estabelecer critérios para os procedimentos cirúrgicos da área médica. Deus nos livre…

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada”, recém-lançado pela Editora Elsevier na Livraria Cultura, e escreve no Blog do Mílton Jung

Vereador tem mais o que fazer …

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da Revista Época SP

 

A Câmara de Vereadores de São Paulo dedicou o primeiro dia útil da semana para votar 71 projetos que concedem nomes a ruas, vielas, praças e pontes, além de medalhas e homensagens a cidadãos paulistanos. O vereador Arselino Tatto (PT) foi autor de quase a metade desses projetos, todos dedicados a seu reduto eleitoral, na zona sul da capital. Assim que levei a informação ao ar, no Jornal da CBN, comecei a receber mensagens de ouvintes-internautas criticando o trabalho dos parlamentares. Houve quem de forma irônica dissesse que é melhor deixá-los fazendo estas homenagens, pois enquanto gastam seu tempo com medidas de baixo impacto deixam de aprovar leis que possam causar danos ao município. O problema é que mesmo as concessões de títulos acabam se transformando em prejuízo para o bolso do paulistano, pois são promovidas solenidades oficiais com realização de coquetel, entrega de certificado, bandeja de prata e placas – tudo regado com dinheiro público.

 

É importante ressaltar que batizar locais públicos faz parte das funções do legislativo. E morar em uma rua com nome pode mudar muito a vida de um cidadão, facilitar o acesso de outras pessoas, entrega de encomendas e, inclusive, ajudar no momento de fazer crediário na loja ou no banco. Já ouvi muito morador contando com orgulho o fato de a casa dele estar agora em uma rua com nome e sobrenome. O resultado para o vereador é tal que tem assessores de gabinete destinados apenas à função de procurar ruas sem nome. O problema começa quando este passa a ser o papel principal do parlamentar, é muito pouco para o cargo que ocupam e o dinheiro que ganham. Estão lá para debater temas fundamentais para a cidade, encontrar soluções para problemas frequentes e apresentar projetos inteligentes e criativos que realmente impactem o ambiente urbano e, destaque-se, a aqueles que agem desta maneira.

 

Sou a favor da ideia de tirar esta função dos vereadores e deixá-la apenas com a prefeitura ou subprefeitura. Um levantamento organizado seria suficiente para identificar quais ruas (ou avenida, ou pontes, ou vielas, ou seja lá o que for) precisariam ser batizadas. Consulta-se o grupo de moradores ou um banco de nomes à disposição da sociedade (que podem ser sugeridos por qualquer cidadão – inclusive os vereadores) e por decreto determina-se como o local passará a ser conhecido. Pode deixar para consulta pública por um determinado momento e se não houver qualquer rejeição o problema está resolvido. Sem muita politicagem, aproveitamento eleitoral e custo baixo.

 

E aí o gaiato sentado ao meu lado comenta: se não tiverem o direito de batizar rua, o que os vereadores vão fazer da vida? Tenha certeza, que eles tem muito trabalho e um desafio enorme a enfrentar. Àqueles que não entenderam direito estas responsabilidades, cabe o eleitor tirá-los do parlamento no voto ou, ao menos, interferindo no mandato deles através do seu poder de fiscalização. Quem sabe aceitando convite que faço há quatro anos: adote um vereador.

Por uma constituinte popular permanente

 

Texto escrito por Francisco Whitaker um dos criadores do Fórum Social Mundial e da Lei do Ficha Limpa:

 

Enquanto era um simples projeto de iniciativa popular, para o qual eram recolhidas assinaturas de apoio pelo Brasil afora, a atual Lei da Ficha Limpa sofreu muitos e diversificados ataques. Chegou a ser chamada mesmo de autoritária, por fazer um reparo à conquista indiscutível da humanidade que foi a adoção universal do principio anti-barbárie da presunção da inocência. Mas seus principais opositores se encontravam justamente entre os que seriam por ela atingidos e que, apoiando-se na infindável possibilidade de recursos aberta pelos nossos Códigos processuais, usavam esse principio para assegurar sua impunidade. E por isso mesmo foi de fato uma surpresa que o projeto superasse a barreira que se erguia contra ele no Congresso, onde se dizia, quando lá chegou com seu milhão e meio de assinaturas, que era mais fácil uma vaca voar do que ele ser aprovado.

 

E eis que o bom senso desse milhão e meio de eleitores chegou – depois de uma verdadeira maratona dentro do Congresso, no Tribunal Superior Eleitoral e por fim no Supremo Tribunal Federal – a encurralar o principio da presunção da inocência lá onde ele tinha mesmo que ficar: no direito penal. E a sociedade se viu enfim contemplada com a validação do principio também universal da precaução, ainda mais quando se trata, como no direito eleitoral, de eleger pessoas às quais será entregue a responsabilidade de cuidar dos destinos do país.

 

Uma vez feito mais esse avanço na vagarosa construção de uma verdadeira democracia no Brasil, chovem loas à nova lei, vindas das mais diversas e às vezes incríveis procedências. Um sólido consenso, apoiado numa significativa proporção de votos no STF, se forma no país em torno da necessidade indiscutível de uma biografia inquestionável para se ter o direito de exercer funções públicas. Ficha Limpa passou a ser um novo e importante conceito da cultura nacional. E como se todos tivessem de repente descoberto o ovo de Colombo, multiplicam-se, do nível municipal ao nível federal, novas leis estendendo essa obrigatoriedade a todo e qualquer cargo de governo, inclusive os de confiança. Fomos enfim capazes de introduzir algumas barreiras a outros tipos de barbárie, como a de se apropriar insaciavelmente de recursos que são de todos – a corrupção que hoje se escancara em todo o mundo – ou como a de se apoiar no poder conquistado pelo voto para se resguardar de condenações por diferentes tipos de crime.

 

Mas eu gostaria de analisar outro aspecto da experiência vivida. O processo de conquista da Lei da Ficha Limpa teve outro tipo de efeito, que pode vir a ser ainda mais amplo: o de dar aos cidadãos a consciência de que podem mudar as leis do país em favor da coletividade. Um pequeno artigo da Constituição de 1988, já então chamada de Constituição Cidadã, criou o instrumento da Iniciativa Popular de Lei, pelo qual uma proposta de mudança legislativa pode ser levada ao Congresso desde que um por cento do eleitorado a subscreva.

 

O primeiro uso desse instrumento – uma proposta de criação de um Fundo Nacional de Habitação Popular – ocorreu cinco anos depois. Mas o projeto correspondente levou 17 anos para se transformar em lei. Com o aprendizado da primeira, uma segunda tentativa, seis anos depois, foi mais bem sucedida: um projeto que estabelecia que perderiam seu registro os candidatos que comprassem votos – a chamada corrupção eleitoral – foi transformado em lei sete semanas depois. E passados mais dez anos a proposta da Ficha Limpa veio coroar a efetividade do instrumento, ainda que tivesse exigido oito meses para ser transformada em lei.

 

E eis que de repente, após o término da novela da Ficha Limpa, surgem por todo o Brasil, do nível federal ao municipal (nos Municípios cuja Lei Orgânica também incorporou o instrumento), projetos de lei de iniciativa popular. Nem tenho informações sobre tudo que está sendo gestado pelo Brasil afora. Mas há muitos grupos de cidadãos e cidadãs, reunidos em associações e entidades da sociedade civil, que estudam projetos visando questões que nossos Parlamentos não enfrentam adequadamente.

 

A Plataforma pela Reforma do Sistema Político, que congrega 35 entidades nacionais da sociedade civil, lançou um projeto de lei visando a Reforma Política. Todos sabemos que ela é extremamente necessária em nosso país, mas o Congresso sozinho não consegue realizá-la. Há pouco outro importante problema nacional começou a ser enfrentado também por meio de uma Iniciativa Popular: foi lançado no Amazonas um projeto de lei de Desmatamento Zero, que contesta diretamente a decisão congressual sobre o Código Florestal. Há associações que estão elaborando uma Iniciativa que limita em dois mandatos consecutivos o exercício da representação política – que uma vez transformada em profissão perverte o seu sentido. A proposta de limitar o número de mandatos está sendo inclusive levada ao nível preparatório final da 1a. Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. Há grupos estudando uma Iniciativa de Lei que interdite as empresas de financiar campanhas eleitorais – que as leva a dominar em seu favor as decisões congressuais e do próprio Poder Executivo. Retomam-se também velhos sonhos como o da Tarifa Zero no transporte coletivo da cidade de São Paulo, ou o da obrigatoriedade de plebiscitos prévios à realização de obras públicas de elevado valor ou significativo impacto ambiental, previstos na Lei Orgânica desse mesmo município. Até um Poder considerado intocável como o Judiciário será seguramente um dia surpreendido por propostas populares visando corrigir as distorções que ocorrem em seu funcionamento.

 

A Constituição exclui do alcance da Iniciativa Popular mudanças constitucionais. Nada impede porem que a aspiração popular chegue ao Congresso com milhões de assinaturas e um grupo de parlamentares assuma a iniciativa de propor, apoiados nessa aspiração, um Projeto de Emenda Constitucional – PEC, nos termos da proposta popular. É o caso da iniciativa sobre o número de mandatos, que já prevê a necessidade de uma PEC, e da iniciativa resultante do impacto causado pelo drama de Fukushima, que propõe que nossa Constituição vede a construção de usinas nucleares em nosso país e determine a interrupção da construção de Angra III e o desmonte de Angra I e Angra II, livrando-nos do pesadelo dos terríveis acidentes com reatores e as gerações futuras da herança diabólica do lixo atômico.

 

Corremos na verdade o risco da banalização desse instrumento. Até porque que tais empreitadas são gratificantes mas não são fáceis. Nas duas iniciativas bem sucedidas acima citadas – contra a compra de votos e pela Ficha Limpa – levou-se um ano e meio, em cada uma, para se chegar ao 1% do eleitorado. É preciso muita perseverança. E uma vez entregue ao Congresso, a tramitação da proposta tem que ser acompanhada dentro dele pelos seus promotores, passo a passo, para que não fique, como a primeira delas, 17 anos mudando de gaveta. As vacas só voam com muito embalo… E a um período de entusiasmo e multiplicação de propostas pode-se seguir cansaço, desencanto, frustração… Precisaríamos estar bem conscientes de que só devemos lançar Iniciativas Populares se estivermos organizados e dispostos a ir até o final de um processo difícil e longo.

 

Nesse quadro alguns parlamentares já se apressam, quase afoitamente, para mudar a Constituição e facilitar as coisas para o povo. Por exemplo, criando a possibilidade da coleta de assinaturas pela Internet, que permite que se chegue mais rapidamente ao mínimo necessário. No caso da Ficha Limpa, no final do seu processo, e já entregue o projeto ao Congresso, mais 400.000 assinaturas obtidas pela Internet foram incorporadas.

 

Mas essa facilitação reduz a adesão ao trabalho de ler uma proposta e apertar um botão para expressá-la, e anula toda a dimensão educativa do processo de coleta de assinaturas. Essa coleta pode ser demorada mas é também uma pedagogia de exercício da cidadania. As pessoas que buscam assinaturas têm que estar bem cientes do que estão propondo e as pessoas que assinam só o farão se estiverem convencidas. No caso da lei contra a corrupção eleitoral foi possível criar com essas pessoas, em todo o Brasil, após sua aprovação, os chamados Comitês 9840 (número da lei), que assumiram a função de garantir que fosse realmente aplicada lá onde moravam – e mais tarde foram animadores da coleta para a Ficha Limpa.

 

Alem disso, com a coleta pela Internet corre-se com isso o risco de não se ter muita gente disposta ao demorado trabalho de acompanhar e pressionar o Congresso, durante todo o tempo de discussão e decisão sobre o projeto – no caso da Ficha Limpa foram oito meses.

 

Se o tema de uma proposta for preciso, compreensível, e corresponder a uma efetiva aspiração da sociedade, essa forma de participar do processo legislativo pode ser efetiva, como ficou demonstrado com as leis da compra de votos e da Ficha Limpa. E quanto mais o instrumento da Iniciativa Popular se consolidar no conhecimento dos cidadãos e cidadãs e passar a contar com maior apoio dos meios de comunicação de massa, os prazos podem ser mais curtos e a pressão sobre o Congresso mais forte.

 

O Senador Pedro Simon, em recente desabafo no Senado, falou de seu desencanto com o Congresso, opinando que somente a pressão da sociedade faria com que ele assumisse plenamente suas funções. Quem sabe o surgimento de um processo constituinte popular permanente possa atender à sua angustia.

Câmara de São Paulo vive entre o atraso e o moderno na política

 

 

A Câmara Municipal de São Paulo vive um momento crucial, de definições e contradições. Os 55 vereadores que integram a casa legislativa talvez não percebam mas são personagens políticos que vivem em um cenário em ebulição. Forças modernas e retrógradas tentam marcar posição e impor suas práticas, estejam fechados em seus gabinetes ou expostos em plenário. Há pelo menos dois anos é evidente a mudança de comportamento da Casa na questão da transparência e abertura de dados com a ampliação dos serviços prestados pelo site da Câmara, transmissão de reuniões das comissões permanentes e audiências públicas e abertura de suas portas para eventos promovidos por entidades da sociedade civil. A criação da Ouvidoria, que recebe reclamações e reivindicações do cidadão, e de projetos que incentivam o desenvolvimento de ferramentas que podem tornar mais acessíveis as informações públicas também são exemplos desses avanços. Em breve, a Câmara Municipal deverá criar um Conselho de Comunicação, integrado por profissionais e especialistas no tema, que oriente e fiscalize suas políticas de comunicação.

 

Por outro lado, somos obrigados a assistir a cenas lamentáveis como as protagonizadas pelos vereadores Roberto Tripoli (PV), Carlos Apolinário (DEM) e Agnaldo Timóteo (PR) na sessão que aprovou, em primeira votação, a concessão de terreno público, na Cracolândia, centro da cidade, para a criação do Museu da Democracia, do Instituto Lula. Com as galerias ocupadas por manifestantes, coisa rara e desejada na Câmara de São Paulo, alguns parlamentares não tiveram equilíbrio para ouvir as críticas. Apolinário e Timóteo responderam aos gritos, enquanto Trípoli fez muito pior. O líder do governo Kassab foi tirar satisfações do grupo Revoltados Online que estava protestando. Uma das pessoas que estavam na galeria disse que foi atingida na boca pelo vereador. Ele só confirma os xingamentos. No vídeo, publicado por Obe Fainzilber, que integra o movimento NasRuas, aparecem apenas as trocas de ofensas já nos corredores da Câmara e a tentativa do presidente da Casa, José Police Neto (PSD) de apaziguar os ânimos. Há, também, a necessidade de presença da polícia que é responsável pela segurança no local.

 

Neste ano, o eleitor terá a oportunidade mais uma vez de escolher seu representante na Câmara Municipal de São Paulo. Nova chance que temos de elegermos pessoas que estejam comprometidas com a democracia e capacitadas a entender a importância da fiscalização do cidadão no Legislativo.

1964

 

Por Sérgio Mendes
Adote um Vereador

 

Sob o argumento de que nos idos dos 1960 e 70 estávamos mais seguros, alguns saudosos do regime militar aproveitam as brechas que tem para cantarem as bênçãos que foram aqueles anos. Já me deparei com o testemunho de muita gente e isto me faz pensar se vale a pena seguir optando pelo caos que pode tornar-se a via do argumento, da razão, das premissas que compõem a figura complexa e desarranjada que é a Democracia.

 

“Convulsão”, é como dizem velhos testemunhos do ano de 1964.

 

Também: “A nação livrou-se dos trapos vermelhos que ameaçavam sufocá-la” esta ultima, subscrevo de uma propaganda do IPES, instituto que fazia e divulgava a propaganda precursora do golpe. Disponibilizo no final deste texto, link para um documentário sobre o tema.

 

Naquele ano a população brasileira ainda era na sua maioria rural. As pessoas, muitos analfabetos, subsistiam maiormente do seu trabalho no campo e pediam que suas dificuldades ali fossem minoradas. Esperavam dos governos, redenção.

 

Se seguiríamos o mesmo caminho de Cuba, jamais saberemos. A estrada do diálogo e de ouvir a população foi interrompida.

 

Hoje eu sinceramente não tenho nenhuma aspiração pelo comunismo ou socialismo, não nas suas formas clássicas. Penso que toda doutrina que permaneça estática, tende a tornar-se em dogma.

 

Pela mesma razão, não posso concordar que a panacéia seja a via do capital, do dinheiro em seu estado mais puro e a serviço apenas dos meios de conseguir mais valor, de transformar tempo em nada diferente de mais dinheiro. Acho que na História não exista menção de instituto ou instituição que detenha a panacéia. Se houver, por favor me corrijam.

 

Somos por natureza indivíduos complexos demais e dotados de vontades e necessidades muito distintas pra esperar-se que alguma uniformidade controlável seja a perfeição. O que eu acredito é em justiça, na inviolabilidade do complexo sistema social em favor de um indivíduo ou grupo deles.

 

Nunca na História da humanidade estivemos tão perto de poder ouvir um numero grande de pessoas e a partir disso traçar políticas de Estado capazes de realmente gerar o bem comum. O Estado na minha visão, tem esta obrigação, dotar cada indivíduo das prerrogativas necessárias para que ele possa existir dignamente incluindo nestas obrigações, força coercitiva que impeça a iniqüidade e o iníquo. Isso está muito distante de ser paternalista. Não significa levar ninguém que possa caminhar, no fardo.

 

A arrecadação de impostos é suficiente para que se possa prover o cidadão de todas as garantias constitucionais mas precisaríamos de muito mais olhos das ruas nas casas legislativas. A permanente vigilância cidadã é que faz dos escritores de leis defensores da justiça, não de sua bancada ou dos financiadores de suas campanhas.

 

No fatídico comício da Central do Brasil, Goulart prometia reformas. Foi ovacionado por uns e instigou a paranóia em outros dentre os quais uma figura que já pertence a História política brasileira, o embaixador Gordon.

 

As promessas: reformas tributária, agrária e política. Se elas seriam feitas ou como seriam implementadas é outro capitulo que também nunca saberemos. Se o congresso conseguiria processá-las, tampouco. Mas o efeito que se produziria caso fossem cumpridas, são pedra no sapato do Congresso ainda em nossos dias. O campo e seus ruralistas conseguiram empurrar a população para as cidades onde vivem hoje maiormente nas comunidades. Miséria. Mas falar de reforma agrária é quase um pecado visto que o tema transformou-se em tabu. Comunista, dizem jornais e tv. Socialistas derrotados, gritam aqui e acolá os mais raivosos. Vi num programa de tv, um senhor despudoradamente invocar tanques de guerra sobre a gente que fazia seu manifesto do lado de fora do Clube Militar. “Assunto encerrado”, disse outro ao repórter, enquanto se afastava do alcance da câmera. Uma cusparada, entretanto, foi a polemica que suscitou indignação… Me recuso a comentar outra vez.

 

Mas, e como terá sido noutros países ainda menores que nós. Será mesmo que no Brasil, não há um espaço para que sua gente viva mais dignamente?

 

Como leciona o Professor Pinto Ferreira∗, apesar de todas as dificuldades, a Reforma Agrária é indispensável. Devendo ser medida de acordo com os critérios científicos e não com o sentimentalismo evitando os erros e imitando as virtudes dos outros povos na sua concretização: “Ela é inevitável, sobretudo porque nossa estrutura agrária permanece obsoleta e antiquada. E o direito deve antecipar-se à rebeldia das massas”.

 

Como é esse negócio de respeito à propriedade se não se respeita o proprietário? É justificável que uma única pessoa detenha 10, 20% ou mais das terras agricultáveis de um estado, e na capital desse mesmo lugar 40, 50 ou ainda 60% da população, subsista em condição de sub-humanos?

 

O que a sociedade ganha com isso além de violência e revolta?

 

Deste capitalismo, eu também não pactuo! E se por esta posição em conformidade com o Professor Pinto Ferreira, quiserem rotular-me de comunista, estou feliz em que assim me digam.

 

Que lei seria capaz de empurrar a população de qualquer país da Europa a uma condição como essa? E na America do Norte?

 

O Estado norte-americano não teve como não ceder ao apelo popular, mesmo diante da grita dos liberais quando da tragédia das cidades engolidas pelas areias e erosão na década de 1930. Comunistas, diziam alguns. Socialistas ouvia-se dos jornais. É sempre a mesma coisa.

 

Socorreram até que não fosse mais necessário o auxílio e isso não enfraqueceu nenhum dos pilares capitalistas do Tio Sam.

 

De volta a nosso Brasil, no final de 1985, nossa população infinitamente mais urbana, desacostumou-se do campo? Gosta de sub-habitar e da criminalidade?

 

Aos que não querem enxergar, aos saudosos da ditadura, digo: Foi a repressão das liberdades constitucionais e conseguinte contingenciamento das atividades sociais que trouxeram aquela sensação de segurança da sagrada classe média. Era por medo que se fazia o silêncio e calmaria.

 

É fácil tocar a segurança pública se a polícia estiver autorizada a atirar em qualquer que lhe desperte suspeita. Enquanto não houver um lastro legal para que a sociedade civil possa mover-se, qualquer população com medo, obedece.

 

Eu prefiro respeito.

 

Vou confessar que por vezes em São Paulo tenho medo de sair na rua depois de certo horário, mas prefiro a liberdade de escolher se saio ou não. Prefiro enfrentar o medo e aprender respeito.

 

Não é verdade que os ditadores entregaram o Brasil, saneado. Não é verdade nem que entregaram nada ou que a sociedade estava melhor em 1985. A evolução das dívidas interna e externa do Brasil são termômetro bastante preciso pra medir o que digo e quem viveu todos os planos econômicos que se seguiram a aquele ano, sabe bem o que eu estou dizendo. Perdemos 21 anos de aprendizado por que entre outros muitos atrasos, a ditadura, o golpe, suspenderam respeito e liberdades. Ensinaram, medo.

 

O processo democrático é lento e é cheio de percalços também. Mas vale a pena! Vale muito a pena poder olhar nos olhos de quem com um pensamento diferente do seu, tem coragem de dizer que não concorda contigo mas te respeita. E o respeito para com a figura humana, precede o respeito às coisas que ela possua e faça.

N.B: Documentário, O dia que durou 21 anos, escrito pelo jornalista Flávio Tavares: http://youtu.be/NU7S4CwrwVA

Salário sem vergonha ou sem-vergonha no poder público

 

Nove Estados brasileiros pagam uma quantidade enorme de salários aos seus deputados, muito maior do que aquela que um trabalhador comum recebe no decorrer do ano. Sem se contentar com o 13º. que já é discutível, a medida que os parlamentares não são trabalhadores comuns, eles arrumam atalhos na legislação estadual para somar o 14º, 15º, 16º, 17º e, até mesmo, o 18º salário, como é o caso do pobre Maranhão (e aqui o pobre cabe em mais de um sentido), como noticiou o Fantástico, no domingo. Recebem ainda uma boa quantia em verba indenizatória, dinheiro que sustenta os gabinetes e é ressarcida mediante apresentação de notas fiscais – a maior parte delas não está à disposição para o contribuinte fiscalizar. Sob as mais diferentes justificativas, os parlamentares embolsam um bom dinheiro com base no que costumamos chamar de penduricalhos.

 

Com outro tipo de estratégia, ministros e secretários estaduais e municipais conseguem aumentar seus vencimentos, superando o teto salarial no serviço público: R$ 26.723,15. De acordo com levantamento do Estadão, um terço dos 39 ministros da presidente Dilma Roussef engordam seus salários com participações em conselhos de estatais ou empresas públicas. Somente assim conseguem ter vencimentos que se equiparam com os dos grandes executivos do setor privado.

 

O Senado sinaliza interesse em acabar com a farra dos salários, reduzindo a 13 os vencimentos dos parlamentares em todos os legislativos brasileiros. Projeto de lei neste sentido está para ser votado no plenário. Por enquanto, não há nenhuma iniciativa que impeça os supersalários nos ministérios e secretarias. Assim como se faz pouco para tornar transparente quanto cada um desses custa ao contribuinte que, afinal, é quem paga seus salários.

 

O tema, porém, é rico (sem trocadilho) para o debate, afinal é importante que se perceba que o agente público também precisa ser bem remunerado para prestar seu serviço, pois quando assume o cargo, seja no Executivo seja no Legislativo, lhe é exigido dedicação plena à função. A questão é que a visão que temos da prestação de serviços destes servidores é muito ruim, haja vista os problemas no atendimento à saúde e à educação, além dos frequentes casos de corrupção.

 

A sociedade brasileira precisaria discutir melhor o assunto, com menos preconceito e visão mais apurada. Os agentes que nos representam poderiam unificar seus vencimentos em uma só fonte eliminando os penduricalhos. Não deveriam ter vergonha de deixar às claras quanto recebem no fim de cada mês e ano. De dizer quanto recebem do cidadão. Para isso, porém, precisariam também não ter vergonha do que fazem nos cargos que ocupam.