Avalanche Tricolor: mais que vitória, um grito por Marlon

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Vitoria
Antes da lesão, Marlon participou da comemoração do segundo gol Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A vitória do Grêmio, nesta noite de quinta-feira, era obrigação. O contexto pedia mais do que três pontos. Pedia resposta. O Grêmio entregou. E entregou bem. O time de Luis Castro não apenas venceu. Levou ao gramado da Arena um futebol qualificado, dominante.

A ideia que o treinador tem para esta temporada fica cada vez mais clara. Há sinais evidentes de um modelo em construção. A bola esticada pelas pontas, a tentativa constante de acelerar o jogo, a crença no poder do drible, a marcação alta que distribui responsabilidade a todos. Não é um desenho pronto, mas já tem traços reconhecíveis. E isso, no futebol, costuma ser meio caminho andado.

O resultado, no entanto, perdeu tamanho diante de uma cena que chocou a Arena – e todos nós apaixonados por futebol. Aos 25 minutos do segundo tempo, Marlon caiu. Não foi uma queda qualquer. Foi daquelas que fazem o estádio inteiro prender a respiração antes mesmo de entender o que aconteceu.

A imagem é difícil de esquecer. Preso entre dois adversários, tentando escapar em direção ao ataque, ele teve a perna retida no gramado, o corpo por cima, o pé em posição que não deveria existir. Há lances que dispensam laudo médico. O olhar já antecipa a gravidade.

Marlon é gremista de coração. É daqueles que carregam história junto com a camisa. Chegou aos 28 anos para viver o que muitos chamam de sonho. E tratou esse sonho com a seriedade de quem sabe o peso que ele tem.

Foi voz quando o silêncio seria mais confortável. Questionou arbitragem, assumiu responsabilidades em momentos difíceis, não se escondeu em uma temporada irregular. Dentro de campo, cresceu. Fora dele, se posicionou. Assim se constrói liderança — não com braçadeira, mas com atitude. A faixa, aliás, que carregava na noite de hoje, foi apenas um detalhe coerente com o papel que já exercia.

O estádio reagiu como se espera de quem reconhece os seus. Houve mãos na cabeça, olhos fechados, lágrimas soltas na arquibancada. Willian tentou esconder o choro sob a camisa. Cada um lidou à sua maneira com a cena. Nenhum de nós, no entanto, alcança a dor que ficou ali, naquele gramado.

A resposta veio em forma de canto. O nome de Marlon ecoou nas arquibancadas, transformando angústia em apoio. Um gesto simples, direto, que o futebol ainda sabe produzir quando tudo mais parece pequeno. E então, mesmo na dor, ele respondeu. Quando era levado para a ambulância, encontrou força, ergueu o corpo na maca, e com palmas agradeceu. Um gesto curto, mas cheio de significado. Há momentos em que o caráter se revela sem precisar de discurso.

A vitória fica registrada. O desempenho também. A noite, porém, será lembrada por outra razão.

Que Marlon encontre força para atravessar esse capítulo. O Grêmio e a sua gente estarão à espera. Não apenas pelo jogador. Pelo líder que fez da camisa algo maior do que um uniforme.

Avalanche Tricolor: há futebol além do empate

Chapecoense 1×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó SC

Gremio x Chapecoense
Nardoni fez seu primeiro gol pelo Grêmio. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ponto fora de casa se comemora. Ao menos esse é o comportamento padrão no futebol, principalmente em uma competição de longo alcance como o Brasileiro. Apesar dessa máxima, o torcedor do Grêmio não saiu satisfeito da partida desta segunda-feira à noite.

Especialmente depois de ter desperdiçado dois pontos na rodada anterior dentro de casa — jogo sobre o qual decidi não desperdiçar minha escrita —, o Grêmio precisava recuperar terreno em relação àqueles que estão na parte mais alta da tabela. Não foi capaz.

Apesar de ter sido superior na maior parte do tempo, o time de Luis Castro não conseguiu transformar esse domínio em vitória. Não fosse uma falha grosseira do goleiro adversário talvez estivéssemos até agora tentando marcar um gol.

O curioso é que, se olharmos momentos específicos da partida, encontraremos motivos para acreditar no potencial deste time.

Ao contrário de outras jornadas nas quais nada se via de produtivo, o Grêmio dá sinais de que pode encontrar boas soluções dentro do próprio elenco. Há um esboço de futebol que permite imaginar uma caminhada mais consistente neste ano de 2026.

Que Arthur, lesionado, faz tremenda falta ao time é inquestionável. Nosso volante mais ofensivo tem uma capacidade de organizar as jogadas acima da média. O meio de campo perde muito na ausência dele. Não significa, porém, que o trio Nardoni, Noriega e Monsalve não possa apresentar qualidade. Em alguns instantes houve troca de passes interessante. Faltou a conclusão.

Nossos ponteiros são atrevidos. Amuzu, Tetê e Enamorado arriscam dribles, encaram os marcadores e chegam perto da área. Precisam caprichar mais nos cruzamentos. Carlos Vinícius, por mais perdigueiro de gols que seja, depende da ajuda deles para transformar presença na área em bola na rede.

William, que tem entrado no segundo tempo, aparece tanto pelo meio quanto pelos lados do campo. Tem um toque de bola diferenciado. Falta acertar a definição das jogadas.

Temos carências nas laterais. Marlon é o melhor deles e fez muita falta na partida de hoje. Pavón me comove pelo esforço, mas não é da posição. Também tem demonstrado dificuldade no toque final para os companheiros dentro da área — o que já acontecia quando atuava como atacante.

O Grêmio não perde há sete jogos. Destes, porém, venceu apenas dois — é verdade que um deles valeu o título do Campeonato Gaúcho. Ainda assim, para quem quer subir na tabela do Brasileiro, empatar virou pouco.

Empate fora de casa pode ser motivo de comemoração. Mas também pode ser o sinal de que ainda falta ao time transformar promessas de futebol em vitórias de verdade.

Avalanche Tricolor: bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário

Inter 1×1 Grêmio
Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Final Gauchão Volta - Internacional x Grêmio - 08/03/2026
Festa do Imortal no Beira Rio Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”. A frase de um dos maiores dirigentes que tivemos, Nelson Olmedo, sacramentou a conquista gaúcha mais marcante da história gremista: o título de campeão de 1977. Havia dirigentes e torcedores adversários questionando a vitória devido à confusão no minuto final da partida, que levou à invasão de torcedores tricolores ansiosos por um troféu que estava longe do Olímpico havia oito anos.

Desde aqueles tempos em que eu era um guri de calça curta e camisa tricolor, levado pela mão do pai até as arquibancadas do Monumental, o choro de perdedor é livre. Até aquele 25 de setembro de 1977, eu já havia chorado muito. O fato é que, digam o que disserem, reclamem o que reclamarem, o resultado em campo fala mais alto. E neste 2026, quando já sou um guri de 62 anos, o Grêmio foi maior.

O Imortal teve uma vitória contundente na primeira partida na Arena (3×0) e administrou o resultado na segunda (1×1), na casa do adversário. Para ter dimensão desta conquista: é apenas a terceira vez que fizemos a festa no Beira-Rio — a última havia sido há 20 anos. Foi a primeira desde que o estádio foi reformulado. Claro que isso também tem a ver com o fato de que muitos dos títulos dos últimos anos nós decidimos em nossa casa porque tínhamos campanhas superiores.

O jogo desta noite em Porto Alegre e a postura que o Grêmio adotou estão diretamente ligados ao que aconteceu aos 31 minutos do primeiro tempo do Gre-Nal na Arena. Não pelo que o adversário alega, mas por aquilo que o Grêmio construiu. A expulsão em pouco mais de meia hora de jogo foi resultado de uma marcação precisa e de um contra-ataque veloz. Aquela escapada de Amuzu, que se repetiria no segundo gol, foi mérito do Grêmio. Assim como foram a pressão na bola, a qualidade na troca de passes, os ataques velozes e a precisão nos chutes que permitiram que o Grêmio chegasse com larga vantagem à partida final.

No jogo deste início de noite em Porto Alegre, o Grêmio teve maturidade e personalidade para encarar o desequilíbrio emocional do adversário. Amuzu foi agredido na primeira tentativa de drible. Arthur, mais uma vez, foi caçado em campo. Monsalve sofreu falta em quase toda jogada. Havia ainda a esperada pressão sobre nosso setor defensivo, com o adversário empurrado pela torcida local. Nesses momentos, Weverton foi gigante em suas defesas — especialmente aquela com o braço direito, aos 12 minutos de partida, impedindo o que seria um gol praticamente feito pelo adversário, que poderia ter mudado a história do jogo.

Além de nosso goleiro, que calou críticos e descrentes, tivemos uma defesa muito segura na marcação, seja pelo sistema armado por Luis Castro, seja pelo ímpeto de nossos jovens zagueiros. Viery (21 anos), com o perdão pelo risco que correu de ser expulso em um lance desnecessário, e Gustavo Martins (23 anos) me fizeram lembrar os tempos de Geromel e Kannemann, guardadas as devidas proporções. Espantaram os perigos que rondaram nossa goleira, deram pouquíssimo espaço para os atacantes dentro da área e ainda contaram com a sorte que acompanha os virtuosos.

Destaque maior, claro, para Gustavo Martins, que mais uma vez foi decisivo não apenas na defesa. Apareceu na frente e marcou o gol nos acréscimos do segundo tempo ao aproveitar uma bola que veio da cobrança de escanteio. Nosso zagueiro já havia sido fundamental em vitórias passadas. Quem não lembra o gol de bicicleta que ele marcou na semifinal do Gaúcho do ano passado, que nos proporcionou disputar o título? O jovem da base entra também para a história do Gre-Nal por ter marcado o 1.200º gol do clássico gaúcho.

Quis o destino que ainda tivéssemos o prazer de lembrar o passado recente de vitórias gremistas quando Kannemann foi sacado do banco para cobrir o buraco deixado por Wagner Leonardo, que havia substituído Viery e acabou expulso no segundo tempo. O argentino, no pouco tempo em que esteve em campo, mostrou sua bravura ao dar um peixinho no pé do adversário na entrada da área. Mesmo ferido, seguiu em campo e foi premiado com a faixa de capitão e o direito de erguer a taça de Campeão Gaúcho de 2026. Nada mais simbólico do que retomar o título estadual com Kannemann em campo.

O Grêmio de Luis Castro ainda tem muitos acertos a fazer e ninguém deve se iludir com o título neste início de ano. A temporada será longa e dura. Precisamos voltar a ser protagonistas no futebol nacional e sul-americano. Missão difícil, considerando o poder econômico dos principais adversários.

Hoje, porém, era noite de lembrar o velho Olmedo. Porque, no fim das contas, o futebol costuma ser simples: o jogo termina, o resultado está no placar e a taça encontra o seu lugar. Desta vez, novamente, no armário tricolor. Como disse o cartola em 1977: “Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”.

Avalanche Tricolor: foi um baile!

Grêmio 3×0 Internacional
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Final Gauchão Ida - Grêmio x Internacional - 01/03/2026
Enamorado comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu não teria pedido tanto. Queria um time jogando melhor do que no Gre-Nal passado. Imaginava uma equipe aguerrida, como tem se mostrado nas últimas partidas. Acreditava no resultado positivo, empurrado pela torcida. O Grêmio me deu muito mais. Deu um baile!

No Gre-Nal 450, foi superior ao longo de toda a partida, antes mesmo de ter se beneficiado da expulsão do adversário. Aliás, é importante que se diga: a expulsão foi resultado dessa imposição tricolor. Marcação lá em cima. Pouco espaço para o adversário. Saídas para o ataque com velocidade. Arriscando dribles pelas pontas.

A defesa dos guris Gustavo Martins e Viery deu pouca chance aos atacantes colorados. E não se limitou a marcar dentro da área. Saiu para o bote. Ganhou nas divididas. E foi numa dessas que Viery, vencendo duas disputas, desarmou o adversário e serviu Amuzu no segundo gol.

Pavon, improvisado na lateral direita mais uma vez, foi preciso na função. Em vez de escolher um dos laterais de ofício, Luis Castro aposta na velocidade do argentino, que consegue acompanhar o ponteiro adversário e aparecer na frente. Um achado. Marlon jogou com a segurança que se espera na esquerda

O meio de campo teve Arthur como maestro, conduzindo a bola para um lado e para o outro, fazendo seus marcadores perderem a passada — só foi parado com faltas (sem que nenhuma tenha sido punida).

Noriega atuou como um “batedor de carteira”, e Monsalve foi a surpresa de Luis Castro. Mais uma demonstração de que o técnico valoriza o que vê nos treinamentos e o que os jogadores entregam em campo. O colombiano vinha bem, se machucou e, recuperado, voltou a ser titular.

Por falar em baile, Enamorado pelo lado direito e Amuzu pelo esquerdo tiraram os marcadores para dançar. E não queriam saber de valsa. Foi em ritmo de rock and roll — ou teria diso reggaeton latino. Impuseram velocidade, driblaram, deram caneta, chegaram à área, fizeram assistência e marcaram os gols que abriram o placar e nocautearam o adversário.

Enamorado fez o seu primeiro gol desde que chegou ao Grêmio, minutos depois de o time ficar em superioridade numérica em campo, com um chute da entrada da área. O colombiano até aqui havia mostrado talento com a bola no pé, mas vinha concluindo mal a gol. Desta vez, estufou a rede.

Amuzu foi protagonista no lance da expulsão, marcou o segundo gol em mais uma escapada veloz e deu assistência para Carlos Vinícius fazer o terceiro. O belga ainda se deu ao luxo de arriscar um cruzamento de letra para desestabilizar de vez o adversário.

Nosso centroavante pode até não ficar com a autoria do gol — é preciso ver o que o árbitro colocará na súmula —, mas teve participação importante dentro da área, venceu todas as disputas com os zagueiros e completou sua atuação com um toque por cobertura sobre o goleiro, que proporcionou o gol definitivo da partida.

O Grêmio bailou na Arena como há muito tempo não víamos. E a torcida embalou com seu grito de “olé”. Luis Castro está de parabéns por ter encontrado a fórmula necessária para fazer o Grêmio jogar bola com harmonia.

A história mostra que raramente o time que sai na frente na decisão perde a taça no Campeonato Gaúcho. Nunca houve uma virada com três gols de diferença. Ainda assim, cautela. Não é hora de cantar vitória. É hora de repetir a intensidade, sustentar a vantagem e só transformar confiança em festa quando o árbitro encerrar a decisão.

Avalanche Tricolor: ganhar confiança é importante na Semana Gre-Nal

Grêmio 2×1 Atlético MG

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Atletico-MG
Marlon comemora o gol da vitória Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foi-se o tempo em que eu me esforçava para entregar esta mal-traçada Avalanche no apito final do árbitro. Era um compromisso de início de jornada que fui abandonando por uma série de circunstâncias — especialmente a incompatibilidade entre a hora em que as partidas começam e a hora em que preciso madrugar para apresentar o Jornal da CBN. Às vezes, os resultados me tiram o ânimo da escrita; em outras, falta inspiração mesmo.

Houve um tempo, também, em que semanas como esta que estamos vivendo, à espera do Gre-Nal, eram cobertas pelos jornalistas esportivos no Rio Grande do Sul com a tensão e a solenidade dos grandes eventos. Reportagens de terno e gravata, cartola na cabeça e perfis dos protagonistas da bola. As análises técnicas e táticas recebiam tratamento esmerado. Não faltava espaço para as polêmicas — afinal, sempre gostamos de uma boa fofoca. Os treinos eram secretos, e descobrir a escalação de domingo era tarefa árdua, conduzida com o apuro do mais puro jornalismo investigativo.

A Semana Gre-Nal perdeu espaço no noticiário. Como concentrar forças no clássico que decide o Campeonato Gaúcho no domingo se, na quarta à noite, houve compromisso pelo Campeonato Brasileiro? O olhar do jornalista se dispersa. A atenção do torcedor, efêmera. Se os jogadores mal têm tempo para treinar, ajustar o passe, calibrar o chute e sincronizar movimentos, tampouco o repórter esportivo consegue aprofundar os temas.

Da minha parte, embora o clássico esteja a três dias de distância, ainda encontrei tempo para pensar no resultado da noite passada. Tivemos uma vitória que, se não foi consagradora, ao menos nos trouxe a alegria dos pontos conquistados e algumas revelações. Está claro, por exemplo, o modelo de meritocracia imposto pelo técnico Luís Castro. Jogador que entrega em um jogo é recompensado no seguinte. Viery na zaga, Pavón na lateral, Gabriel Mec no meio e Enamorado na ponta direita são exemplos dessa estratégia.

É verdade que Castro foi compelido a agir assim. Escalou um time com o fim de semana em mente. Precisava poupar fisicamente atletas considerados titulares, sem abrir mão da vitória em casa. Ao mesmo tempo, ganhou a oportunidade de observar como alguns jogadores reagem à titularidade. Se a atuação no meio da semana garantirá presença no time do clássico, só saberemos no domingo.

O importante é que a vitória no Brasileiro, somada à classificação para a final do Gaúcho, fortalece a reconstrução em curso. O time começa a forjar personalidade, a desenhar uma maneira própria de se portar em campo. Vencer reduz a pressão sobre comissão técnica e elenco. Oferece confiança — ativo indispensável numa temporada longa. O gol da vitória, marcado por Marlon, é sinal de quem acredita no seu potencial.

E confiança, em semana de Gre-Nal, vale tanto quanto talento. Talvez até mais.

Avalanche Tricolor: coragem para seguir

Juventude 1 (1) x (4) 1 Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul (RS)

Gremio x Juventude
Weverton defendeu uma das cobranças de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio está na final do Campeonato Gaúcho. Para muitos, não fez mais do que a obrigação. Eu comemoro. Especialmente diante das circunstâncias. Estar fora da decisão seria um desastre logo no início da temporada. O time está em reconstrução. Busca nova identidade. Testa jogadores recém-chegados. Investe em talentos muito jovens. E tenta superar carências que ainda existem no elenco.

O trabalho realizado por Luis Castro, a quem foi entregue a responsabilidade de refazer o Grêmio, corria riscos caso caíssemos diante do Juventude. E tudo o que o treinador português necessita, consideradas as condições, é tempo, paciência e equilíbrio para promover as mudanças.

A classificação, da forma como veio, ainda não oferece a tranquilidade desejada. Foram dois empates. O primeiro, em casa, quando não conseguimos sustentar a vantagem e fomos incapazes de superar um adversário que terminou com um jogador a menos. O segundo, saindo atrás no placar e escapando, no primeiro tempo e no início da etapa final, de sofrer mais gols. O time tem fragilidades evidentes e carece de definições em algumas posições.

O resultado, ainda assim, pode ser transformador. Oferece ao técnico e aos seus comandados um sinal de confiança. Mostra que a luta insistente e a resiliência diante dos reveses podem ser recompensadas. A coragem de alguns jogadores se sobressaiu.

Na partida desta noite, em Caxias do Sul, houve momentos de superação. Caso de Viery, zagueiro de apenas 21 anos. Em um lance estabanado na área, cometeu pênalti que deixou o Grêmio em desvantagem. Não se abateu. Avançou ao ataque e, sem medo de errar, acertou um chute de virada, de fora da área, para marcar o gol de empate.

Houve lances de revelação. Gabriel Mec, com apenas 17 anos, soltou o talento e deu novo ritmo ao ataque gremista, atuando como um meio-campista mais avançado. Com dribles, finalizações e valentia para enfrentar marcação dura, assumiu protagonismo — como lhe pediu o treinador pouco depois de sua entrada no segundo tempo, recado revelado pela repórter da transmissão do canal Premier. O guri ainda teve personalidade para converter um dos pênaltis na série decisiva.

Houve instantes de confirmação. Weverton, goleiro recém-empossado, sobressaiu-se. Defendeu a primeira cobrança e impôs pressão imediata ao adversário. A bola no travessão, na segunda penalidade, carrega a marca do temor que um goleiro multicampeão costuma provocar.

Houve cenas que só os atentos perceberam. Quando Luis Castro escolhia os batedores, o volante Noriega, posicionado logo atrás, pediu para cobrar. Ao ouvir a confirmação do técnico, respirou fundo, soltou o ar, relaxou os ombros — ritual de quem se prepara para decidir. E decidiu, convertendo a segunda cobrança.

O Grêmio precisará de coragem para atravessar essa longa reconstrução. Mostrou, ao menos nesta noite, que está disposto a merecer a confiança de seus torcedores — inclusive dos que ainda observam com desconfiança.

Avalanche Tricolor: fé e paciência

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Juventude
Tetê comemora seu gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Reencontrei o padre José Bortolini na missa desta manhã de domingo. Havia algum tempo que eu não voltava à Capela da Imaculada Conceição, construída na esquina da rua onde morei boa parte da minha vida, em São Paulo. Nos últimos meses, tenho dado preferência às celebrações na comunidade de Nossa Senhora das Graças, ao pé do prédio onde moro atualmente. A fé, como o futebol, também se reorganiza conforme o endereço.

Padre José já foi personagem em outras edições desta mal-traçada crônica esportiva. Estudioso da Palavra, mestre em Sagrada Escritura e autor de dezenas de livros, ele segue, aos 74 anos, ministrando missas com uma dinâmica própria. Convive com uma doença que insiste em testá-lo, mas não lhe reduz a presença. Bortolini reaparece nesta Avalanche por outro motivo: é gremista de Bento Gonçalves.

Em muitas ocasiões, ao fim da cerimônia, trocamos impressões rápidas sobre o “nosso time”. Já houve domingos em que o sorriso antecipava a confiança para o jogo da tarde. Em outros, bastava um olhar para revelar a apreensão diante da fase da equipe. Nunca faltou fé. Nem ironia.

Neste domingo, porém, algo mudou. Assim que a missa terminou, aproximei-me disposto a decifrar quais sinais ele me transmitiria sobre o Grêmio, às vésperas da disputa por uma vaga na final do Campeonato Gaúcho. Cumprimentamo-nos. Desejamos um bom domingo. E paramos ali. Nenhuma análise tática. Nenhum palpite. Preferimos o silêncio.

Talvez seja isso que o Grêmio e Luis Castro estejam precisando: silêncio.

Silêncio para trabalhar. Silêncio para ajustar. Silêncio para reconstruir.

O time vem de temporadas marcadas por instabilidade. Sofreu gols em excesso, flertou com riscos desnecessários e alternou momentos de lucidez ofensiva com apagões defensivos. A troca de comando técnico e as mudanças no elenco indicam que há diagnóstico. Ainda falta continuidade.

Há sinais positivos. A equipe mostrou, no primeiro tempo da partida deste fim de tarde, organização na saída de bola e ocupação mais racional dos espaços pelos lados do campo. Houve triangulações interessantes e aproximação entre meio e ataque. Faltou transformar volume em finalização qualificada. No segundo tempo, o ritmo caiu. A linha defensiva voltou a apresentar desajustes no balanço, especialmente nas transições rápidas do adversário. E, diante da pressão, alguns jogadores optaram pelo passe lateral em vez do enfrentamento individual que poderia romper a marcação.

Não se trata de falta de capacidade. O elenco tem nomes capazes de entregar desempenho mais consistente. A incorporação de reforços, a saída de profissionais e a tentativa de estabelecer novo padrão de jogo exigem tempo — palavra que raramente encontra abrigo nas arquibancadas e nas redes sociais.

Enquanto a engrenagem não encaixa, convivemos com oscilações que frustram expectativas. Ainda assim, há diferença entre instabilidade e ausência de rumo. O que se percebe hoje é um processo em curso. Incompleto, irregular, mas identificável.

Ao deixar a capela, fiquei pensando que reconstruções não se fazem aos gritos. Nem no altar, nem no vestiário.

Às vezes, a fé também trabalha em silêncio.

Avalanche Tricolor: será o preço das glórias passadas?

São Paulo 2×0 Grêmio
Brasileiro – Morumbis, São Paulo SP

Gremio x Sao Paulo
Weverton defendeu o segundo pênalti. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Não acredito em maldição. Futebol não se explica por forças ocultas. Ainda assim, quando os números insistem em se repetir, a tentação de buscar explicações fora das quatro linhas aparece.

No fim de janeiro, escrevi nesta Avalanche — talvez sem grande repercussão entre o caro e cada vez mais raro leitor — que o Grêmio havia sofrido 156 gols em 114 partidas nas três últimas edições do Campeonato Brasileiro. Não era estatística solta. Era sintoma. Falávamos de um problema defensivo que atravessa temporadas, troca treinadores, altera esquemas, mas permanece.

Ao lamentar as falhas que nos custaram pontos e tranquilidade em campeonatos recentes, busquei conforto no passado. Pensei se não estaríamos pagando um preço invisível por termos desfrutado, durante oito anos, de uma dupla de zaga que parecia eterna. Geromel e Kannemann nos deram segurança, títulos e uma sensação rara de estabilidade. Talvez tenhamos nos acostumado mal. Talvez tenhamos acreditado que aquilo era regra, não exceção.

E há também o Morumbi. Treze anos sem vencer o São Paulo em sua casa. Treze partidas acumulando frustrações. A última vitória foi em 29 de setembro de 2013. Desde então, o estádio virou território hostil, quase um roteiro repetido. A derrota desta noite não inaugura nada. Apenas prolonga.

Gosto de imaginar que essa conta simbólica tem relação com outra visita ao Morumbi, bem mais distante no tempo: 1981. Ali, conquistamos um Campeonato Brasileiro histórico, dentro da casa deles. Foi uma afirmação de força. Um capítulo que orgulha qualquer gremista.

Se o futebol fosse um livro de mitologia, talvez disséssemos que toda glória cobra tributo. Na vida real, porém, derrotas costumam ter causas mais simples: organização, estratégia, execução, elenco, planejamento. O que hoje parece sina costuma ser apenas problema mal resolvido.

Não creio em maldição. Creio em trabalho. E enquanto tratarmos tropeços como castigo divino, deixaremos de enfrentá-los como desafio técnico. O Morumbis não precisa ser exorcizado. Precisa ser reconquistado.

Porque, no fim das contas, deuses não entram em campo. Quem entra são jogadores — e são eles que precisam mudar a história.

Avalanche Tricolor: mais confiança, menos certezas

Grêmio 1×0 Novo Hamburgo
Campeonato Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Novo Hamburgo
Carlos Vinícius, de novo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Uma das últimas vezes em que estive no Estádio Olímpico foi ao lado do meu pai. Repetimos um ritual que nasceu na minha infância, quando ele fazia questão de me levar pela mão para assistir aos treinos coletivos do Grêmio. Eram atividades abertas à imprensa e, vez ou outra, também aos sócios. Eu tinha o privilégio de acompanhar o trabalho à beira do gramado, dividindo espaço com os repórteres que cobriam o dia a dia do clube.

Naquela visita derradeira, eu já morava em São Paulo e estava apenas de passagem por Porto Alegre. Não lembro quem era o técnico do Grêmio naquele momento. Um detalhe, porém, ficou guardado na memória. Mesmo com uma liberalidade que hoje parece improvável — os treinos agora são fechados —, os clubes já começavam a restringir o acesso aos jogadores. Um repórter setorista reclamava do assessor de imprensa porque determinado atleta não havia sido escalado para conceder entrevista na sala de conferências.

A cena me marcou porque eu também fui setorista de clube, nos anos 1980, tanto no Grêmio quanto no tradicional adversário. Naquele tempo, os jogadores circulavam entre os jornalistas sem cerimônia. Falavam ao fim do treino, ainda suados, antes mesmo de trocar de roupa. Das conversas informais surgiam confiança, fontes e uma cobertura esportiva mais rica. O jornalismo se fazia com presença, escuta e convivência.

Ao ouvir a queixa do colega, entendi que a relação entre jornalismo e futebol havia mudado — e não para melhor. Em outros tempos, estaríamos rondando os bastidores do clube. Agora, passávamos a depender da autorização de um intermediário cuja função é, por definição, filtrar o que pode ou não ser dito.

Não demorou muito para que os repórteres também perdessem o acesso aos treinos. Antes, até o placar do coletivo final virava notícia. Hoje, quase tudo se apoia em suposições. Em nome da estratégia e do sigilo tático, deixamos de contar quem foi testado, quem rendeu melhor, quem ganhou espaço. O futebol ficou mais hermético; a informação, mais rarefeita.

Lembrei de tudo isso ao acompanhar as reações de gremistas nas redes sociais após a vitória mirrada — e ainda assim decisiva — sobre o Novo Hamburgo. O 1 a 0 garantiu a classificação à semifinal do Campeonato Gaúcho, cumpriu o objetivo, mas ficou aquém da expectativa em relação ao desempenho do time. Vieram as críticas às escolhas de Luis Castro, tanto na escalação inicial quanto nas alterações do segundo tempo.

É provável que a maioria de nós não saiba o que acontece dentro do clube. Não temos acesso ao ambiente entre os jogadores, às condições físicas individuais, às respostas dadas no treino que antecede o jogo. Ainda assim, nos sentimos autorizados a julgar com convicção, oferecendo soluções simples e evidentes — aquelas que, curiosamente, só os profissionais que trabalham ali parecem incapazes de enxergar.

Não se trata de dizer que o técnico está sempre certo. Há erros de avaliação. Há insistências que custam caro. Há apostas que não se confirmam. Isso faz parte do futebol. O incômodo surge quando a crítica abandona a dúvida e se apresenta como certeza absoluta, adornada por adjetivos agressivos e ataques pessoais. O achismo ocupa o meio de campo. A verdade tem dono. Não há espaço para a hipótese, para o contexto, para o outro.

Imagino que muitas decisões da comissão técnica tenham fundamentos legítimos, ainda que não possam ser expostos publicamente. Às vezes, por proteção ao elenco. Em outras, pela tentativa de recuperar um jogador ou preservar o ambiente interno. Nem tudo cabe numa entrevista pós-jogo. Nem tudo pode ser dito em voz alta.

Que fique claro: o torcedor tem direito à passionalidade. Na arquibancada — ou diante da TV — migramos do aplauso à crítica na velocidade de um contra-ataque. Sempre foi assim. No Olímpico era assim. Hoje continua sendo. O problema é quando trocamos o espaço lúdico do estádio pelo território permanente das redes sociais e esquecemos que a palavra escrita permanece, fere e carrega responsabilidade. Julgamos apenas com base na emoção, sem informação e sem freio.

O Grêmio está na semifinal do Campeonato Gaúcho cumprindo sua obrigação. Fez um jogo no limite do esforço, considerando um calendário atípico e exigente. Luis Castro aprende a cada partida com quem poderá contar ao longo da temporada. Mescla o time porque precisará do elenco inteiro nos momentos decisivos. Às vezes se expõe, estendendo a permanência de um jogador em campo além do ideal — como ocorreu, novamente, com Carlos Vinícius. Em outras, administra riscos e aceita uma performance menos vistosa. Há razões para isso.

Desconsiderá-las por completo é comprometer um projeto que ainda está em construção.

Talvez o maior exercício exigido de nós, hoje, seja confiar no trabalho feito longe dos nossos olhos — mesmo que já não possamos acompanhar os treinos à beira do gramado, como eu fazia, tantos anos atrás, ao lado do meu pai.

Avalanche Tricolor: só me deixa ser feliz

Grêmio 5×3 Botafogo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Botafogo
Carlos Vinícius comemora seu terceiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O que vier depois pode esperar. Nesta noite, eu só quero ser feliz. Dúvidas e tropeços existirão — outras dúvidas e tropeços ainda virão. Para o gremista, porém, é dia de comemorar. Queríamos ao menos uma vitória. O Grêmio de Luis Castro entregou mais do que se podia esperar.

Antes da bola rolar, me agradou a decisão do treinador. Foi a campo com o que havia funcionado melhor até aqui. Evitou insistir no que não rendia. Colocou Noriega como volante, Monsalve mais adiantado. No ataque, voltou a apostar em Pavón pela esquerda, coerente com o que ele havia mostrado na partida anterior.

Curiosamente, o caminho da vitória apareceu nas mudanças do segundo tempo. William entrou no lugar de Monsalve, que saiu lesionado ainda no fim da primeira etapa. A virada de chave veio, sobretudo, com Amuzu pela esquerda. O belga soltou a perna, partiu para o drible, incomodou os marcadores e encontrou Carlos Vinícius dentro da área — o seu habitat.

Vini da Pose fez um, fez dois, fez três. Gols que colocaram o Grêmio em vantagem. A bola procura Carlos Vinícius. Ele responde com faro e presença. Forte no corpo a corpo, cria espaço onde parece não existir. Diante do gol, decide. Neste início de temporada, é o atacante que mais balançou a rede no Brasil.

Carlos Vinícius faz gols, faz pose e contagia. O sorriso largo denuncia a alegria de quem ama o que faz. E nos faz felizes também. Tetê, com o primeiro gol com a camisa tricolor, e Edmílson, incansável, completaram uma vitória importante no Campeonato Brasileiro. Daquelas que dão confiança e personalidade. Daquelas que ajudam a afirmar um time ainda em construção.

Há ajustes a fazer. Reforços seguem necessários. Luis Castro precisa de tempo para implantar sua estratégia. Tropeços e dúvidas nos esperam. Hoje, porém, só me deixa ser feliz. Com Grêmio vencendo o Botafogo.